quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Vidas à Venda e Valores Relativos.

A fachada amarela descascada do cômodo mínimo surpreendia menos que o movimento do comércio, então se via alguns pobres e mendigos saírem sorridentes enfiando algo no fundo bolso.
Ela agarrou forte o anel e pela placa conferiu novamente a modalidade de negócios do lugar e só depois de oito minutos se atreveu se livrar do objeto caro.
 Não havia apego, somente pena.
O ambiente cheirava à fumo, e o balcão desafiava ao furto quem não apreciasse riscos e permaneceu vazio; com caixa registradora e objetos estranhos até que soou o terceiro e mais forte berro clamando atendimento.
O homem magro, de aparência marroquina e camisas de todo abotoadas lhe apareceu sorrindo uma boca triste, deficiente de dentes e oferecendo um pouco de mau-humor como recepção.
-Você quer...?
-Disseram que paga mais do que outros por jóias.
-Pago pela qualidade.
-Tenho um anel dinástico, pesado e de boa figura!
-Há quanto tempo o tem em posse?
-O descobri num cofre à dois dias... É o que restou de uma divisão de herança para uma família imensa.
Ele estendeu a mão e tomou a peça  com certa rudeza.
-Venda-o à outro.
-Preciso de dinheiro, e a peça é boa.
-Boa tarde.
-Vendo-a pela metade do preço, preciso de passagens para terras mais tranqüilas, distantes de memórias...
-Matéria sem alma não me apraz.
-Então o que compra dos miseráveis que se postam à sua porta.
-Sentimentos e apegos. Pago caro pelo que mais prezam.
-Por quê?
-Pelo prazer de possuir a maior importância de muitos.
-Para mim matéria é só matéria, com seu peso e valor de mercado...
-Para outros são pedaços d’alma.
-Se se vendem tão barato qual a causa dos sorrisos ao saírem?
-O imediatismo os consola dizendo terem feito um bom negócio.
-Mas a consciência os acusa quando são saciados os desejos e necessidades!
-Esta é a delícia do negócio!Compro barato suas primícias  e os vejo contorcerem em seus remorsos, mas suas abstinências e cobiças sempre os trazem novamente aos meus cuidados!
Esta é minha dupla recompensa!
-Mas... Por quê???- A voz gritada fez recuar com susto o interlocutor, mas a retribuição da afronta foi um sorriso.
-Alguns desejos não pedem explicações.
-Eis que entra outro freguês, e meu dinheiro quase me salta do bolso solícito para satisfazê-lo! –O Homem se adiantou à tomar um velho e descascado calhambeque de brinquedo da mão do miserável enquanto depositava notas graúdas na outra; mas os olhos foram surpresos pelo movimento da garota que tomava-lhe a peça da mão e o devolvia o dinheiro .
O pobre recuou um passo, e ela segurou-lhe o braço e lhe pôs o brinquedo e a pesada jóia na palma e o deixou evitando constrangimento; aquela alforria não necessitava palavra ou gratidão.


Anderson Dias Cardoso.

domingo, 25 de setembro de 2011

O Repentista.

Falhou no repente e caiu em desgraça; disseram-lhe ser feitiço o que lhe paralisou na boca o verbo!
Chamou outra rima e o próprio adversário se juntou à platéia esperando superação, mas o que veio foi choro e sua vitória foi o sabor da indignidade.
O homem fugiu das rodas dos cantantes e só ousou erguer a voz sozinho e com letra em mãos.
Andava seguindo conselhos, e banhou-se em água de ervas e sal grosso, atou um patuá e pediu proteção aos guias.
Mãe Rita julgou ser mau-olhado, e ele comprou cesta e deitou a gorda galinha, farofa, mel e aguardente, mas o trabalho não lhe devolveu o improviso; antes, o passado ia se evadindo e a vida se tornando pauta branca e sem ritmo.
E assim se deu, até que os seus olhos apagaram seu brilho; ele já não sabia quem era e novamente a dor dos circundantes foi maior do que a sua.

Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Os Lobos.


Pezinhos sonolentos deslizando no carpete fofo, e com um salto a garotinha alcança aquele platô acochado e se mete debaixo de pesados cobertores macios.
O cheiro de roupa de cama limpa é a delicia de suas narinas, e a boneca de pano já se encostava ao travesseiro adjacente se preparando para também se divertir com histórias de ninar.
A porta se abre silenciosa, e uma luz mais sólida que a do abajur que invade o quarto é rompida pela sombra amistosa; logo a dona do livro beija-lhe a testa, cobre-a ainda melhor, e só ai aconchegou se num canto da cama.
A história era a sua preferida, e ela se via vestida daquele vivo capuz vermelho correndo teimosamente por atalhos contra-indicados carregando a pesada cesta de agrados à vovozinha.
As mãozinhas se contraiam quando a mãe anunciava a presença do malvado lobo e o coração seguia o compasso dos passos do monstro, mas fosse a tal menina ela correria ainda mais, e sabedora das tramas se livraria, e vovozinha alguma seria banquete da fera oportunista!
Depois de devorada a velhinha a tensão se concentrava no embate entre as principais personagens, e a garotinha deixava transparecer ódio e sentimento de vingança que ao clímax; onde a invasão do lenhador e a extração sanguinária da senhorinha era extravasada em risos e palmas.
Com peito ofegante, e delicados filetes de suor perfumado descendo desde a cabeleira agora emaranhada ela se joga no abraço materno, saudando-a como co-participante da vitória de tão dignas personagens.
A euforia foi interrompida por uma questão que lhe veio à boca tão rapidamente que teve que ser repetida mais calmamente para que pudesse ser esclarecida.
-Mamãe... O que é um lobo?
-É um monstro malvado!
-Eles são muito maus, né mamãe?
-Sim... São todos lobos maus...
O sono a surpreendeu ainda com sorriso nos lábios, e se foi o travesseiro que a sufocou ou se a motivação do crime foi vingança pelos ciúmes de um marido infiel.Não houve tempo para rancor; ela mesma agora era parte de uma história à ser contada.
 

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 18 de setembro de 2011

Versões do Filme.

Agora encarnava um encanador apaixonado, mas já fora samurai, alienígena e imperador em seus papéis mais importantes; dos coadjuvantes e figurações nem fazia menção.
Foram daqueles períodos de bebedeiras, degradação não dignas de sua estrela, e que provavelmente seriam apagadas de seu passado por assessores de relações publicas.
No coquetel de encerramento das filmagens já cogitavam que pleitearia um Oscar na próxima premiação, mas isso não era surpresa para aquele talento.
As boas perspectivas se concretizaram na estréia, e nos concursos e bilheterias notáveis e o herói se movia em múltiplos universos midiáticos como ator definitivo.
Na vida, nenhuma novidade além daquele boato à seu respeito que esfacelou também a monotonia da internet e que dizia absurdos, dos quais seu uso e dependência de psicotrópicos.
Ele se riu; realmente havia abusado de bebidas e cigarro, porém sempre considerou as drogas uma prisão forte e desnecessária. Boatos às vezes o divertiam, além de manter sua figura lembrada.
Com as semanas a imagem de bom moço, cuidadosamente cultivada parecia frágil à novas investidas de criadores de ficção e vários compromissos e participações foram desmarcadas, com desculpas incoerentes; ele as aceitou, e se prometeu nunca mais aceitar-lhes qualquer convite.
Naquele dia os blogs o casaram com uma filipina misteriosa, em uma cerimônia secreta em um lugar oculto logo após se decidir por procurar se reabilitar em uma clinica sueca e em uma semana havia recuperado dois dos nove quilos perdidos e projetava uma prole mínima de cinco pimpolhos.
Era ridícula aquela vida paralela, fantasiada. Ele se recusou à responder cada acusação e desmentir toda fofoca mas aceitou a idéia e itinerário de uma daquelas mentiras.
Perdeu os oito quilos excedentes em um SPA sueco; a única verdade daqueles dias.
Sua mente se apaziguou totalmente quando preferiu revistas velhas e clássicos literários ao invés de televisão.
Um mês inteiro desta calma lhe saturou os sentimentos, e ele se resolveu por voltar à agitação de sua vida célebre.
Encontrou alguns narizes torcidos logo no desembarque, e massivas demonstrações de repulsa em toda parte.
Quando procurou por seus pares a empatia havia desaparecido em meio à conversas mornas e risos nervosos.
Descobriu, por terceiros que havia tentado forçar uma menor na mesma clinica em que se tratava e comprara o silêncio e deportação ao invés de detenção, a esposa havia reclamado de sua conduta e contratou advogados para resolver-lhe o litígio.
Debitaram-lhe ainda tais acréscimos: Perdas imensas no mercado imobiliário, uma filha bastarda com uma porto-riquenha, aquisição de um cavalo árabe para pratica de esportes, negação de propostas de candidatura para deputado pelo Texas e ainda outros tantos boatos que entretecidos cobririam ao menos oito anos de vida.
A noite daquele dia de leitura se alongou num tormento insone, e ele tentou vários telefonemas na madrugada para desfazer os comentários em algum programa.
As agendas programáticas cheias, o horário incômodo e sua influência diminuída contribuíram para a não resolução das farsas, e a solução foi desmentir nos principais blogs sua vida criada e ameaçar com processos quantos outros episódios nascentes.
Descobriu, fora do universo virtual, que suas poucas amizades se recusavam ser associadas à ele de qualquer forma, assim como os estúdios. Felizmente restava o dinheiro e imóveis; mas eles foram sendo dissipados pelo estilo de vida perdulário e acessos consumistas puramente emocionais.
O tempo apagou-lhe a centelha televisiva quase de todo, e suas muitas vidas se fundiram em uma biografia aberta virtual e os escândalos se restringiam quase totalmente à web.
Ainda volumosos esses movimentos de construção e desconstrução da imagem do ator na rede davam um bom dinheiro aos blogs sensacionalistas; e num apartamento aconchegante, mobiliado com peças discretas, ele acrescia seu próprio mito, vencido pela mentira ganhava a vida se interpretando de uma outra forma.


Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O Engraxate.

Acomodamo-nos próximos à porta; em lugar fresco, tentávamos adiantar o tempo para a aula em conversas comida e bebida.
O coreto em frente, a rua ao lado e a própria lanchonete eram vivos como um dia de sábado e eu notava um pouco de tudo e ainda me fixava nas banalidades ditas.
A barriga cheia e tempo ainda sobrando tendíamos em rematá-lo naqueles bancos duros, em silêncio, notando os fluxos e gestos do mundo ao redor.
Um garoto imundo rompeu nossa monotonia cruzando o portal; caixa de madeira enganchada no ombro esquerdo, levava seus petrechos e misérias ainda com porte digno.
-Moço, tenho fome... Pode me pagar um salgado?
-Claro, sirva-se!-A fome era coisa que me incomodava como uma afronta da indiferença, e eu observei o jovem se aproximar do balcão e pedir um pão de queijo.
Chocou-me sua humildade ao ver pegar o mais barato alimento da estufa, e eu me vi dizendo que pegasse um cachorro quente, ou o que lhe apetecesse, pois meu dinheiro era muito curto, mas bastava para lhe melhorar o paladar.
Ele pegou humilde um cachorro-quente, agradeceu com um sorriso e desceu os três degraus para a rua, foi quando se achegou um outro faminto e ele dividiu ao meio o que havia ganhado e ambos se foram.
A surpresa daquela misericórdia me prendeu ao banco, e de lá não me movi até que o garoto se desfizesse no emaranhado humano.
Queria ter ofertado um pouco mais deste meu pouco, mas a bondade alheia às vezes choca, escandaliza, paralisa...


Anderson Dias Cardoso.

sábado, 10 de setembro de 2011

O Avesso de Kafka.


á havia notado mudanças e escamações discretas, higiene deficiente e preferências alimentares exoticamente repulsivas. Seus odores me eram agora estranhos e passei a repelí-los ainda com coração doente de remorso.
Das tarefas domesticas antes feitas por outrem; mas que me diziam respeito, preferi executá-las por mim mesmo e passei a abusar de atos assépticos ostensivos, o que causava prantos escondidos e algumas confusões um tanto sentimentais.
Sentava-me à TV e seu reflexo me apresentava mais que a programação rotineira. Lá, no outro sofá se acomodavam três figuras desconfortáveis aos sentidos.
Vez em quando o ranger de suas articulações me causavam ojeriza, mas o afeto e a educação recebida me impediam a língua, e eu não protestava; contudo as atitudes submissas decorrentes de sua condição estranha eram recebidas com voz bruta, e às vezes palavrões.
Na cozinha salpicos de quitina forravam os pratos. Eu me recusava à comer e me voltava aos enlatados e biscoitos. Minha mãe chorava enquanto lhe restavam glândulas lacrimais; não por se enojar daquilo em que se transformara, mas pelas atitudes de seu primogênito.
Os cosméticos não salvaram a aparência de minha irmã, e pouco além de cremes aderiam à carapaça que se formava nas faces. Ela recortava rostos bonitos e os vestia para se consolar em sonhos, de sua monstruosidade.
O emprego de papai resistiu por algum tempo, por conta da piedade dos contratantes, mas outros contratados ameaçaram partir e ainda processar-lhes por fazê-los compartilhar um ambiente insalubre com um contaminado por uma doença desconhecida.
O fundo de garantia e o seguro nos ofereceram uns poucos dias de dignidade, mas ao nos apertar o orçamento eu já não ousava desperdiçar tostões com água sanitária ou produtos de limpeza.
Com a fome, a repulsa de um estômago fragilizado pelo vazio me levou ao ódio, e logo, ao conformismo e eu os via caminhar pela casa com indiferença.
Lhes servia as sobras mendigadas e lhes negava palavras.
Vez ou outra sentava no sofá vermelho carcomido, mãos ao queixo, notando os movimentos daqueles corpos chatos se arrastando pela sala poeirenta, e se se achegavam à mim os chutava levemente o dorso para que fossem se esconder embaixo de algum móvel.
 Conhecia-lhes bem e a contragosto todos seus hábitos imundos, mas não os lembrava sendo família.
No auge de minha angústia procurei por mudança. Me negaram emprego afirmando falta de qualificação, mas a verdade diziam de minhas relações familiares; então me mantive miserável por muito tempo, me submetendo à dieta de meus pais...
Fugi de casa... Me recusei a receber notícias
Hoje vivo de esgotos e suas pragas; conhecendo como poucos a psicologia dos insetos;  munido de preparados derivados de conhecimento de causa, realizo um serviço barato e eficiente, e na morte de cada um me pergunto quem estou matando; se mamãe, papai ou minha irmã.

Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Progeria.


Enlaçado ao braço e cheio de orgulho desfilava a nova namorada aos próximos e desconhecidos.
Uns olhos dançavam de canto à canto de suas órbitas, entre fofoca e observação, outros permaneciam estáticos como sorvedouros de surpresas.  Diferenças de idade nunca foram socialmente bem aceitas.
As roupas dele eram discretas, ela vestia uma juventude colorida para disfarçar muitas rugas, mas o efeito era tristemente inverso e eles se denunciavam como um casal estranho, destoante.
Ao andar pelas ruas disfarçavam a vergonha de sua diferença em conversas nervosamente animadas, e nos vácuos de passantes se lamentavam por não serem aceitos.
O namoro permanecia secreto aos entes, por conta dos mesmos efeitos experimentados pelos estranhos e aqueles passeios eram o laboratório para uma exposição de seus afetos, uma preparação para se assumirem aos seus pares.
A repulsa alheia não diminuiu ao longo dos dias, mas, acostumados à tais incômodos sentiam se mais confortáveis e seguros para demonstrarem afetos publicamente.
As mãos eram vistas freqüentemente atadas uma à outra, e as dele eram mais carinhosas, sempre tecendo afagos à face vincada, anteriores aos beijos apaixonados na delicada boca rugosa.
Agora a apresentava como um grande amor aonde iam, fazia soar confiante cada declaração de apreço e ela confirmava com voz infantil, tímida e sumida à círculos hipócritas que os saudavam e faziam votos de casamento; e se riam debochando dos dezenove anos desperdiçados do garoto com aquela simpática senhorinha ao verem que deixaram sua presença.
Eram o “escândalo” mais delicioso dos locais que freqüentavam.
Num dia frio arrancaram-na de um abraço. Eram três sujeitos parrudos e violentos, e ela gritou “Pai” ao mais baixo e ele ouviu ser gritado “minha irmã” da boca dos outros dois, e ainda “sem vergonha”, ”vagabundo”, ”pedófilo”, palavras entretecidas à socos e pontapés e outros insultos ignorados pela dor dos golpes.
Não a viu ser levada, seus olhos foram muito machucados.
O processo por pedofilia foi atenuado pela condição insólita do caso e rendeu o afastamento dos amantes e prestação de serviços comunitários ao jovem.
Eles se prometeram um ao outro e esperaram os quatro anos até a maioridade da velha menina, onde o poder da sujeição aos pais era menor.
Eles encontraram-se sem aprovação paterna, mas ainda sob outros tantos olhares desconfiados.
A doença havia consumido uns outros tantos anos da garota, mas o sentimento se conservava.
O beijo à boca enrugada trazia o gosto do amor verdadeiro, e isso os bastava.

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 4 de setembro de 2011

As Mães Sempre Esperam o Melhor.


O relógio havia avançado o suficiente para desesperar o coração de mãe, então contatou todos os amigos e ligou para a escola já vazia, e aumentou um pouco mais a angústia.
Visitou diversas vezes as janelas, depois, os portões.
Acendeu cigarros, velas, fez promessas, mas do garoto, nem rastro!
Sentou-se, levantou, consultou o relógio e a memória, mas nada se resolvia e o dia se encompridava numa agonia crescente.
Chamou a mãe, as três irmãs e a cunhada. O marido; aquele traste, não procuraria nada além de uma garrafa de aguardente e muito repouso.
Dividiram o bairro em quadras e encarregaram-nas de arranjar outros buscadores para o filho perdido.
Chamaram a policia, mas esta ainda era mais indolente que o pai do garoto e logo perderam a paciência ao preencher formulários e fornecer respostas e suposições:
-Nos dêem seus distintivos que resolvemos melhor que vocês!-A irritação da expectativa e os volumosos calos já lhas haviam consumido as paciências.
O tempo gasto foi bem menor do que a sensação de sua passagem, e seus corpos obesos pediram arrego com pouco mais de uma hora de procura, e a equipe se desfez e a mãe voltou para casa para chorar e esperar por uma sorte melhor.
Ela o esperou no sofá, sem forças para qualquer esforço. E o auge de sua tribulação veio quando a TV anunciou a morte de um garoto de onze anos, naquela região.
Ela ouviu que haviam sido quatro facadas e soluçou alto, desistiu de suas esperanças e se desfez numa letargia comovente.
A porta da cozinha se abriu timidamente, e ao verificar quem seria o invasor se deparou com um sorriso desconfiado de uma criança um pouco suja.
Ela o esmagou em um abraço que media em violência o tamanho de sua felicidade!
Ele disse que se demorou em alguma vadiagem com seu melhor amigo, mas ela agradecia sem perceber  à Deus que não tivesse sido ele o garoto morto e o fez prometer que nunca mais demoraria sem avisar.
Ele disse que sim.
Ela voltou-se aos seus afazeres e ele para seu quarto, ela terminava o almoço e ele guardava a faca manchada embaixo de seu colchão.

Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Freiras e Gatos.


Sempre haviam piedades nos corações dos donos de animais quando estes procriavam.
Eram a multiplicação de criaturinhas semelhantes à mãe, frágeis e delicadas, porém nunca previstas em orçamentos ou planejamentos espaciais, então eram oferecidas à quem as quisessem.
Nem todas eram acolhidas em um lar. Haviam as defeituosas, as sem atrativos estéticos, as miúdas que seguiam como um refugo pouco desejável.
As entidades envolvidas em adoções eram muito visadas, então a solução mais criativa era depositar “caixas de vida” às portas do convento.
A instituição não recebia nenhum nome inter-denominacional, e suas religiosas eram chamadas como outras tantas: Irmãs.
A regra era depositar os enjeitados na madrugada, em embrulhos tão discretos quanto a movimentação do descartante.
Havia certa solidariedade entre aqueles que tinham tal costume, pois com certeza as criaturinhas seriam muito bem tratadas pelas freiras, não havia motivo para culpas ou remorsos, então ao serem flagrados nestes pequenos delitos se faziam de inocentes e tal “inocência” era sempre presumida por aqueles que os surpreendiam.
Ele preparou sua caixa contendo cinco gatos magros; vestiu sua roupa mais escura e esperou a noite se adiantar até horários de pouco movimento. Seu caso era de pobreza e volume excessivo de animais de estimação.
Ele traçou seu percurso até a abadia em um roteiro marginal, discreto e de muitas sombras, e ao andar apressado por quinze minutos se encontrou aos portões daquele lugar sagrado.
Ele abaixou-se ternamente e depositou a caixa próximo à passagem, apanhou cada gatinho magro e se despediu com um beijo e algumas lágrimas.
-Eu os queria comigo, mas não tenho dinheiro e tenho que cuidar de sua mãe e irmãos... Elas cuidarão bem de vocês, vão ter comida, um lar e muito carinho junto a estas mulheres de Deus.
Os passos rápidos o levaram para longe daquele lugar, e os minutos se encarregaram em conformar o coração trazendo pensamentos bons à respeito da nova vida dos feios felinos.
-Eles terão um belo futuro!Deus abençoe aquelas almas caridosas cuidadoras destas indefesas criaturas- Foi breve e sincera oração.
A madrugada era fria porém Irmã Dulce se prontificou em enfrentar o sereno e descendo lentamente a escadaria tomou a caixa de gatos, brincou puxando de leve seus bigodes e cofiando lhes os pelos da cabeça, e ao adentrar no saguão gritou à Irmã Rosa que lhe ajeitasse água e temperos para o preparo daquele desjejum magro, porém saboroso!

domingo, 28 de agosto de 2011

As Lavadeiras.


No rio das lavadeiras os lençóis eram brancos e as prosas, maliciosas.
Cantava-se sempre a vida alheia, e enquanto a roupa golpeava as pedras as línguas sibilavam segredos.
“Joana tinha amante, Cícera já abortou, Fabrício é afeminado, o vigário é alcoólatra e a moral desceu como a imundícia destas correntes quase mortas.”
E após os mexericos seguia a cantilena ensaiada, de temas iguais em maldades sonoras.
De tantas se salvava uma que era muda, e que não se ria de versos e ritmos, mas admirava-se do soar de vozes das companheiras de lida.
Elas cantavam, e ela enrubescia.
De joelhos a muda pedia voz à Deus na igrejinha enquanto solvia hinos e derramava lágrimas, e naquela noite uma palavra subiu do coração à boca, e a congregação cantou junto à ela uma música de milagres.
 A sua favorita.
No rio a nova cantante era motivo de surpresa e inveja, e naquele dia só se ouviu soar sua voz ; ao fundo uns tantos murmúrios.
Os trapos foram sendo abandonados, e os lençóis se deitaram no balaio sem ser branqueados para que os corpos cansados repousassem em pedras e montes de areia para ouvir melhor o que era cantado.
A voz e música eram algo além do significado vulgar, era vida cantada em bela voz.
O espetáculo pareceu enternecer as circundantes, e houveram abraços e congratulações pelo dom divino, encerrando-se em um divertido banho no rio espumante.
Os risos alegres se altearam além do canto e no círculo das amigas e um rosto rompeu as águas, tentou emergir rápido da brincadeira, mas uma, outra e várias mãos se assomaram no esforço de mantê-la em seu desconforto.
O ar se foi de seus pulmões, levando consigo a vida e canto e o corpo foi liberto para descer a corrente como balsa vazia.
As lavadeiras se puseram às margens para observar a viagem, e cantaram com deboche a música viva que haviam escutado da companheira.
A cerimônia se encerrou com uma reverência, e logo as roupas eram novamente lavadas ao som de uma música que cantava a morte de uma virtuosa lavadeira por invejosas companheiras de ofício.

Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

O Nascimento De Um Pistoleiro.

O seu respeito custou uma bagatela de 72 vidas. Contratos bem cumpridos agregavam valor à cada morte, e logo precisava matar pouco para sobreviver dignamente.
Sofria com a bajulação dos temerosos, mas pesava cada amizade e relacionamento em moedas de ouro. Nenhuma delas valia muito.
Seu nome movimentava cidades, sendo possibilidade real de morte aos adultos, viuvez, ou ameaças à crias desobedientes.
Em suas visitas espantava por não causar espanto; suas roupas eram limpas, suas unhas e pelos sempre rentes e ele exalava bons perfumes. Vez ou outra fazia subir um arrepio com um olhar cruel, mas logo a fala mansa abrandava a ameaça e sua presença amena fazia esquecer sua reputação; até que uma bala precisa esvaziava um corpo e enchia um bolso.
Voltava-se após a queda, sorria para os que acudiam e deixava sempre uma bala não deflagrada à precisos seis passos. O souvenir marcava sua presença e intimidava, facilitando outros prováveis serviços.
Numa de suas sedes pediu cerveja e vinho, a primeira foi sorvida em um gole, o segundo foi derramado intencionalmente de seu copo fazendo desviar qualquer olhar curioso e dispersar alguns menos corajosos.
O Saloon havia sido escolhido por acolher um pretenso rival; um jovem talentoso, com algumas mortes importantes em sua breve carreira.
Os olhos se mantinham em seu aperitivo, movimentando o copo raso para diluir os resíduos da aguardente quinada, mimo importado da América do Sul para clientes potenciais.
Uma sombra o arrancou de suas distrações e ele pode ver um sujeito elegante se acomodar no banco ao lado.
O homem pediu outra cerveja e entabulou uma conversa que cheirava a álcool.
-Está aqui a serviço?
-Sim- Os olhos não se desviaram um instante de sua atividade.
-Soube que é dos bons.
-No entanto um estranho me aborda numa conversa... Minha fama não intimida o suficiente.
-Quantas mortes?
-12.
-Um bom número. Aposto que já me tomou algum serviço.
O moço ergueu pela primeira vez os olhos, e o homem estremeceu e continuou:
-Proponho um duelo!-A boca havia se secado e as palavras torturaram a garganta.
-Existem encomendas suficientes para dois.
-Considero sua resposta como pura covardia.
-As mortes têm um preço; quem pagará pela sua?
-Minha morte em sua caderneta duplicará seus rendimentos.
-Deixe-me terminar outra aguardente, ela me alegra o coração e torna meu ofício mais fácil! Peço que aceite também outra cerveja; cortesia de um irmão de profissão.
Ambos beberam, tomaram seus chapéus e sem encaminharam para a rua poeirenta. O alarde feito por todos os que corriam para presenciar o duelo fez crescer ainda mais o bolo dos curiosos.
Cada qual tomou o sentido inverso, e se viraram quando foram contados nove passos.
Inspecionaram suas armas, e as recolocaram no coldre e então alguém lançou uma moeda, e com o discreto baque da mesma as duas armas foram sacadas, mas um dedo se recusou apertar o gatilho e o corpo mais respeitado veio ao chão.
Os olhos do moço brilharam frios, a boca contorceu um sorriso de escárnio, ele deu outros seis passos e deixou um de seus cartuchos não deflagrados marcando o lugar; não entendeu que seu pai não havia lhe deixado um nome, deixou lhe uma reputação.

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 21 de agosto de 2011

O Restaurante Recorrente.


Um ambiente redundante, onde um grupo disposto se encontrava às quartas para reviver um dia de suas vidas indefinidamente.
Nasceu do acaso, e atraiu pelo nome toda sua freguesia, e cada qual se apegou ao seu espaço com ciúme, tornando restrito o acesso a outros que não os primeiros visitantes.
Nele a surpresa era proibida, e a ausência de uma pessoa significava quase sempre sua morte.
A segurança da rotina era o escape de uma vida imprevisível e atribulada.
Os pratos e escolhas se repetiam, mesmo com alguns excessos de especiarias, sabores desagradáveis ou escolhas equivocadas. Eram sagradas tais repetições, mesmo as falhas, e elas faziam parte do roteiro que fora despretensiosamente escrito um dia.
Traziam de casa os mesmos problemas, pensamentos e até indisposições orgânicas.
Um namoro foi reatado por mil vezes, um saleiro se quebrou e foi substituído tantas vezes, um garçom mal vestido grunhiu pela falta da gorjeta toda quarta...
Eles cumprimentavam, ou ignoravam-se de acordo com o dia da inauguração, seus rostos diziam sempre as mesmas coisas, e eram mudados em muito pouco por rugas, manchas senis ou cicatrizes e ferimentos dos dias comuns.
Apenas uma mesa variava em seu conteúdo e atendimento, e toda esta estrutura que destoava a rotina daquele espaço era situada à parte, com cozinha e garçom próprios.
Os frequentantes da mesa livre eram escolhidos, depois de propostos, pelos anfitriões para substituir algum companheiro morto, e observava sem interferir, e com muita liberdade até que se decidisse e começasse a se limitar e optassem por um dia para ser vivido eternamente.
Uma vez admitido, buscavam uma introdução pouco traumática ao grupo, com poucos diálogos e interações, e eles passavam a se reconhecer (mesmo que tivessem se visto por centenas de vezes), passavam a existir uns para os outros.
Tornava parte de seu dia comum, tão recorrente quanto todos vividos naquele lugar.
Então todos jantavam, bebiam e representavam perfeita e integralmente seus papéis restritos, e partiam para um mundo selvagem que os permitia correr riscos, exercer sua maldade ou bondade, sentir toda ansiedade possível e até morrer...
Mas toda quarta se viam trazidos àquele lugar por essa previsibilidade que apaziguava seus corações covardes.


Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O Taxidermista.

Tamanho esmero e destreza e já não podiam discernir em figuras estáticas, entre obra ou ser vivente.
Cruzou a soleira do artífice aos 13 anos, e ele o saudou como posteriormente outras tantas vezes marcando páginas gastas de “O Mágico de Oz” enquanto sorria inquirindo o motivo da visita; e o garoto disse que queria aprender o ofício.
O homem disse ser sujo, feio e repulsivo antes de terminado e o garoto disse ter estômago forte, então ele se deu por satisfeito por sua coragem e lhe fez uma proposta.
-As lições por um favor!
-Que favor?
-Algo que talvez nunca tenha de fazer, e mesmo que faça não lhe custará dignidade ou quebrará seus princípios...
-Preciso saber o que é.
-E eu preciso terminar aquela lontra... Pegue uma linha e agulha que lhe mostro como costurar e dar forma.
As mãos enchiam a pele, o homem o permitia dar um ponto aqui, outro ali, e naquele dia nada aprendeu além de se encantar com a perfeição daquele corpo ainda meio armado em arame e palha.
O lar do artesão era uma selva congelada, de cheiros estranhos e animais olhando dignamente o vazio e o garoto conheceu ursos, cobras, onças, garças e outros inomináveis devido à grande variedade e sua memória ruim. Às vezes era perturbado com movimentos imaginários das criaturas mortas, mas com o tempo se tranqüilizou por nunca ver descer do pedestal mesmo uma rã.
O mestre era sempre requisitado; sinceramente o melhor do país, e por acúmulo de encomendas o garoto o auxiliava cada vez mais e sorvia os segredos da profissão. O homem se orgulhava, e esperava para breve a equiparação do pupilo, que era esforço e paixão.
Eles se respeitavam.
Nos intervalos o taxidermista o congratulava pela extração perfeita do couro, ou pela a atenção em congelar um espécime o mais rápido o possível, na separação das químicas de conservação, a cânfora, ácido bórico, formol, glicerina, arsênico, carbonato de potássio... E então ele propunha um chá com pãezinhos e uns minutos de descanso.
Eles merendavam, e o homem se perdia novamente naquele livro; voz ou ruído algum o alcançava. Algumas vezes haviam conversado à respeito dele, e ficou claro que era um laço afetivo entre um homem velho e uma família morta à muito tempo. Uma predileção que o marcara e o trazia para perto destes afetos.
A relação pedagógica foi se diluindo ao longo dos anos, sendo substituída por amizade, e a qualidade indistinguível da arte do aprendiz o levou à uma proposta de sociedade.
Ele sorriu, e aceitou. Sabia da importância de sua ajuda, e do carinho do convite, e aquele foi um dia trabalhoso e feliz, um conjunto de répteis foi entregue e o soldo proporcionou uma mesa farta e um passeio tranqüilo no museu ao fim de tarde.
Entre armas e armados se desenvolvia histórias em figuras e eventos imaginários, representações tendenciosas. “Bichos” e objetos também traçavam períodos e eventos, e até fábulas se integravam à realidade para ser atrativo aos pequenos.
Era tudo belo, mesmo em tamanha pobreza de iluminação.
Em um canto as personagens de “O Mágico de Oz” desfilavam pela estrada de tijolos amarelos. Era uma composição pouco ortodoxa, com uma Dorothy não tão jovem, um Homem de Lata e uma “Leoa” impúberes, mas todos com rostos estampados por um sorriso satisfeito!
O ajudante não notou o “Espantalho”, talvez não houvesse, mas a surpresa maior foi ouvir seu mentor dizer:
-Não são lindos? Levei dois meses e eles parecem tão vivos quanto quando estavam!
O homem tombou, mas não deixou que a morte levasse consigo seu sorriso.
O pupilo não esteve na leitura do testamento, antecipara em muito o favor, e logo o corpo era entregue naquele mesmo museu.
Finalmente o quadro foi completado com um espantalho de rosto vincado, sorridente; e não somente Dorothy pôde voltar para casa.


Anderson Dias Cardoso.

domingo, 14 de agosto de 2011

As Bodas de Faraó.


A solidão lhe incomodava depois de tanto tempo e ele deu ordens aos seus assessores para que noticiassem sua intenção de contrair novas bodas, então todas as mídias foram inundadas por fotos e matérias a respeito do bilionário solitário.
No processo não foram estipulados requisitos para as candidatas, pois era considerado que qualquer um deles poderia ser simulado então era mais proveitoso deixar vir cada uma em suas próprias características, e uns poucos excessos.
A seleção, contrariando as expectativas, não foi franqueada a alguma emissora e se deu de maneira mais discreta o possível em lugares obscuros e por métodos totalmente desconhecidos, mas nada impediu a proliferação natural de boatos, dos quais o mais comum dizia que o pretendente pertencia a descendência de um faraó da XXX dinastia; um filho de Nectanebo II era a constante mais glamorosa, ou menos ofensiva.
O concurso não demorou mais que oito meses; a idade avançada, a saúde vacilante e a crescente impaciência afetiva o adiantaram muito e fizeram ignorar uns tantos procedimentos para uma escolha sensata.
Foram descartadas  todas as aparentes oportunistas, mas algumas se dissimularam tão eficientemente que era impossível não desconfiar de toda honestidade demonstrada.
O par que se formou era dos mais grotescos!
Ela era da idade de 19 anos, pele fresca, olhos escandalosamente verdes, fios trigueiros mas tais atributos não chamavam tanta atenção quanto à boca delicada que sempre exibia um sorriso travesso.
Ele contava 84 anos, e o corpo vestia-se de rugas, os olhos tinham pálpebras pesadas, das quais as inferiores se debruçavam em bolsas volumosas, o cabelo era ralo e artificialmente negro, e ainda, seu muito peso e pouco bom gosto ao se trajar escondia com escândalo o mínimo carisma que possuía.
A ninfeta se acostumou fácil à fama, e se dizia cada dia mais apaixonada e proclamava seu desejo de um filho, que sabia não ser mais possível.
Chamava seu “amor” Faraó e contratou pesquisadores para rastrear a raiz genealógica, e logo comprovou (não se sabia se por fraude ou verdade), que realmente pertencia à nobreza egípcia!
A mulher promoveu eventos culturais relacionados à terra do Nilo, insistiu em uma maior valorização desta civilização e espalhou hieróglifos e demóticos por toda parte.
Se havia zelo por parte da esposa, maior era o dos empregados mais próximos.
Eles reclamavam dos discretos adultérios, gastos astronômicos com supérfluos e implicâncias com serviços e relações entre patrão e empregados, que eram ridiculamente amistosas.
Uma pneumonia acamou o magnata, e a iminência da morte circundou o leito de afetos, interesses e ansiedades.
A morte veio tranqüila dois dias após o diagnóstico, e a viúva tinha os olhos sorridentes e a boca contorcida em uma angústia forjada.
Ela designou responsáveis para realizar um pomposo enterro, porém o mordomo a alertou que tudo havia sido previamente preparado e que ela só precisava se ornar com suas melhores vestes.
O desejo de um enterro discreto foi cumprido; mesmo sua morte não foi anunciada, e somente dois carros levavam o cadáver para seu descanso. Eles continham o mordomo, duas camareiras o motorista e a belíssima esposa.
Ela vestia vermelho e contrastava em muito com as roupas negras de todos.
A viagem foi longa e sinuosa, ela dormiu um pouco e quando acordou se viu  perdida numa vastidão de caules cinzas e copas verdes, era um lugar estranhamente belo e pelas frestas das árvores viu haviam alguns montes marcando o horizonte.
O carro parou quando a mata o engoliu, e eles desceram o esquife sob protesto da viúva; ela reclamava do absurdo daquele local e funeral, mas os seguiu por um caminho muito longo naquela mata, convencida por uma clausula testamental citada com muito entusiasmo pelo mordomo.
O caminho estreito findou se em uma gruta, o chofer se adiantou alguns minutos e puderam notar pequenos fachos brilharem naquele interior, eles os reconfortavam e espantavam um dos medos primordiais, então todos entraram e caminharam bastante à meia luz e quando os joelhos se tornaram em tormento avistaram uma parede talhada na rocha, e uma pequena porta ainda mais sólida.
Ao entrar um espanto!
 Um altar dourado era o centro do salão,no qual foi deitado o corpo todo atado, o teto e chão eram forrados por estátuas, vasos, jóias e todo o panteão egípcio estendia suas mãos para os receber.
Era realmente lindo. Assustador!
A mulher se virou no ímpeto de escapar daquele lugar, mas uma das criadas a segurou os pulsos.
Ela se debateu muito e outras duas destas figuras se aproximaram para a confortar, e mantê-la ali;o mordomo palmilhou tranqüilo rumo à porta, e dando duas voltas nas muitas trancas  atirou a chave por um buraco escavado e adornado por pictogramas.
Ele se virou para todos, e disse a ela:
-Não se preocupe, passaremos juntos a uma nova vida onde o Faraó será jovem e vigoroso e nós seremos parte de seu novo reino!
Não houve mais barulho algum, somente um fraco murmurar de uma mulher que se recusava a morrer.
 
 
Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O Espelho.


Finalmente foram atendidas as reivindicações de um banheiro público a aquela cidade.
O pequeno luxo foi atração em meio à tanta carência, e foi visitado mesmo por intestinos vazios. Pura curiosidade!
Das atrações as mais apreciadas inicialmente foram as torneiras de pressão e as secadoras elétricas; até descobrirem o espelho.
Numa segunda feira o primeiro visitante necessitado notou números e letras reluzentes contra a superfície reflexiva. Eles descreviam os concursos de várias loterias e seus respectivos resultados e dia.
Ele tomou aquilo como chiste e deixou que algum outro tolo fosse motivo de riso em seu lugar.
Outros muitos não consideravam assim, leram, copiaram e apostaram.
O concurso de valor maior foi o alvo único da tentativa e foram feitos 142 vencedores, todos maravilhados pela magia do ganho fácil.
A grande quantidade de apostadores contemplados garantiu um pequeno prêmio, mas haviam planos em todas as mentes para ganhos mais volumosos.
No dia posterior, quando velhacos madrugadores visitaram os banheiros em busca outros números o local havia sido violado, e o espelho furtado.
Na ânsia de segurança financeira, e na desconfiança e medo de roubo o ladrão apostou sem intermediários e ganhou todos os concursos; mas logo a inveja e ressentimento fizeram se espalhar a notícia de que tais coincidências era dolo; artifício fraudulento de um objeto mágico que lhe ditava os acertos.
Os milhões daquele homem se acumularam e a notícia surtiu efeito gerando descontentamento nos demais apostadores, que na melhor das hipóteses dividiam o prêmio com alguém que tinha informações privilegiadas.
As loterias não eram mais dignas de respeito!
 Caixa Econômica e políticos que se sentiam prejudicados foram às mídias para desmentir o absurdo supersticioso que apontava um único ganhador infalível, que supostamente se utilizava de meios mágicos.
  Tal anuncio foi arrematado à apresentação de ganhadores diversos àquele e à uma operação secreta que buscava o responsável pelo desarranjo inconveniente num processo tão lucrativo como jogos de azar.
Tanto o crânio quanto o espelho foram partidos, findando aquela estranha problemática.
A polpuda poupança passou à contas menos dignas, de trapaceiros mais eficientes e as loterias continuaram em sua normalidade, sendo sonho de pobres e fortuna de ricos.

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 7 de agosto de 2011

Astronautas,Desejos e Estrelas Cadentes.

Pregos, tábuas, rodas de bicicleta para um constructo quase onírico.
Atava tudo muito rente e enfeitava as estruturas com brilhos metálicos de latas e adesivos.
As asas eram firmes e o corpo robusto da nave acomodava um banco, cantil, biscoitos e brinquedos. Um capacete ciclístico cobria sempre o rosto e desalinhava as madeixas.
Não havia sofisticação ou dimensões de um foguete real, mas a visão infantil transformava as formas em algo mais que suficiente.
Naquele dia pretendia, ao menos visitar a lua, marte, o sol e um outro planeta circundado de anéis, ao qual nunca se lembrava o nome.
Então laborou mais, e mais rápido e encerrou a cansativa empreitada sob fracas luzes incandescentes.
O céu parecia ainda mais esplêndido e foi mirando absorto sua grandeza que viu  uma estrela cadente marcar a noite, e isso foi oportunidade para o desejo.
Cerrou os olhos, pediu, e escapou um sorriso.
O capacete foi posto e ajustado e ele se lançou célere ao banco plástico atando com destreza o cinto de couro.
As tábuas rangeram ao serem alçadas naquela noite calma, e não houve aquele temor inicial, antes, uma excitação crescente ao ver se distanciar sua casa, quadra, bairro...
O foguete artesanal manteve certa coesão enquanto ganhava progressivamente velocidade e altitude, porém o atrito, à certa altura, começou a agredir as carnes e romper tecidos.
A criança chorou seu desespero, não podendo ver incendiar a nave pois suas pálpebras tentavam resguardar os olhos do vento agressivo.
Os pulmões logo não conseguiam alcançar oxigênio, e ele desmaiou antes de se desfazer na estratosfera, em um brilho repentino.
No solo milhares de olhos o viram como um cometa...
Outros mil pedidos foram feitos.

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Amor e Loucura.

O contador de estórias, ele mesmo presenciou tal acontecimento: Os loucos se amaram!
O namorado entregou a caixa vazia e a namorada a abriu se encantou e ergueu polegar e indicador que seguravam o nada, e o olhou contra a luz, enxergando um brilho no vácuo.
-O mais belo anel de todos!Diamantes graúdos para celebrar um amor eterno!- E ela ornou o anular, orgulhosa da proposta.
Ela vestiu se de lírios, e se coroou com trançados silvestres.
Ele vestia jeans e camiseta de banda, e os ralos cabelos teimavam em se desalinhar.
Tomaram animais por convidados, e antigas árvores por testemunhas e se riram satisfeitos do enlace; mas o amor secou no mesmo repente do nascimento.
Ela se viu enamorada por um anjo, ou criatura abstrata; e ele tentou lhe apreender a alma, mas ela era esquiva ao toque, fria ao apelo.
Ele capturou um vento, e lhe armou um laço para os fios, mas ela desfez o arranjo.
Presenteou-a com uma flor que ainda não havia sido inventada, mas o cheiro não trouxe sensibilidade ao coração.
Cantou com o pensamento a mais bela música, mas aos ouvidos impassíveis soou como cacofonia.
Em desespero o amor ciumento tentou matar o amante, mas qual era seu rosto e quem era sua pessoa?
Se algum dia o via, era reflexo nos olhos da amada, e se era anjo para ela, ele o chamava demônio!
Na negociata sentimental ele ofereceu um meio coração, mas ela preferiu seu amor inteiro, visceral e egoísta e se afastou para nunca mais voltar.
O namorado, entristecido lançou o anel que não existia de sua mão, e curiosamente o contador de estórias viu que mesmo assim ele lhe marcara o dedo.

 Anderson Dias Cardoso.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O Painel Dos Pintores Mortos.


Sempre havia um sorriso para aquela ala, para aquele painel quase folclórico onde orgulhosamente apresentava seus notórios antepassados em um emaranhado barroco de rostos.
Rezava a lenda que o primeiro à finar foi Augusto. Pintou-se numa jocosa brincadeira, onde ele era o coveiro que sepultava a si mesmo, e sorria, pá em punhos e cara cadavérica. Mal se diferençava o vivo do morto.
Tal brincadeira e logo descia deveras à cova.
Seu irmão, Afonso, lhe prestou homenagem e continuou os belos traços, se representando travestido de padre em exercício de extrema unção, concedendo ao menos o paraíso ao que, pela insensatez do chiste debochado pagou com a vida tal irreverência!
Morto também o irmão, em destino semelhante, interveio o filho deste com acréscimos de uma procissão, e se confortou se pintando anjo para guiar os dois parentes à glória celestial.
Seu destino não foi diferente, recebeu recompensa pela insolência e deixou os pincéis que recebera de seu pai, que recebera do irmão de seu pai, ao seu filho, que ousou pintar sua mão como a mão estendida de Deus resgatando a parentada morta.
Morreu também, este e outros tantos que fizeram emendas à obra mórbida, e aos que foram adicionados como figurantes no enterro, e este estojo que carrego em minhas mãos é testemunha de cada tragédia, e chegou-me através de um pai zeloso que morreu de velhice, e me impediu de brincar com minha vida pintando o que quer que seja nesse imenso recorte de mortes!
Não sou supersticioso, mas não flerto com as possibilidades; por mais absurdas que possam parecer, e assim como me mantive artista; porém longe dessa imensa representação da morte assim ensinarei ao meu filho Lucas que evite este local, e possa se manter vivo!
Ele será um grande artista! Em seus seis anos já caracteriza à todos que lhe agradam o coração com desenhos cheios de personalidade, bem similares ao real! Não e mesmo Lucas?
A menção do nome despertou a criança ruiva do transe, e ela se desviou dos rabiscos que traçava em giz vermelho.
O pai notou os óculos redondos, o bigode ralo, a discreta calva e a camisa xadrez numa figura próxima ao caixão.
Lágrimas deslizavam pelas bochechas rosadas.
Uma tristeza profunda beijou o coração paterno, ele se abaixou, abraçou a criança e lhe entregou o estojo.
Ambos sabiam o que isso queria dizer.

 Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Quem se importa?


Mal se aproximara do balcão e um atendente solícito lha devolvia o sorriso.
-Então, o que deseja a senhorita?
-Gostaria de adquirir alguns metros de corda.
-Temos cordas naturais e sintéticas, de três e quatro pernas, trançadas, torcidas, com ou sem alma... -O sorriso se enlargueceu na face mostrando o orgulho de funcionário entendido- Preciso saber a finalidade para aconselhar o melhor produto.
-Quero uma suficientemente confortável para um enforcamento.
-Seria para algum animal, ou pessoa?
-Para mim mesma- Sorriu um sorriso curto, e ele retribuiu com sorriso e movimentos exagerados denotativos de sua presteza.
-Sisal está fora de cogitação, seu atrito pode causar queimaduras dolorosas e em alguns casos decapitações. Acredito que isso seria demasiado desagradável, sangue tem efeitos emocionais pouco poéticos e indesejáveis a esse tipo de morte.
-Quero o chão branco como sempre, e o menor desconforto possível.
-Aconselho uma corda trançada de nylon com alma, elas são extremamente macias e fáceis de manusear, inclusive em amarrações, nós...
-Essa deve servir! Corte-me um bom pedaço para que o serviço não me seja perdido.
-Qual seria a altura do telhado da casa da senhorita?
-Mais ou menos quatro e meio.
-É um pouco alta. A senhorita terá alguma ajuda  nessa empresa?
-Me enforcarei na parte mais baixa, onde uma cadeira me bastará.
-Vejo que sabe se preparar; mas preciso de seu peso para calcular o diâmetro mais adequado para suportar o impacto de seu corpo... À propósito a senhora já examinou as condições estruturais do seu telhado, não é mesmo?
-Claro, a casa é nova não obstante já provei o madeiramento e ele é suficientemente forte. Meu peso é 42.
-Hum... P=m.g , daí existe a tensão da corda T=m+a... Aqui está! Acredito que uma corda de nylon de 8mm deve lhe servir bem. Alguma preferência de cor?
- Acredito que amarelo trará um pouco de ironia ao evento.
-Precisa de ajuda com os nós?
-Não, meu irmão foi escoteiro.
O vendedor desapareceu por um pouco, e logo surgiu já com embrulho em mãos.
-Consegui-lhe um bom desconto, sei que não será nossa cliente, mas aceite o agrado como um presente por sua simpatia.
-Obrigado, o senhor foi muito atencioso. - Ela sorriu-lhe uma última vez e deixou a loja.
Lavou-se, vestiu uma roupa que lhe agradava e preparou cuidadosamente a amarradura, com muita calma e nenhuma excitação. Ninguém estaria em casa antes das 7:00.
Serviu-se de uma boa xícara de café recém passado,um último prazer; estendeu um metro quadrado de plástico sob as pernas da cadeira, e se descalçou das sandálias, não queria ruído algum; escalou a cadeira e deitou seu pescoço no laço.
Saltou.
O corpo não se convulsionou muito, a língua saltou rebelde da boca roxa, os olhos se reviraram nas órbitas e o conteúdo dos intestinos foi excretado naquele espetáculo sem muitos movimentos.
Ela havia escolhido o silêncio, não queria incomodar a vizinhança.


 Anderson Dias Cardoso.

domingo, 24 de julho de 2011

Um Dia Se Perdeu.

Relógio Quebrado
Acordou sentindo a falta do dia anterior, como algo não vivido, como fragmento existencial perdido por qualquer razão.
Despertara da mesma forma; braço anestesiado, vista embaçada, nada diferenciando o episódio de outros tantos, exceto pelo salto de todas as datas; do jornal à folhinha embolada na lixeira.
Ninguém reclamou o dia de trabalho ou sua presença em qualquer parte e o celular não registrou alguma chamada.
Tentando compreender o fenômeno primeiro se certificou que lhe faltava mesmo as vinte e quatro horas ligando para todos conhecidos, e a cada resposta positiva mais se angustiava e logo abandonou a imensa lista pelo meio e se esqueceu de si um pouco no conforto do sofá. Mas logo se via enlouquecido pela anormalidade temporal que lhe havia roubado um dia sem que se tivesse entorpecido, ou sofrido algum dano neurológico.
Sentou-se à mesa e vasculhou a internet casos semelhantes, e encontrou desde abduções e viagens temporais à catalepsia mas não se deu por convencido por qualquer argumento ou hipótese então saiu para capturar um pouco de realidade em uma caminhada.
Nem noite fresca, ou silêncio do horário adiantado o permitiram alguma calma e ele procurou espaços pouco iluminados para se recostar, mas em alguns minutos já perambulava novamente tentando alcançar o dia de ontem.
No dia subseqüente inquiriu à todos sobre sua experiência, e foi repreendido por sua excitação pela maioria, e no decorrer dos dias mergulhou em frenéticas pesquisas, e o assunto era mais que recorrente e as pessoas de seu convívio, cada vez mais irritadiças.
De cético passou à crédulo, não em uma teoria, mas em todas. Cada qual num momento.
Pediu demissão de seu emprego, mudou-se para a casa da mãe; temia perder outro dia para entidades malignas, para o deus Cronos, em um buraco de verme,em uma psicose,em um surto cataléptico, ou ter lembranças sendo apagadas pela doença de Alzheimer...
Já mal dormia; o dia perdido tomou sua vida inteira.

Anderson Dias Cardoso.
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