quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Os Homens Retalho.

A psicologia tecnológica paralela, marginal, já oferecia soluções interessantes para doenças emocionais e incapacidades sociais; no entanto, os exoprocessamentos das memórias por inteligência artificial pura ainda eram muito dispendiosos, e os algoritmos de apaziguamento interior, tão comuns neste mercado ofereciam contra indicações, e efeitos colaterais atraente somente aos totalmente desesperançados.
No entanto, haviam os “HOMENS RETALHO”, e as pequenas e obscuras companhias de transferência interpessoal de produtos mentais insalubres que, após o devido registro de acordo de serviço, e um pagamento prévio pelos mesmos, se prestavam a decantar e reprocessar, através de seus “profissionais”, os pontos de vista do contratante num sistema de filtragem, e reinterpretação emocional-sentimental.
Havia a garantia de sigilo em cada transação, e os momentos chave, as impressões negativas, e todas características do processo passavam por um codificador de identidade, e, segundo as compatibilidades os dados eram introjetados num “Retalho” pertinente, onde eram depurados de seus conceitos danosos e seguidamente preenchidos por características de auto-estima, indiferença, frieza.
O sentimento maturava até se tornar parte convincente do receptor (o que se realizava através do uso de psicotrópicos, privações, sugestões, emulações induzidas, etc. Todas suportadas pela empresa), e, quando já não havia distinção entre o "doente" e a mente contratada a mágica da panacéia de todas dores sentimentais ,que se dissipavam no corpo alugado!
Mais um cliente os deixava, cabeça rarefeita de alegria e conta bancária agressivamente saqueada:
“-Aos que vivem o pior de sua vida deve-se pagar muito bem!”- Eram quase as letras miúdas sob as quais firmou o contrato; e ele tinha noção, que a vida útil de quem era legião era muito curta...
Deveriam acrescentar ao documento:
“-Bons manicômios não são baratos!"


Anderson Dias Cardoso.

domingo, 29 de julho de 2012

A Invenção Do Homo Patheticus.

Nos limites da vaidade toda plástica exterior, com suas harmonias forçadas ao extremo por intervenções cirúrgicas não foram suficientes às ânsias do espetáculo pessoal, tornando se assim os aperfeiçoamentos da beleza sócio-comercial radicalizados por toda sorte de visionários de uma nova engenharia estética!
 Foi quando geneticistas intervieram com mesclagens cromossômicas e evoluíram artificialmente a espécie para um ser parte translúcido, ao qual nomearam como Homo-Pellucidum, do qual a moda se incumbiu de adornar, rearranjar ao sabor da criatividade!
Inventaram cores para os movimentados fluídos corpóreos com corantes artificiais, alegrando a vulgaridade do sangue, saliva, compostos gástricos, e até mesmo as fezes com tons dourados, extravagantes violáceos, azuis da Prússia, ou qualquer cor que pudesse ser imaginada, e assim, sintetizada!
Engenheiros anatômicos se encarregavam em rearranjar os espaços dos interiores corporais, deslocando um pâncreas, dilatando um pouco os pulmões para diminuir as distancias entre os intestinos, eliminando, ou adicionando veias e artérias para equilibrar os ambientes internos, muito freqüentemente, de acordo com feng shui!
Além dos esforços para a correção das deficiências estéticas hereditárias ou congênitas estes profissionais se juntavam, ocasionalmente, à especialistas ortopedistas, oncologistas, dermatologistas, dentre outros; para minimizar, disfarçar, ou ao menos alegrar qualquer mazela cosmética que pudesse afetar a elegância do contratado!
Então, ossos eram esculpidos, suavizados, ou extraídos, tumores eram camuflados, tingidos, ou modelados; órgãos atrofiados, apêndices, ou peças orgânicas em condições visivelmente deterioradas eram recompostos, holograficamente melhorados, e, às vezes, recebiam iluminação em neon!
Nunca antes, as enfermidades possuíram tanta sofisticação!
Neurologistas e engenheiros eletrônicos instalavam diodos, placas de silício, displays, que exibiam as transcrições dos movimentos do pensamento; em crânios de carbono, acrílico e platina!
Com tanta exposição de si mesmo haviam associações entre disciplinas como psicologia, ioga, e até mesmo implante de aparelhagens de simulação de estados físico-mentais; para que, toda beleza do corpo pudesse ser vista, sem que se pudessem ser compreendidas as complexidades e segredos do espírito, que teimavam em se revelar através de suas taquicardias, irrigações sanguíneas abundantes, e dificuldades pulmonares!
As ruas então eram sempre iluminadas por criatura de pele de vidro; corpos que, por vezes, carregavam efeitos visuais, e até mesmo propagandas...
Era a personalização absoluta do ser; de acordo com os mais exigentes padrões do mercado!


Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Êxodo Digital.


Quando se provou a inviabilidade existencial desta raça, quando se exauriu todo recurso, a tecnologia convidou a espécie à imersão final, e cada alma se tornou arquivo circulante nos nano circuitos de um mainframe absoluto!
O aparato se utilizava de conversores moleculares que processavam, e fundiam as abundâncias de nitrogênio, captados por capilares de absorção distribuídos pelo globo, e a totalidade de vidas simulava seus ambientes e vicissitudes numa superfície modesta de 1 km de raio.
Nos processos de digitalização dos indivíduos escolheu-se a normalidade da vida anterior, (ato que visava uma resposta homogênea à transição, não traumática) com toda sua hierarquia, burocracia, interações, estados d’alma e expectativa de vida, de forma que, após o “lapso” (período imediato à inserção) eram deletados os instantes de contato com a aparelhagem de suporte da virtualidade existencial, e logo houveram miríades de cápsulas corpóreas sendo esvaziadas, em um êxodo digital agitado, rumo à normalidade de um dia virtual vulgar!
Cada bit se encaixou em sua harmonia simulada, e em seus tempos retardados, empiricamente pré-calibrados por programas representantes, depois, por alguns doentes terminais, que receberiam a restauração de sua integridade no mundo artificial.
Um mundo exterior, entrópico, seguiu se degradando até a possibilidade de suas substâncias, e então, um pequeno globo e suas armações tentaculares se desprendeu da poeira do planeta para vagar até a consumação das blindagens de sua existência...
Conduzia consigo arquivos viventes, que eram a descendência digital daquilo que um dia fora vida!

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 22 de julho de 2012

Comum, Do Princípio Ao Fim.


Era uma lagarta inapetente, avessa às verdes folhas à despeito das obrigatórias reservas para transformações; permanecia na aparência de galho esbelto.
Não havia desejos por vôos, paciência para um claustro e dinâmicas de mudança.
Queria seguir o percurso da calma da existência acomodada ao padrão da forma presente!
Era lagarta anêmica, foi bicho solitário, permaneceu convicta, ainda quando as irmãs coloriram os céus!
Não polinizou flores, não provou néctar, não sentiu-se sendo carregada pelas brisas...
Comum, do princípio ao fim!
Uma rebeldia chamada acomodação!

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

A Vida é Muito Mais Estranha Que Bolachas Amanteigadas Em Um Copo de Leite!

Não pela dignidade da estrutura humana, ou algum sentimentalismo estranho destes cultivados, e cultuados nos dias atuais!Não!
Era mais um racionalismo matuto, torto pelas simplicidades, faltas de academicidade; cheio, no entanto de conceitos novos, lendas urbanas e pseudociências das quais fora imerso desde sua migração para uma destas pequenas Babéis que se multiplicavam às margens de quaisquer rotas de desenvolvimento.
Soubera, através de noticiário, que já beirava os limites da expectativa de vida de seu gênero, e, passou se preocupar com uma muito comentada suposta comercialização de vísceras de defuntos de parentelas omissas.
Tomou desesperado alguns “mirréis” de empréstimo com agiota barateiro e adiantou ao legista local qual o procedimento a ser tomado quando viesse à óbito!
O homem contou o dinheiro satisfeito, tentou o acomodar na carteira surrada, mas o volume impossibilitava o fechamento.
O camponês voltou à sua casa para anunciar a transação sensata que havia operado, garantindo que os desonestos não lhe roubariam as entranhas.
Esposa e filha se orgulhavam da engenhosidade do velho, e lhe preparam torresmo, lingüiça mista e carne de latão para agradar o espírito cansado das tribulações de um dia tão burocrático!
A comida agradou o paladar, e cerrou lhe também as coronárias!
O corpo esvaziado de espírito e entranhas foi velado na menor capela da cidade, e, após os prantos de respeito e saudade de uns poucos, a duas mulheres reivindicaram do subornado o produto de seus serviços, e ele entregou a caixa de isopor refrigerada por meia barra de gelo e toda aparelhagem interna do falecido. Aconselhou-lhas a salga, elas menearam a cabeça em concordância e partiram cambaleantes pelo peso do estranho souvenir.
Ainda hoje é mantida a peça ressequida e enegrecida, imersa num pequeno mar de sal, em uma caixa esmerada de vidro, bem ao lado da televisão...
Uma vela, e um terço toda semana, após a novela das oito... Os vizinhos sempre comentam!

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 15 de julho de 2012

A Dignidade Carpia o Lote...

A dignidade carpia o lote, paciente, e envelhecida, por uns poucos trocados!
Era negro, frágil, e exalante dos cheiros desgostosos da vida dura!
A minha brancura de clausura ardia, e minha falta de habilidade atrasava a lida...
Eu parei tantas vezes, e meu vigor era envergonhado pela cadência tranqüila do contratado, que vencia os seus e os meus espaços!
Vez em quando a carinha murcha se abria em um sorriso cansado de vida, mas, ainda forçado pela carência, sem intermitências de golpes prosseguia mesmo que eu chamasse para desfrutar um pouco de sombra!
Eu não o quero explorar!Pago o acertado, e espero que me saia um prometido emprego, para ofertar o que considero ao menos justo!
A dignidade tem cara que espanta...
E eu quero ser um dia de justiça ao que me fez grande favor!

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Quem é Este Teu Amigo?


A explicação de seu amigo invisível ia um pouco além de sua maturidade para lhe apresentar em características e deficiências; ela porém, não o podia o tocar, daí era óbvia sua intangibilidade!
Então as brincadeiras se davam estranhamente em cantorias de versos pausados, e apelos para que, por apreço à sua companhia o amigo representasse seu refrão, mas a boca dura se recusara tanto que a brincadeira perdera a graça!
A estranha relação cotidiana também exigia que a menininha alteasse muito a vozinha estridente, mas o resultado eram muxoxos e resmungos, ela dizia ser impossível a conversa, pois o amigo parecia surdo, e se lança-lhe a extravagante e colorida bola a vista parecia sempre distante!
Em minha preocupação paterna sentei a pimpolha no calor amoroso do meu colo, e perguntei identidade, aparência, filiação, idade, e tudo era normalidade e identificação infantil; menos a descrita desorientação dos olhos vazios e tristes do infante, e o rodear em seu próprio eixo!
Então, a imagem se refletiu no mar daqueles olhos pequenos, e meu beijo libertou a criança doente de suas amarras, e então, me decifrando por sentidos alheios me permiti voltar a minha infância.
Visitamos juntos o parque, e meu brinquedo favorito naquele dia!

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 8 de julho de 2012

Eu...Não Sou Você!

Estudara, e se empenhara em seus projetos de imortalidade relativa desde sempre, e sucedendo graduações meritosas nos ramos pertinentes da medicina procriativa e pesquisas de métodos de clonagens descobriu como burlar parcialmente os conselhos de moralidade e ética, assim como conceitos religiosos aos quais considerava retrógrados e impeditivos da evolução dos estudos que levariam à uma longevidade, senão, à quebra do paradigma da morte.
Clonou-se a si mesmo, e em silêncio viu o ventre contratado se expandir em uma vida projetada e programada. Esperou com ansiedades convulsivas até a chegada da criança...
Ela, nem de longe o lembrava em aspecto!
Confirmou cada exame, cada planilha, refazendo cálculos e requisitando exames cromossômicos; comprovou, porém, que as mudanças estruturais da criatura não se tratavam de alguma trapaça da contratada, e era uma possibilidade, ainda que remota, de brincadeiras de genes recessivos, ou mutações circunstanciais.
A criança foi crescendo, assim como a estranheza de dar às mãos à uma pequena imitação de si mesmo (que nada o refletia) em um passeio dominical em um parque.
Resolveu não se arriscar em outro empreendimento, já que sua consciência o impedia o descarte humano, e logo teria que se preocupar em resolver problemas genéticos herdados pela criança, além de características de envelhecimento precoce e outras doenças e falhas dos processos ainda imperfeitos de duplicação humana.
Em sua desilusão de uma réplica de exterior independente pôs se a tentar se propagar, se expandir imprimindo sua consciência parcialmente nessa nova vida de uma forma intelectual e ideológica.
Retirou-se com seu filho experimental, e o privou de contatos exteriores de qualquer espécie!
Vestiu-o com suas roupas, repetiu-lhe seus jargões e ideais ao pé do ouvido enquanto dormia, alterou fotos de sua infância com a face do menino, ensinou-o a gostar de blues e odiar comédias de situação e dias chuvosos!
Houveram psicotrópicos, subliminares, ameaças, violência; e a alma já crescida se rebelava, e se tornava em persona distinta, limitada e raivosa; com o corpo e a psiquê se rebelando, e somatizando as agressões em inapetências, vertigens, convulsões!
Em meio aos caminhos de transformação sempre haviam murmúrios, resmungos ignorados que remetiam,  provavelmente à dor causada pelos métodos...
O destes pareceu tomar forma no dia em que examinava e comparava o vocabulário à planilha proposta:
-Eu não sou você... -foi uma frase mal pronunciada que o trouxe à realidade.
Com o acerto de um pagamento substancial, e uma pensão vitalícia um casal aceitou o jovem sem mais perguntas; mas ele, em frente ao espelho via sempre uma imagem o acusar de ser uma outra pessoa...
Não se lembrava bem quem!

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

A Triste Ficção dos Fracos.

Um corpo saudável, e toda turbulência de vida dos sensibilíssimos inconformados com a mutabilidade agressiva das existências, e ele viveu sua agonia até insuportáveis 25 anos!
Pedia trégua aos sentimentos desfavoráveis, à melancolia, mas os horizontes se adensavam à cada enfrentamento e esforço de um sorriso; então, vencido pela desesperança, vendeu-se às soluções da medicina paralela, marginal, para provar um resto de existência ao gosto de suas expectativas.
E, ao assinar a papelada; ao se deitar para sua entrega ao entorpecimento do anestésico já sentia o alívio da saciedade de suas propostas de felicidade.
Quando acordou o universo lhe sorria em oportunidades, e as amizades recentes e antigas se acomodavam aos seus ideais, e cobriam as lacunas sentimentais que antes eram abismos.
Tudo era de contorno e coloração e reações previsivelmente amigáveis, seguras e cálidas como o abraço materno, e as noites teimavam sempre em fechar-lhe os olhos com um sorriso discreto e satisfeito nos lábios!
Teve lá seus três filhos, a esposa fiel, e a casa cheia de prazerosas e oportunas companhias; e envelhecendo, viu seus netos e bisnetos ocuparem e desarranjarem toda a harmonia da modesta casa com a agudeza de seus gritinhos, e lamento de seus choros manhosos!
Havia resolvido suas desavenças familiares com o perdão, e reconstruiu laços perdidos com todo objeto de importância e apego!
Não conhecia mais tristeza, e, se despediu de sua vida em ditosa velhice virtual, enquanto o desligavam da realidade estimulada, três horas após seu implante!
Seus órgãos foram loteados e leiloados, também virtualmente, à clínicas ilegais, para fins de operações de restauração à pacientes que desejavam viver...
Autenticamente.

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 1 de julho de 2012

O Corvo.

Gostava de papagaios, mas não de suas interpretações, então, operava ele mesmo o aparelho fonador dos animais para que fosse impossível o ruído de suas especialidades, e os espalhava aqui, e ali, enfeitando seus ambientes com a tristeza colorida dos animais mutilados.
O dinheiro lhe assegurava imunidade aos seus procederes, e, aos animais parrudos e bem tratados ninguém ousava contestar a bondade relativa do dono.
O homem já cogitara algumas vezes em operar também a mulher; grandessíssima falante, e aos dois filhos; um casalzinho de tagarelas interrogadores que às vezes lhe furtavam o sentido em meio a situações realmente importantes!
Em uma de suas festas natalícias foi presenteado com um corvo, sob o pretexto de que uma variação de espécies só favoreceria o ambiente!
-Este já me veio operado-Assegurou o bom amigo!
-Melhor que me poupa trabalho- Agradeceu comovido o aniversariante, já comprimindo o convidado com entusiasmo!
Ao findar da comemoração o homem visitou a gaiola para se divertir com o olhar astuto da ave.
A gaiola era espaçosa à um animal acostumado, e ele se ajoelhou diante da negrura da criatura agourenta e esperou qualquer reação.
A quietude da ave o perturbou por muitos momentos, e ele se manteve observando até que os curiosos perdessem o interesse pelo contato, e abandonassem, fartos e embriagados o evento.
O pássaro então se agitou e tentou imitar algum som, mas o órgão respondia com arranhos agônicos, e bater convulsionado de asas.
-Ahasssssssssssssssssssshhhhhhhhssssssssss!Iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiuuuuuuuggggggghhhhhhhhhh!
Um passo atrás, e o animal se esforçava para imprimir seu canto, mas o bico se abria e fechava ao ritmo das articulações enquanto sustinha o olhar trespassante ao proprietário.
-Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHGGG!
Ousou, projetando o pescoço e bicando o vento.
Aumentou o tom, mas o que saiu foi o sussurro gorgolejante, e o bico se tornou frenético, e a garganta se abriu com a força de seus esforços.
-IiiiiiiiiiHHHHHHHHHHHHHGGGGGG!AAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHSSSSSSSSs!AAAAAAAH!
As asas turbilhonavam, e a garganta se engasgava com o sangue do canto, e com o último sopro a tentativa de palavras o inteligível som cinzelou na mente do homem que o pássaro expirara dizendo seu nome!
Ninguém o tentou convencer do contrário; e dizem, hoje, que coleciona miniaturas de carros antigos   

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Olhos Secos.

Meus olhos foram instintivos, acostumados desde sempre ao choro!
Pateticamente emocionais à princípio, encantados por dramas quaisquer...
Ai de minhas glândulas lacrimais fartas, do meu pranto comovido, da minha piedade por todos!
Ai de minhas empatias, simpatias, meus bem-quereres; que me imergiam cruelmente no alheio...
Abusos sentimentais, comoções gratuitas por espetáculos e teatros mal armados, daqueles tão baratos que nem vale citação!
Não sei se era amor à raça, mas era uma quase certa identificação e cumplicidade; daquelas que oferecem piscadelas reconfortantes, e sorrisos compadecidos quase gratuitos, ou pelo preço do instante da amizade!
Traídas mil vezes se desgastaram quase sem volta, e me deixaram vaguear nos vazios da indiferença, e a paisagem humana me passou à mera fauna cinicamente hipócrita!
Eram tantos seres engraçadinhos, em seus esforços de atrair para sua gravidade outros corpos, tentando se equilibrar pela força de campos alheios!
Ruminando da ignorância perversa, dimensionando as calorias processadas em rituais mesméricos, e encantamentos sedutores!
E eu, reservei meus depósitos sentimentais para o desperdício das banalidades sinceras, para o reverberar do meu eu nas dimensões do improvável, das quais trilhei por muito tempo; de olhos secos...
Mas agora tenho que voltar...

Anderson Dias Cardoso.


domingo, 24 de junho de 2012

A TUA VERDADE!


Cansei-me dos fetiches, dos símbolos; pontífices e liberei minha fé para que atraía o alvo de meu amor!
Existindo um Deus transcendente,uma verdade absoluta, eu o buscarei antes que qualquer conselho ou sábio!
Deus!Quero a crueza de Tua verdade, não conceitos alheios ou verdades relativas!Quero teus desígnios em minha existência!
Sim!Sou a coragem que aceita ouvir a VOZ.
Sim!Sou a obediência, mesmo que momentaneamente torta!
Sim!Sou o pragmatismo da fé, que acredita que acreditar não é passividade,mas uma  dinâmica existencial que suporta e transforma o próprio Cosmos!
E eis que vejo Teu Cristo se aproximar, e meus olhos estão pesados de sono!
A carne se desfaz em suas fraquezas, mas os sons de Tua presença continuam seu percurso tranqüilo!
Em breve contemplarei a minhas salvação!
Em breve verei Tua Glória!

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Traumas de Raptos.

Com o rapto de sua criança provou viver em ambientes fragmentados, com imagens de seu apego brincando com seus relances.
Os pensamentos se viciaram, e apesar do esforço teimavam em lembrar a falta.
As mãos só se estabilizavam segurando alguma coisa, e toda conversa garantia uma risadinha nervosa, de cantos espumantes e olhos apertados.
O segundo dia não amenizou os nervosismos. Foi atacado de refluxos, alterações de pressão, vertigem... Vomitou duas ou três vezes o que não havia comido.
O terceiro dia permitiu-lhe quase meia hora de esquecimento, quando a parentada ausente, porém querida, se solidarizou o suficiente para uma visita, e alguns abraços regados por lágrimas sinceras.
O quarto dia começou com o corpo se diluindo em dores de stresse, e a obrigação impiedosa de seu serviço requisitando seus frangalhos.
No quinto dia não houve ainda nenhum boato, e o coração já se encaminhava discretamente ao consolo da perda.
No sexto dia se permitiu sair mais cedo, visitou simbolicamente, em um cemitério a figura mais semelhante ao perdido, e perfumou lhe um vaso decadente com a vermelhidão sofrida de duas dúzias de rosas.
No oitavo dia houve a convicção da morte, e ele guardou um luto estóico, mais leve e palatável!
Era homem muito equilibrado, nada insensível!
O nono dia foi dia de fuga, e, dois dias depois a criança esfarrapada esmurrava as portas do pai...
Era tal qual uma ressurreição; e o coração dos homens não sabe bem receber os mortos...
O pimpolho foi fantasma desacorçoado até que o pai o entendeu vivo, uns tantos dias depois!


Anderson Dias Cardoso.

sábado, 16 de junho de 2012

Gula...


Repetia o mesmo caminho, pacífico e cheio de apetites, rumo à uma certa intoxicação brutal de condimentos e embutidos, respingantes de toda gordura do mundo!
Era rapaz orgulhoso de seu bom funcionamento visceral, mesmo sendo derrotado vez ou outra por supra-dosagens de consumo, resultando em reboliços estomacais e gazes inconvenientemente doloridos e mal cheirosos!
Pediu um “TUDO”, daqueles sem demagogia, e ao desbastar o potente com umas primeiras dentadas esfomeadas teve seu interesse reduzido à indiferença, logo, ao desconforto, e daí só restava o desafio de aplanar a montanha calórica e ver sendo conferido à si mesmo às honras estupidamente vergonhosas de glutão.
Era verdadeiramente um idiota que causava espanto!
Em sua pós-fartura preparou o organismo com as medicinas caseiras e envelopes de antiácidos para as turbulências e tempestades estomacais que se projetavam com todas as sombras e maus presságios.
Quando dormiu, o fez preocupado com outros incômodos, já que o alimento se assentara bem no ventre em nada se convulsionando!
E, como de costume, o que o despertou foi a acidez do refluxo, e uma vez desperto tossiu até lacrimejar os olhos sonolentos, forçado pelas composições de seus sucos estomacais.
Acordou um ou outro, mas logo que se calavam os ruídos o sono abatia os e o cuidado à contra gosto se perdia na sonsidão dos quase acordados!
Sofreu então, merecidamente sozinho aquela noite inteira, se revolvendo e consumindo o que prometesse alívio às manifestações de sua fisiologia agredida!
Pela manhã recusou tudo, menos o café preto, companheiro e calmante da ressaca de seu vício não alcoólico.
Recusou almoço, e continuava sentir seus processos causando lhe insurreições ácidas e enjôos cíclicos, até que a consciência da degradação das proteínas em seu interior provocavam, com suas fermentações a erupção e eructações pestilentas típicas, caracterizando odores de carne putrefata!
Sentiu ânsias à cada arroto, e as impressões e a certeza de carregar retalhos de cadáveres em seu ventre...
Pensou consigo mesmo, outra vez:
-Gostaria sinceramente de viver das plantas, mas como se diz por ai:
-A carne é “meu fraco!”

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Quando Nos Abandona a Conciência...

Então o Grilo continuava ali, amuado, recusando conselho ou palavra.
Deixara o adjetivo que seguia seu nome se tornar em mero sobrenome, como qualquer Silva, e se acompanhava o garoto graveto era com desprazer, uma teima resquicial de um sentimento de dever ainda evocada pela insistência de não negar-se a si mesmo.
O garoto havia se vendido, e cresceram-lhe orelhas, rabo, dentes de asno e, de suas mentiras o nariz se estendia de palmo em palmo até tornar-se em carvalho e subjugar como vulgar apêndice a pequenez do corpo esculpido.
Não só por mais uma vez ele implorou por orientação, mas as disposições do Grilo eram de silêncio...
O Grilo falara por muito tempo, agora as obstinações do crescido boneco o haviam lhe roubado os cuidados e o afeto, e deviam ser o guia que o encaminharia o restante do caminho...
A consciência permaneceu até a decomposição dolorosa do projeto humano sob a potência agigantada de seus erros; depois, partiu pra encontrar quem verdadeiramente prezasse sua companhia!  

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 10 de junho de 2012

A Dignidade Deve Ser Mantida.


Não concordava, ou se adaptava ao culto do animal sem porte, de orelhas demasiadamente longas e que suportava sobre si as cargas não aceitas pela dignidade, ou potência das outras bestas.
Debatia entre seus pares as associações feitas ao seu povo como o “povo dos jegues”, e ressentia-se muito das vergonhosas apresentações e “rallys”, que eram televisionadas, com toda cena de ridículo e apresentação de hematomas e contusões.
Nascera nordestino amargo, e lutara desde sua infância para dissociar sua terra do animal sem propaganda digna e, em um de seus projetos importou outro animal de terras secas, muito mais apresentáveis e sisudas, e desfilou sobre os paralelepípedos empoeirados a monstruosidade castanha que vivia antes em outros desertos.
-Nunca se viu propagandas de jegues em produtos de renome, mas sim em infames aguardentes e outros preparados, ou em apelidos e brincadeiras de má impressão!
-Olhem, meus conterrâneos como se alteia este cupim!Que pelagem respeitosa e que pernas fortíssimas! Era à este animal gracioso que nosso povo deveria ser associado!
Foi daí que se desenvolveu campanhas de promoção, e importações de espécimes para  povoar o cenário, e refazer a imagem do povo aos olhos preconceituosos de outros estados!
A praça tornou-se em local de comício, e, no ajuntamento decidiam seu futuro iconográfico.
-Mudaremos a bandeira municipal nesta figura, logo propagaremos nossa nova identidade em todo nosso território!
-Cigarros, bebidas finas, bolsas, e outros produtos dignos já figuram nosso emblema, e agora a representação de nossas virtudes! Seremos conhecidos como o povo do camelo!
Então, uma voz de transição das fases de maturidade sussurrou em meio ao burburinho:
-Não é camelo, é dromedário! Camelo tem duas corcovas!
A multidão se dispersou encabulada, um colegial havia desfeito todo um sonho de revolução de paradigmas!

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 3 de junho de 2012

Ele Era Apenas Um Lobisomem Juvenil!

Já havia notado uma ou outra sensibilidade além da pouca disposição relacional de que sofria e, ponderando algumas longas noites insones se constatou menino lobo!
Para os selvagens a vida metropolitana oferecia dificultosos entretenimentos aos marginais, e ele só podia salivar diante dos corpos carnudos que desfilavam despreocupados em suas rotinas de um tipo mais polido de predatismo, que se envolviam em rituais mais elaborados, promoções e ascendências econômicas de vulto!
Na turbulência dos dias e compromissos o apuro do olfato se mesclava ao péssimo gosto das fragrâncias para se tornar em tormento, e o que diria da infernal barulheira articulada por todos os movimentos do progresso municipal?
O tal jovem sofreu!
Sofreu seu bocado e um pouco à mais até parir por completo sua verdadeira identidade, e em seus últimos dias humanos comprava animais para sua caça indoor, e já despeitava suspeitas por um amor tão intenso e uma troca tão constante de animais de estimação, e quando deixava o dia, trocava a comichão do terno sintético pela respeitosa pelagem castanha de um antepassado!
Uivava suas poesias para o astro noturno, sentindo se à vontade com os instintos aflorantes de sua conversão.
Num daqueles dias decidiu-se por ser lobo inteiro!
Viajou o itinerário mais conveniente e temperado para se integrar às matas e à família que o receberia como filho pródigo, e persistiu um caminho de busca local por seus pares, até que encontrasse a alcatéia pulverizada em uma emboscada à uma preza astuta, e então, o lobo adolescente se apresentou com seus sons e trejeitos aos que saltavam das sombras.
A suposta família não poupou o que não era dos seus, e entre os dentes dos que achavam parentes descobriu:
Era apenas um, de tantos deslocados!

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Quem Vos Tecestes?

E então, o acaso emaranhou uns fios de algodão até engendrarem as linhas serpenteantes que aguardaram algum milagre para se ajuntarem em outra forma.
E numa antiga, de tantos novelos e retroses houve o movimento e formação, e, de muitos enlaces surgiram uns metros de tecido, ainda sem uma causa, ou destino.
Ninguém soube da criação das agulhas e seus processos, dizia-se terem sido cuspidas do cerne magmático para cumprir toda sorte de coincidência de trama e não havia tecido sem padrão, mas sim uma progressão de cores e pontos intrincados!
Movimento e beleza foram se estendendo, e os tais fios se ajuntando, e a geometria se tornara em enigma fingindo ser desvendado.
Arrematou-se a obra acolá, porém a suas dobras teimavam em acolher matéria para ir além de nossos olhos.
Hoje a metragem não pode ser calculada, o peso não pode ser suportado, e, a despeito de suas maravilhas ainda continuamos à ignorar seu artesão!   

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 27 de maio de 2012

O Homem Árvore.

Alugara um quarto, em uma pensão de pouco prestígio e era visto vez em quando, visitando a peça.
Exigira aos proprietários que o espaço permanecesse hermético, livre até mesmo de qualquer propaganda ou impressos vinculados ao seu nome, e havia removido, antes da mudança, cada móvel.
Caiou as paredes com um branco, assim como as janelas, e iluminou os ambientes com a fluorescência fria de lâmpadas de baixo consumo, fazendo sumir os limites do lugar.
Em seus dias de mistérios eram trazidas sacolas e quando a porta o abandonava à solidão desejada se despia do peso das roupas, se ligava à bolsa de colostomia e introduzia os cateteres de soro para hidratação e se estendia como a árvore que acreditava ser, tendo por penduricalhos os tais recipientes de suporte.
Então a vida passava de sua celeridade para uma calma reconfortante, e ele sorvia intravenosamente o líquido e minerais próprios ao seu corpo misto, e ia realizando seus processos fotossintéticos com a artificialidade da lâmpada elétrica até que o incômodo de um alarme o despertava de suas contribuições ecológicas; e ele voltava à sua agitação móvel!
-Prefiro ser carvalho!-Dizia-se quando descia as precárias escadas, e lidava com o desprezo disfarçado de seus anfitriões.
Como passava por um período de ócio visitou seu espaço na semana seguinte, e ouviu buchichos; nas outras notou o incômodo e irritação dos circundantes e então preferiu subir apressado os lances para se fugir de qualquer hostilidade.
Já no abafamento do cômodo, se dissolveu na brancura do seu momento e aprofundou-se em suas trocas ambientais até que a incandescência do ambiente exterior rompeu a harmonia de sua comunhão.
Ele relutou-se em abrir seus olhos, naquele universo íntimo preferia se utilizar sinestesicamente de seus outros sentidos; esperou então que os passos pesados estivessem bem próximos para se assustar com a estranheza da cena.
Eis que tentavam pairar uma trinca de beija-flores de uns 150 quilos, de cara empoada e asas mirradas e uma paleta estroboscópica de cores, tanto nos olhos quanto nos vestidos, dançando convulsionadamente em torno de seu tronco e galhos!
Era repugnante ver homens de meia idade se prestar à tamanho ridículo para obrigarem o abandono da propriedade!
Recolheu, nauseado, o pouco que sempre trazia consigo e partiu, tendo em mente o aluguel de alguma casa de campo e paisagens bucólicas...
-Realmente, as cidades são hostis às árvores!

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Apenas Um Erro.


Reconheceu-o ali, quando o quase desapego de quem tem tão pouco a perder libertou da mão o filhinho aos seus próprios desejos, munindo-o de uma nota de mínimo valor para uns pouquíssimos doces.
Ela discursava à respeito da rigidez da vida ao proletariado, tendo sua história como seu próprio exemplo de infortúnio, e deixava esquecido o cambaleante que agora cruzava os limiares do estabelecimento.
Era apenas o fruto de um dos tantos relacionamentos extraconjugais, dos quais a sorte ruim fizera germinar, apesar de seus cuidados, suas insistências e protestos posteriores!
Por outro lado, sentiu se bem confortável com sua inexpressividade cromossômica quanto às formas de sua prole.
Nunca percebera semelhança alguma consigo da criançada, e aquele só pudera ser notado pelo afeto descuidado do antigo caso, e talvez por um ou outro trejeito herdado da mulher.
Quando os passos miúdos o levaram para bem junto do balcão alçou-se sobre seus calcanhares, e entregou a nota.
Apontou o chocolate, mas o dinheiro não bastava, e, por um momento vacilou entristecido pela carência da criança.
Olhou-o ali um instante inteiro, estendido em todo seu comprimento à espera da guloseima, e pôde sentir a paternidade se revolver sobre sua indiferença.
O choro sempre é coisa difícil de se conter!
Tomou duas barras e algumas balas para a caridade e as agasalhou em uma sacolinha de papel pardo, contornou o balcão e apertou o filho em um abraço confuso. Depositou uma nota graúda, puxada das boas vendas do dia no bolso raso do shortinho encardido, e o despediu esperando que o presente só fosse descoberto longe de seu ambiente!
Quanto o ônibus recolheu mãe e filho corpo tremia um pouco, e a cabeça anuviada pedia descanso.
Cerrou as portas da mercearia esperando nunca mais encontrar um de seus erros.

Anderson Dias Cardoso.
                              
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...