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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Amor e Loucura.

O contador de estórias, ele mesmo presenciou tal acontecimento: Os loucos se amaram!
O namorado entregou a caixa vazia e a namorada a abriu se encantou e ergueu polegar e indicador que seguravam o nada, e o olhou contra a luz, enxergando um brilho no vácuo.
-O mais belo anel de todos!Diamantes graúdos para celebrar um amor eterno!- E ela ornou o anular, orgulhosa da proposta.
Ela vestiu se de lírios, e se coroou com trançados silvestres.
Ele vestia jeans e camiseta de banda, e os ralos cabelos teimavam em se desalinhar.
Tomaram animais por convidados, e antigas árvores por testemunhas e se riram satisfeitos do enlace; mas o amor secou no mesmo repente do nascimento.
Ela se viu enamorada por um anjo, ou criatura abstrata; e ele tentou lhe apreender a alma, mas ela era esquiva ao toque, fria ao apelo.
Ele capturou um vento, e lhe armou um laço para os fios, mas ela desfez o arranjo.
Presenteou-a com uma flor que ainda não havia sido inventada, mas o cheiro não trouxe sensibilidade ao coração.
Cantou com o pensamento a mais bela música, mas aos ouvidos impassíveis soou como cacofonia.
Em desespero o amor ciumento tentou matar o amante, mas qual era seu rosto e quem era sua pessoa?
Se algum dia o via, era reflexo nos olhos da amada, e se era anjo para ela, ele o chamava demônio!
Na negociata sentimental ele ofereceu um meio coração, mas ela preferiu seu amor inteiro, visceral e egoísta e se afastou para nunca mais voltar.
O namorado, entristecido lançou o anel que não existia de sua mão, e curiosamente o contador de estórias viu que mesmo assim ele lhe marcara o dedo.

 Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

As Trevas, o Silêncio e o Toque.


Julgava que minha criança estaria confinada às sombras e ao silêncio.
Não respondia a estímulos visuais ou auditivos e se debatia apartada da vida comum, causando nos  imenso tormento.
Era corpo presente e alma aprisionada...
No desespero da ocasião; num fluir de lágrimas disse  preferir que fosse aborto!
Gritei e me abracei  ao também desesperado pai, e ambos ouvimos os soluços famintos da criança.
A comoção da tragédia foi suplantada por instintos primários ,e mais uma vez ousamos nos aproximar do berço para nos  surpreender pelo amor que não havíamos notado, e não podendo nos conter tomamo-la nos braços e oferecemos mimos e alimento, e a meiga criatura silenciou e adormeceu.
A covardia inicial se converteu em força, e o amor resolveu cultivar aquela alma com todos os cuidados e recursos;caso não podendo trazê-la de seu confinamento, ao menos de alguma forma adentrariam aquele mundo de poucas impressões,  transformando aquele “quase existir” numa existência mais plena o possível.
Aconchegava-a ao peito para que sentisse o perfume suave de canela durante a amamentação, e incentivava as pessoas próximas que se marcassem com cheiros que os caracterizassem, então cada qual se perfumava, e se fazia conhecer por seu perfume!
Oferecia estímulos sempre notando as reações, e com dois tapinhas aos ombros lhe  despertava ao código que viria logo em seguida, e ela, já grandinha pedia atenção mostrando a mãozinha espalmada.
A mão nos lábios pedia água, à barriga mostrava a fome e eu ia apresentando e codificando os objetos e pessoas através do tato, e a fazia sentir seu corpo, e ainda o comparar aos  demais que a cercavam e logo era ela quem me apresentava novos sinais e me sensibilizava às texturas e formas de maneira que pudesse entender seu mundo!
Dos sinais o mais apreciado era o abraço!Ele dizia tudo!Ele era em si um mundo de significados!
A independência relacional foi seguida pela móvel, e nós a pusemos de pé e firmamos seus passos, e uma vez segura a fizemos conhecer a topografia do imóvel, em suas zonas proibidas e permitidas.
Apresentamos todos os objetos, ensinamos todas as funções, e uma vez absorvidas a lançamos ao mundo exterior, às ruas, carros, cães; e o sol se fez provar um pouco, e o vento fazia caricias violentas, e suas cócegas arrancavam risos.
Risos acompanhados pelos nossos!!!
Da amargura do nascimento atribulado nada restara! Naquele dia havia alegria nos três corações; e ao calor do dia perceberam que não haviam trevas densas suficientes para não serem iluminadas pelas brilhantes luzes do amor!

Anderson Dias Cardoso.
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