Tamanho esmero e destreza e já não podiam discernir em figuras estáticas, entre obra ou ser vivente.
Cruzou a soleira do artífice aos 13 anos, e ele o saudou como posteriormente outras tantas vezes marcando páginas gastas de “O Mágico de Oz” enquanto sorria inquirindo o motivo da visita; e o garoto disse que queria aprender o ofício.
O homem disse ser sujo, feio e repulsivo antes de terminado e o garoto disse ter estômago forte, então ele se deu por satisfeito por sua coragem e lhe fez uma proposta.
-As lições por um favor!
-Que favor?
-Algo que talvez nunca tenha de fazer, e mesmo que faça não lhe custará dignidade ou quebrará seus princípios...
-Preciso saber o que é.
-E eu preciso terminar aquela lontra... Pegue uma linha e agulha que lhe mostro como costurar e dar forma.
As mãos enchiam a pele, o homem o permitia dar um ponto aqui, outro ali, e naquele dia nada aprendeu além de se encantar com a perfeição daquele corpo ainda meio armado em arame e palha.
O lar do artesão era uma selva congelada, de cheiros estranhos e animais olhando dignamente o vazio e o garoto conheceu ursos, cobras, onças, garças e outros inomináveis devido à grande variedade e sua memória ruim. Às vezes era perturbado com movimentos imaginários das criaturas mortas, mas com o tempo se tranqüilizou por nunca ver descer do pedestal mesmo uma rã.
O mestre era sempre requisitado; sinceramente o melhor do país, e por acúmulo de encomendas o garoto o auxiliava cada vez mais e sorvia os segredos da profissão. O homem se orgulhava, e esperava para breve a equiparação do pupilo, que era esforço e paixão.
Eles se respeitavam.
Nos intervalos o taxidermista o congratulava pela extração perfeita do couro, ou pela a atenção em congelar um espécime o mais rápido o possível, na separação das químicas de conservação, a cânfora, ácido bórico, formol, glicerina, arsênico, carbonato de potássio... E então ele propunha um chá com pãezinhos e uns minutos de descanso.
Eles merendavam, e o homem se perdia novamente naquele livro; voz ou ruído algum o alcançava. Algumas vezes haviam conversado à respeito dele, e ficou claro que era um laço afetivo entre um homem velho e uma família morta à muito tempo. Uma predileção que o marcara e o trazia para perto destes afetos.
A relação pedagógica foi se diluindo ao longo dos anos, sendo substituída por amizade, e a qualidade indistinguível da arte do aprendiz o levou à uma proposta de sociedade.
Ele sorriu, e aceitou. Sabia da importância de sua ajuda, e do carinho do convite, e aquele foi um dia trabalhoso e feliz, um conjunto de répteis foi entregue e o soldo proporcionou uma mesa farta e um passeio tranqüilo no museu ao fim de tarde.
Entre armas e armados se desenvolvia histórias em figuras e eventos imaginários, representações tendenciosas. “Bichos” e objetos também traçavam períodos e eventos, e até fábulas se integravam à realidade para ser atrativo aos pequenos.
Era tudo belo, mesmo em tamanha pobreza de iluminação.
Em um canto as personagens de “O Mágico de Oz” desfilavam pela estrada de tijolos amarelos. Era uma composição pouco ortodoxa, com uma Dorothy não tão jovem, um Homem de Lata e uma “Leoa” impúberes, mas todos com rostos estampados por um sorriso satisfeito!
O ajudante não notou o “Espantalho”, talvez não houvesse, mas a surpresa maior foi ouvir seu mentor dizer:
-Não são lindos? Levei dois meses e eles parecem tão vivos quanto quando estavam!
O homem tombou, mas não deixou que a morte levasse consigo seu sorriso.
O pupilo não esteve na leitura do testamento, antecipara em muito o favor, e logo o corpo era entregue naquele mesmo museu.
Finalmente o quadro foi completado com um espantalho de rosto vincado, sorridente; e não somente Dorothy pôde voltar para casa.
Anderson Dias Cardoso.
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quinta-feira, 18 de agosto de 2011
quarta-feira, 18 de maio de 2011
As Trevas, o Silêncio e o Toque.
Julgava que minha criança estaria confinada às sombras e ao silêncio.
Não respondia a estímulos visuais ou auditivos e se debatia apartada da vida comum, causando nos imenso tormento.
Era corpo presente e alma aprisionada...
No desespero da ocasião; num fluir de lágrimas disse preferir que fosse aborto!
Gritei e me abracei ao também desesperado pai, e ambos ouvimos os soluços famintos da criança.
A comoção da tragédia foi suplantada por instintos primários ,e mais uma vez ousamos nos aproximar do berço para nos surpreender pelo amor que não havíamos notado, e não podendo nos conter tomamo-la nos braços e oferecemos mimos e alimento, e a meiga criatura silenciou e adormeceu.
A covardia inicial se converteu em força, e o amor resolveu cultivar aquela alma com todos os cuidados e recursos;caso não podendo trazê-la de seu confinamento, ao menos de alguma forma adentrariam aquele mundo de poucas impressões, transformando aquele “quase existir” numa existência mais plena o possível.
Aconchegava-a ao peito para que sentisse o perfume suave de canela durante a amamentação, e incentivava as pessoas próximas que se marcassem com cheiros que os caracterizassem, então cada qual se perfumava, e se fazia conhecer por seu perfume!
Oferecia estímulos sempre notando as reações, e com dois tapinhas aos ombros lhe despertava ao código que viria logo em seguida, e ela, já grandinha pedia atenção mostrando a mãozinha espalmada.
A mão nos lábios pedia água, à barriga mostrava a fome e eu ia apresentando e codificando os objetos e pessoas através do tato, e a fazia sentir seu corpo, e ainda o comparar aos demais que a cercavam e logo era ela quem me apresentava novos sinais e me sensibilizava às texturas e formas de maneira que pudesse entender seu mundo!
Dos sinais o mais apreciado era o abraço!Ele dizia tudo!Ele era em si um mundo de significados!
A independência relacional foi seguida pela móvel, e nós a pusemos de pé e firmamos seus passos, e uma vez segura a fizemos conhecer a topografia do imóvel, em suas zonas proibidas e permitidas.
Apresentamos todos os objetos, ensinamos todas as funções, e uma vez absorvidas a lançamos ao mundo exterior, às ruas, carros, cães; e o sol se fez provar um pouco, e o vento fazia caricias violentas, e suas cócegas arrancavam risos.
Risos acompanhados pelos nossos!!!
Da amargura do nascimento atribulado nada restara! Naquele dia havia alegria nos três corações; e ao calor do dia perceberam que não haviam trevas densas suficientes para não serem iluminadas pelas brilhantes luzes do amor!
Anderson Dias Cardoso.
domingo, 7 de novembro de 2010
Barbie X Darwin,e a Conspiração na Fila do Banco.

se, tudo nada muito divertido mas faz parte da ordem então se tolera; e
numa dessas duas senhoras muito bem vestidas discutem a
pós-modernidade das crianças e seus brinquedos, o tema específico no
momento em que comecei a me interessar pela conversa girava em torno
da boneca Barbie e sua separação do boneco Ken e o novo namoro com o
boneco Blaine um boneco Australiano surfista,coisa revoltante e
controversa:
-Pois é Fulana, agora estão substituindo as funções das bonecas,antes
eram uma forma lúdica de ensinar a maternidade às garotinhas,depois
com a industrialização passou a ensinar o consumismo,com todas aquelas
roupinhas,acessórios e tudo mais,mas agora estão extrapolando;estão
querendo transformar nossas filhas em vagabundas"!!!!Onde já se viu
Fulana;estão separando até as bonecas!!!!O mercado está pervertendo os
bons costumes da sociedade!!!Eles acabaram com um relacionamento de
quase cinquenta anos por causa de que...???Me diga Fulana, de que????
-Isso foi um golpe publicitário Cicrana,só querem chamar a atenção
para a boneca procurando melhorar a exposição no mercado por isso
arranjaram um novo namorado para a ela...
-Não Fulana,eles estão querendo criar uma sociedade pervertida...É uma
forma subliminar de induzir a promiscuidade em nossas filhas,você não
percebe que uma relação tão longa é uma analogia ao casamento???Eles
estão dizendo ao subconciente das nossas crianças que o casamento é
uma instituição falida!!!Estão profanando a instituição mais sagrada
da sociedade com essa versão "sem vergonha" da Barbie!!!
-Ah,Cicrana isso que está falando é um absurdo,é necessário ao mercado
dar uma embalagem mais atual ao seus produtos, por isso as vezes eles
quebram alguns paradigmas inventam alguma moda,a tendência pós-moderna
de comunicação é de aproximação de produtos, serviços e outras coisas
da realidade do dia-a-dia, você não reparou que até os jornais estão
mais informais???Hoje dispensam as bancadas sentam se em longos
sofás;existe mesmo uma tendência à "popularizar e humanizar" algumas
parcelas da nossa vida,criar identificação...
-Isso é "semvergonhice" disfarçada!!!Abra os olhos Fulana!Abra os
olhos!!!Vai indo de acordo com a filosofia do mercado e logo você verá
sua filha Beltrana chegar "buchuda" em casa,eles estão se apossando de
mídias e produtos e lançam atitudes e mercadorias impregnadas de
simbolismos e fiscalizam nas ruas as influências que geram nessas
pessoas...Lembra daquele corte ridículo de cabelo do Ronaldo???No
outro dia todas emissoras mostravam fãs de todo mundo com aquele mesmo
corte horroroso...e aqueles meninos da roupa colorida???As ruas estão
parecendo um desfile de escolas de samba de tão coloridos...não estou
dizendo que isso aconteceu nesses casos, pra falar a verdade pra mim isso
é mal gosto mesmo, mas essa é uma forma de avaliação de receptividade
muito utilizada...
-Mas o que isso tudo tem a ver com a separação da Barbie???
-Fulana,abre o olho!!!O mercado não é só uma versão singela do
Darwinismo onde os brinquedos seguem a lei de sobrevivência dos mais
aptos e as modificações não visam uma adaptação ao mercado mas elas se
adiantam às tendências ou as copiam no pior, sempre no pior, nós não
vemos tendências de fraternidade baseadas no ser, mas as bonecas sempre
aparecem unidas à um ambiente opulento, à bens e coisas do
gênero,sempre gerando uma aura de competitividade e outro fator que
usam é a sexualidade...as bonecas estão cada dia com roupas mais
indecentes...daqui uns dias aposto que lançarão umas bonecas
funkeiras, isso é se não houver alguma; já pensou Fulana,eles dão uma
nacionalizada na própria Barbie e dai jogam na favela coloca uma
roupinha de funkeira e fica algo como "Barbara Poposuda", já tô até
vendo, uma boneca bombada onde poderá se regular o volume de silicone
em qualquer parte bastando uma bombinha vendida separadamente...
-Hahahahah!Credo Sicrana,dai o quem vai virar "Mc Ken e o Bonde das
Bonecas"!!!Hahahaha!!!Você é mesmo doida!!!
-É isso,tudo para desagregar a sociedade!!!Hahahahahaha!!!
-Não entendi.
-Começou quando a revolução feminista nos enganou; ela nos prometia
igualdade entre os sexos, oportunidades de voto,emprego, e tudo mais
então nos jogou em um mercado, como mão de obra barata, sob olhares
preconceituosos e nos privaram da criação de nossos filhos,ao invés de
uma guerra de sexos, não se procurou uma conciliação, uma valorização no
contexto familiar que proporcionaria núcleos mais consistentes e mais
felizes , dai a sociedade começou a se desintegrar gradualmente, as
crianças ficaram sob os cuidados dos avós,ou mesmo de creches ou outros
cuidadores; os casais, cansados depois de um dia de trabalho pesado
chegam indispostos em casa e não tem tempo nem paciência para seus parceiros e
para seus filhos, sua educação passou a ser de competência de terceiros,
depois dos colégios e hoje deixamos nossas crianças sob a
tutela da tv e dos computadores,sem nenhuma fiscalização e lá eles
compram das séries, novelas,filmes uma ideologia promiscua, e o
relacionamento passa a ser uma troca de corpos, uma intimidade
vazia, traições, mentiras...
-Mas Cicrana,o que eles ganham com isso???
-O mercado, os governos, e todo orgão regulador tende a dominar através
do medo, e como o medo constante gera danos como pânico, depressão, e
desmotivação então eles se valem da irmã mais nova desta,a ansiedade, que causa
menos danos e produz consumismo como uma forma de satisfação
imediata; um atenuante para as tristezas da vida heheheheeheh!!!
-Entendi Cicrana,se você não pode contar com seus próprios pais, se
seus parceiros são meras peças a serem usadas e descartadas,e se o
mercado de trabalho se vale de uma concepção Darwinista, a política não
responde ao básico, então se recorre a esses subterfúgios de consumo
como um relaxante emocional, e esquece-se da família,não existem afetos,e os núcleos sociais são rompidos, então somem as lealdades e é cada um por si e todos pelo mercado!!!Mas quem estaria por trás disso tudo Sicrana???-E então nesse momento o caixa deposita a ultima nota nas mão da senhora que a outra chamava Fulana, ela interrompeu a conversa conferiu as cédulas e guardando-as na pequena bolsa se virou e foi explicando de quem se tratava naquela conspiração toda,e sua voz foi se perdendo no burburinho do banco e infelizmente não ouvi o final daquela interessantíssima história;mas aquela voz ainda continua em algum lugar da minha mente me dizendo:Abre o olho Fulana!Abre o olho!!!!
Anderson Dias Cardoso.
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