quinta-feira, 5 de julho de 2012

A Triste Ficção dos Fracos.

Um corpo saudável, e toda turbulência de vida dos sensibilíssimos inconformados com a mutabilidade agressiva das existências, e ele viveu sua agonia até insuportáveis 25 anos!
Pedia trégua aos sentimentos desfavoráveis, à melancolia, mas os horizontes se adensavam à cada enfrentamento e esforço de um sorriso; então, vencido pela desesperança, vendeu-se às soluções da medicina paralela, marginal, para provar um resto de existência ao gosto de suas expectativas.
E, ao assinar a papelada; ao se deitar para sua entrega ao entorpecimento do anestésico já sentia o alívio da saciedade de suas propostas de felicidade.
Quando acordou o universo lhe sorria em oportunidades, e as amizades recentes e antigas se acomodavam aos seus ideais, e cobriam as lacunas sentimentais que antes eram abismos.
Tudo era de contorno e coloração e reações previsivelmente amigáveis, seguras e cálidas como o abraço materno, e as noites teimavam sempre em fechar-lhe os olhos com um sorriso discreto e satisfeito nos lábios!
Teve lá seus três filhos, a esposa fiel, e a casa cheia de prazerosas e oportunas companhias; e envelhecendo, viu seus netos e bisnetos ocuparem e desarranjarem toda a harmonia da modesta casa com a agudeza de seus gritinhos, e lamento de seus choros manhosos!
Havia resolvido suas desavenças familiares com o perdão, e reconstruiu laços perdidos com todo objeto de importância e apego!
Não conhecia mais tristeza, e, se despediu de sua vida em ditosa velhice virtual, enquanto o desligavam da realidade estimulada, três horas após seu implante!
Seus órgãos foram loteados e leiloados, também virtualmente, à clínicas ilegais, para fins de operações de restauração à pacientes que desejavam viver...
Autenticamente.

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 1 de julho de 2012

O Corvo.

Gostava de papagaios, mas não de suas interpretações, então, operava ele mesmo o aparelho fonador dos animais para que fosse impossível o ruído de suas especialidades, e os espalhava aqui, e ali, enfeitando seus ambientes com a tristeza colorida dos animais mutilados.
O dinheiro lhe assegurava imunidade aos seus procederes, e, aos animais parrudos e bem tratados ninguém ousava contestar a bondade relativa do dono.
O homem já cogitara algumas vezes em operar também a mulher; grandessíssima falante, e aos dois filhos; um casalzinho de tagarelas interrogadores que às vezes lhe furtavam o sentido em meio a situações realmente importantes!
Em uma de suas festas natalícias foi presenteado com um corvo, sob o pretexto de que uma variação de espécies só favoreceria o ambiente!
-Este já me veio operado-Assegurou o bom amigo!
-Melhor que me poupa trabalho- Agradeceu comovido o aniversariante, já comprimindo o convidado com entusiasmo!
Ao findar da comemoração o homem visitou a gaiola para se divertir com o olhar astuto da ave.
A gaiola era espaçosa à um animal acostumado, e ele se ajoelhou diante da negrura da criatura agourenta e esperou qualquer reação.
A quietude da ave o perturbou por muitos momentos, e ele se manteve observando até que os curiosos perdessem o interesse pelo contato, e abandonassem, fartos e embriagados o evento.
O pássaro então se agitou e tentou imitar algum som, mas o órgão respondia com arranhos agônicos, e bater convulsionado de asas.
-Ahasssssssssssssssssssshhhhhhhhssssssssss!Iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiuuuuuuuggggggghhhhhhhhhh!
Um passo atrás, e o animal se esforçava para imprimir seu canto, mas o bico se abria e fechava ao ritmo das articulações enquanto sustinha o olhar trespassante ao proprietário.
-Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHGGG!
Ousou, projetando o pescoço e bicando o vento.
Aumentou o tom, mas o que saiu foi o sussurro gorgolejante, e o bico se tornou frenético, e a garganta se abriu com a força de seus esforços.
-IiiiiiiiiiHHHHHHHHHHHHHGGGGGG!AAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHSSSSSSSSs!AAAAAAAH!
As asas turbilhonavam, e a garganta se engasgava com o sangue do canto, e com o último sopro a tentativa de palavras o inteligível som cinzelou na mente do homem que o pássaro expirara dizendo seu nome!
Ninguém o tentou convencer do contrário; e dizem, hoje, que coleciona miniaturas de carros antigos   

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Olhos Secos.

Meus olhos foram instintivos, acostumados desde sempre ao choro!
Pateticamente emocionais à princípio, encantados por dramas quaisquer...
Ai de minhas glândulas lacrimais fartas, do meu pranto comovido, da minha piedade por todos!
Ai de minhas empatias, simpatias, meus bem-quereres; que me imergiam cruelmente no alheio...
Abusos sentimentais, comoções gratuitas por espetáculos e teatros mal armados, daqueles tão baratos que nem vale citação!
Não sei se era amor à raça, mas era uma quase certa identificação e cumplicidade; daquelas que oferecem piscadelas reconfortantes, e sorrisos compadecidos quase gratuitos, ou pelo preço do instante da amizade!
Traídas mil vezes se desgastaram quase sem volta, e me deixaram vaguear nos vazios da indiferença, e a paisagem humana me passou à mera fauna cinicamente hipócrita!
Eram tantos seres engraçadinhos, em seus esforços de atrair para sua gravidade outros corpos, tentando se equilibrar pela força de campos alheios!
Ruminando da ignorância perversa, dimensionando as calorias processadas em rituais mesméricos, e encantamentos sedutores!
E eu, reservei meus depósitos sentimentais para o desperdício das banalidades sinceras, para o reverberar do meu eu nas dimensões do improvável, das quais trilhei por muito tempo; de olhos secos...
Mas agora tenho que voltar...

Anderson Dias Cardoso.


domingo, 24 de junho de 2012

A TUA VERDADE!


Cansei-me dos fetiches, dos símbolos; pontífices e liberei minha fé para que atraía o alvo de meu amor!
Existindo um Deus transcendente,uma verdade absoluta, eu o buscarei antes que qualquer conselho ou sábio!
Deus!Quero a crueza de Tua verdade, não conceitos alheios ou verdades relativas!Quero teus desígnios em minha existência!
Sim!Sou a coragem que aceita ouvir a VOZ.
Sim!Sou a obediência, mesmo que momentaneamente torta!
Sim!Sou o pragmatismo da fé, que acredita que acreditar não é passividade,mas uma  dinâmica existencial que suporta e transforma o próprio Cosmos!
E eis que vejo Teu Cristo se aproximar, e meus olhos estão pesados de sono!
A carne se desfaz em suas fraquezas, mas os sons de Tua presença continuam seu percurso tranqüilo!
Em breve contemplarei a minhas salvação!
Em breve verei Tua Glória!

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Traumas de Raptos.

Com o rapto de sua criança provou viver em ambientes fragmentados, com imagens de seu apego brincando com seus relances.
Os pensamentos se viciaram, e apesar do esforço teimavam em lembrar a falta.
As mãos só se estabilizavam segurando alguma coisa, e toda conversa garantia uma risadinha nervosa, de cantos espumantes e olhos apertados.
O segundo dia não amenizou os nervosismos. Foi atacado de refluxos, alterações de pressão, vertigem... Vomitou duas ou três vezes o que não havia comido.
O terceiro dia permitiu-lhe quase meia hora de esquecimento, quando a parentada ausente, porém querida, se solidarizou o suficiente para uma visita, e alguns abraços regados por lágrimas sinceras.
O quarto dia começou com o corpo se diluindo em dores de stresse, e a obrigação impiedosa de seu serviço requisitando seus frangalhos.
No quinto dia não houve ainda nenhum boato, e o coração já se encaminhava discretamente ao consolo da perda.
No sexto dia se permitiu sair mais cedo, visitou simbolicamente, em um cemitério a figura mais semelhante ao perdido, e perfumou lhe um vaso decadente com a vermelhidão sofrida de duas dúzias de rosas.
No oitavo dia houve a convicção da morte, e ele guardou um luto estóico, mais leve e palatável!
Era homem muito equilibrado, nada insensível!
O nono dia foi dia de fuga, e, dois dias depois a criança esfarrapada esmurrava as portas do pai...
Era tal qual uma ressurreição; e o coração dos homens não sabe bem receber os mortos...
O pimpolho foi fantasma desacorçoado até que o pai o entendeu vivo, uns tantos dias depois!


Anderson Dias Cardoso.

sábado, 16 de junho de 2012

Gula...


Repetia o mesmo caminho, pacífico e cheio de apetites, rumo à uma certa intoxicação brutal de condimentos e embutidos, respingantes de toda gordura do mundo!
Era rapaz orgulhoso de seu bom funcionamento visceral, mesmo sendo derrotado vez ou outra por supra-dosagens de consumo, resultando em reboliços estomacais e gazes inconvenientemente doloridos e mal cheirosos!
Pediu um “TUDO”, daqueles sem demagogia, e ao desbastar o potente com umas primeiras dentadas esfomeadas teve seu interesse reduzido à indiferença, logo, ao desconforto, e daí só restava o desafio de aplanar a montanha calórica e ver sendo conferido à si mesmo às honras estupidamente vergonhosas de glutão.
Era verdadeiramente um idiota que causava espanto!
Em sua pós-fartura preparou o organismo com as medicinas caseiras e envelopes de antiácidos para as turbulências e tempestades estomacais que se projetavam com todas as sombras e maus presságios.
Quando dormiu, o fez preocupado com outros incômodos, já que o alimento se assentara bem no ventre em nada se convulsionando!
E, como de costume, o que o despertou foi a acidez do refluxo, e uma vez desperto tossiu até lacrimejar os olhos sonolentos, forçado pelas composições de seus sucos estomacais.
Acordou um ou outro, mas logo que se calavam os ruídos o sono abatia os e o cuidado à contra gosto se perdia na sonsidão dos quase acordados!
Sofreu então, merecidamente sozinho aquela noite inteira, se revolvendo e consumindo o que prometesse alívio às manifestações de sua fisiologia agredida!
Pela manhã recusou tudo, menos o café preto, companheiro e calmante da ressaca de seu vício não alcoólico.
Recusou almoço, e continuava sentir seus processos causando lhe insurreições ácidas e enjôos cíclicos, até que a consciência da degradação das proteínas em seu interior provocavam, com suas fermentações a erupção e eructações pestilentas típicas, caracterizando odores de carne putrefata!
Sentiu ânsias à cada arroto, e as impressões e a certeza de carregar retalhos de cadáveres em seu ventre...
Pensou consigo mesmo, outra vez:
-Gostaria sinceramente de viver das plantas, mas como se diz por ai:
-A carne é “meu fraco!”

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Quando Nos Abandona a Conciência...

Então o Grilo continuava ali, amuado, recusando conselho ou palavra.
Deixara o adjetivo que seguia seu nome se tornar em mero sobrenome, como qualquer Silva, e se acompanhava o garoto graveto era com desprazer, uma teima resquicial de um sentimento de dever ainda evocada pela insistência de não negar-se a si mesmo.
O garoto havia se vendido, e cresceram-lhe orelhas, rabo, dentes de asno e, de suas mentiras o nariz se estendia de palmo em palmo até tornar-se em carvalho e subjugar como vulgar apêndice a pequenez do corpo esculpido.
Não só por mais uma vez ele implorou por orientação, mas as disposições do Grilo eram de silêncio...
O Grilo falara por muito tempo, agora as obstinações do crescido boneco o haviam lhe roubado os cuidados e o afeto, e deviam ser o guia que o encaminharia o restante do caminho...
A consciência permaneceu até a decomposição dolorosa do projeto humano sob a potência agigantada de seus erros; depois, partiu pra encontrar quem verdadeiramente prezasse sua companhia!  

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 10 de junho de 2012

A Dignidade Deve Ser Mantida.


Não concordava, ou se adaptava ao culto do animal sem porte, de orelhas demasiadamente longas e que suportava sobre si as cargas não aceitas pela dignidade, ou potência das outras bestas.
Debatia entre seus pares as associações feitas ao seu povo como o “povo dos jegues”, e ressentia-se muito das vergonhosas apresentações e “rallys”, que eram televisionadas, com toda cena de ridículo e apresentação de hematomas e contusões.
Nascera nordestino amargo, e lutara desde sua infância para dissociar sua terra do animal sem propaganda digna e, em um de seus projetos importou outro animal de terras secas, muito mais apresentáveis e sisudas, e desfilou sobre os paralelepípedos empoeirados a monstruosidade castanha que vivia antes em outros desertos.
-Nunca se viu propagandas de jegues em produtos de renome, mas sim em infames aguardentes e outros preparados, ou em apelidos e brincadeiras de má impressão!
-Olhem, meus conterrâneos como se alteia este cupim!Que pelagem respeitosa e que pernas fortíssimas! Era à este animal gracioso que nosso povo deveria ser associado!
Foi daí que se desenvolveu campanhas de promoção, e importações de espécimes para  povoar o cenário, e refazer a imagem do povo aos olhos preconceituosos de outros estados!
A praça tornou-se em local de comício, e, no ajuntamento decidiam seu futuro iconográfico.
-Mudaremos a bandeira municipal nesta figura, logo propagaremos nossa nova identidade em todo nosso território!
-Cigarros, bebidas finas, bolsas, e outros produtos dignos já figuram nosso emblema, e agora a representação de nossas virtudes! Seremos conhecidos como o povo do camelo!
Então, uma voz de transição das fases de maturidade sussurrou em meio ao burburinho:
-Não é camelo, é dromedário! Camelo tem duas corcovas!
A multidão se dispersou encabulada, um colegial havia desfeito todo um sonho de revolução de paradigmas!

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 3 de junho de 2012

Ele Era Apenas Um Lobisomem Juvenil!

Já havia notado uma ou outra sensibilidade além da pouca disposição relacional de que sofria e, ponderando algumas longas noites insones se constatou menino lobo!
Para os selvagens a vida metropolitana oferecia dificultosos entretenimentos aos marginais, e ele só podia salivar diante dos corpos carnudos que desfilavam despreocupados em suas rotinas de um tipo mais polido de predatismo, que se envolviam em rituais mais elaborados, promoções e ascendências econômicas de vulto!
Na turbulência dos dias e compromissos o apuro do olfato se mesclava ao péssimo gosto das fragrâncias para se tornar em tormento, e o que diria da infernal barulheira articulada por todos os movimentos do progresso municipal?
O tal jovem sofreu!
Sofreu seu bocado e um pouco à mais até parir por completo sua verdadeira identidade, e em seus últimos dias humanos comprava animais para sua caça indoor, e já despeitava suspeitas por um amor tão intenso e uma troca tão constante de animais de estimação, e quando deixava o dia, trocava a comichão do terno sintético pela respeitosa pelagem castanha de um antepassado!
Uivava suas poesias para o astro noturno, sentindo se à vontade com os instintos aflorantes de sua conversão.
Num daqueles dias decidiu-se por ser lobo inteiro!
Viajou o itinerário mais conveniente e temperado para se integrar às matas e à família que o receberia como filho pródigo, e persistiu um caminho de busca local por seus pares, até que encontrasse a alcatéia pulverizada em uma emboscada à uma preza astuta, e então, o lobo adolescente se apresentou com seus sons e trejeitos aos que saltavam das sombras.
A suposta família não poupou o que não era dos seus, e entre os dentes dos que achavam parentes descobriu:
Era apenas um, de tantos deslocados!

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Quem Vos Tecestes?

E então, o acaso emaranhou uns fios de algodão até engendrarem as linhas serpenteantes que aguardaram algum milagre para se ajuntarem em outra forma.
E numa antiga, de tantos novelos e retroses houve o movimento e formação, e, de muitos enlaces surgiram uns metros de tecido, ainda sem uma causa, ou destino.
Ninguém soube da criação das agulhas e seus processos, dizia-se terem sido cuspidas do cerne magmático para cumprir toda sorte de coincidência de trama e não havia tecido sem padrão, mas sim uma progressão de cores e pontos intrincados!
Movimento e beleza foram se estendendo, e os tais fios se ajuntando, e a geometria se tornara em enigma fingindo ser desvendado.
Arrematou-se a obra acolá, porém a suas dobras teimavam em acolher matéria para ir além de nossos olhos.
Hoje a metragem não pode ser calculada, o peso não pode ser suportado, e, a despeito de suas maravilhas ainda continuamos à ignorar seu artesão!   

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 27 de maio de 2012

O Homem Árvore.

Alugara um quarto, em uma pensão de pouco prestígio e era visto vez em quando, visitando a peça.
Exigira aos proprietários que o espaço permanecesse hermético, livre até mesmo de qualquer propaganda ou impressos vinculados ao seu nome, e havia removido, antes da mudança, cada móvel.
Caiou as paredes com um branco, assim como as janelas, e iluminou os ambientes com a fluorescência fria de lâmpadas de baixo consumo, fazendo sumir os limites do lugar.
Em seus dias de mistérios eram trazidas sacolas e quando a porta o abandonava à solidão desejada se despia do peso das roupas, se ligava à bolsa de colostomia e introduzia os cateteres de soro para hidratação e se estendia como a árvore que acreditava ser, tendo por penduricalhos os tais recipientes de suporte.
Então a vida passava de sua celeridade para uma calma reconfortante, e ele sorvia intravenosamente o líquido e minerais próprios ao seu corpo misto, e ia realizando seus processos fotossintéticos com a artificialidade da lâmpada elétrica até que o incômodo de um alarme o despertava de suas contribuições ecológicas; e ele voltava à sua agitação móvel!
-Prefiro ser carvalho!-Dizia-se quando descia as precárias escadas, e lidava com o desprezo disfarçado de seus anfitriões.
Como passava por um período de ócio visitou seu espaço na semana seguinte, e ouviu buchichos; nas outras notou o incômodo e irritação dos circundantes e então preferiu subir apressado os lances para se fugir de qualquer hostilidade.
Já no abafamento do cômodo, se dissolveu na brancura do seu momento e aprofundou-se em suas trocas ambientais até que a incandescência do ambiente exterior rompeu a harmonia de sua comunhão.
Ele relutou-se em abrir seus olhos, naquele universo íntimo preferia se utilizar sinestesicamente de seus outros sentidos; esperou então que os passos pesados estivessem bem próximos para se assustar com a estranheza da cena.
Eis que tentavam pairar uma trinca de beija-flores de uns 150 quilos, de cara empoada e asas mirradas e uma paleta estroboscópica de cores, tanto nos olhos quanto nos vestidos, dançando convulsionadamente em torno de seu tronco e galhos!
Era repugnante ver homens de meia idade se prestar à tamanho ridículo para obrigarem o abandono da propriedade!
Recolheu, nauseado, o pouco que sempre trazia consigo e partiu, tendo em mente o aluguel de alguma casa de campo e paisagens bucólicas...
-Realmente, as cidades são hostis às árvores!

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Apenas Um Erro.


Reconheceu-o ali, quando o quase desapego de quem tem tão pouco a perder libertou da mão o filhinho aos seus próprios desejos, munindo-o de uma nota de mínimo valor para uns pouquíssimos doces.
Ela discursava à respeito da rigidez da vida ao proletariado, tendo sua história como seu próprio exemplo de infortúnio, e deixava esquecido o cambaleante que agora cruzava os limiares do estabelecimento.
Era apenas o fruto de um dos tantos relacionamentos extraconjugais, dos quais a sorte ruim fizera germinar, apesar de seus cuidados, suas insistências e protestos posteriores!
Por outro lado, sentiu se bem confortável com sua inexpressividade cromossômica quanto às formas de sua prole.
Nunca percebera semelhança alguma consigo da criançada, e aquele só pudera ser notado pelo afeto descuidado do antigo caso, e talvez por um ou outro trejeito herdado da mulher.
Quando os passos miúdos o levaram para bem junto do balcão alçou-se sobre seus calcanhares, e entregou a nota.
Apontou o chocolate, mas o dinheiro não bastava, e, por um momento vacilou entristecido pela carência da criança.
Olhou-o ali um instante inteiro, estendido em todo seu comprimento à espera da guloseima, e pôde sentir a paternidade se revolver sobre sua indiferença.
O choro sempre é coisa difícil de se conter!
Tomou duas barras e algumas balas para a caridade e as agasalhou em uma sacolinha de papel pardo, contornou o balcão e apertou o filho em um abraço confuso. Depositou uma nota graúda, puxada das boas vendas do dia no bolso raso do shortinho encardido, e o despediu esperando que o presente só fosse descoberto longe de seu ambiente!
Quanto o ônibus recolheu mãe e filho corpo tremia um pouco, e a cabeça anuviada pedia descanso.
Cerrou as portas da mercearia esperando nunca mais encontrar um de seus erros.

Anderson Dias Cardoso.
                              

domingo, 20 de maio de 2012

A Arte do Engano.

Assentaram se tranquilamente nas cadeiras anatomicamente preparadas para as costumeiras longas esperas, e lá já estavam elas a os captarem para distribuí-los em tantos aparelhos quantos interessados no embate.
Recusaram se cumprimentar; o orgulho e a tensão dos episódios anteriores foram suficientes para furtar qualquer sentimento de respeito alheio.
Eram os dois melhores enxadristas de todos os tempos, estudados em manuais e copiados por entusiastas e profissionais do esporte; eram também seres silenciosos e mal humorados, dos que se comunicam através de um dialeto de grunhidos e resmungos.
O horário havia sido adiantado emocionalmente por uma expectativa e excitação comum à todos envolvidos, e então eles consultavam novamente as regras, inspecionavam inquietos as velocidades dos cronômetros.
E logo as mãos do juiz se estendiam como uma encruzilhada, e todos sorriram deliciados quando o preferido das maiorias fez virar o rei branco em seu favor.
Entrecruzaram também, naquele momento os olhos dos adversários, e em susto ambos notaram a marca somente visível aos iniciados e se irritaram muitíssimo!
Haviam ambos pactuado com o próprio Diabo pela garantia da vitória!
As mentes então sofreram pela possibilidade de um jogo limpo, e uma possível derrota e depois de hora ambos resolveram mover um peão qualquer que pudesse calar a multidão de descontentes com a apatia da partida.
Poucas outras peças se movimentaram desde então, e a tática passou do dolo à tentativa de cansar e impacientar o adversário.
Foi tudo vexatório e muito demorado para ambos, um jogo de empatados do qual o “tinhoso” exercitou pouca paciência, deixando se digladiarem os corpos vazios no tédio daquele recinto enquanto levava satisfeito a alma dos dois enganados!
 
Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Linguagens Incompreendidas


Escrevia; não como os outros, mas com significados atrelados à imagens e números.
Eram representações singulares de uma memória eidética, sem repetições de símbolos e significados; poesia que nunca pudera ser transcrita!
Era a complexidade autista, uma forma descritiva de maravilhas e interpretações de suas metafísicas pessoais, limitadas às suas dificuldades, e à despeito das tentativas, nunca extrapolada para além de suas fronteiras...
E então ele cantava, e muito; passeando pelas harmonias e dissonâncias interiores.
Mas quem ouviu sua voz?
Quem pôde decifrar os dizeres que expandiam para além dos símbolos?
Guardaram-lhe alguns rabiscos, não sabendo seus tesouros e lhe sorriam sempre pela pouca expressão de tais infantis garatujas, porém, o que dizia este louco, estava para além de suas sensibilidades!

Anderson Dias Cardoso.

sábado, 12 de maio de 2012

T.O.C.


Era menina de muitos artifícios e alegria exagerada, se divertindo dos jogos inventados.
Torcia-se pelos espaços de árvores, cantava canções de ninguém, e às vezes conversava com o vento, enquanto andava desacompanhada dos maturos.
Em verdade, era paupérrima e suas solas já foram sofridas por atritarem e se equilibrarem com os cascalhos do quintal e ruas.
Suas cores eram, o verde dos olhos paternos, o negro dos fios maternos e o vermelho respingado das sardas do irmão, e nestas ela os reconhecia em qualquer lugar ou objeto e deixava os lábios produzirem o gostoso sorriso.
Quase nunca ganhava presentes, e, por este talvez, as ocasiões se ampliassem em significado extrapolando a inquietude da alma pequena, e condensando as emoções em lágrimas.
Ganhara, na colhida de outra primavera um bambolê por cada, marcados e representados por suas cores, e pôs se à dançar com os anéis sob os olhares embaciados de quem podia dar tão pouco.
Seu dia passou com a celeridade comum dos dias vulgares, porém a emoção não foi rompida pelas sucessões, e ela ainda se divertia sozinha com as argolas viajando na cintura magra, e quadril ossudo; até que veio a ameaça interior:
-Cada cor um ente, o movimento demanda vida!
Sozinha, pelo abandono involuntário em prol do sustento, ela se contorceu, sentindo pesar a diversão.
Houveram câimbras, suor e fraquejar de pernas; e ela segurava pendurada em seus quadris a vida da família.
Não gritou, pois lhe ocorreu que outro corpo nada tinha à ver com a imposição da voz de sua loucura.
Três horas, e num falsear de movimento tomba o vermelho, e ela se convulsiona em um choro soluçado, ainda que mantendo toscamente a harmonia do traçado para as outras peças.
-Foi acidente!Perdoa-me irmão!
Cinco e quinze, o negro escorrega mesmo com a intromissão dos joelhos cansados, e o desespero quase fez morrer as vontades!
A mãe se fora por sua falta de jeito!
Oito e dois, e já não havia com que se sustentar, o desmaio havia roubado seu último apego; e foi assim seu sofrimento, vivendo a mortandade até o retorno de seus amados!

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 6 de maio de 2012

Um Padeiro e Um Filho.


Primeiro a vizinhança ficou sabendo da demissão do morador da casa 173, e logo após alguns dias já era percebida a diminuição da freqüência do infeliz em qualquer estabelecimento.
Era homem direito, sistemático por criação, e quando os encontros de renegociação com os credores deram indícios de que um emprego não surgiria tão cedo, apesar dos esforços, logo passou a andar cabisbaixo, oprimido pela vergonha!
Não demorou, abandonou qualquer contato exterior.
Havia um filho, de idade de relativa responsabilidade, e este foi escalado para intermediar os acessos aos mantimentos e contatos indispensáveis.
Saia com freqüência pouco maior do que a do pai, e dos lugares imprescindíveis, a padaria era visitada diariamente.
Sentia saudades da fartura de outras épocas, e ao invés das quitandas de massas leves, o leite tipo A e o pudim que sempre reluzia seu amarelo densamente saboroso; pedia ele um pão único para a fome tripla.
De início o padeiro não se perturbou, porém, quando se afinaram um pouco os braços e amareleceu a tez do rapaz o coração do homem o lembrou de sua caridade:
-Toma estes pães para teu pai, tua mãe e para aliviar tua fome!
-Perdão senhor, mas nossa pobreza não o diz respeito; e ao aceitar esmola envergonharia ainda mais meu velho diante dos vizinhos!
-Digo-te que nada direi à outra pessoa!Minha boa vontade não espera aplausos!
-Talvez mesmo meu pai se encabule em agradecer-te tamanha generosidade, e se negue em entrar novamente em seu negócio!
-Deixe que faça como quiser!Já foi afligido demais pela suas próprias misérias!Toma estes, e amanhã volta cá que lhe darei dois pães por cabeça!
-És o último dos generosos, senhor padeiro!
-E tu, és um filho digno de orgulho por defender os brios de seu genitor!
O garoto sorriu, e partiu pelo caminho mais demorado.
Quando chegou não mencionou a conversa, culpou as amizades pelo atraso, e dividiu um único pão com seus raquíticos pais.
Assim, persistiu a trapaça até o dia de um novo emprego...  

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Bifes Metálicos.

Era bovino que mugia sem alma, um simulacro sintético da vida extinta sem qualquer compromisso metafísico além da superficialidade da aparência.
Ruminava o aleatório e o transformava, aos olhos alheios, em reações emocionais; e então, havia riso ao que, na realidade era pouco além de propaganda de entretenimento.
Serviu-nos bem à memória, e esquecemos, e nos desculpamos pelos consumos e descuidos relacionais de nossa ecologia.
Eram bois e vacas malhadas, com umas mesmas tramas e docilidades programadas para agradar e permitir toda interação desejada!
Se não se ofereciam em produtos, era de se esperar ao menos simpatia!
Era esta mesma a força de seus contratos, e a finalidade da obstinada replicância.
E pasceram então, tão eternas quanto permitia a regra da obsolescência; pois os bois artificiais não se davam para bifes metálicos! 

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 29 de abril de 2012

O Gastrádipo.


Visitou novamente o armário, apartando os úteis para o dia.
Gorro, luvas, paletó (ainda que um pouco empoeirado) e as calças forradas e folgadas para uma caminhada desenvolta, e lá, escondido pelas sombras do fundo do compartimento estava.
Um Gastrádipo sempre era uma coisa bonita de se ver!
Escorreu os dedos nodosos para o interior da peça buscando o toque; recuou indeciso diante da invulgaridade das texturas, cores e relevos.
Contorcia-se vez em quando em um leve tremular sonolento, e o susto sempre acompanhava uma gargalhada!
Resolveu-se por tomar por um pouco em suas mãos, e, no tocar da pele fria, na troca de temperatura entre os corpos e todo envolvimento emocional do momento, sentiu-se um pouco triste pelo seu exclusivismo!
Experimentou ainda mais um pouco o peso, e as sensações de posse empática...
A porta do quarto se abriu, e ele, meio que constrangido devolveu o Gastrádipo ao seu claustro e esquecimento.
Sabia que a visão de um Gastrádipo não é pra quaisquer olhos!

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Palavras Novas.


Tendo em mente o desprezo pelo vulgar, por toda redundância das expressões comerciais, e o esquecimento quase certo de presentes temporões, resolveu-se por agradar o namorado com um carinho simbólico.
Urdiu, com peças significativas, uma trama confusa de expressões materiais.
Descartou à todas!
Saiu então, um bom tempo depois, absolutamente realizada com o pouco volume de um envelope em sua mão esquerda!
O papel, ao menos, fora armado e bordeado com tal zelo que a manufatura era consultada entusiasticamente entre os vibrantes passos pequenos.
O nome se notava dourado diluído na gramatura respeitável do embrulho, sem dedicatória alguma.
Era o que a simplicidade requeria!
Ele atendeu a porta, ela o abraçou e, no intervalo dos cumprimentos as mãos ansiosas do apaixonado já rompiam a delicadeza do lacre.
Sacou surpreso o conteúdo do precário embrulho.
Nada mais era do que uma folha pautada com leve perfume:
-Esta dirá sempre, e com palavras novas em cada vez que a mirar da singularidade de nosso amor!E então crerás que até em uma folha em branco hás de me ler em entrelinhas!


Anderson Dias Cardoso.

domingo, 22 de abril de 2012

Eu Sempre Tento...

Eu quero o pouco; o que nem se faz conta!
Margeio as modéstias da vida para aprender a me desprender...
Se vejo a fome alheia, me compadeço; e divido do pão que me resta para ver viver os olhos do estranho.
Não há perfeição, ou tentativas do consolo da moralidade comum, mas a contemplação das misérias compartilhadas, ainda que involuntárias; onde o homem se tornou o mal de si para outrem!
Dou-te um abraço, e este não é somente para que te aqueça, mas, para lhe enternecer a alma endurecida!
Afago os cabelos que o vento revoltou, e os afasto dos olhos para que contemple minha tão pouca sinceridade.
Sou ainda tão falho!
Uma humildade que luta pelo direito de seu nome!
Um coração que bate, e falha os descompassos envergonhados de quem não mente...
Ao menos, para si!

Anderson Dias Cardoso.
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