domingo, 23 de janeiro de 2011

A fuga.

O que se querer?
Amores que passam sejam eternos?
Felicidade, excessão da vida seja regra?
Dores anestesiadas; sofrimentos suprimidos?
Carne de bronze,coração de aço!
Cale o mundo dissonante, pare o tempo, deporte o medo e me crie uma nova vida;
De ouvidos surdos à mentira e olhos esquecidos da maldade!
Coração de carne, corpo de luz!
Ser completo e doador, reconhecendo e ofertando amor que morre a cada dia em outras vidas.
Modelo de Deus!
Perdoa a insolência!!!Não almejo trono, sou apenas verme!
Pequeno enlouquecido pelas intempéries, crueldades, e vazios existenciais...
Corpo ferido, coração vazio...

Anderson Dias Cardoso. 

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Eclipse Galinhas e a Ortodoxia.

Dia ordinário, mormacento, e todos exércitos galináceos já haviam despertado pelo cantar
firme de seus galos e iam novamente se encaixando nas estruturas naturais do
galinheiro.
Houveram cópulas, disputas, posturas, muita ração e minhocas arrancadas da
terra fofa e o dia já alcançava a décima hora da manhã com todos seus tumultos; foi então
que a lua, em todo seu atrevimento começou a devorar o sol, movendo-se sobre ele.
O mundo se maravilhou e os óculos escuros e chapas de radiografia faziam visíveis o
devorador e o fagocitado, e aquela escuridão parecia diferente aos espectadores; quase
mística, e ela furtava não só toda a luminosidade mas também as atenções!E novos deuses nasceram daquele fenômeno,e ressurgiram outros tantos: sumérios, babilônios, incas...deuses astrais acrescidos ao panteão de superstiçõe, e o espetáculo da natureza forçou uma interpretação espiritual, uma ação dos astros além de suas competências...
Aquela noite, que caia quase que de improviso sobre o hemisfério sul quebrou o ritmo nas
cidades e campos, e naquele quintal as galinhas foram se acalmando, quase notando a
brevidade daquele dia e foram uma a uma se empoleirando nos galhos da jaboticabeira
cheias de energia porém resignadas à um dia tão curto em uma vida tão curta, aquele meio
dia com contagem de um.
Cada corpo se aconchegava à outro preparando-se para uma possível  noite fria, e os
movimentos diminuíram e o sono começou a ameaçar e pesar sobre os corpos penosos, e os
olhos cerraram findando a consciência de mais um dia...Mas, rápido como a vinda daquela
noite a segunda aurora trouxe seus primeiros raios, e eles foram se adensando até que as
pálpebras não mais pudessem retê-los por completo e o calor trouxe desconforto, e o chão
convidou a bailar entre comida e pó e a granja se alegrou,mas a noite retornou
naquele mesmo dia, não tão de assalto mas com uma suave gradação e um pouco menos confusa
e o novo amanhecer foi comum como todos os outros e na sucessão de amanhãs alguns daquela
geração morreram de peste, outros foram vendidos ao açougue, e novos ovos eclodiram, mas
os céus não lhe foram motivo de espanto, e não houveram profecias ou oráculos ou
interpretações astrais e então Deus viu maior razão nas aves que nos homens...

Anderson Dias Cardoso. 

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Verdade à Moda.

Procuro pela verdade desde que se acomode aos meus padrões.
Verdade relativa não absoluta;
Flexível quando necessária, comum e aprazível.
Quero uma verdade "moda", também "projetiva";
Que ao menos abrilhante minha "persona".
Uma verdade Social simbiótica que me ofereça um horizonte,
Um horizonte toldado pelas minhas próprias influências.
Meu zelo mutualista a defenderá de todo panteão de outras verdades e seus hereges;
E reinará me conduzindo à tolice.
Ou me abandonará quando suas estradas estéreis,
Pelo seu vazio me conduzirem à razão.

Anderson Dias Cardoso. 

Sabedoria Etílica.

E meu pai, aquele escravo de Dionísio desrosqueava a garrafa de aguardente regando o interior do copo e nos primeiros goles quem assumia era Apolo e os assuntos ficavam fáceis e o cosmos e todas suas estruturas se descortinavam sem enigmas ao seu entendimento, não como obsoletas profecias  Pítias...
Invertia palavras e criava soluções, e geria com a razão de uma criança os eternos dilemas da humanidade.
Era doutor, não dos convencionais, mas o tipo pajé-xamã-druida, com suas panacéias holistas de gestos e fórmulas.
Quando estadista, era a prosperidade do pobre, o desenvolvimento burguês e a paz da nação.
Quando profeta perscrutava pensamentos, tempo e espaço gozando das intimidades do próprio Deus e ouvindo os sussurros de suas maravilhas...
Tudo isso, esses universos de sapiências num girar de tampa e derramar do líquido.
Uma sapiência de faces afogueadas de olhos sonolentos e passos vacilantes...
Sabedoria etílica...
Razão alcoólica.

Anderson Dias Cardoso. 

domingo, 2 de janeiro de 2011

Cães e Seus Mendigos...

Quando "Matilha" tornou se em "Família" e tantos andrajosos se puseram
nas ruas cercados por procissões caninas compartilhando
tristezas,afetos,e restos de pratos frios!?
Sociedades heterogêneas de indivíduos excluídos criam universos
paralelos onde a visão da indiferença não alcança.
Pets tornando se entes?
Que absurdo!
Absurdo de afeto nobre que por falta de almas dignas se confere a
seres sem alma!?
É amor entre iguais; entre os "cães" das cidades; quadrupedes e
bípedes; nobres excrementos sociais.
Incrementos que enfeiam paisagens  mas amor que comove e se doa em
verdade, amor que pouco espera e de migalhas se agradam...
Migalhas de pão...
Migalhas de afeto!!!

Anderson Dias Cardoso(Buru.)

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Engrenagens nas Rodas da Insatisfação.

Vendidos, ainda, por baixo preço
Com dignidades de escravos
A vida vai rolando por ambientes opressivos...
Vezes rápida para o deleite
Vezes sonolentamente morosa para o desespero

Então, somos mercadoria viva
Engrenagens que se gastam
Nos movimentos da economia
Sem o lubrificante óleo da satisfação...

Anderson Dias Cardoso.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Meus Erros.

Quantos erros ainda cometerei?
Erros que resultarão em paradoxais acertos,e outros, ortodoxos erros?
Erros por impulso,ignorância ou deliberados!
Erros maldosos,piedosos,ou neutros!
Minha história se molda por eles,e por eles minhas veredas se desviam
por vias que não reconhecerei; e se iniciativas conotativamente
pejorativas ou paradigmas humanos condenam os mesmos, eles ainda me movem
em seus deslizes...
O erro é natural; inerente à estreiteza da minha existência,e seu peso
eu lanço de mim, ainda que com o grande luto do remorso, e sigo com
meus muitos passos retos, e alguns passos tortos...

Anderson Dias Cardoso. 

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Sorriso...


Sorriso tão somente um sorriso!
Contrações e distensões, instinto e por vezes cálculos.
Embalagem do engano, expressão duvidosa calando segredos.
Expressão da vida pulsante, frescura da amizade, dom que se presenteia
por contágio.
É sedução,encanto, simpatia, indiferença, escárnio, ira...é riso nervoso.
É roupa para cada ocasião, que aquece, protege, enfeita...mas também esconde!

Anderson Dias Cardoso. 

Eu?Meu...

A busca do “Eu” se extraviou e foi à procura no individual do que devia encontrar no coletivo;
E em seu desvairo o “Eu” se tornou “Meu” então a vida se tornou mercado e tudo mais produto, e no movimento de tanto comércio o que se comprou foi a solidão.
Nos relacionamentos houve a desconfiança, e nos afetos nasceram as dúvidas e seu fruto foi separação;
O mundo ficou rico de vazios matando o significado do possuir e o ganancioso “Meu” vendo a nulidade de seus esforços quis se findar nesse mesmo vácuo, para nascer novamente pessoa, não produto...

Anderson Dias Cardoso. 

sábado, 11 de dezembro de 2010

Homônimos e a Corrupção.

Uma pergunta trouxe à consciência de Hipócrates de volta à mesa,e ele se
desculpou por divagar como fazia com seus pacientes,sorriu um pouco e
disse como eram chatas todas aquelas consultas,dores e doenças do
proletariado,e mordeu um bocado do prato fino construído de vísceras de
carneiro,e se lembrou novamente de sua especialidade e disse em tom quase poético
que "não só o câncer devorava as vísceras",e comentou satisfeito que
algumas mortes haviam lhe conferido ótimos jantares,e que o desvio de
medicamentos oncológicos eram muito lucrativos,e todos na mesa se
reclinaram atentos aos valores de que se gabava o médico,e se
encantavam com a genialidade daquele companheiro,e então Paulo de
Tarso exclamou um "Glória à Deus" que o fazia adentrar na "Terra
Prometida".Adam Smith pediu outra garrafa de suor,ordenou que o garçom
distribuísse uma medida generosa a cada companheiro,e brindou à saúde
e à fortuna,e todos riram,e Paulo de Tarso Bendisse à Deus,e aos
homens de boa fortuna,mas no meio de sua doxologia Adam arrotou
satisfeito e retomou a palavra,perguntou se apreciavam aquele fino
estabelecimento e analisou a estrutura administrativa
daquele grande restaurante e deslindou os métodos daquele que 
era um de uma grande cadeia!-Belo método,muito tradicional e
humildemente reclamo a autoria:mercadoria de segunda,preços de
primeira,trabalho de imigrantes,salários baixos e ameaças de deportação,nada de
direitos,tudo com um belo sorriso estampado no rosto ...é o que
vale!!!Ninguém quer saber se exploramos alguns,desde que o prato e o
atendimento satisfaçam à um estômago vazio e um coração aborrecido!E
Clístenes tomou posse do resto da conversa e olhando para Paulo de
Tarso sorriu como se furtasse sua fala e dessa vez foi ele que elevou
uma bendição,e disse "Bendito sejam os signos!Benditos sejam as
marcas;que uma vez consagradas se adulteram e vendem a mentira!E todos
disseram Amém!E Paulo de Tarso emendou um Aleluia,e todos riram
divertidos.Clístenes ajeitou os cabelos,e seus olhos eram atentos e
atenciosos e repousavam em cada pessoa por uns instantes e os dominava
com seu carisma.-Somos a geração dos signos!Somos todos marcas,e como
disse,as razões sociais nada importam-mexeu novamente nos cabelos  e o
perfume do hálito dos famintos rescendeu gostoso por toda a mesa,e
logo adiantou a procedência:furto advindo de impostos sacrificantes,e
gabou-se,era sua melhor essência do proletariado,muito melhor que o
perfume das ruas,dos abraços suados em tempos de campanha...Nós somos
o futuro!!!Os gerentes do mundo!Administramos a fartura de recursos e
a transformamos em escassez,diminuímos estatisticamente a
pobreza,fingimos aumentar o poder aquisitivo da população,quando o que
aumentamos são os impostos,e lhes retiramos os direitos à
educação,saúde,e lazer,e ainda os fazemos pagar caro por esses e outros que fingimos oferecer; até que
se
consuma seus recursos e não os gaste em...Uma mão se ergueu,e a frase
foi cortada,e Goebbels assumiu apropriando se da ocasião:Não se
esqueça de nós camarada Clístenes,não se esqueça de nós!!!Uma nota de
perversidade simulada vibrou naquela voz.Nós criamos estas embalagens
bonitas que são apresentadas!Aumentamos as virtudes,diminuímos os
defeitos,e eliminamos as deficiências!!!Nós somos os "Criadores de
Símbolos"!Somos a voz que calunia seus adversários,mesmo sendo
melhores que vocês,nós somos o silêncio,a omissão,somos a forja de
tiranos,criadores de monstros,ao passo que também
beatificamos,endeusamos,instigamos à idolatria...somos a realidade
mutável do interesse,somos os construtores do mundo virtual,moldado ao
gosto das elites,em detrimento aos menos favorecidos...Somos a
ignorância e entretenimento para a pobreza,a manipulação e a confusão
da classe média,e as possibilidades e potências dos poderosos...e o
que
tens a dizer camaradas???Principalmente você Paulo,que está tão atento
à nossa fala,e nem mesmo ergue um novo louvor?Será que nos
desaprova,ou nos condena com seu silêncio???
-Não irmão;somos filhos de uma mesma proposta...uma confraria sagrada
que atua em diferentes ramos,suprindo a necessidade de propósito das
massas...nós criamos demandas,desejos e pastoreamos ovelhas confusas
aos pastos do mercado...Lindamente esvaziamos os significados e
deixamos as substâncias para já não sobrecarregar os corações tão
atribulados...Um Cristo moral é melhor que o Filho de Deus,rituais são
mais leves que transformações...então olha para Goebbels e seus olhos
e a boca estreita sorriem-Um produto não necessariamente deve ter uma
utilidade,mas deve despertar o desejo,e o desejo deve se transformar
em propósito...Meu produto é Deus,ou melhor,sua moral para regular as
relações sociais e proteger as classes altas da revolta das demais
camadas e desviar o foco da terra para o céu prometido,e para lhes
facilitar o caminho,lhes retiramos a cruz,e sem que percebam os
retiramos o próprio Cristo,deixando algo de sua útil doutrina...lhes
entregamos a embalagem enquanto o produto continua
guardado na prateleira;em verdade em verdade somos todos uma fraude
mutualista onde as ligações não são percebidas pelos círculos
externos,sob a regência de um Deus comum...a ganância!E se tomamos a
aparência,ou características de nossos homônimos é por pura
conveniência e facilidade de associação de imagem!Somos os heróis
reeditados para uma sociedade que não conhece seu passado,e nem mesmo
em profundidade as proposições de cada um desses nomes...

Anderson Dias Cardoso. 

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Desc(aso)ou(anso)?

O que quero é um pouco de preguiça,comprar de volta o tempo que vendi  barato,mandar calar o despertador e só por algum tempo ser dono de mim;
Bermuda chinelos e um coração leve;e a vida que corre depressa se amansa,e o futuro se afasta um pouco do hoje e eu convido o "agora" para celebração do meu ócio.A voz que clama por alforria;rouca de cansaço merece refresco e o corpo que o trabalho acoita reclama descanso mas o verdugo não se apieda e as jornadas se estendem para abater a alma e multiplicar as riquezas e quando enfrento o espelho vejo a morte se aproximando pelas costas;crânio suado,manto por lavar e sua ampulheta vazia  me acusa o atraso...

Anderson Dias Cardoso. 

sábado, 4 de dezembro de 2010

Estética Canina Coerciva.

Não me deram o privilégio do androginismo e de frente todo cão é
igual;sou cão macho,mas isso não importa se o corpo diz que não.
Tenho pelo negro,tenho pelo verde,tenho pelo rosa,só não tenho vontade
própria,sou escultura animal,sou ostentação de criatividade,sou...sou
ridículo!
Parte pelada,parte peluda,friorento tendo um dia tanto pelo;
admiro à muitos,até que perguntam o sexo,e se afastam sem esconder o
deboche!Ah!Fosse eu cão comum,um vira-latas qualquer,sem banho nem
tintura,vivesse de lixo;corresse na chuva sem temer termômetro!Mas sou vítima do sistema,sou obra do gosto...tentando me adaptar;sou a personalidade que não escolhe sua embalagem,sou o cão pós-moderno,imagem desse mundo  sem valores,completamente "despoodlerado"!!!

Anderson Dias Cardoso. 

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Filho do Mercado.

Vende-se uma vida; sem vínculos, sem afetos, mercadoria estocada na prateleira do
 ventre.
Vende-se caro o que não tem preço; (e quem disse que o amor não se compra?)
Produto sem prazo de validade; ovo surpresa, sem direito a devolução;
Vende-se o choro noturno, as dores de ouvido, as confusões da adolescência;
Vende-se a graduação, os preparativos do casório, talvez  a dor da morte;
Num comércio que ata vidas, constrói álbuns de fotos e torce o futuro.
Uma mãe enche os bolsos, a outra o coração, numa troca de absurdos;
A realidade constrange, a sociedade comenta, e essa prole caminha com seus dois valores, tranqüila;
Um valor de mercado,um valor de afetos!!!

Anderson Dias Cardoso. 

domingo, 28 de novembro de 2010

Sophia.

 
Família modesta;pai,mãe e um crioulinha linda que ensaiou seus
primeiros passos aos nove meses,e aos três anos já lia,escrevia,e era
dialeta competente;qualidades que lha conferiram a alcunha de
"Sophia",e era a alegria e esperança da casa.A mãe se incumbia de
lhe ensinar as letras,o pai,do sustento e ambos e da formação cristã.A
inteligência  lhes causava estranheza,e suas perguntas embaraço,e
dos poucos livros que lhe liam, e lhe davam a ler, a Bíblia era o
quotidiano;e ainda se alegravam na sua pobreza,pois deles era o Reino dos
Céus;porém em uma de suas carestia o orçamento os estrangulou,e a
mãe saiu em busca de um emprego,e a creche foi a melhor opção,e o pai
deixou a linda negrinho naquele mar de infantes;recomendou poucas
coisas,e deixou o resto dos sentimentos em um abraço terníssimo e
partiu através do portão descascado.A negrinha,nas estranheza da nova
realidade se consolou com os brinquedos que nunca teve;com os amigos
que nunca conheceu e foi só sorrisos,e brincadeiras de roda;mas uma
mão arrancou um dos elos da cadeia de crianças que giravam,e uns
gritos,impropérios,tapas,e murros espantaram à todos,e aquela
garotinha foi lançada à parede,e seus cabelos arrancados por alguma
desobediência;e aquele vulto,a "mulher-demônio" cobria a garotinha com
sua sombra e violência...foi quando uma voz infantil,com toda a firmeza possível
se alteou sobre todos os gritos dizendo:Qualquer que escandalizar um
destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fora que lhe pusessem
ao pescoço uma mó de atafona, e que fosse lançado no mar.
E, se a tua mão te escandalizar, corta-a; melhor é para ti entrares na
vida aleijado do que, tendo duas mãos, ires para o inferno, para o
fogo que nunca se apaga...Houve um silêncio,e a mão da
"mulher-demônio" largou a garotinha,e o tremor das mãos demonstrou sua
derrota.Deus falou naqueles lábios negros,que mal tinha reparado e a
condenou;e ela correu dali levando seus gritos e algumas lágrimas,e um
tumulto de adultos afluiu para a casa dos brinquedos,e as histórias
foram esclarecidas,e o pequeno anjo de pele negra se encontrou cercado
de sorrisos,e rostos maravilhados,e na vizinhança todos o amaram,e com
o tempo perdoaram aquela mulher bruta,e esqueceram todas suas
maldades,e nela nasceu um novo amor,e então viu que ele  novamente "Ele" veio ao mundo
para resgatar os perdidos;um milagre na boca de uma negrinha
brilhante!!!

Anderson Dias Cardoso. 

domingo, 21 de novembro de 2010

Deuses Perecíveis...

...E na terra mãos humanas começaram a forjar deuses de carne,na
medida dos nossos desejos,por vezes deuses impostos,iluminados pela
aura da tv,resguardando seu vazio através da distância.Vestiram-nos de
valores não seus,multiplas vidas de infinitos significados,confundiram
os à moda,às "tendências" e ideologias,vendendo-os como uma
verdade,transformando-os em padrão;e eu procurei enxergar a verdade
por trás do produto,e o encanto se desfez,e me foram desnudadas as
fragilidades do ser,e os deuses se juntaram a mim no
horizonte,depositando seus orgulhos na poeira  olharam se no espelho
procurando se encontrar,e descobriram-se como deuses enrugados,de
mechas grisalhas,e no reflexo estava impresso o seu passado,e notaram
fãs gritando seus nomes à substância,porém seu calor não os aquecia
pois era essa substância que o absorvia,e sentiram se um pouco vazios,e notaram  que aquelas mesmas mãos que os fizeram manuseavam suas riquezas,com sorrisos satisfeitos e apontavam no menu outros deuses para protagonizar novas histórias,e então eu notei que "desta vez" Nietzche estava certo,e senti pena dos deuses...

Anderson Dias Cardoso. 

domingo, 7 de novembro de 2010

Barbie X Darwin,e a Conspiração na Fila do Banco.

Filas são reveladoras nelas se conversa de tudo, negocia-se, inveja
se, tudo nada muito divertido mas faz parte da ordem então se tolera; e
numa dessas duas senhoras muito bem vestidas discutem a
pós-modernidade das crianças e seus brinquedos, o tema específico no
momento em que comecei a me interessar pela conversa girava em torno
da boneca Barbie e sua separação do boneco Ken e o novo namoro com o
boneco Blaine um boneco Australiano surfista,coisa revoltante e
controversa:
-Pois é Fulana, agora estão substituindo as funções das bonecas,antes
eram uma forma lúdica de ensinar a maternidade às garotinhas,depois
com a industrialização passou a ensinar o consumismo,com todas aquelas
roupinhas,acessórios e tudo mais,mas agora estão extrapolando;estão
querendo transformar nossas filhas em vagabundas"!!!!Onde já se viu
Fulana;estão separando até as bonecas!!!!O mercado está pervertendo os
bons costumes da sociedade!!!Eles acabaram com um relacionamento de
quase cinquenta anos por causa de que...???Me diga Fulana, de que????
-Isso foi um golpe publicitário Cicrana,só querem chamar a atenção
para a boneca procurando melhorar a exposição no mercado por isso
arranjaram um novo namorado para a ela...
-Não Fulana,eles estão querendo criar uma sociedade pervertida...É uma
forma subliminar de induzir a promiscuidade em nossas filhas,você não
percebe que uma relação tão longa é uma analogia ao casamento???Eles
estão dizendo ao subconciente das nossas crianças que o casamento é
uma instituição falida!!!Estão profanando a instituição mais sagrada
da sociedade com essa versão "sem vergonha" da Barbie!!!
-Ah,Cicrana isso que está falando é um absurdo,é necessário ao mercado
dar uma embalagem mais atual ao seus produtos, por isso as vezes eles
quebram alguns paradigmas inventam alguma moda,a tendência pós-moderna
de comunicação é de aproximação de produtos, serviços e outras coisas
da realidade do dia-a-dia, você não reparou que até os jornais estão
mais informais???Hoje dispensam as bancadas sentam se em longos
sofás;existe mesmo uma tendência à "popularizar e humanizar" algumas
parcelas da nossa vida,criar identificação...
-Isso é "semvergonhice" disfarçada!!!Abra os olhos Fulana!Abra os
olhos!!!Vai indo de acordo com a filosofia do mercado e logo você verá
sua filha Beltrana chegar "buchuda" em casa,eles estão se apossando de
mídias e produtos e lançam atitudes e mercadorias impregnadas de
simbolismos e fiscalizam nas ruas as influências que geram nessas
pessoas...Lembra daquele corte ridículo de cabelo do Ronaldo???No
outro dia todas emissoras mostravam fãs de todo mundo com aquele mesmo
corte horroroso...e aqueles meninos da roupa colorida???As ruas estão
parecendo um desfile de escolas de samba de tão coloridos...não estou
dizendo que isso aconteceu nesses casos, pra falar a verdade pra mim isso
é mal gosto mesmo, mas essa é uma forma de avaliação de receptividade
muito utilizada...
-Mas o que isso tudo tem a ver com a separação da Barbie???
-Fulana,abre o olho!!!O mercado não é só uma versão singela do
Darwinismo onde os brinquedos seguem a lei de sobrevivência dos mais
aptos e as modificações não visam uma adaptação ao mercado mas elas se
adiantam às tendências ou as copiam no pior, sempre no pior, nós não
vemos tendências de fraternidade baseadas no ser, mas as bonecas sempre
aparecem unidas à um ambiente opulento, à bens e coisas do
gênero,sempre gerando uma aura de competitividade e outro fator que
usam é a sexualidade...as bonecas estão cada dia com roupas mais
indecentes...daqui uns dias aposto que lançarão umas bonecas
funkeiras, isso é se não houver alguma; já pensou Fulana,eles dão uma
nacionalizada na própria Barbie e dai jogam na favela coloca uma
roupinha de funkeira e fica algo como "Barbara Poposuda", já tô até
vendo, uma boneca bombada onde poderá se regular o volume de silicone
em qualquer parte bastando uma bombinha vendida separadamente...
-Hahahahah!Credo Sicrana,dai o quem vai virar "Mc Ken e o Bonde das
Bonecas"!!!Hahahaha!!!Você é mesmo doida!!!
-É isso,tudo para desagregar a sociedade!!!Hahahahahaha!!!
-Não entendi.
-Começou quando a revolução feminista nos enganou; ela nos prometia
igualdade entre os sexos, oportunidades de voto,emprego, e tudo mais
então nos jogou em um mercado, como mão de obra barata, sob olhares
preconceituosos e nos privaram da criação de nossos filhos,ao invés de
uma guerra de sexos, não se procurou uma conciliação, uma valorização no
contexto familiar que proporcionaria núcleos mais consistentes e mais
felizes , dai a sociedade começou a se desintegrar gradualmente, as
crianças ficaram sob os cuidados dos avós,ou mesmo de creches ou outros
cuidadores; os casais, cansados depois de um dia de trabalho pesado
chegam indispostos em casa e não tem tempo nem paciência para seus parceiros e
para seus filhos, sua educação passou a ser de competência de terceiros,
depois dos colégios e hoje deixamos nossas crianças sob a
tutela da tv e dos computadores,sem nenhuma fiscalização e lá eles
compram das séries, novelas,filmes uma ideologia promiscua, e o
relacionamento passa a ser uma troca de corpos, uma intimidade
vazia, traições, mentiras...
-Mas Cicrana,o que eles ganham com isso???
-O mercado, os governos, e todo orgão regulador tende a dominar através
do medo, e como o medo constante gera danos como pânico, depressão, e
desmotivação então eles se valem da irmã mais nova desta,a ansiedade, que causa
menos danos e produz consumismo como uma forma de satisfação
imediata; um atenuante para as tristezas da vida heheheheeheh!!!
-Entendi Cicrana,se você não pode contar com seus próprios pais, se
seus parceiros são meras peças a serem usadas e descartadas,e se o
mercado de trabalho se vale de uma concepção Darwinista, a política não
responde ao  básico, então se recorre a esses subterfúgios de consumo
como um relaxante emocional, e esquece-se da família,não existem afetos,e os núcleos sociais são rompidos, então somem as lealdades e é cada um por si e todos pelo mercado!!!Mas quem estaria por trás disso tudo Sicrana???-E então nesse momento o caixa deposita a ultima nota nas mão da senhora que a outra chamava Fulana, ela interrompeu a conversa conferiu as cédulas e guardando-as na pequena bolsa se virou e foi explicando de quem se tratava naquela conspiração toda,e sua voz foi se perdendo no burburinho do banco e infelizmente não ouvi o final daquela interessantíssima história;mas  aquela voz ainda continua em algum lugar da minha mente me dizendo:Abre o olho Fulana!Abre o olho!!!!

Anderson Dias Cardoso. 

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Cidadão Mendigo.

E no tumulto da rua ouvi uma voz estranha,ela me fez voltar o rosto e ver o estereótipo da pobreza,vestido de andrajos,imundo e atado em faixas que continham ferimentos mal curados,mas a miséria cotidiana nos acostuma fazendo desaparecer toda empatia ou solidariedade e daquelas aberrações sociais enxergamos só uma paisagem poluída que um adiantamento de passos resolve facilmente,eu meu sorriso mecânico tenta despedi-lo mas ele insistiu no pedido de uns trocados pra um pão com margarina e café preto,e meu sorriso foi novamente doado junto a um pedido de desculpas e uma piadinha dizendo ter emprestado o último centavo ao ministro da saúde,a qual foi respondido com uma polidez desconcertante que não seria possível pois este estaria naquele dia em Cuba em um seminário de biotecnologia e se eu não me dispunha a ajudá-lo agradecia e me desejou um ótimo dia.O impacto daquela conduta,tanto da educação quanto no conhecimento político sacado por aquele farrapo humano me vexou,e eu,de boca seca me voltei novamente para arranjar a situação e aproveitei para convidá-lo para comer alguma coisa e matar a curiosidade a respeito dos conhecimentos políticos daquele homem.O restaurante era simples,não quis chamar muito a atenção para nós,um pouco de vergonha mas também conservando a dignidade daquele homem,e a conversa fluiu fácil,e a refeição assumiu aspectos de comunhão quase orientais,e entre as garfadas educadas do mendigo eu perguntava uma ou outra coisa,e soube que seu finado pai,pobre como o próprio também gostava de política e assistia tudo que podia nos botecos que lhe ofereciam um prato de comida(assim como ele fazia),e atribuía as misérias do mundo aos próprios homens,que entregavam seu poder nas mãos de uma aristocracia,ao mesmo tempo que se furtavam da responsabilidade fiscal que lhes cabia,seu pai defendia uma educação política e campanhas que envolvessem a todos na construção da verdadeira democracia;nós falamos de tantas coisas!Escândalos,a construção de entrepostos da Zona Franca,distribuição de renda,programas assistenciais,saúde,educação,e aquele homem me maravilhou,e no meio de um sorriso,agora sincero,perguntei qual a relação do Estado com os moradores de rua,e ele respondeu meio triste que era mais ou menos a mesma que a maioria dos homens tem com sua sogra:"São muito polidos e interessados diante da sociedade,mas no seu interior não vêem a hora de deixarmos a cidade!";eu perguntei se algum político já tinha se dado conta que os moradores de rua eram potenciais eleitores,e ele respondeu que havia um encanto de dois em dois ano que curvava a coluna dos poderosos diante deles,mas não procuravam seus votos,nem cogitavam que tivessem algum documento ou que se importassem em votar,mas suas figuras deploráveis dava-lhes a oportunidade de demonstrar todo amor incondicional e assistência que o candidato estava disponibilizando para todo o povo,em troca de uma procuração para lhes conduzir a vida!A multidão comprada ia à loucura com o aperto de mão daquela sórdida figura,e eles sempre nos ouviam as petições,balançando enfaticamentente a cabeça enquanto contorcia o rosto procurando o melhor ângulo para uma foto,e no momento certo o clique nos iluminava e ele se levantava a procurar outro desgraçado,não deixando esperança,antes,levando mais um pouco da minha dignidade!Ele disse que era essa a mercadoria que tinha a oferecer à sociedade,isso e o material reciclável que lhe garantia alguns reais por dia;as vezes insuficientes para uma refeição.Minha hora chegou e fui me levantando e agradecendo a prosa e saquei uma ultima pergunta:Por que se preocupar,por que procurar saber a respeito de política já que o próprio conhecimento de que não constava como cidadão,e que as políticas apresentadas não viriam de encontro as necessidades dele fariam uma alma ainda mais angustiada;e ele sorriu com os olhos brilhantes e perguntou se ele devia morrer abraçado à uma garrafa de cachaça,e ele disse:Uma roupa suja e a falta de banho e a falta de um emprego não me tiram minha cidadania,não existem sindicatos ou associações de mendigos,nós não temos representantes nas câmaras,e se perdemos os privilégios sociais que nos igualam aos demais cidadãos então seremos realmente aquela paisagem móvel,triste,que polui as cidades.

Anderson Dias Cardoso. 

sábado, 23 de outubro de 2010

Ônibus...Um Universo Confinado.

Ônibus, plenitude da palavra coletivo, invasão de todos os sentidos, lugar de reencontros, novos amores, náuseas.
Onde cantam os mc’s, as frutas.Uma multidão se sufoca em uma verborragia alucinada
e pobreza paga caro pelo aperto; pela invasão.
É um nirvana torto, imposto, uma diluição do eu e da dignidade do ser.
É o espetáculo do lucro indigno, um sadismo exploratório de empregados, funcionários... semelhantes!!!
Onde o ter é igual a subjugar. A propaganda e a satisfação se excluem, o beneficio dado esconde a mão que furta...
Olhe e veja o luxo dos estofados, a novidade dos veículos, as superfícies emborrachadas.
Veja que cores vibrantes de um claustro moderno. Tormento do toque,dos tumultos,onde fervilham iras pelas pessoas erradas.
Purgatório, onde a salvação está no salto do próximo ponto...

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 17 de outubro de 2010

Peito Vazio.

Cada qual teve seu problema resolvido,Dorothy conseguiu sua volta
garantida como pagamento por uma campanha publicitária de uma
companhia de viação,campanha muito bem sucedida pois foi baseada na
volta da heroína para casa,o que deu um caráter emocional,e ressaltou
o comprometimento da empresa com "filantropia" e causas sociais;quanto
ao espantalho procurou a solução da sua anacefalia em tratamentos com
células tronco,implantes de microprocessadores,transplante de cérebro
porém sem sucesso,então frustrado,tentou terapias cognitivas,e
ocupacionais para amenizar uma depressão,e tentar suprimir a tal falta
de cérebro,e em uma sessão de musicoterapia ele se encontrou!!!Logo se
interessou pelas músicas "alternativas" e passou a compor Funk,e nunca
mais sentiu falta de um cérebro!!!Quanto a mim,continuo buscando o que
me falta,sofrendo em imensas filas ,onde nas madrugadas o sereno me
fustiga,me corrói,e o vazio do peito não encontra consolo,eu tento um
transplante,mas se negam me operar,e se riem do meu caso dizendo não
ser um caso patológico,mas existencial;então tentei o mercado negro,e
compreendi que um coração roubado,quando pulsasse pulsaria pesado de
amargura,e então minhas invejas,meus ciúmes dos humanos se mostraram
ridículas,e eu me vi correndo atrás de um coração não orgânico,mas um
sentir,e tristemente descobri que coração de homem bate,mas não
sente!!!

Anderson Dias Cardoso. 

Balé do Espantalho.

Tocou as sapatilhas empoeiradas naquele armário já esquecido, os dedos fofos corriam no tecido negro, e o peito se comovia mais um tanto!!! O piano cantava leve um convite ao salão, enquanto se enrolava em fitas, atando-as, dando contorno ao seu corpo de palha! Uma angústia ia nascendo na alma, e o sorriso nervoso se fez; então ele correu pronto para as portas, e cruzando-as encontrou-se no seu éden!Contorcia se meio flutuante pelo som, e sentia a angústia tornando se um ardor, e a leveza sua o conduzia em voltas e passos de dança,o chão de vinil rogava por toque,mas seus pés aeravam zombando da gravidade,dançava sob a revoada dos corvos,porém não se lembrava de seu ofício,mas a música foi se tornando vento,e no teto,os caibros,estrelas e o frescor da noite aliviou o calor do corpo,e as sapatilhas se feriram nos seixos,mas a dança o movia com amor,e ele rodopiou,e rodopiou em meio à plantação,e se viu sozinho,e parado se dobrou à solidão,e correu pelos corredores do milharal,e escalando o madeiro abraçou se nervoso à sua rigidez,e negou seus movimentos,e temeu a escuridão e notou que era só um espantalho,e as contas negras caíram de suas órbitas,e os corvos que antes assustava gorjearam satisfeitos um adeus...

Anderson Dias Cardoso. 
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