quarta-feira, 31 de agosto de 2011
Freiras e Gatos.
Sempre haviam piedades nos corações dos donos de animais quando estes procriavam.
Eram a multiplicação de criaturinhas semelhantes à mãe, frágeis e delicadas, porém nunca previstas em orçamentos ou planejamentos espaciais, então eram oferecidas à quem as quisessem.
Nem todas eram acolhidas em um lar. Haviam as defeituosas, as sem atrativos estéticos, as miúdas que seguiam como um refugo pouco desejável.
As entidades envolvidas em adoções eram muito visadas, então a solução mais criativa era depositar “caixas de vida” às portas do convento.
A instituição não recebia nenhum nome inter-denominacional, e suas religiosas eram chamadas como outras tantas: Irmãs.
A regra era depositar os enjeitados na madrugada, em embrulhos tão discretos quanto a movimentação do descartante.
Havia certa solidariedade entre aqueles que tinham tal costume, pois com certeza as criaturinhas seriam muito bem tratadas pelas freiras, não havia motivo para culpas ou remorsos, então ao serem flagrados nestes pequenos delitos se faziam de inocentes e tal “inocência” era sempre presumida por aqueles que os surpreendiam.
Ele preparou sua caixa contendo cinco gatos magros; vestiu sua roupa mais escura e esperou a noite se adiantar até horários de pouco movimento. Seu caso era de pobreza e volume excessivo de animais de estimação.
Ele traçou seu percurso até a abadia em um roteiro marginal, discreto e de muitas sombras, e ao andar apressado por quinze minutos se encontrou aos portões daquele lugar sagrado.
Ele abaixou-se ternamente e depositou a caixa próximo à passagem, apanhou cada gatinho magro e se despediu com um beijo e algumas lágrimas.
-Eu os queria comigo, mas não tenho dinheiro e tenho que cuidar de sua mãe e irmãos... Elas cuidarão bem de vocês, vão ter comida, um lar e muito carinho junto a estas mulheres de Deus.
Os passos rápidos o levaram para longe daquele lugar, e os minutos se encarregaram em conformar o coração trazendo pensamentos bons à respeito da nova vida dos feios felinos.
-Eles terão um belo futuro!Deus abençoe aquelas almas caridosas cuidadoras destas indefesas criaturas- Foi breve e sincera oração.
A madrugada era fria porém Irmã Dulce se prontificou em enfrentar o sereno e descendo lentamente a escadaria tomou a caixa de gatos, brincou puxando de leve seus bigodes e cofiando lhes os pelos da cabeça, e ao adentrar no saguão gritou à Irmã Rosa que lhe ajeitasse água e temperos para o preparo daquele desjejum magro, porém saboroso!
domingo, 28 de agosto de 2011
As Lavadeiras.
No rio das lavadeiras os lençóis eram brancos e as prosas, maliciosas.
Cantava-se sempre a vida alheia, e enquanto a roupa golpeava as pedras as línguas sibilavam segredos.
“Joana tinha amante, Cícera já abortou, Fabrício é afeminado, o vigário é alcoólatra e a moral desceu como a imundícia destas correntes quase mortas.”
E após os mexericos seguia a cantilena ensaiada, de temas iguais em maldades sonoras.
De tantas se salvava uma que era muda, e que não se ria de versos e ritmos, mas admirava-se do soar de vozes das companheiras de lida.
Elas cantavam, e ela enrubescia.
De joelhos a muda pedia voz à Deus na igrejinha enquanto solvia hinos e derramava lágrimas, e naquela noite uma palavra subiu do coração à boca, e a congregação cantou junto à ela uma música de milagres.
A sua favorita.
No rio a nova cantante era motivo de surpresa e inveja, e naquele dia só se ouviu soar sua voz ; ao fundo uns tantos murmúrios.
Os trapos foram sendo abandonados, e os lençóis se deitaram no balaio sem ser branqueados para que os corpos cansados repousassem em pedras e montes de areia para ouvir melhor o que era cantado.
A voz e música eram algo além do significado vulgar, era vida cantada em bela voz.
O espetáculo pareceu enternecer as circundantes, e houveram abraços e congratulações pelo dom divino, encerrando-se em um divertido banho no rio espumante.
Os risos alegres se altearam além do canto e no círculo das amigas e um rosto rompeu as águas, tentou emergir rápido da brincadeira, mas uma, outra e várias mãos se assomaram no esforço de mantê-la em seu desconforto.
O ar se foi de seus pulmões, levando consigo a vida e canto e o corpo foi liberto para descer a corrente como balsa vazia.
As lavadeiras se puseram às margens para observar a viagem, e cantaram com deboche a música viva que haviam escutado da companheira.
A cerimônia se encerrou com uma reverência, e logo as roupas eram novamente lavadas ao som de uma música que cantava a morte de uma virtuosa lavadeira por invejosas companheiras de ofício.
Anderson Dias Cardoso.
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
O Nascimento De Um Pistoleiro.
O seu respeito custou uma bagatela de 72 vidas. Contratos bem cumpridos agregavam valor à cada morte, e logo precisava matar pouco para sobreviver dignamente.
Sofria com a bajulação dos temerosos, mas pesava cada amizade e relacionamento em moedas de ouro. Nenhuma delas valia muito.
Seu nome movimentava cidades, sendo possibilidade real de morte aos adultos, viuvez, ou ameaças à crias desobedientes.
Em suas visitas espantava por não causar espanto; suas roupas eram limpas, suas unhas e pelos sempre rentes e ele exalava bons perfumes. Vez ou outra fazia subir um arrepio com um olhar cruel, mas logo a fala mansa abrandava a ameaça e sua presença amena fazia esquecer sua reputação; até que uma bala precisa esvaziava um corpo e enchia um bolso.
Voltava-se após a queda, sorria para os que acudiam e deixava sempre uma bala não deflagrada à precisos seis passos. O souvenir marcava sua presença e intimidava, facilitando outros prováveis serviços.
Numa de suas sedes pediu cerveja e vinho, a primeira foi sorvida em um gole, o segundo foi derramado intencionalmente de seu copo fazendo desviar qualquer olhar curioso e dispersar alguns menos corajosos.
O Saloon havia sido escolhido por acolher um pretenso rival; um jovem talentoso, com algumas mortes importantes em sua breve carreira.
Os olhos se mantinham em seu aperitivo, movimentando o copo raso para diluir os resíduos da aguardente quinada, mimo importado da América do Sul para clientes potenciais.
Uma sombra o arrancou de suas distrações e ele pode ver um sujeito elegante se acomodar no banco ao lado.
O homem pediu outra cerveja e entabulou uma conversa que cheirava a álcool.
-Está aqui a serviço?
-Sim- Os olhos não se desviaram um instante de sua atividade.
-Soube que é dos bons.
-No entanto um estranho me aborda numa conversa... Minha fama não intimida o suficiente.
-Quantas mortes?
-12.
-Um bom número. Aposto que já me tomou algum serviço.
O moço ergueu pela primeira vez os olhos, e o homem estremeceu e continuou:
-Proponho um duelo!-A boca havia se secado e as palavras torturaram a garganta.
-Existem encomendas suficientes para dois.
-Considero sua resposta como pura covardia.
-As mortes têm um preço; quem pagará pela sua?
-Minha morte em sua caderneta duplicará seus rendimentos.
-Deixe-me terminar outra aguardente, ela me alegra o coração e torna meu ofício mais fácil! Peço que aceite também outra cerveja; cortesia de um irmão de profissão.
Ambos beberam, tomaram seus chapéus e sem encaminharam para a rua poeirenta. O alarde feito por todos os que corriam para presenciar o duelo fez crescer ainda mais o bolo dos curiosos.
Cada qual tomou o sentido inverso, e se viraram quando foram contados nove passos.
Inspecionaram suas armas, e as recolocaram no coldre e então alguém lançou uma moeda, e com o discreto baque da mesma as duas armas foram sacadas, mas um dedo se recusou apertar o gatilho e o corpo mais respeitado veio ao chão.
Os olhos do moço brilharam frios, a boca contorceu um sorriso de escárnio, ele deu outros seis passos e deixou um de seus cartuchos não deflagrados marcando o lugar; não entendeu que seu pai não havia lhe deixado um nome, deixou lhe uma reputação.
Anderson Dias Cardoso.
domingo, 21 de agosto de 2011
O Restaurante Recorrente.
Um ambiente redundante, onde um grupo disposto se encontrava às quartas para reviver um dia de suas vidas indefinidamente.
Nasceu do acaso, e atraiu pelo nome toda sua freguesia, e cada qual se apegou ao seu espaço com ciúme, tornando restrito o acesso a outros que não os primeiros visitantes.
Nele a surpresa era proibida, e a ausência de uma pessoa significava quase sempre sua morte.
A segurança da rotina era o escape de uma vida imprevisível e atribulada.
Os pratos e escolhas se repetiam, mesmo com alguns excessos de especiarias, sabores desagradáveis ou escolhas equivocadas. Eram sagradas tais repetições, mesmo as falhas, e elas faziam parte do roteiro que fora despretensiosamente escrito um dia.
Traziam de casa os mesmos problemas, pensamentos e até indisposições orgânicas.
Um namoro foi reatado por mil vezes, um saleiro se quebrou e foi substituído tantas vezes, um garçom mal vestido grunhiu pela falta da gorjeta toda quarta...
Eles cumprimentavam, ou ignoravam-se de acordo com o dia da inauguração, seus rostos diziam sempre as mesmas coisas, e eram mudados em muito pouco por rugas, manchas senis ou cicatrizes e ferimentos dos dias comuns.
Apenas uma mesa variava em seu conteúdo e atendimento, e toda esta estrutura que destoava a rotina daquele espaço era situada à parte, com cozinha e garçom próprios.
Os frequentantes da mesa livre eram escolhidos, depois de propostos, pelos anfitriões para substituir algum companheiro morto, e observava sem interferir, e com muita liberdade até que se decidisse e começasse a se limitar e optassem por um dia para ser vivido eternamente.
Uma vez admitido, buscavam uma introdução pouco traumática ao grupo, com poucos diálogos e interações, e eles passavam a se reconhecer (mesmo que tivessem se visto por centenas de vezes), passavam a existir uns para os outros.
Tornava parte de seu dia comum, tão recorrente quanto todos vividos naquele lugar.
Então todos jantavam, bebiam e representavam perfeita e integralmente seus papéis restritos, e partiam para um mundo selvagem que os permitia correr riscos, exercer sua maldade ou bondade, sentir toda ansiedade possível e até morrer...
Mas toda quarta se viam trazidos àquele lugar por essa previsibilidade que apaziguava seus corações covardes.
Anderson Dias Cardoso.
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
O Taxidermista.
Tamanho esmero e destreza e já não podiam discernir em figuras estáticas, entre obra ou ser vivente.
Cruzou a soleira do artífice aos 13 anos, e ele o saudou como posteriormente outras tantas vezes marcando páginas gastas de “O Mágico de Oz” enquanto sorria inquirindo o motivo da visita; e o garoto disse que queria aprender o ofício.
O homem disse ser sujo, feio e repulsivo antes de terminado e o garoto disse ter estômago forte, então ele se deu por satisfeito por sua coragem e lhe fez uma proposta.
-As lições por um favor!
-Que favor?
-Algo que talvez nunca tenha de fazer, e mesmo que faça não lhe custará dignidade ou quebrará seus princípios...
-Preciso saber o que é.
-E eu preciso terminar aquela lontra... Pegue uma linha e agulha que lhe mostro como costurar e dar forma.
As mãos enchiam a pele, o homem o permitia dar um ponto aqui, outro ali, e naquele dia nada aprendeu além de se encantar com a perfeição daquele corpo ainda meio armado em arame e palha.
O lar do artesão era uma selva congelada, de cheiros estranhos e animais olhando dignamente o vazio e o garoto conheceu ursos, cobras, onças, garças e outros inomináveis devido à grande variedade e sua memória ruim. Às vezes era perturbado com movimentos imaginários das criaturas mortas, mas com o tempo se tranqüilizou por nunca ver descer do pedestal mesmo uma rã.
O mestre era sempre requisitado; sinceramente o melhor do país, e por acúmulo de encomendas o garoto o auxiliava cada vez mais e sorvia os segredos da profissão. O homem se orgulhava, e esperava para breve a equiparação do pupilo, que era esforço e paixão.
Eles se respeitavam.
Nos intervalos o taxidermista o congratulava pela extração perfeita do couro, ou pela a atenção em congelar um espécime o mais rápido o possível, na separação das químicas de conservação, a cânfora, ácido bórico, formol, glicerina, arsênico, carbonato de potássio... E então ele propunha um chá com pãezinhos e uns minutos de descanso.
Eles merendavam, e o homem se perdia novamente naquele livro; voz ou ruído algum o alcançava. Algumas vezes haviam conversado à respeito dele, e ficou claro que era um laço afetivo entre um homem velho e uma família morta à muito tempo. Uma predileção que o marcara e o trazia para perto destes afetos.
A relação pedagógica foi se diluindo ao longo dos anos, sendo substituída por amizade, e a qualidade indistinguível da arte do aprendiz o levou à uma proposta de sociedade.
Ele sorriu, e aceitou. Sabia da importância de sua ajuda, e do carinho do convite, e aquele foi um dia trabalhoso e feliz, um conjunto de répteis foi entregue e o soldo proporcionou uma mesa farta e um passeio tranqüilo no museu ao fim de tarde.
Entre armas e armados se desenvolvia histórias em figuras e eventos imaginários, representações tendenciosas. “Bichos” e objetos também traçavam períodos e eventos, e até fábulas se integravam à realidade para ser atrativo aos pequenos.
Era tudo belo, mesmo em tamanha pobreza de iluminação.
Em um canto as personagens de “O Mágico de Oz” desfilavam pela estrada de tijolos amarelos. Era uma composição pouco ortodoxa, com uma Dorothy não tão jovem, um Homem de Lata e uma “Leoa” impúberes, mas todos com rostos estampados por um sorriso satisfeito!
O ajudante não notou o “Espantalho”, talvez não houvesse, mas a surpresa maior foi ouvir seu mentor dizer:
-Não são lindos? Levei dois meses e eles parecem tão vivos quanto quando estavam!
O homem tombou, mas não deixou que a morte levasse consigo seu sorriso.
O pupilo não esteve na leitura do testamento, antecipara em muito o favor, e logo o corpo era entregue naquele mesmo museu.
Finalmente o quadro foi completado com um espantalho de rosto vincado, sorridente; e não somente Dorothy pôde voltar para casa.
Anderson Dias Cardoso.
Cruzou a soleira do artífice aos 13 anos, e ele o saudou como posteriormente outras tantas vezes marcando páginas gastas de “O Mágico de Oz” enquanto sorria inquirindo o motivo da visita; e o garoto disse que queria aprender o ofício.
O homem disse ser sujo, feio e repulsivo antes de terminado e o garoto disse ter estômago forte, então ele se deu por satisfeito por sua coragem e lhe fez uma proposta.
-As lições por um favor!
-Que favor?
-Algo que talvez nunca tenha de fazer, e mesmo que faça não lhe custará dignidade ou quebrará seus princípios...
-Preciso saber o que é.
-E eu preciso terminar aquela lontra... Pegue uma linha e agulha que lhe mostro como costurar e dar forma.
As mãos enchiam a pele, o homem o permitia dar um ponto aqui, outro ali, e naquele dia nada aprendeu além de se encantar com a perfeição daquele corpo ainda meio armado em arame e palha.
O lar do artesão era uma selva congelada, de cheiros estranhos e animais olhando dignamente o vazio e o garoto conheceu ursos, cobras, onças, garças e outros inomináveis devido à grande variedade e sua memória ruim. Às vezes era perturbado com movimentos imaginários das criaturas mortas, mas com o tempo se tranqüilizou por nunca ver descer do pedestal mesmo uma rã.
O mestre era sempre requisitado; sinceramente o melhor do país, e por acúmulo de encomendas o garoto o auxiliava cada vez mais e sorvia os segredos da profissão. O homem se orgulhava, e esperava para breve a equiparação do pupilo, que era esforço e paixão.
Eles se respeitavam.
Nos intervalos o taxidermista o congratulava pela extração perfeita do couro, ou pela a atenção em congelar um espécime o mais rápido o possível, na separação das químicas de conservação, a cânfora, ácido bórico, formol, glicerina, arsênico, carbonato de potássio... E então ele propunha um chá com pãezinhos e uns minutos de descanso.
Eles merendavam, e o homem se perdia novamente naquele livro; voz ou ruído algum o alcançava. Algumas vezes haviam conversado à respeito dele, e ficou claro que era um laço afetivo entre um homem velho e uma família morta à muito tempo. Uma predileção que o marcara e o trazia para perto destes afetos.
A relação pedagógica foi se diluindo ao longo dos anos, sendo substituída por amizade, e a qualidade indistinguível da arte do aprendiz o levou à uma proposta de sociedade.
Ele sorriu, e aceitou. Sabia da importância de sua ajuda, e do carinho do convite, e aquele foi um dia trabalhoso e feliz, um conjunto de répteis foi entregue e o soldo proporcionou uma mesa farta e um passeio tranqüilo no museu ao fim de tarde.
Entre armas e armados se desenvolvia histórias em figuras e eventos imaginários, representações tendenciosas. “Bichos” e objetos também traçavam períodos e eventos, e até fábulas se integravam à realidade para ser atrativo aos pequenos.
Era tudo belo, mesmo em tamanha pobreza de iluminação.
Em um canto as personagens de “O Mágico de Oz” desfilavam pela estrada de tijolos amarelos. Era uma composição pouco ortodoxa, com uma Dorothy não tão jovem, um Homem de Lata e uma “Leoa” impúberes, mas todos com rostos estampados por um sorriso satisfeito!
O ajudante não notou o “Espantalho”, talvez não houvesse, mas a surpresa maior foi ouvir seu mentor dizer:
-Não são lindos? Levei dois meses e eles parecem tão vivos quanto quando estavam!
O homem tombou, mas não deixou que a morte levasse consigo seu sorriso.
O pupilo não esteve na leitura do testamento, antecipara em muito o favor, e logo o corpo era entregue naquele mesmo museu.
Finalmente o quadro foi completado com um espantalho de rosto vincado, sorridente; e não somente Dorothy pôde voltar para casa.
Anderson Dias Cardoso.
domingo, 14 de agosto de 2011
As Bodas de Faraó.
A solidão lhe incomodava depois de tanto tempo e ele deu ordens aos seus assessores para que noticiassem sua intenção de contrair novas bodas, então todas as mídias foram inundadas por fotos e matérias a respeito do bilionário solitário.
No processo não foram estipulados requisitos para as candidatas, pois era considerado que qualquer um deles poderia ser simulado então era mais proveitoso deixar vir cada uma em suas próprias características, e uns poucos excessos.
A seleção, contrariando as expectativas, não foi franqueada a alguma emissora e se deu de maneira mais discreta o possível em lugares obscuros e por métodos totalmente desconhecidos, mas nada impediu a proliferação natural de boatos, dos quais o mais comum dizia que o pretendente pertencia a descendência de um faraó da XXX dinastia; um filho de Nectanebo II era a constante mais glamorosa, ou menos ofensiva.
O concurso não demorou mais que oito meses; a idade avançada, a saúde vacilante e a crescente impaciência afetiva o adiantaram muito e fizeram ignorar uns tantos procedimentos para uma escolha sensata.
Foram descartadas todas as aparentes oportunistas, mas algumas se dissimularam tão eficientemente que era impossível não desconfiar de toda honestidade demonstrada.
O par que se formou era dos mais grotescos!
Ela era da idade de 19 anos, pele fresca, olhos escandalosamente verdes, fios trigueiros mas tais atributos não chamavam tanta atenção quanto à boca delicada que sempre exibia um sorriso travesso.
Ele contava 84 anos, e o corpo vestia-se de rugas, os olhos tinham pálpebras pesadas, das quais as inferiores se debruçavam em bolsas volumosas, o cabelo era ralo e artificialmente negro, e ainda, seu muito peso e pouco bom gosto ao se trajar escondia com escândalo o mínimo carisma que possuía.
A ninfeta se acostumou fácil à fama, e se dizia cada dia mais apaixonada e proclamava seu desejo de um filho, que sabia não ser mais possível.
Chamava seu “amor” Faraó e contratou pesquisadores para rastrear a raiz genealógica, e logo comprovou (não se sabia se por fraude ou verdade), que realmente pertencia à nobreza egípcia!
A mulher promoveu eventos culturais relacionados à terra do Nilo, insistiu em uma maior valorização desta civilização e espalhou hieróglifos e demóticos por toda parte.
Se havia zelo por parte da esposa, maior era o dos empregados mais próximos.
Eles reclamavam dos discretos adultérios, gastos astronômicos com supérfluos e implicâncias com serviços e relações entre patrão e empregados, que eram ridiculamente amistosas.
Uma pneumonia acamou o magnata, e a iminência da morte circundou o leito de afetos, interesses e ansiedades.
A morte veio tranqüila dois dias após o diagnóstico, e a viúva tinha os olhos sorridentes e a boca contorcida em uma angústia forjada.
Ela designou responsáveis para realizar um pomposo enterro, porém o mordomo a alertou que tudo havia sido previamente preparado e que ela só precisava se ornar com suas melhores vestes.
O desejo de um enterro discreto foi cumprido; mesmo sua morte não foi anunciada, e somente dois carros levavam o cadáver para seu descanso. Eles continham o mordomo, duas camareiras o motorista e a belíssima esposa.
Ela vestia vermelho e contrastava em muito com as roupas negras de todos.
A viagem foi longa e sinuosa, ela dormiu um pouco e quando acordou se viu perdida numa vastidão de caules cinzas e copas verdes, era um lugar estranhamente belo e pelas frestas das árvores viu haviam alguns montes marcando o horizonte.
O carro parou quando a mata o engoliu, e eles desceram o esquife sob protesto da viúva; ela reclamava do absurdo daquele local e funeral, mas os seguiu por um caminho muito longo naquela mata, convencida por uma clausula testamental citada com muito entusiasmo pelo mordomo.
O caminho estreito findou se em uma gruta, o chofer se adiantou alguns minutos e puderam notar pequenos fachos brilharem naquele interior, eles os reconfortavam e espantavam um dos medos primordiais, então todos entraram e caminharam bastante à meia luz e quando os joelhos se tornaram em tormento avistaram uma parede talhada na rocha, e uma pequena porta ainda mais sólida.
Ao entrar um espanto!
Um altar dourado era o centro do salão,no qual foi deitado o corpo todo atado, o teto e chão eram forrados por estátuas, vasos, jóias e todo o panteão egípcio estendia suas mãos para os receber.
Era realmente lindo. Assustador!
A mulher se virou no ímpeto de escapar daquele lugar, mas uma das criadas a segurou os pulsos.
Ela se debateu muito e outras duas destas figuras se aproximaram para a confortar, e mantê-la ali;o mordomo palmilhou tranqüilo rumo à porta, e dando duas voltas nas muitas trancas atirou a chave por um buraco escavado e adornado por pictogramas.
Ele se virou para todos, e disse a ela:
-Não se preocupe, passaremos juntos a uma nova vida onde o Faraó será jovem e vigoroso e nós seremos parte de seu novo reino!
Não houve mais barulho algum, somente um fraco murmurar de uma mulher que se recusava a morrer.
Anderson Dias Cardoso.
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
O Espelho.
Finalmente foram atendidas as reivindicações de um banheiro público a aquela cidade.
O pequeno luxo foi atração em meio à tanta carência, e foi visitado mesmo por intestinos vazios. Pura curiosidade!
Das atrações as mais apreciadas inicialmente foram as torneiras de pressão e as secadoras elétricas; até descobrirem o espelho.
Numa segunda feira o primeiro visitante necessitado notou números e letras reluzentes contra a superfície reflexiva. Eles descreviam os concursos de várias loterias e seus respectivos resultados e dia.
Ele tomou aquilo como chiste e deixou que algum outro tolo fosse motivo de riso em seu lugar.
Outros muitos não consideravam assim, leram, copiaram e apostaram.
O concurso de valor maior foi o alvo único da tentativa e foram feitos 142 vencedores, todos maravilhados pela magia do ganho fácil.
A grande quantidade de apostadores contemplados garantiu um pequeno prêmio, mas haviam planos em todas as mentes para ganhos mais volumosos.
No dia posterior, quando velhacos madrugadores visitaram os banheiros em busca outros números o local havia sido violado, e o espelho furtado.
Na ânsia de segurança financeira, e na desconfiança e medo de roubo o ladrão apostou sem intermediários e ganhou todos os concursos; mas logo a inveja e ressentimento fizeram se espalhar a notícia de que tais coincidências era dolo; artifício fraudulento de um objeto mágico que lhe ditava os acertos.
Os milhões daquele homem se acumularam e a notícia surtiu efeito gerando descontentamento nos demais apostadores, que na melhor das hipóteses dividiam o prêmio com alguém que tinha informações privilegiadas.
As loterias não eram mais dignas de respeito!
Caixa Econômica e políticos que se sentiam prejudicados foram às mídias para desmentir o absurdo supersticioso que apontava um único ganhador infalível, que supostamente se utilizava de meios mágicos.
Tal anuncio foi arrematado à apresentação de ganhadores diversos àquele e à uma operação secreta que buscava o responsável pelo desarranjo inconveniente num processo tão lucrativo como jogos de azar.
Tanto o crânio quanto o espelho foram partidos, findando aquela estranha problemática.
A polpuda poupança passou à contas menos dignas, de trapaceiros mais eficientes e as loterias continuaram em sua normalidade, sendo sonho de pobres e fortuna de ricos.
Anderson Dias Cardoso.
Anderson Dias Cardoso.
domingo, 7 de agosto de 2011
Astronautas,Desejos e Estrelas Cadentes.
Atava tudo muito rente e enfeitava as estruturas com brilhos metálicos de latas e adesivos.
As asas eram firmes e o corpo robusto da nave acomodava um banco, cantil, biscoitos e brinquedos. Um capacete ciclístico cobria sempre o rosto e desalinhava as madeixas.
Não havia sofisticação ou dimensões de um foguete real, mas a visão infantil transformava as formas em algo mais que suficiente.
Naquele dia pretendia, ao menos visitar a lua, marte, o sol e um outro planeta circundado de anéis, ao qual nunca se lembrava o nome.
Então laborou mais, e mais rápido e encerrou a cansativa empreitada sob fracas luzes incandescentes.
O céu parecia ainda mais esplêndido e foi mirando absorto sua grandeza que viu uma estrela cadente marcar a noite, e isso foi oportunidade para o desejo.
Cerrou os olhos, pediu, e escapou um sorriso.
O capacete foi posto e ajustado e ele se lançou célere ao banco plástico atando com destreza o cinto de couro.
As tábuas rangeram ao serem alçadas naquela noite calma, e não houve aquele temor inicial, antes, uma excitação crescente ao ver se distanciar sua casa, quadra, bairro...
O foguete artesanal manteve certa coesão enquanto ganhava progressivamente velocidade e altitude, porém o atrito, à certa altura, começou a agredir as carnes e romper tecidos.
A criança chorou seu desespero, não podendo ver incendiar a nave pois suas pálpebras tentavam resguardar os olhos do vento agressivo.
Os pulmões logo não conseguiam alcançar oxigênio, e ele desmaiou antes de se desfazer na estratosfera, em um brilho repentino.
No solo milhares de olhos o viram como um cometa...
Outros mil pedidos foram feitos.
Anderson Dias Cardoso.
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
Amor e Loucura.
O namorado entregou a caixa vazia e a namorada a abriu se encantou e ergueu polegar e indicador que seguravam o nada, e o olhou contra a luz, enxergando um brilho no vácuo.
-O mais belo anel de todos!Diamantes graúdos para celebrar um amor eterno!- E ela ornou o anular, orgulhosa da proposta.
Ela vestiu se de lírios, e se coroou com trançados silvestres.
Ele vestia jeans e camiseta de banda, e os ralos cabelos teimavam em se desalinhar.
Tomaram animais por convidados, e antigas árvores por testemunhas e se riram satisfeitos do enlace; mas o amor secou no mesmo repente do nascimento.
Ela se viu enamorada por um anjo, ou criatura abstrata; e ele tentou lhe apreender a alma, mas ela era esquiva ao toque, fria ao apelo.
Ele capturou um vento, e lhe armou um laço para os fios, mas ela desfez o arranjo.
Presenteou-a com uma flor que ainda não havia sido inventada, mas o cheiro não trouxe sensibilidade ao coração.
Cantou com o pensamento a mais bela música, mas aos ouvidos impassíveis soou como cacofonia.
Em desespero o amor ciumento tentou matar o amante, mas qual era seu rosto e quem era sua pessoa?
Se algum dia o via, era reflexo nos olhos da amada, e se era anjo para ela, ele o chamava demônio!
Na negociata sentimental ele ofereceu um meio coração, mas ela preferiu seu amor inteiro, visceral e egoísta e se afastou para nunca mais voltar.
O namorado, entristecido lançou o anel que não existia de sua mão, e curiosamente o contador de estórias viu que mesmo assim ele lhe marcara o dedo.
Anderson Dias Cardoso.
segunda-feira, 1 de agosto de 2011
O Painel Dos Pintores Mortos.
Sempre havia um sorriso para aquela ala, para aquele painel quase folclórico onde orgulhosamente apresentava seus notórios antepassados em um emaranhado barroco de rostos.
Rezava a lenda que o primeiro à finar foi Augusto. Pintou-se numa jocosa brincadeira, onde ele era o coveiro que sepultava a si mesmo, e sorria, pá em punhos e cara cadavérica. Mal se diferençava o vivo do morto.
Tal brincadeira e logo descia deveras à cova.
Seu irmão, Afonso, lhe prestou homenagem e continuou os belos traços, se representando travestido de padre em exercício de extrema unção, concedendo ao menos o paraíso ao que, pela insensatez do chiste debochado pagou com a vida tal irreverência!
Morto também o irmão, em destino semelhante, interveio o filho deste com acréscimos de uma procissão, e se confortou se pintando anjo para guiar os dois parentes à glória celestial.
Seu destino não foi diferente, recebeu recompensa pela insolência e deixou os pincéis que recebera de seu pai, que recebera do irmão de seu pai, ao seu filho, que ousou pintar sua mão como a mão estendida de Deus resgatando a parentada morta.
Morreu também, este e outros tantos que fizeram emendas à obra mórbida, e aos que foram adicionados como figurantes no enterro, e este estojo que carrego em minhas mãos é testemunha de cada tragédia, e chegou-me através de um pai zeloso que morreu de velhice, e me impediu de brincar com minha vida pintando o que quer que seja nesse imenso recorte de mortes!
Não sou supersticioso, mas não flerto com as possibilidades; por mais absurdas que possam parecer, e assim como me mantive artista; porém longe dessa imensa representação da morte assim ensinarei ao meu filho Lucas que evite este local, e possa se manter vivo!
Ele será um grande artista! Em seus seis anos já caracteriza à todos que lhe agradam o coração com desenhos cheios de personalidade, bem similares ao real! Não e mesmo Lucas?
A menção do nome despertou a criança ruiva do transe, e ela se desviou dos rabiscos que traçava em giz vermelho.
O pai notou os óculos redondos, o bigode ralo, a discreta calva e a camisa xadrez numa figura próxima ao caixão.
Lágrimas deslizavam pelas bochechas rosadas.
Uma tristeza profunda beijou o coração paterno, ele se abaixou, abraçou a criança e lhe entregou o estojo.
Ambos sabiam o que isso queria dizer.
Anderson Dias Cardoso.
quinta-feira, 28 de julho de 2011
Quem se importa?
Mal se aproximara do balcão e um atendente solícito lha devolvia o sorriso.
-Então, o que deseja a senhorita?
-Gostaria de adquirir alguns metros de corda.
-Temos cordas naturais e sintéticas, de três e quatro pernas, trançadas, torcidas, com ou sem alma... -O sorriso se enlargueceu na face mostrando o orgulho de funcionário entendido- Preciso saber a finalidade para aconselhar o melhor produto.
-Quero uma suficientemente confortável para um enforcamento.
-Seria para algum animal, ou pessoa?
-Para mim mesma- Sorriu um sorriso curto, e ele retribuiu com sorriso e movimentos exagerados denotativos de sua presteza.
-Sisal está fora de cogitação, seu atrito pode causar queimaduras dolorosas e em alguns casos decapitações. Acredito que isso seria demasiado desagradável, sangue tem efeitos emocionais pouco poéticos e indesejáveis a esse tipo de morte.
-Quero o chão branco como sempre, e o menor desconforto possível.
-Aconselho uma corda trançada de nylon com alma, elas são extremamente macias e fáceis de manusear, inclusive em amarrações, nós...
-Essa deve servir! Corte-me um bom pedaço para que o serviço não me seja perdido.
-Qual seria a altura do telhado da casa da senhorita?
-Mais ou menos quatro e meio.
-É um pouco alta. A senhorita terá alguma ajuda nessa empresa?
-Me enforcarei na parte mais baixa, onde uma cadeira me bastará.
-Vejo que sabe se preparar; mas preciso de seu peso para calcular o diâmetro mais adequado para suportar o impacto de seu corpo... À propósito a senhora já examinou as condições estruturais do seu telhado, não é mesmo?
-Claro, a casa é nova não obstante já provei o madeiramento e ele é suficientemente forte. Meu peso é 42.
-Hum... P=m.g , daí existe a tensão da corda T=m+a... Aqui está! Acredito que uma corda de nylon de 8mm deve lhe servir bem. Alguma preferência de cor?
- Acredito que amarelo trará um pouco de ironia ao evento.
-Precisa de ajuda com os nós?
-Não, meu irmão foi escoteiro.
O vendedor desapareceu por um pouco, e logo surgiu já com embrulho em mãos.
-Consegui-lhe um bom desconto, sei que não será nossa cliente, mas aceite o agrado como um presente por sua simpatia.
-Obrigado, o senhor foi muito atencioso. - Ela sorriu-lhe uma última vez e deixou a loja.
Lavou-se, vestiu uma roupa que lhe agradava e preparou cuidadosamente a amarradura, com muita calma e nenhuma excitação. Ninguém estaria em casa antes das 7:00.
Serviu-se de uma boa xícara de café recém passado,um último prazer; estendeu um metro quadrado de plástico sob as pernas da cadeira, e se descalçou das sandálias, não queria ruído algum; escalou a cadeira e deitou seu pescoço no laço.
Saltou.
O corpo não se convulsionou muito, a língua saltou rebelde da boca roxa, os olhos se reviraram nas órbitas e o conteúdo dos intestinos foi excretado naquele espetáculo sem muitos movimentos.
Ela havia escolhido o silêncio, não queria incomodar a vizinhança.
Anderson Dias Cardoso.
domingo, 24 de julho de 2011
Um Dia Se Perdeu.
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| Relógio Quebrado |
Acordou sentindo a falta do dia anterior, como algo não vivido, como fragmento existencial perdido por qualquer razão.
Despertara da mesma forma; braço anestesiado, vista embaçada, nada diferenciando o episódio de outros tantos, exceto pelo salto de todas as datas; do jornal à folhinha embolada na lixeira.
Ninguém reclamou o dia de trabalho ou sua presença em qualquer parte e o celular não registrou alguma chamada.
Tentando compreender o fenômeno primeiro se certificou que lhe faltava mesmo as vinte e quatro horas ligando para todos conhecidos, e a cada resposta positiva mais se angustiava e logo abandonou a imensa lista pelo meio e se esqueceu de si um pouco no conforto do sofá. Mas logo se via enlouquecido pela anormalidade temporal que lhe havia roubado um dia sem que se tivesse entorpecido, ou sofrido algum dano neurológico.
Sentou-se à mesa e vasculhou a internet casos semelhantes, e encontrou desde abduções e viagens temporais à catalepsia mas não se deu por convencido por qualquer argumento ou hipótese então saiu para capturar um pouco de realidade em uma caminhada.
Nem noite fresca, ou silêncio do horário adiantado o permitiram alguma calma e ele procurou espaços pouco iluminados para se recostar, mas em alguns minutos já perambulava novamente tentando alcançar o dia de ontem.
No dia subseqüente inquiriu à todos sobre sua experiência, e foi repreendido por sua excitação pela maioria, e no decorrer dos dias mergulhou em frenéticas pesquisas, e o assunto era mais que recorrente e as pessoas de seu convívio, cada vez mais irritadiças.
De cético passou à crédulo, não em uma teoria, mas em todas. Cada qual num momento.
Pediu demissão de seu emprego, mudou-se para a casa da mãe; temia perder outro dia para entidades malignas, para o deus Cronos, em um buraco de verme,em uma psicose,em um surto cataléptico, ou ter lembranças sendo apagadas pela doença de Alzheimer...
Já mal dormia; o dia perdido tomou sua vida inteira.
Anderson Dias Cardoso.
quarta-feira, 20 de julho de 2011
As Almas são Pretexto.
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| Cabeça,Lampada,Manto. |
O amor, no entanto, era repetido como mantra por toda boca e os abraços eram o inverso do calor, e o desejo se avolumava para se tornar em posse de uns outros espectros que nada irradiavam.
E eles se aproximam, e sua presença não me é bem vinda e eu reflito todos os atos e sorrisos, e minha aparente simpatia aos “espíritos dos mortos” me pesa como um constructo hipócrita; uma defesa aos “fantasmas” sociais.
E eu olho, aquele como perjuro, o outro como avaro, o casal como adúltero, as velhas que se assentam às sombras vespertinas, tecedoras de mexericos, e até àscrianças atribuo maldades e mimos!
A imagem do mundo é o retrato do limbo, e a maldade é quase tudo.
E ironicamente as almas perdidas esconjuram os demônios, mas apegam se aos seus vícios! Anderson Dias Cardoso.
segunda-feira, 18 de julho de 2011
El Diablo.
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| Jonah Hex |
Cultivava uma penugem, que um dia se tornaria volumoso bigode, ensaiava carrancas assustadoras entre os de menor estatura, às vezes conseguindo intimidar alguns, e guardava metade dos centavos para uma arma, a outra aumentava a coleção de quadrinhos de faroeste.
Das figuras mitológicas das estórias poeirentas, uma o assustava e despertava admiração pela vida independente, ambição e, mormente pela crueldade com que operava e eliminava qualquer que se interpusesse às suas razões, e deste homem, de biografia mutilada só restava a temida alcunha: El Diablo.
Em épocas de divertimentos eletrônicos era zombado por seus gostos antiquados, e os mais velhos não levavam em consideração as ameaças de um potencial pistoleiro, e ele era a criança estranha e mal humorada esperando seus dezoito anos para conquistar seu respeito e fazer tremer seus galhofeiros.
Ressuscitaria para si o tenebroso apelido, e com a certeza de que algum dia vivera aquele homem seria a continuação da violência e brutalidade, se resguardando da confiança que uma vez assaltou o predecessor, e que foi sua ruína, em uma bala pelas costas.
Na formação da sua identidade hostil resolveu-se por espancar algumas crianças vizinhas, e apedrejou dezenas de gatos e cães para aprimorar a mira, e se deu por satisfeito por escaparem somente por alguma intervenção.
Os vizinhos começaram a lhe apontar como garoto problema.
O cinto cortou-lhe as coxas e nádegas, e ele ainda desafiava a mãe com um silêncio e um olhar firme, de homem digno que suporta sem choro as durezas da vida, e não reservou ódio algum àquela mulher franzina. Até os matadores tem um código de conduta.
Aumentadas as traquinagens, e o menino agora enfrentava a todos, e vez em quando alvejava alguém com pedra, ou ameaçava com um canivete.
O pai assumiu a correção, mas a rebeldia foi além de surras e psicólogos.
Aos doze o chamavam como queria, e conseguia algum dinheiro com pequenos assaltos, muito respeito através do medo, e sua pistola ensaiava alguns tiros, porém não havia derramado sangue algum.
Vadiando em uma noite qualquer sentiu sede e fome, e correu atrás do casal velho e lhe apontou o cano à cara, gritando, xingando e pedindo a carteira; e o velho, confuso com a abordagem estranha se embaraçou em seus gestos senis e com dificuldade arrancou uma sacolinha com muitas moedas e poucas notas.
A mulher tentou impedir o furto, e o garoto lha acertou a boca com a coronha; praguejou e tomou o dinheiro e se foi para algum boteco.
Pediu um sanduíche de mortadela e um refrigerante, comia gostosamente quando o telefone lhe avisou da morte de seu pai.
O estômago devolveu a comida ao exterior, e a cabeça confusa o levou a caminhar se aparando em qualquer muro.
Não viu como chegou em casa.
A mãe disse que foi um assalto, que segundo testemunhas o pai não reagira e ainda assim tombou com seis tiros.
Uma batida nas circunvizinhanças localizou o criminoso jogando snooker e bebendo cerveja, ele não esboçou nenhuma reação ao ser preso, ou alguma expressão ao ser interrogado e quando a viatura passou pela casa da viúva, para oferecer o conforto de ver ao menos preso o assassino, o garoto o viu, e aterrorizado correu para rasgar suas revistas, e se desfazer de sua arma.
Seu ídolo o veio visitar da maneira mais dolorosa!
Anderson Dias Cardoso.
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Um Outro Adão.
Depois de tanto tempo as mãos habilidosas acariciaram o barro, e de uma porção formaram outro corpo e o Espírito soprou novamente em suas narinas uma alma.
Cobriu-lhe o corpo de vestes, e lhe deu pudor e lhe contextualizou quanto a geração em que havia sido criado, doando lhe um lar, uma oportunidade de emprego e conhecimentos pertinentes , e o instituiu arauto do Evangelho.
Sem a influência do pecado a relação entre Criador e criatura era sem intermediários ou simbologias e o próprio Deus o visitava e lhe falava ao pé da cama antes da chegada do sono, e sua voz e amor eram bálsamo aos confrontos e ferimentos de um quotidiano profano.
Inserido na realidade das almas decaídas pregava o Evangelho de Cristo, e tentava provar a realidade espiritual como realidade absoluta; e Deus como a origem de toda substância e espírito, mas ele pregou sem algum convertido, e por todos meios as palavras soavam loucura aos ouvidos pagãos.
A insistência o levou ao ostracismo, e obcecado pelos relacionamentos perdidos por causa de sua obediência desprezou à Deus em suas visitas. E o novo filho, ressentido se afastou e no desespero de sua condição solitária se deu conta das vantagens de sua filiação.
Afirmou-se como descendente direto de Deus, e como prova ridícula mostrava o ventre sem orifício umbilical, mas seu argumento foi recebido por comentários desagradáveis.
Em uma tentativa mais convincente juntou suas economias e provou por exames cromossômicos que sua raiz genética diferia de todas as outras, e entre especulações e euforia se proclamou como filho direto do Todo Poderoso!
Foi alvo de massíva publicidade, e considerado salvador da humanidade como um espécime puro,de cadeia genética sem vícios, e se doou para pesquisas de doenças sem resoluções médicas, e através dele foram desenvolvidas vacinas e tratamentos eficazes.
E ele enriqueceu, e se envaideceu e sua origem nada mais lho dizia, a não ser na ostentação de sua nobreza celestial.
Ele era o segundo filho de Deus, e objeto de culto!
Deus se entristeceu com a cria que lhe virava as costas, e o vendo ser consumido pela vaidade que se tornou em queda, também viu as conseqüências do seu pecado sendo distribuídas e absorvidas por outras existências que se utilizaram daquele homem como amuleto de condução à cura ou ao paraíso.
O caráter singular do novo homem, despido da proteção da obediência foi vetor e campo, para novas maldições,males, e doenças, e a multidão, fazendo –se de inocentes reclamava castigo maior àquele arauto de todas desgraças, e cogitando a remissão de todas as culpas através do holocausto queimaram-no em “fogo santo” nas vizinhanças arborizadas da “Nova Babilônia”.
O Senhor escondeu o rosto do sacrifício, e a multidão, sem ídolo algum para apalpar logo se esqueceu de Deus.
Anderson Dias Cardoso.
domingo, 10 de julho de 2011
Ovelhas e Lobos.
Ofereceu as mãos em solidariedade, porém ela as negou, e os olhos de maquiagem destruída por lágrimas eram hostis ao que lhe fazia o bem.
-Quem disse que quero ajuda?
-Você chorava.
-Minhas lágrimas dizem respeito a mim somente.
-Desabafar geralmente ajuda.
-A simpatia masculina à qualquer dor significa uma única coisa: Sexo.
-Aceite minha mão assim com aceito seus insultos, sem análises ou esperanças.
E ela, desaforada que era levantou-se por si e se adiantou, o deixando vários passos atrás.
-Espere!
-Me deixe que sou bicho sozinho e sei lidar com meus ferimentos.
-E eu sou moço direito e se quiser apresento referência!-O sorriso deixou escapar um pouco de cinismo, e a tensão só fez aumentar.
-Não acredito em bondade humana... Principalmente a de desconhecidos. Se não notou meu corpo é magro, meus cabelos são ressecados e essa maquiagem desfeita esconde olheiras quase tão negras quanto a pintura que se desfaz...
-Se se vê assim tão sem atrativos por que temer as investidas que acredita que lhe dou. Aceite ao menos um café amargo e me deixe desfazer estas suas impressões...
-Realmente não acredito na sinceridade de sua atenção.
-Então aceite somente o café e meu silêncio.
Sentindo-se incomodada com a perseguição do “benfeitor” resolveu parar em um Café qualquer, e sentando-se logo pediu sua xícara de café, forte e doce. Ele observou, e cumpriu o trato se mantendo em silêncio.
-Você é apenas mais um lobo... dos tantos que se fazem de ovelhas.
Os olhos continuavam fixos, e os lábios cerrados, a atitude apaziguadora a desconcertava.
-Minha confiança não é tão barata que se compra com um aspecto sereno e uma xícara de café.
Um sorriso de canto de boca, e ela não resistiu e baixou os olhos para a xícara já consumada.
-A minha mãe traiu meu pai... ele nos abandonou e chegamos à passar fome...
O homem meneou de leve a cabeça, sem se distrair da história e logo com uma olhadela fez com que viesse outra xícara. Ela deu um gole curto.
-Fui entregue à uma senhora, para que me cuidasse em troca de meus serviços, tive que trabalhar ainda muito nova, aos nove, e minha rotina era muito dura- A maquiagem agora se desfazia quase que por completo, e os olhos dele se enterneceram.
-Fui espancada por serviços “mal feitos”, e no dia em que resolvi revidar fui posta na rua.
Era uma criança na rua... No frio.
Os lábios do homem se comprimiram, e notava sua glote se movimentando em uma deglutição difícil, quase dolorosa.
-Fiz parte de grupos... E como disse, o sexo era o pagamento para os cuidados que me ofertavam...
A primeira lágrima se desprendeu dos olhos do ouvinte, ele a limpou timidamente.
-Então não me tente convencer da bondade dos homens, pois da minha história você não sabe um décimo... E nela, os “personagens” não passam de lobos; enganadores! Eu odeio todos! Eu odeio você e essa sua bondade dissimulada!!!
Enquanto ela gritava ele agarrou seus pulsos, e a puxou para seu abraço. Ela não resistiu; era apenas uma garota ressentida.
-Não quero nada de você, só vi sua tristeza e ela me doeu o coração. Além do abraço a acariciou com um beijo terno no topo da cabeça.
-Você é um anjo?
-Não... Sou apenas uma pessoa tentando ser gentil!
-Preciso ir... Eu me sinto melhor.
-Provarei que minhas intenções eram boas ao não perguntar nada ao seu respeito, ou itinerário.
-Assim fica provado que estava enganada... Não são todos lobos.
-Não. - E se despediram naquele mesmo abraço. E ela dobrou a esquina, e encolhida no casaco grosso esquentou as mãos nos bolsos. Três quadras dali e ela retirou a carteira de couro do bolso, conferiu a grande quantidade de notas, e logo os documentos e enquanto ele, notando a falta, perguntava a si mesmo, ela respondia:
-Nem todos são lobos Lúcio, alguns são ovelhas!
Anderson Dias Cardoso.
quinta-feira, 7 de julho de 2011
Aluguel de Protesto.
Cercado de reclamações e inércia, e ainda sem emprego, resolveu-se por representar essa massa de descontentes em troca de sustento, e notando sua pouca força e ainda, imbuído de sentimentos nobres recrutou uma multidão de também desempregados e anunciou em uma comunidade que dispunha de um grupo que representava qualquer causa em protesto, diante de qualquer injustiça.
Tímidos e desconfiados os primeiros clientes pagaram o quanto podiam por sua revolta, e lá estava o grupo tumultuando a porta da casa de mulheres traídas exigindo reparação, fechando escritórios devedores de funcionários, gritando palavras de ordem em frente à lojas que desrespeitavam seus consumidores...
Vergonha e intimidação eram terrivelmente eficazes, e encomendas dessa força passara a ser mercadoria procurada, e então a entidade passou à absorver novas porções de vadios e se dividiu em novas forças de enfrentamento.
Agora haviam vozes gritantes em toda esquina, e a organização já havia se tornado incontível por qualquer força ou instituição, e sob o pulso forte do idealizador organizava sindicatos, contratava advogados e começava a comprar alguns deputados expressivos como garantia de continuidade e sucesso da empresa.
Logo o medo pacificou toda a cidade, e já sem “motivos” para se protestar as finanças decaíram, então começaram ondas de protestos extorsivos à qualquer pretexto.
A população já não via com simpatia aquela organização, e resolveu sair em defesa dos inocentes prejudicados, mas assim que a aglomeração alcançou a praça central foram cercados por viaturas, alvejados por balas de borracha e abatidos por jatos d’água.
Em meio à baderna aquele que um dia foi solicito às queixas das mudas multidões, e solvedor de tantos problemas usava a voz que os emprestou por tantas vezes em uma empostação autoritária num megafone e apontava uma folha que o conferia o monopólio de qualquer manifestação, concedido pelo Estado.
Agora éramos protestantes ilegais.
Anderson Dias Cardoso.
Tímidos e desconfiados os primeiros clientes pagaram o quanto podiam por sua revolta, e lá estava o grupo tumultuando a porta da casa de mulheres traídas exigindo reparação, fechando escritórios devedores de funcionários, gritando palavras de ordem em frente à lojas que desrespeitavam seus consumidores...
Vergonha e intimidação eram terrivelmente eficazes, e encomendas dessa força passara a ser mercadoria procurada, e então a entidade passou à absorver novas porções de vadios e se dividiu em novas forças de enfrentamento.
Agora haviam vozes gritantes em toda esquina, e a organização já havia se tornado incontível por qualquer força ou instituição, e sob o pulso forte do idealizador organizava sindicatos, contratava advogados e começava a comprar alguns deputados expressivos como garantia de continuidade e sucesso da empresa.
Logo o medo pacificou toda a cidade, e já sem “motivos” para se protestar as finanças decaíram, então começaram ondas de protestos extorsivos à qualquer pretexto.
A população já não via com simpatia aquela organização, e resolveu sair em defesa dos inocentes prejudicados, mas assim que a aglomeração alcançou a praça central foram cercados por viaturas, alvejados por balas de borracha e abatidos por jatos d’água.
Em meio à baderna aquele que um dia foi solicito às queixas das mudas multidões, e solvedor de tantos problemas usava a voz que os emprestou por tantas vezes em uma empostação autoritária num megafone e apontava uma folha que o conferia o monopólio de qualquer manifestação, concedido pelo Estado.
Agora éramos protestantes ilegais.
Anderson Dias Cardoso.
domingo, 3 de julho de 2011
A Mudança.
Uma orgia de plásticos bolha e jornal e todos os móveis e objetos eram embalados para transporte.
Da boca da matrona partiam a maioria das reclamações, mas cada qual cuidava do que lhe era caro, afastando seus apegos das mãos dos carregadores, e entre sofás aveludados e vídeo game tudo foi se acomodando no fundo do baú, e ainda notando vagas e sob apelos sentimentais levaram peças dignas do lixo.
-Isso ou aquilo me trás recordações- e se agarravam aos dispensáveis e eles próprios os conduziam ao veículo.
Então, depois de seleções pautadas em sentimentos os “descartáveis descartados” foram arranjados de modo a facilitar a remoção e limpeza, e com olhadelas e suspiros já saudosos deixaram o imóvel cerrando o portão alto e ruidoso, já com sentimentos novos e felizes à respeito do novo destino.
Não houve cerimônia de despedida. Eram pessoas reservadas e em seus vizinhos não encontraram nenhum atrativo ou necessidade que os impulsionassem à comunicação.
Sua falta não foi notada, a não ser pela agitação canina no quintal.
No primeiro e segundo dias só houve silêncio, mas, notada a falta dos donos uivos doridos passaram a incomodar a vizinhança.
O coro choroso contava dois timbres, e tais timbres denotavam portes diferentes; muito grande e muito pequeno.
O coro choroso contava dois timbres, e tais timbres denotavam portes diferentes; muito grande e muito pequeno.
Vez ou outra o conjunto parecia se desfazer em uma briga barulhenta, mas logo se uniam em uníssono para invocar a presença de seus donos, e a cantoria durou uma semana e dois dias, até que um grande volume começou a chamar atenção se atirando contra o portão com todo restante de força.
Notando o desespero finalmente se convenceram que já não havia moradores na casa e selecionado um; de espírito mais aventureiro, este trepou dificultosamente no muro alto e viu um corpo grande, porém magérrimo estendido próximo ao portão. Língua de fora, boca espumante e olhos revirados em suas órbitas.
Não muito longe encontrou o corpo descarnado e ossos meio roídos de um pequeno vira-lata.
As náuseas e a indignação foram regurgitadas dali mesmo, ele desceu do muro sem dizer palavra... Não havia mais vida naquela casa.
Anderson Dias Cardoso.
quinta-feira, 30 de junho de 2011
Amigo Imaginário.
Já se arrumando sentia o forte cheiro de café, e descendo rapidamente a escadaria já via o casal amado na mesa posta aguardando sua passagem.
Com pedaço de queijo entre os dentes perguntou sobre a ausência do irmão e este surgia como uma aparição desgrenhada vindo da sala após um dos ataques de cinefilia que o acometia vez em quando. A manhã estava calma, sem olhares preocupados.
Das figuras uma outra se aproximou com passos surdos, e o apressou com os olhos tristes e não notando intenção de deixar o amanteigado e leite tentou o arrastar pelo pulso, o que espantou o trio.
-Me largue!Ainda não acabou!
-Quem está ai?-A mãe já se desesperava.
-Meu filho... Você tem que se tratar- Agora, com o pai eram duas forças o disputavam enquanto o irmão aborrecido arrastava sua cadeira e deixava o ambiente atribulado levando um pãozinho e uma xícara de chá.
-Está armado o circulo dos malucos!-A porta da sala fechou o restante do monólogo e o controle fez gritar a TV. Aquela briga não mais o pertencia.
A tensão foi diminuindo com o conformismo, e com as explicações e o jovem conseguiu se afastar dos gritos da mãe e do abraço do pai, que o retinha impedindo que alcançasse a porta, e num desmaio manjado o pai desviou seu cuidado para a mãe e ele escapou ainda os consolando à distância, e a segunda porta se fechou.
As mãos o sacudiram violentamente, e quando o viraram ele esteve fitando aqueles olhos envelhecidos de amargura, e falando o hálito o embrulhou o estômago e a náusea o distraiu daquilo que havia dito. Procurou se afastar e se reorganizar para então enfrentar os insultos.
-Quando essa loucura ira acabar???-O jovem melancólico distanciou-se dois passos- Estão destruindo sua vida!
-Vamos andando, tenho que ver Jéssica. - O agredido tomou o caminho contrário evitando o olhar pesado e logo o foi seguido pelo ser murmurante, mas ignorou a maioria das reclamações.
Soou a campainha e esperou oito costumeiros minutos; tempo mínimo às vaidades da beleza, que surgiu anunciada por um perfume fresco e adornada por um sorriso autêntico, branco e harmonioso. Houve um abraço tenso e a moça decodificou toda a situação.
-Vamos entrar!-Deslizou sua mão à dele e o tracionou rumo à casa, mas ele resistiu.
-Não posso! Não o quero deixar aqui fora... Ele é meu amigo!
-Ele não existe!
-Você não entende!Ele está aqui ao meu lado... -As mãos cerraram os ouvidos, e o sangue ruborizou as faces e ela tentou fugir da loucura mas quando os lábios acariciaram a testa o amor a enterneceu e ela o abraçou novamente. Agora os corpos se esqueceram de qualquer ameaça e gozaram do calor e afeto um do outro, mas foi gozo breve, pois o olhar descontente do amigo o irritou, e ele preferiu entabular logo uma conversa, contando amenidades e tentando uma distração para ambos com estórias divertidas.
O itinerário, deixada a namorada, foi uma seqüência quase agradável de visitas das quais a segunda foi na casa dos avôs.
Eles, já acostumados com a presença invisível do amigo esperavam alguns segundos antes de fechar a porta. Tentavam ser corteses, mas com ar sempre descrente. Serviam dois pratos, dois copos e o participavam das conversas da família, mas ele permanecia encostado à parede da sala de jantar, com olhos raivosos esperando para deixarem aquele ambiente hipócrita.
Na casa de seu melhor amigo apanhou uma apostila e preferiu deixar incógnito seu acompanhante, e após cinco minutos de prosa já rumava para outra visita.
A “Casa” era o ambiente para se sentir tranqüilo. Tudo era performance, e as maiores esquisitices eram permitidas.
Moveu as cortinas pesadas e ao se mostrar foi saudado com sorrisos, e “brincou” apresentando seu amigo invisível a toda trupe e eles se riram lembrando-se daquela brincadeira e saudaram o espaço vazio, e beijaram a face do nada e convidaram o “delírio” a se sentar na roda. Ele não riu das simpáticas brincadeiras.
O ensaio da peça se desenvolveu até a cena do escândalo da mulher traída, e quando a arma apontou o coração do jovem como vingança a voz do amigo antecedeu o grito da morte.
-Eu não agüento mais!Esmurrou duas... três vezes a boca do jovem; até que viu o sangue manchar os dentes.
-Alguém me ajude!-O círculo se mantinha distante ao embate, observando o espancamento.
O amigo o sacudia violentamente, e gritava maldições ao moço confuso.
-Socorro!Ele vai me matar!- O grupo continuava assistindo, sem esboçar reação.
A cabeça se chocou com o encerado, o ar começava a fugir dos pulmões e ao fixar os olhos, viu o círculo de amigos se desfazerem no ar enquanto a fúria do amigo se tornava em lágrimas.
O peso do moço era o inverso da agressão, e a voz possante diminuiu a um cicio triste.
-Sua loucura está destruindo minha vida!
A exclamação abriu-lhe os olhos, e viu que não era um teatro, mas um barraco quase destelhado e toda uma imagem de miséria.
Não haviam pais, avós, namorada ou amigos...
Havia um paupérrimo irmão cuidando de um louco às custas de doções.
Anderson Dias Cardoso.
domingo, 26 de junho de 2011
As Vacas.
Reduziu e logo estacionou o “monstro” no acostamento diante das três vacas.
Ao descer cuspiu a saliva grossa que lhe inundava a boca, mas esta teimou em prender-se aos lábios e marcar a roupa.
A pausa também era oportunidade para urinar e junto ao ruído do processo ouviu cochichar das bocas bovinas; que além de capim ruminavam um diálogo quase filosófico onde a problemática era as novas formas de clonagem, e ao ouvirem seus passos o incluíram no assunto.
-E o que lhe parece João?- O timbre doce da voz da criatura malhada o fez se esquecer de perguntar de onde se conheciam.
-Haverão ganhos interessantes à custos altos. Regeneração orgânica, retardo do envelhecimento, cura de doenças...Empirismo cientifico com animais e humanos, engenharia genética aberrante...
-Não é esse tipo de clonagem que está em debate- Resmungou a vaca castanha- O mundo está sendo inundado por clones intelectuais em escala industrial.
-Dizemos de reproduções de estereótipos comerciais criados pela veiculação viciosa de conteúdo irrelevante e induzente –Completou a rouca vaca negra.
-Ainda existem guetos de produção intelectual e relevante nas mídias...- Articulou com o hálito etílico e perdigotos saltando involuntariamente enquanto a razão combatia a vertigem e acertava os pensamentos.
-Sim! Conteúdo pago- assumiu a malhada- quanto à TV aberta ou qualquer veículo, eles o apresentam tão repetitivamente, com diagramação tão pobre e linguagem tão desinteressante que não retornamos à esses canais e meios pela certeza de nos depararmos com uma reprise sem ao menos atrativos áudio-visuais!
-Essa mesma repetição é encontrada nos conteúdos dos canais “ordinários,”-Mugiu a vaca negra- só que disfarçada de conteúdo novo, e cada vez mais apelativo.
-As variáveis da programação são basicamente os produtos, fetiches e ideologias desagregadoras pedidas pelas conjunturas sócio político econômica- sorriu a criatura castanha.
-Uma unificação ideológica mundial encabeçada por empresas exportadoras de...-num repente a lucidez retornou ao motorista, e a realidade da conversa se tornou em um medonho delírio, e ele correu de volta ao seu caminhão, e dando partida arremeteu contra o trio ruminante, e daí em diante não era mais consumidor de “rebites”.
Anderson Dias Cardoso.
Ao descer cuspiu a saliva grossa que lhe inundava a boca, mas esta teimou em prender-se aos lábios e marcar a roupa.
A pausa também era oportunidade para urinar e junto ao ruído do processo ouviu cochichar das bocas bovinas; que além de capim ruminavam um diálogo quase filosófico onde a problemática era as novas formas de clonagem, e ao ouvirem seus passos o incluíram no assunto.
-E o que lhe parece João?- O timbre doce da voz da criatura malhada o fez se esquecer de perguntar de onde se conheciam.
-Haverão ganhos interessantes à custos altos. Regeneração orgânica, retardo do envelhecimento, cura de doenças...Empirismo cientifico com animais e humanos, engenharia genética aberrante...
-Não é esse tipo de clonagem que está em debate- Resmungou a vaca castanha- O mundo está sendo inundado por clones intelectuais em escala industrial.
-Dizemos de reproduções de estereótipos comerciais criados pela veiculação viciosa de conteúdo irrelevante e induzente –Completou a rouca vaca negra.
-Ainda existem guetos de produção intelectual e relevante nas mídias...- Articulou com o hálito etílico e perdigotos saltando involuntariamente enquanto a razão combatia a vertigem e acertava os pensamentos.
-Sim! Conteúdo pago- assumiu a malhada- quanto à TV aberta ou qualquer veículo, eles o apresentam tão repetitivamente, com diagramação tão pobre e linguagem tão desinteressante que não retornamos à esses canais e meios pela certeza de nos depararmos com uma reprise sem ao menos atrativos áudio-visuais!
-Essa mesma repetição é encontrada nos conteúdos dos canais “ordinários,”-Mugiu a vaca negra- só que disfarçada de conteúdo novo, e cada vez mais apelativo.
-As variáveis da programação são basicamente os produtos, fetiches e ideologias desagregadoras pedidas pelas conjunturas sócio político econômica- sorriu a criatura castanha.
-Uma unificação ideológica mundial encabeçada por empresas exportadoras de...-num repente a lucidez retornou ao motorista, e a realidade da conversa se tornou em um medonho delírio, e ele correu de volta ao seu caminhão, e dando partida arremeteu contra o trio ruminante, e daí em diante não era mais consumidor de “rebites”.
Anderson Dias Cardoso.
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