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quarta-feira, 25 de setembro de 2024

Hoje Em Dia As Pessoas Não Sabem Interpretar Textos

Chegou em casa exausto. Atendimento ao cliente era uma área de sua profissão que às vezes, pensava, roubava-lhe algumas semanas de vida, por dia. 
Iniciou seu processo de relaxamento afrouxando a gravata.
Tirou os sapatos.
Pensou em preparar algo para comer, mas preferiu um banho quente antes.
Vestiu seu pijama mais confortável, preparou um sanduíche de presunto e apanhou um resto de refrigerante que sobrara dos dois dias anteriores.
Barriga meio cheia, decidiu-por sentar em sua poltrona predileta.
Os ombros e lombos estavam rijos de tensão, e a cabeça começava a prenunciar alguma dor.
Olhou para um lado, e encontrou uma revista que havia surrupiado de seu emprego, por conta de umas fotos de garotas bonitas que o encantaram.
Ele mesmo, não era muito dado à leitura.
Folheou o objeto sem muito entusiasmo, já que duas ou três visitas suas àquelas folhas haviam destruído boa parte do poder que a novidade empresta às belezas.
Página 85, e algo lhe chamou a atenção.
Um artigo falava sobre os benefícios da meditação e exercícios de respiração para o corpo e mente, além de suas propriedades "desestressantes".
Ousou ler algumas linhas, tentando encontrar o que lhe ajudasse com seu corpo "moído".
Chegou numa parte a qual ensinava alguns exercícios de respiração, que, teoricamente, limpariam a mente, enquanto aliviariam-lhe a "surrada carcaça".
Endireitou sua coluna em seu estofado, e leu alto, enquanto praticava:
- INSPIRE - os pulmões se estufaram de ar.
- EXPIRE - os gases quentes foram lentamente soprados por sua boca, enquanto seu pescoço e corpo se inclinavam em definitivo sobre o confortável sofá.



Anderson Dias Cardoso.




domingo, 14 de agosto de 2011

As Bodas de Faraó.


A solidão lhe incomodava depois de tanto tempo e ele deu ordens aos seus assessores para que noticiassem sua intenção de contrair novas bodas, então todas as mídias foram inundadas por fotos e matérias a respeito do bilionário solitário.
No processo não foram estipulados requisitos para as candidatas, pois era considerado que qualquer um deles poderia ser simulado então era mais proveitoso deixar vir cada uma em suas próprias características, e uns poucos excessos.
A seleção, contrariando as expectativas, não foi franqueada a alguma emissora e se deu de maneira mais discreta o possível em lugares obscuros e por métodos totalmente desconhecidos, mas nada impediu a proliferação natural de boatos, dos quais o mais comum dizia que o pretendente pertencia a descendência de um faraó da XXX dinastia; um filho de Nectanebo II era a constante mais glamorosa, ou menos ofensiva.
O concurso não demorou mais que oito meses; a idade avançada, a saúde vacilante e a crescente impaciência afetiva o adiantaram muito e fizeram ignorar uns tantos procedimentos para uma escolha sensata.
Foram descartadas  todas as aparentes oportunistas, mas algumas se dissimularam tão eficientemente que era impossível não desconfiar de toda honestidade demonstrada.
O par que se formou era dos mais grotescos!
Ela era da idade de 19 anos, pele fresca, olhos escandalosamente verdes, fios trigueiros mas tais atributos não chamavam tanta atenção quanto à boca delicada que sempre exibia um sorriso travesso.
Ele contava 84 anos, e o corpo vestia-se de rugas, os olhos tinham pálpebras pesadas, das quais as inferiores se debruçavam em bolsas volumosas, o cabelo era ralo e artificialmente negro, e ainda, seu muito peso e pouco bom gosto ao se trajar escondia com escândalo o mínimo carisma que possuía.
A ninfeta se acostumou fácil à fama, e se dizia cada dia mais apaixonada e proclamava seu desejo de um filho, que sabia não ser mais possível.
Chamava seu “amor” Faraó e contratou pesquisadores para rastrear a raiz genealógica, e logo comprovou (não se sabia se por fraude ou verdade), que realmente pertencia à nobreza egípcia!
A mulher promoveu eventos culturais relacionados à terra do Nilo, insistiu em uma maior valorização desta civilização e espalhou hieróglifos e demóticos por toda parte.
Se havia zelo por parte da esposa, maior era o dos empregados mais próximos.
Eles reclamavam dos discretos adultérios, gastos astronômicos com supérfluos e implicâncias com serviços e relações entre patrão e empregados, que eram ridiculamente amistosas.
Uma pneumonia acamou o magnata, e a iminência da morte circundou o leito de afetos, interesses e ansiedades.
A morte veio tranqüila dois dias após o diagnóstico, e a viúva tinha os olhos sorridentes e a boca contorcida em uma angústia forjada.
Ela designou responsáveis para realizar um pomposo enterro, porém o mordomo a alertou que tudo havia sido previamente preparado e que ela só precisava se ornar com suas melhores vestes.
O desejo de um enterro discreto foi cumprido; mesmo sua morte não foi anunciada, e somente dois carros levavam o cadáver para seu descanso. Eles continham o mordomo, duas camareiras o motorista e a belíssima esposa.
Ela vestia vermelho e contrastava em muito com as roupas negras de todos.
A viagem foi longa e sinuosa, ela dormiu um pouco e quando acordou se viu  perdida numa vastidão de caules cinzas e copas verdes, era um lugar estranhamente belo e pelas frestas das árvores viu haviam alguns montes marcando o horizonte.
O carro parou quando a mata o engoliu, e eles desceram o esquife sob protesto da viúva; ela reclamava do absurdo daquele local e funeral, mas os seguiu por um caminho muito longo naquela mata, convencida por uma clausula testamental citada com muito entusiasmo pelo mordomo.
O caminho estreito findou se em uma gruta, o chofer se adiantou alguns minutos e puderam notar pequenos fachos brilharem naquele interior, eles os reconfortavam e espantavam um dos medos primordiais, então todos entraram e caminharam bastante à meia luz e quando os joelhos se tornaram em tormento avistaram uma parede talhada na rocha, e uma pequena porta ainda mais sólida.
Ao entrar um espanto!
 Um altar dourado era o centro do salão,no qual foi deitado o corpo todo atado, o teto e chão eram forrados por estátuas, vasos, jóias e todo o panteão egípcio estendia suas mãos para os receber.
Era realmente lindo. Assustador!
A mulher se virou no ímpeto de escapar daquele lugar, mas uma das criadas a segurou os pulsos.
Ela se debateu muito e outras duas destas figuras se aproximaram para a confortar, e mantê-la ali;o mordomo palmilhou tranqüilo rumo à porta, e dando duas voltas nas muitas trancas  atirou a chave por um buraco escavado e adornado por pictogramas.
Ele se virou para todos, e disse a ela:
-Não se preocupe, passaremos juntos a uma nova vida onde o Faraó será jovem e vigoroso e nós seremos parte de seu novo reino!
Não houve mais barulho algum, somente um fraco murmurar de uma mulher que se recusava a morrer.
 
 
Anderson Dias Cardoso.

segunda-feira, 21 de março de 2011

O Ciclo Das Mediocridades.


Novamente humilhado naquele emprego ridículo, por um chefe despótico em uma situação financeira pouco melhor que a sua  foi outra vez se refugiar no diminuto banheiro tentando esconder algumas lágrimas e esvaziar a bexiga tensa.
Livrou se do choro com um pouco de água fria, recostou-se na vagabunda porta de lata, que gemeu alto e então levantando  afastou-se, e enquanto a respiração reencontrava seu compasso a bexiga reclamou por alívio.
Executava todo o ritual de se despir quando, olhando para o interior da bacia encontrou uma formiga que por lá errava próxima a água.
Ele conteve ainda a urina e se maravilhou com as proporções entre si e a formiga.
Esqueceu suas  vexações e se imaginou um colosso capaz de aniquilar toda uma colônia daquelas criaturinhas insignificantes. Sorriu de deboche, e urinou violentamente varrendo-a quase morta para a superfície das águas e completou seu escárnio com uma descarga a qual segurou a botoeira por longos instantes.
Saiu satisfeito, sentindo-se novamente homem, não verme!
Uma semana após, falecia por uma forte gripe...

Anderson Dias Cardoso. 
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