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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O Engraxate.

Acomodamo-nos próximos à porta; em lugar fresco, tentávamos adiantar o tempo para a aula em conversas comida e bebida.
O coreto em frente, a rua ao lado e a própria lanchonete eram vivos como um dia de sábado e eu notava um pouco de tudo e ainda me fixava nas banalidades ditas.
A barriga cheia e tempo ainda sobrando tendíamos em rematá-lo naqueles bancos duros, em silêncio, notando os fluxos e gestos do mundo ao redor.
Um garoto imundo rompeu nossa monotonia cruzando o portal; caixa de madeira enganchada no ombro esquerdo, levava seus petrechos e misérias ainda com porte digno.
-Moço, tenho fome... Pode me pagar um salgado?
-Claro, sirva-se!-A fome era coisa que me incomodava como uma afronta da indiferença, e eu observei o jovem se aproximar do balcão e pedir um pão de queijo.
Chocou-me sua humildade ao ver pegar o mais barato alimento da estufa, e eu me vi dizendo que pegasse um cachorro quente, ou o que lhe apetecesse, pois meu dinheiro era muito curto, mas bastava para lhe melhorar o paladar.
Ele pegou humilde um cachorro-quente, agradeceu com um sorriso e desceu os três degraus para a rua, foi quando se achegou um outro faminto e ele dividiu ao meio o que havia ganhado e ambos se foram.
A surpresa daquela misericórdia me prendeu ao banco, e de lá não me movi até que o garoto se desfizesse no emaranhado humano.
Queria ter ofertado um pouco mais deste meu pouco, mas a bondade alheia às vezes choca, escandaliza, paralisa...


Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

As Almas são Pretexto.

Cabeça,Lampada,Manto.
As almas escapavam dos lábios, dos gestos e pensamentos e os corpos seguiam como aparelhos orgânicos, instintivos, se aglomerando em grupos de afinidade rasos de comunhão.
O amor, no entanto, era repetido como mantra por toda boca e os abraços eram o inverso do calor, e o desejo se avolumava para se tornar em posse de uns outros espectros que nada irradiavam.
E eles se aproximam, e sua presença não me é bem vinda e eu reflito todos os atos e sorrisos, e minha aparente simpatia aos “espíritos dos mortos” me pesa como um constructo hipócrita; uma defesa aos “fantasmas” sociais.
E eu olho, aquele como perjuro, o outro como avaro, o casal como adúltero, as velhas que se assentam às sombras vespertinas, tecedoras de mexericos, e até àscrianças atribuo maldades e mimos!
A imagem do mundo é o retrato do limbo, e a maldade é quase tudo.
E ironicamente as almas perdidas esconjuram os demônios, mas apegam se aos seus vícios! 

Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 2 de março de 2011

A Pequena Crônica De Um Publicitário Em Potencial!

Duas cadeiras das muitas da barraquinha de hot-dogs ocupadas, uma conversa alegre, de
boca cheia; nada de importante apenas a diversão pós aula de sempre.
Interrompidos pela chegada de um amigo e seus novos amigos (coisa que faz parte da natural desagregação de fim do colegial) resolvemos os convidar a tomar assento.
Dessa reunião dois grupos de diálogo se formam, mas água e azeite novamente se repelem; um deles, meio constrangido silencia; e o recém chegado se empolga comentando os projetos musicais da banda que ameaça a se formar.
Eu tento falar ao amigo, mas os amigos do amigo eram mais ilustres e minha voz soou fraca
então preferi o silêncio!
A conversa atingiu o ponto do planejamento da capa do CD e as idéias (muito primárias por
sinal!) foram lançadas para a votação, e das melhores sacaram a tradicional proposta da
figura do monstro!
Monstro devorando, monstro no cemitério, monstro e mulheres nuas, monstro rasgando a capa do CD e saltando para fora...E enquanto decidiam a fonte e localização geográfica da mesma no CD eu pude escutar o nome da banda: "The Intruders"!!!
A negociação se desenvolvia empolgadíssima, e uma idéia me veio à mente, e desejei tomar parte da conversa:
- A banda se chama "The Intruders"?- Ousei; e as vozes se calaram atentas.
- Sim!
- "Os Intrusos", não é???
- Sim!- Houve uma expectativa em torno da minha interrupção.
- Vocês planejam colocar a figura de um monstro rasgando a capa do CD e saltando para
fora do mesmo?
- É.- Se inclinaram para frente.
- Acho essa idéia meio batida, que tal algo mais sofisticado e original?
- Como o quê?
Abri um sorriso perto do  cínico e disse:
- Um homem deitado, pronto para fazer seu exame de próstata!
E as gargantas liberaram as mais selvagens gargalhadas, e logo que as lágrimas deixaram de escorrer dos olhos divertidos um dos amigos do amigo me disse:
- Isso é que é ser intruso!!!Há,há,há!!! Ei amigo; você é engraçado; por acaso toca algum instrumento???

Anderson Dias Cardoso. 

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A Comédia do Nome.

Na maternidade o alvoroço, a decisão importante do nome do infante!
Uma colagem dos antepassados familiares, ou a homenagem às personagens famosas?
O que se ressaltar? Inteligência, sensibilidade, ou mesmo fortuna?
Ah! Para meu filho um nome espichado como o tal D.Pedro II! Nome nobre, imponente e com
todos os anjos e arcanjos!
Identidade de várias linhas, nome que chame a atenção, representação de todas as
virtudes!
E foi ditado ao oficial aquela composição enorme de nomes, e de Certidão à CPF, de
cartões à passaportes passou (o nome) a ser um espanto, enfado, e aborrecimento ao que o
pertencia; e nas progressões dos dias a mão que era ágil ao redigir tamanho título tornou se agora econômica e preguiçosa impressora de uma breve e estilizada rubrica!!!

Anderson Dias Cardoso. 

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Padeiros Não tem coração!

No rodízio para se comprar lanche o escalado foi "Fulano", sujeito baixo e robusto e em toda normalidade da situação chegou à padaria e fez seu pedido, e o padeiro, enquanto embalava as quitandas começou a assuntar:
-O filho do "Sicrano" também trabalha com vocês na Selaria?
-Sim, trabalha.-Respondeu Fulano lacônicamente.
-Ele deve comer como uma anta né???Digo...pelo tanto de quitandas que esta levando...
Fulano respondeu com um sorriso de mofa e apressou seus passos para compartilhar a galhofa com os companheiros de serviço.
O rosto de deboche, ao atravessar a porta chama a atenção, e a história arranca muitas risadas e uma promessa de vingança a ser executada no dia posterior.
Outro dia, e o ofendido se escala para à compra e promete, no mínimo desaforos!
E lá ele se demora um pouco, aumentando as expectativa e especulações a respeito do que seria feito ao pobre padeiro, pois o ofendido o excedia em muito em tamanho e força.
A chegada trouxe junto também um sorriso de escárnio, nada de sangue ou hematomas e quando questionado a respeito da vendetta respondeu satisfeito:
-Cheguei, pedi as quitandas e logo o apertei ameaçadoramente para que repetisse o que tinha dito de mim. Queria que me chamasse de "Anta" na minha cara!!!
-E ai??? O que ele disse???- Perguntamos ansiosos pelo desfecho da tragédia, e ele disse cheio de malícia:
-Ele disse que não tinha dito nada daquilo, e que isso era invenção daquele macaquinho!
Então as risadas mudaram de endereço!
 Essa é uma história real.


Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Inversões Em Uma Noite Estranha.

Curiosamente entre a marquise escura da auto-peças e o parque que, com suas luzes ofuscava
a noite um corpo se guardava do frio sob uns trapos sujos, cuja a voz se alteou mais que
as músicas que embalavam as brincadeiras e brinquedos do lado alegre da rua.
-Ei!
Ao acercar me o monólogo rápido expôs sua situação, e me comoveu com suas misérias:
-Sou aidético, morador de rua, estou doente e tenho fome...Podia me comprar algo para
comer?
O coração doeu de compaixão e revirei os bolsos e encontrando quatro reais, remanescentes
do último salário, meu suprimento para a próxima semana, resoluto atravessei a rua e
me desfiz da metade dessa minha pequena "fortuna" e na barraca de cachorro-quente  recheei
um pão com toda variedade e os melhores sabores possíveis para meus parcos recursos!
Atravessei contente a rua; o coração leve mesmo entendendo que a caridade quase me
esvaziara os bolsos e limitara ainda mais meu fim de mês.
Ao me notar, o corpo magro se endireitou recostando se na parede, e eu me inclinei
oferecendo-lhe um cachorro-quente fartamente recheado, e novamente sua voz soou forte para
agradecer:
-Cadê o refrigerante???
Não, não era para agradecer!Entreguei-lhe o agrado, e o deixei devorando o
"cachorro-quente seco"!
Aquela foi apenas uma das minhas estranhas noites que me lembro divertido mesmo após
tantos anos!!!

Anderson Dias Cardoso. 

sábado, 29 de janeiro de 2011

O Maior Anão do Mundo!

Selecionei uma, entre tantas salas de bate-papo, das não tão populosas pois multidões;
mesmo virtuais, me incomodam.
Digitei aquele nick e procurei por parceiros de prosa mas uns tipos pareciam invisíveis, enquanto outros gritavam e se faziam ouvir; e eu, "O Maior Anão do Mundo" dizia "olás" sem resposta até que a piedade me trouxe uma conversa morna que buscava o básico, sem intimidade.
Um preenchimento de prontuário para um doente social.
E eu disse do nome de minha mãe, minha ocupação, e os livros que li, e a pergunta tabu
veio embutida em uma dúzia de questões, disfarçando se de indiferença:
-Qual é mesmo sua altura?
Demorei pouco para responder; pensando se daria fim ao meu chiste, e à ignorância da
interlocutora:
-1,75.
A resposta arrancou uma interjeição e aqueceu a conversa; e novas linhas revelaram uma
vergonha do próprio preconceito:
-Mas disse que era anão!
-Sim, "O Maior Anão do Mundo"! Tão grande que minha deficiência escapa aos olhos pouco atentos!
Eu ri um pouco, mas logo uma pequena tristeza me tocou o coração, e eu pensei nas
possibilidades dessa realidade:
Ser homem pequeno;
E uma enorme solidão.

Anderson Dias Cardoso. 

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O Mágico?

Na infância, quando o parque era um lugar mágico, e o meu contato com o dinheiro se
resumia às coleções de poucas moedas me encontrei entre duas surpresas:Um passeio no
primeiro, e um pouco mais do segundo!
Naquele dia minha mãe deitou uma nota nova em minha mão estendida; eram cinco mil cruzeiros; uma
pequena fortuna para um garoto pobre; um tesouro a ser preservado por algumas semanas!
O passeio;  gostoso nos moldes proletariado, com ônibus, catraca, balas e balanços, num
parque que se dividia entre os novos brinquedos elétricos, que se agitavam velozes
brilhando suas luzes,  arrancando sorrisos e enchendo os peitos de singelas alegrias; e os tradicionais, tanto lúdicos quanto possível, um paraíso de altos e baixos de
gangorras, travessias de pontes e balanços de pneu!
E entre gritos, e sorrisos a energia quase infinita de meu corpo infantil se dissipava, gasta em traquinagens, e no fim da tarde a cantina exalou seus cheiros e fomos atraídos para o balcão das delícias,
das quais pedi um cachorro quente e logo saquei (confesso que com uma certa pena) aquela
nota nova e a estendi, pagando meu consumo.
Minha mãe se comoveu, recuou minha mão e acertou minha conta e minha alegria foi
completa; guardei meu tesouro no bolso limpei os lábios, vermelhos de ketchup, embolei o
guardanapo e, ainda sem nenhuma noção ecológica o atirei no canteiro verdíssimo!
No meu retorno uma verborragia entusiasmada desenhou meu passeio à imaginação dos que
não me acompanharam, e me emocionava descrever os brinquedos, sentimentos, e as cores do
dia, e no ápice do meu delírio arranquei orgulhoso minha nota de cinco mil cruzeiros, a
qual minha mãe me impedira de gastar, e a chacoalhei orgulhoso, então, surpreso notei que
a cédula havia se transformado naquele guardanapo sujo de ketchup...


Anderson Dias Cardoso. 

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Eclipse Galinhas e a Ortodoxia.

Dia ordinário, mormacento, e todos exércitos galináceos já haviam despertado pelo cantar
firme de seus galos e iam novamente se encaixando nas estruturas naturais do
galinheiro.
Houveram cópulas, disputas, posturas, muita ração e minhocas arrancadas da
terra fofa e o dia já alcançava a décima hora da manhã com todos seus tumultos; foi então
que a lua, em todo seu atrevimento começou a devorar o sol, movendo-se sobre ele.
O mundo se maravilhou e os óculos escuros e chapas de radiografia faziam visíveis o
devorador e o fagocitado, e aquela escuridão parecia diferente aos espectadores; quase
mística, e ela furtava não só toda a luminosidade mas também as atenções!E novos deuses nasceram daquele fenômeno,e ressurgiram outros tantos: sumérios, babilônios, incas...deuses astrais acrescidos ao panteão de superstiçõe, e o espetáculo da natureza forçou uma interpretação espiritual, uma ação dos astros além de suas competências...
Aquela noite, que caia quase que de improviso sobre o hemisfério sul quebrou o ritmo nas
cidades e campos, e naquele quintal as galinhas foram se acalmando, quase notando a
brevidade daquele dia e foram uma a uma se empoleirando nos galhos da jaboticabeira
cheias de energia porém resignadas à um dia tão curto em uma vida tão curta, aquele meio
dia com contagem de um.
Cada corpo se aconchegava à outro preparando-se para uma possível  noite fria, e os
movimentos diminuíram e o sono começou a ameaçar e pesar sobre os corpos penosos, e os
olhos cerraram findando a consciência de mais um dia...Mas, rápido como a vinda daquela
noite a segunda aurora trouxe seus primeiros raios, e eles foram se adensando até que as
pálpebras não mais pudessem retê-los por completo e o calor trouxe desconforto, e o chão
convidou a bailar entre comida e pó e a granja se alegrou,mas a noite retornou
naquele mesmo dia, não tão de assalto mas com uma suave gradação e um pouco menos confusa
e o novo amanhecer foi comum como todos os outros e na sucessão de amanhãs alguns daquela
geração morreram de peste, outros foram vendidos ao açougue, e novos ovos eclodiram, mas
os céus não lhe foram motivo de espanto, e não houveram profecias ou oráculos ou
interpretações astrais e então Deus viu maior razão nas aves que nos homens...

Anderson Dias Cardoso. 
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