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domingo, 29 de setembro de 2013

Morte Inócua...Not!


O corpo tremulava inda um pouco, e lhe perturbava aquele cheiro e viscosidade de sangue nas mãos.
Não houve realmente um embate, e a morte atraiçoara e furtara por golpes de porrete outra alma enquanto deixava o corpo moído marcando o verniz do soalho.
Fora vingança, e, dizendo-se de passagem, bem merecida!
Executada em tempo e ocasião oportunas, em uma propriedade de impossível averiguação:
A mente!
Então seria crime sem pena, do qual o cadáver zambeteava por ai sem se dar conta de seu próprio fim.
Mas ainda assim lhe pesava aquela execução, a qual nem era incidente isolado; e o preocupava muito pensar que aquelas mortes honestas poderiam se materializar fora de seus horizontes oníricos caso afrouxasse seus freios sócio-religiosos...
A paz nunca nos fora uma coisa instintiva!
Tais pensamentos o perturbaram muito; ao ponto de afastar-se da picanha que fatiava como peça do almoço, e em níveis subconscientes, uma representação de seu desafeto; e se lembrou de quão exemplarmente se portava diante de seus pares, do esforço em se manter emocionalmente afetuoso à terceiros; e, sendo ele tal modelo de bom proceder, cidadão moralmente acima da média, o que se dizer dos outros tantos "delinqüentes contidos" soltos por aí, e que fazem da palavra segurança uma coisa impossível!
Consultou a internet e temeu as estatísticas:
Somos mais de sete bilhões de possíveis assassinos!



Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Quem se importa?


Mal se aproximara do balcão e um atendente solícito lha devolvia o sorriso.
-Então, o que deseja a senhorita?
-Gostaria de adquirir alguns metros de corda.
-Temos cordas naturais e sintéticas, de três e quatro pernas, trançadas, torcidas, com ou sem alma... -O sorriso se enlargueceu na face mostrando o orgulho de funcionário entendido- Preciso saber a finalidade para aconselhar o melhor produto.
-Quero uma suficientemente confortável para um enforcamento.
-Seria para algum animal, ou pessoa?
-Para mim mesma- Sorriu um sorriso curto, e ele retribuiu com sorriso e movimentos exagerados denotativos de sua presteza.
-Sisal está fora de cogitação, seu atrito pode causar queimaduras dolorosas e em alguns casos decapitações. Acredito que isso seria demasiado desagradável, sangue tem efeitos emocionais pouco poéticos e indesejáveis a esse tipo de morte.
-Quero o chão branco como sempre, e o menor desconforto possível.
-Aconselho uma corda trançada de nylon com alma, elas são extremamente macias e fáceis de manusear, inclusive em amarrações, nós...
-Essa deve servir! Corte-me um bom pedaço para que o serviço não me seja perdido.
-Qual seria a altura do telhado da casa da senhorita?
-Mais ou menos quatro e meio.
-É um pouco alta. A senhorita terá alguma ajuda  nessa empresa?
-Me enforcarei na parte mais baixa, onde uma cadeira me bastará.
-Vejo que sabe se preparar; mas preciso de seu peso para calcular o diâmetro mais adequado para suportar o impacto de seu corpo... À propósito a senhora já examinou as condições estruturais do seu telhado, não é mesmo?
-Claro, a casa é nova não obstante já provei o madeiramento e ele é suficientemente forte. Meu peso é 42.
-Hum... P=m.g , daí existe a tensão da corda T=m+a... Aqui está! Acredito que uma corda de nylon de 8mm deve lhe servir bem. Alguma preferência de cor?
- Acredito que amarelo trará um pouco de ironia ao evento.
-Precisa de ajuda com os nós?
-Não, meu irmão foi escoteiro.
O vendedor desapareceu por um pouco, e logo surgiu já com embrulho em mãos.
-Consegui-lhe um bom desconto, sei que não será nossa cliente, mas aceite o agrado como um presente por sua simpatia.
-Obrigado, o senhor foi muito atencioso. - Ela sorriu-lhe uma última vez e deixou a loja.
Lavou-se, vestiu uma roupa que lhe agradava e preparou cuidadosamente a amarradura, com muita calma e nenhuma excitação. Ninguém estaria em casa antes das 7:00.
Serviu-se de uma boa xícara de café recém passado,um último prazer; estendeu um metro quadrado de plástico sob as pernas da cadeira, e se descalçou das sandálias, não queria ruído algum; escalou a cadeira e deitou seu pescoço no laço.
Saltou.
O corpo não se convulsionou muito, a língua saltou rebelde da boca roxa, os olhos se reviraram nas órbitas e o conteúdo dos intestinos foi excretado naquele espetáculo sem muitos movimentos.
Ela havia escolhido o silêncio, não queria incomodar a vizinhança.


 Anderson Dias Cardoso.
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