quinta-feira, 26 de maio de 2011

O Peixe e a Ecologista.


Gostava de culturas alternativas, das quais a que mais a interessou foi a ecologia.
Cultivava uma pequena horta, reciclava, participava de passeatas e plantio de árvores, e na perfeição de sua militância só havia um pecado: Um peixe beta, ganhado como um presente bizarro de aniversário!
Conservou-o inicialmente como um objeto profano, mas a beleza da coloração e as barbatanas hipertrofiadas logo fizeram esquecer a proibição de conservar cativa uma vida, e o pet se tornou sua extravagância predileta!
A praticidade do peixe a permitia uma mobilidade incrível, e ela passou a levá-lo por onde quer que fosse em um aquário elegante, redondo, e com uma tampa atarraxável.
Essa curiosa criatura asiática dispõe de um sistema respiratório, que envolve tanto respiração branquial quanto labiríntica sendo possível a conservação do mesmo em ambientes herméticos, dos quais um era o já citado aquário que costumava ser transportado em uma colorida bolsa térmica bordada com temas naturais.
Todos se interessavam em ver, e o globo aquoso exibia a dança de véus que se estendiam calmos e despretensiosos.Era muito bonito de se ver!
Num dos dias quentes ela escondeu o peixe sob a sombra dos vidros escuros de seu carro e rumou para o “Evento Verde” em uma conhecida cidade do Amazonas, e partiu feliz, se guiando por mapas e informações de beira de estrada.
Muito tempo de viagem e um posto havia ficado a uns 200 km de alguma cidadezinha sem marcação de placas, e a estrada sinuosa e de fortes aclives venceu o automóvel, e o calor a ejetou de dentro dele.
De início esperou pacientemente por ajuda, tentou o celular, mas a região era estéril de linhas. A via morta não ofereceu nem rugido de motores distantes, então preferiu procurar pela resolução numa caminhada dolorida para tão despreparado corpo!
O recipiente redondo, junto à bolsa pesou e os pés se encheram de bolhas e ela descansou na quentura do asfalto os dois objetos, e retirou o peixe para observá-lo e trocar o ar do aquário. Encerrou o cuidadosamente  na bolsa e resolveu se por  seguir adiante, intimidada pelo caminho cheio de altos por onde havia passado.
Não achou cidade ou sombra!
Sentiu algumas vertigens e sede e pensou em beber a água do peixe, mas sentiu que isso trairia suas convicções então resistiu e andou mais um pouco.
Renovou de novo o ar e ofereceu formigas ao peixe, e sentiu seus lábios rachados sangrarem e a garganta se estreitar de sede, e andou.
Andou...Andou.....Andou.........Andou.................Andou..............................Andou e tombou depois de dia e meio de caminhada, se negando a água do peixe e ainda esperançosa de ajuda.
Retirou novamente o peixe da bolsa, fitou-o por uns cinco minutos e sorriu meio orgulhosa da decisão que havia tomado!
Guardou-o novamente e apanhou um bloco de notas e rabiscou o nome: Chico Mendes; e o prendeu atarraxando o papel na tampa do aquário. Depositou a carteirinha da “Associação Ambientalista” sobre o mesmo e deixou o resto de vida se escoar, e ser evaporada de seu corpo!
Ela não traiu seu propósito!Nem mesmo diante da morte!
A estrada que a havia levado até ali, e que impediu a localização e resgate passava por manutenções e os corpos só foram encontrados muito tempo depois, um ao lado do outro:
O peixe, e a ecologista!


Anderson Dias Cardoso.

domingo, 22 de maio de 2011

Um Fim Alternativo.


Entregues ao belíssimo jardim puseram se a explorar as possibilidades do lugar com toda gana sensorial recém criada e descoberta.
O criador sorria enquanto os guiava e apontava esse sabor, aquela textura, uns tantos cheiros e muitas outras  vidas!
-São suas!
-Como?-Soaram as duas vozes em uníssono.
-Todas existências e possibilidades!Criei-as para vocês!Tornem se um grande povo e dominem sobre minha criação!
-Nós o amamos!
-Não mais do que eu! Mas recomendo que não comam daquela árvore!
-Qual seria o motivo?
-Uma espécie de conhecimento!Ele os fará a independentes...Os fará grandes; mas suas grandezas terão o ônus da diminuição de seus irmãos, e finalmente tentarão suprimir minha presença de suas vidas!
-De forma alguma Senhor!Lhe somos devotados de todo o coração!
-Sei que são!
O sorriso foi nublado por algum pensamento triste, e Ele se despediu e partiu prometendo voltar na viração do outro dia.
-Eu os darei a dádiva de conhecerem o tamanho de minha graça através de uma outra realidade.
O casal não compreendeu, não questionou, não se importou, mas o dia convidava a um passeio; e o clima, a um banho!
Adão dormia e Eva se enfeitava com flores, e se mirava num remanso e sorria de suas novas cores, e uma voz disse doçuras por detrás do tronco da árvore.
Era uma criatura graciosa, colorida e alada. Desceu preguiçosa para mais perto para que sua voz soasse melhor.Perguntou da fome e a ofereceu um pomo, outro ainda, e por fim aquele proibido, mas ela recusou!
-Além de saciada poderás ser como Deus!
Os lábios tremeram, e a mão tímida se estendeu para apanhar sua desgraça!
O gosto era excelente, assim como todos os outros mas o susto do assalto da mão possante de seu companheiro quase a fez engasgar!
-Por que fez isso!??
-Quero minha independência!
-Se é assim, quero me emancipar também!Não só de Deus, mas também de ti!-E a maçã desceu garganta abaixo!
A lucidez veio como um gosto amargo ao paladar, e na inquirição do dia posterior ambos se entregaram, e também a serpente! A sentença devia se cumprir, assim como as maldições que naturalmente acompanhavam aquela rebelião.
O relacionamento não sobreviveu à mágoa  da tentativa  de suplantarem um ao outro   e apartando-se não mais se viram, e ao cumprirem seus dias pereceram pelos seus pecados; e com eles toda a humanidade!


Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

As Trevas, o Silêncio e o Toque.


Julgava que minha criança estaria confinada às sombras e ao silêncio.
Não respondia a estímulos visuais ou auditivos e se debatia apartada da vida comum, causando nos  imenso tormento.
Era corpo presente e alma aprisionada...
No desespero da ocasião; num fluir de lágrimas disse  preferir que fosse aborto!
Gritei e me abracei  ao também desesperado pai, e ambos ouvimos os soluços famintos da criança.
A comoção da tragédia foi suplantada por instintos primários ,e mais uma vez ousamos nos aproximar do berço para nos  surpreender pelo amor que não havíamos notado, e não podendo nos conter tomamo-la nos braços e oferecemos mimos e alimento, e a meiga criatura silenciou e adormeceu.
A covardia inicial se converteu em força, e o amor resolveu cultivar aquela alma com todos os cuidados e recursos;caso não podendo trazê-la de seu confinamento, ao menos de alguma forma adentrariam aquele mundo de poucas impressões,  transformando aquele “quase existir” numa existência mais plena o possível.
Aconchegava-a ao peito para que sentisse o perfume suave de canela durante a amamentação, e incentivava as pessoas próximas que se marcassem com cheiros que os caracterizassem, então cada qual se perfumava, e se fazia conhecer por seu perfume!
Oferecia estímulos sempre notando as reações, e com dois tapinhas aos ombros lhe  despertava ao código que viria logo em seguida, e ela, já grandinha pedia atenção mostrando a mãozinha espalmada.
A mão nos lábios pedia água, à barriga mostrava a fome e eu ia apresentando e codificando os objetos e pessoas através do tato, e a fazia sentir seu corpo, e ainda o comparar aos  demais que a cercavam e logo era ela quem me apresentava novos sinais e me sensibilizava às texturas e formas de maneira que pudesse entender seu mundo!
Dos sinais o mais apreciado era o abraço!Ele dizia tudo!Ele era em si um mundo de significados!
A independência relacional foi seguida pela móvel, e nós a pusemos de pé e firmamos seus passos, e uma vez segura a fizemos conhecer a topografia do imóvel, em suas zonas proibidas e permitidas.
Apresentamos todos os objetos, ensinamos todas as funções, e uma vez absorvidas a lançamos ao mundo exterior, às ruas, carros, cães; e o sol se fez provar um pouco, e o vento fazia caricias violentas, e suas cócegas arrancavam risos.
Risos acompanhados pelos nossos!!!
Da amargura do nascimento atribulado nada restara! Naquele dia havia alegria nos três corações; e ao calor do dia perceberam que não haviam trevas densas suficientes para não serem iluminadas pelas brilhantes luzes do amor!

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 15 de maio de 2011

A Prostituta.


Tudo muito mecânico e profissional; me despia oferecendo o corpo de poucos atrativos por um preço modesto e era freqüente que o cliente fantasiasse um outro corpo de uma outra que se encontrava além de suas posses.
Geralmente eram fantasias predefinidas, pouco imaginativas, mas que serviam bem ao gozo.
Sentia-me desprezada, mas incorporava de olhos fechados a fantasia de perfeição, ao menos durante o coito, me sentindo grata por não descontarem o preço do prazer por não ser a “Idéia”, mas sim só a substância.
Entre gemidos, vez por outra escapavam os nomes dessas “Idéias”, e às vezes a emoção transparecia tão intensa que o sexo seguramente não era sua busca, mas algum afeto e realização de um típico amor platônico.
Era um teatro desigual, onde o cliente se desfazia em alguma realidade onírica, e vivia sua personagem com todo o vigor, prazer e possibilidades; enquanto me cabia a interpretação técnica, desapaixonada, mas devendo ser digna de toda credulidade e prazer...
Era brincadeira onde só um se diverte!
O ato era sempre breve, e o contato posterior, impessoal e mudo. E os corpos nus puxavam uma ponta de lençol e o sono consumia os minutos restantes do tempo que lhes cabia.
Quando o sono abandonava o quarto, e os olhos se abriam revelando toda a sordidez do espaço, com seus cheiros, sons, e ainda se lembrava do amor barato que fez, o cliente se tornava irritadiço, e vestia rápido suas roupas deixando o combinado sobre a cama, freqüentemente em um bolo de poucas notas amarrotadas.
A porta batia forte em desprezo à baixeza de minha profissão, enquanto separava minha paga entre aluguel, e algo para comer.
Após um desses tantos relacionamentos lavei-me, me arrumei para outro encontro, tranquei o quarto e ao entregar as chaves ao zelador sorri do paralelo entre aquele quarto e minha vida, mas foi um riso breve e amargo, não tinha tempo para especulações filosóficas e riso.
Outro cliente esperava!

Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

A Carpideira.


Um cortejo discreto de uns cinco carros atravessou os portões da casa dos mortos, seguindo a uma distância discreta o carro funerário, e das tristezas de minha perda me angustiou a chegada de um outro finado.
Afastei-me do túmulo da família para me concentrar no drama que começaria a se encenar.
Um enredo repetido a uns poucos minutos, mas de personagens diversos, e então vi aquela dúzia e meia de figuras que desciam; de rostos limpos e sem estampa de dor seguindo quase risonhos para entregar seu morto à cova.
Meus passos e curiosidade me levaram ao ajuntamento de velantes, e vi descansado no esquife o corpo magro de uns muitos anos de uma senhorinha de aspecto triste, maquiada com poucas cores e muito esmero, conferindo uma quase graça trágica ao corpo vazio.
Respeitei o silêncio!Respeitei-o ainda mais que os acompanhantes e procurei ouvir as palavras de consolo do curto sermão que encomendava a alma... Mas tamanho desrespeito de conversas e risinhos calaram a voz do sacerdote, e foi resolvido descer o corpo mais rápido para que o dia de luto tivesse tempo a ser gozado!
Enquanto as pás atiravam porções de terra como arremates da sepultura o cortejo se ia para os compromissos inadiáveis que os aguardavam.
Permaneci, pesando a terra que cobria o caixão, e os movimentos mecânicos dos coveiros não eram mais humanos que daqueles que a deixaram ali...
À uns é comum que o “pão” tenha um sabor comum de morte; aos segundos a indiferença causava me  estranheza.
Quando dos visitantes da senhora só restava eu; me lembrei de uma velha carpideira negra que celebrava com sua dor a morte daqueles a quem os parentes desejavam honrar; homenagens estas feitas com seus escândalos, e demonstrações de afetos exacerbados.
O dinheiro pagava aquelas lágrimas, e ela, assim como os tais coveiros, participava do comércio da morte; mas ela, de forma sensível executava seu oficio com a mesma dor dos pagantes...
Atentando aos contrastes de costumes e profissões me lembrei de meu morto, e daquele que não me pertencia, e depositei sobre aquele túmulo algumas lágrimas grátis, mas que valiam todo meu sentimento...
Acho que foram as únicas...

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 8 de maio de 2011

A Honestidade Não Tem Perdão.

Distribuição muito irregular de postes nas ruas, e num desses trechos de penumbra a carteira chamou minha atenção. Tomando a  em minhas mãos  examinei o material  vagabundo, e também seus compartimentos dos quais achei  documentos e um cartão de uma certa loja.
Ponderando nas dificuldades de se retirar cópias de documentos procurei no dia seguinte a dona da carteira, e entre consultas às listas telefônicas e serviços telefônicos (eram tempos onde não se ouvia falar de Internet) identifiquei com muita dificuldade a tal senhora e a convidei à minha casa para que lhe entregasse seus pertences.
No dia seguinte quase uma comitiva adentrava minha sala enquanto assistia o jornal, e minha tia me serviu de recepcionista e porta voz. Eu escutava os diálogos entrecortados pelas notícias sem me voltar; era muito tímido e não necessitava de agradecimento, me sentia feliz por ter sido útil.
A carteira foi recebida e um discreto agradecimento foi seguido por um silêncio que deduzi como a partida da caravana.
-Cadê o dinheiro que estava aqui?-A voz de um dos tantos homens do grupo soou desconfiada.
Uma tia confusa tentou responder que não havia nada além dos documentos e o cartão, e perguntou o que especificamente havia sido subtraído da carteira.
-Havia 400 R$ em espécie e 200 R$ em cheque!
Fui convocado a listar o que havia encontrado, e reafirmei que era exatamente o que havia entregado. Eu o fiz sem ao menos me levantar da poltrona, com um leve mover de pescoço na direção dos que me tinham como suspeito.
Com alguns murmúrios, agradecimentos entre dentes e oferecimento de ajuda caso algum dia necessitasse foram desaparecendo um a um pelos batentes da porta me julgando em seus corações, me odiando pelo bem que fiz...


Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A Culpa.


No terminal esperávamos que o motorista desse partida num ônibus lotado onde nem janelas abertas aliviavam o calor.
Minha esposa reclamava muito do caro descaso da passagem para a humilhação do tratamento, da espera de mais ou menos 45 minutos... Outros reclamavam nesta mesma indignação.
Trocamos de veículo para que o lavassem, e ainda esperamos parecendo esquecidos pela empresa, e dos irritados; um senhor soltava alguns palavrões intermitentes, dos quais o fluxo foi aumentando gradualmente até que o ônibus se pôs a caminho, e ainda, além disso.
O volume dos protestos elevou-se ainda e alguns risos e cochichos vieram a revelar a deficiência do reclamante, a algumas censuras debochadas divertiam os passageiros.
A cabeça se movia de um lado ao outro, as mãos seguravam um cobertor e uma sacola amarela com esquisitices; impropérios jorravam dos lábios como uma cantiga profana, maldições que filtradas pelo humor se tornavam riso.
Um grupo de amigos sentados ao fundo eram os que mais se divertiam com os insultos do louco, e um deles alertou os para que prestassem atenção à reação do homem, e ao descer em seu ponto chegou próximo à porta e gritou:
-Oh, Jacaré!
Houve um grito raivoso e o pobre se levantou amaldiçoando e procurando de quem procedia o insulto.
Gargalhadas maldosas, e o apelido ecoou em umas tantas vozes, que procuravam dissimular sua localização!Quase todos contribuíram para aquela ira; deliciados.
O louco encarava um e outro, e ameaçava com socos no ar, mas as vozes não se calavam!
-Jacaré!Oh, Jacaré!Jacaré!Jacaré... Riam e provocavam!
Um rapaz foi descoberto pelo ultrajado, foi xingado em particular, recebeu alguns chutes aos quais fez parar com ameaças, vigor juvenil e uma massa corpórea maior.
O homem se afastou, voltando ao seu banco, e o garoto implicou mais uma vez!
-Oh, Jacaré!
O homem veio num repente e saltou no próximo ponto, e todos riram vitoriosos!
Enquanto desciam uns outros, alguém percebeu a carreira do louco, e gritou enquanto uma pedra de quase um quilo atravessava dois vidros quase atingindo uma das almas que se guardou de humilhar o pobre homem!
Os gritos substituíram os risos, e avisaram que outra pedra já chegava... Os corpos se movimentaram procurando escape; cada qual escondendo-se covardemente atrás do corpo mais próximo!

O ônibus fora abandonado pelo motorista, que se desculpava e se explicava pelo celular aos seus superiores; as portas cerradas nos limitavam na mira das pedras e os gritos dos desesperados pediam que seguíssemos o caminho para longe do perigo.
 O motorista finalmente atendeu e uma enxurrada de desesperados alcançou a rua já limpando as lágrimas e se afastando do ônibus, que agora era o alvo imóvel da saraivada.
A cobradora inquiria quem era o culpado, e o último dos provocadores foi apontado, e os mais sensatos disseram que quase todos participaram daquele espetáculo triste...
O cobrador havia se afastado muito, corria atrás do louco que capengava entre os carros em movimento...
A culpa corria com a loucura daquele homem ou se dissimulava nos jovens que se afastavam discretamente até se esconder da visão?
Afinal, de quem foi a responsabilidade???

Anderson Dias Cardoso.


domingo, 1 de maio de 2011

Uns Cânceres...


Hoje vi um câncer passeando num carro do ano, ao lado de seu pai!
Trajava camisa xadrez azul, e a cabeça luzia falta de fios...
 Era jovem câncer; talvez uns 11 anos; não pude ver seu rosto, mas não ignorei sua magreza!
Nada diferente dos demais; usava como todos a etiqueta de prazo de validade e todas previsíveis expectativas de um futuro breve!
Já conheci outros destes, uns já me foram até aparentados:
Uma Avó-Câncer e um Tio-Câncer... Houve ainda uma Vizinha-Câncer e outros conhecidos e ainda hoje eles parecem se multiplicar através de falhas genéticas, ingestão hormonal, e outros aditivos químicos e banhos solares!
São replicados como nosso legado científico, nossa produção econômica de morte!
Um desses horrores se deitou na minha cama! O Tio-Câncer outra vez citado, e eu quase sempre me negava a visitar meu próprio quarto, pois a morte assediava seu corpo esquelético, e o embebia de tanta dor que seu sofrimento era o bastante para nós dois!
Meu Tio-Monstro se negava a higiene, à comida, e se satisfazia num sono convulsionado que furtava consciência  às suas torturas, e quando despertado, choramingava tal qual uma criança febril, querendo desfazer  se novamente naquele modesto sossego!
A cova recebeu seu corpo e os vermes não tiveram muito com que se regalar!
A dor que deixou de sentir nos serviu de consolo, e a multidão dos chorosos se dispersou para reassumir suas vidas, e bloquearam de suas mentes a tristeza daquela patologia, fingindo que o pobre homem morrera de um outro mal!
O tabu persistiu, enquanto o mesmo mal era, e é fabricado e consumido em silêncio...
Enquanto outros corpos geravam seus próprios inimigos com ajuda de estruturas sintéticas e anormais produtoras de fartura...
Enquanto a economia se movimenta em favor da morte em detrimento à vida!

Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Atriz...Atroz.


Vidrada à tela, quase ébria de êxtase pela sua imersão quase inconsciente naquela estória assim permaneceu até o cair dos créditos sobre o fundo negro, até que a trilha silenciou.
Cinéfila desde sempre agora digeria a trama tensa que a capturara por tantos instantes, e entre pseudo-bruxas e intrigas a vontade de ao menos figurar uma cena num outro mundo construído por qualquer mente prodigiosa se avolumava e perturbava a alma!
A pressão do desejo se juntou à estória vista; e tomando o telefone implorou a presença do melhor amigo.
Na chegada o apertou num abraço, e já dentro da casa o fez perder alguns minutos em gostosa prosa, até que o tratamento cortês desapareceu num grito, e a garota correu à rua com vestes rotas e rosto marcado de sangue. Ela gritava “ESTUPRO”!
Reuniram-se tantas pessoas quanto os espaços permitiam, e das frases esparsas souberam das barbaridades e formaram o veredicto, e com paus e pedras se encaminharam para executar a sentença!
O corpo do “monstro” chocou-se ao chão, já úmido de sangue; a cabeleira negra engrossava seus fios através desse fluído.
Ele não gritou!Não compreendia o motivo da violência!Só sentia a rigidez dos golpes e das pedras até que o espírito abandonou o corpo!
Entre as consolações da multidão a garota sorria por dentro. Conseguira representar seu primeiro papel com desfecho além da expectativa, e agora  gozava daquelas  lágrimas que rolavam copiosas como coroa de sua cena, enquanto o corpo amigo descansava ao colo de uma pequena plateia familiar que murmurava seus lamentos por medo da represália dos revoltosos.
Passado o tempo e esquecida a história a garota, agora mulher; apropriada de seu dom de interpretação e confiança rumou para a capital à cata de peças de teatro, campanhas publicitárias ou qualquer caminho que a levasse à TV; mas mesmo dotada de todas as expressões e qualidades, mesmo enganando a todos com suas pequenas trapaças não logrou êxito em qualquer projeto, e entre drogas e prostituição foi se desvanecendo em um palco muito diverso daquele tão sonhado...


Anderson Dias Cardoso.

domingo, 24 de abril de 2011

Ritual de Passagem.


Havia cumprido alguns rituais de passagem e agora os pés descalços procuravam ser silenciosos enquanto a presa parecia próxima, ainda que escondida pela mata densa.
As técnicas de rastreio eram muito eficientes e o sol das quatro mostrava os possíveis caminhos sombreados seguidos pelo animal, e os sulcos desenhavam o espécime em características e peso. Já haviam se passado dois dias de perseguição e expectativa, a carne não importava, mas era necessária a demonstração de virilidade que tão valioso troféu conferia.
Na perseguição chegou a um rio estreito onde as pegadas findavam; abaixou, sorveu um pouco de água e seguiu atravessando a corrente quase morta, e sentiu um leve cansaço e ardor nas extremidades que eram agora povoadas de grandes calos.
Não se lamentou, antes, sentiu um leve orgulho!
A trilha bem marcada permitia alguns instantes para se alimentar, e na procura por larvas embaixo nos troncos decompostos nada encontrou, mas notou um ninho no alto de uma árvore quando um raio de sol lhe feriu os olhos. Subiu, tanto pelos alimento quanto pela vista; um ponto de localização.
Eram ovos de tucano, e foram engolidos com certa pena, e na copa espessa do jatobá  se fixou em descobrir o animal.
Desceu eufórico tomando os apetrechos que se escoravam no tronco possante e correu esquecido dos pés torturados. Folhas roçavam seu corpo, galhos feriam e úmido de suor diminuiu seu ritmo com a proximidade do animal!
O coração tamborilava no peito eufórico, o ar faltava pelo esforço da corrida e ele se ocultou atrás de um arbusto, e vislumbrou pela primeira vez sua caça: Um veado campeiro de pelagem castanha detalhada de branco.
Preparou o arco, selecionou a seta mais aguçada, e na mira alcançou os olhos despreocupados e doces da criatura, e o impulso num repente o abandonou!
 A dignidade e beleza do bicho o confundiram, deixando nascer um afeto!
O título de caçador pareceu coisa egoísta, até insignificante; e ainda pesou a troca da vida pelo sabor, e ele quis deixar viver  não só esse, mas todas as criaturas de sangue rubro, decidido a não mais caçar, não mais devorar vidas, e ao se virar, abandonando respeitosamente o novo liberto foi meditando a respeito das maravilhas daquela fauna...
Na surpresa uma  onça o abateu, se regalou com aquele corpo piedoso...
E ele salvou aquele veado pela segunda vez!

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Ralôuin.


Em Marisco, aquela pobre cidade, uma personalidade foi recebida e assim considerada simplesmente por sua vinda do exterior.  E era moda da hora se referir ao tal “Mister” e ter algo a se dizer deste e seus agregados.
Pouco tempo instalados e as mercearias lhes ofereciam uma conta, as pessoas ofereciam sua amizade, e mulheres esperançosas de uma boa vida se ofereciam para dar cabo ao seu casamento.
No fascínio pelo novo o idioma local parecia dar lugar a um estrangeirismo, e muitas línguas tentavam uma pronúncia razoável, outras abusavam de umas poucas palavras conhecidas e executadas fielmente, num caminho inverso à Policarpo Quaresma...
Por sua vez a família americana seguia sua vida, meio alienada, meio indiferente às bajulações, preocupando se quase somente em manter-se nos costumes de sua terra; costumes que mesmo discretos lhes faziam atração a quase todos os curiosos.
As comemorações iam se seguindo, do Ano Novo à Independência, e o calendário alcançou 31 de outubro. Fantasias foram vestidas, as abóboras iluminadas colocadas ao redor do sobrado e as crianças foram lançadas nas ruas poeirentas sob as recomendações de cautela, e um celular posto no bolso para possíveis emergências.
A família de Cirilo após uma panelada deliciosa conversava e suava, tanto pelo prato quente  quanto pelo barraco abafado e compartilhavam anedotas recentes e riam alto,  animados, enquanto mãos pequenas lá fora  batiam em outras portas e recebiam sorrisos sinceros ou não.
 Os de Cirilo estavam felizes em sua volta de sua empreita em Brasília a respeito de viagens interplanetárias.
A cidade havia se preparado para uma festividade a qual nem era sua, e as balas e doces foram depositadas nas cestinhas sob a meiga ameaça: Tricks or Treats! (o significado havia sido garimpado em dicionários, ou aprendido de filmes) E um sorriso tentando simular perversidade!
Cirilo contava a de um cangaceiro; se engasgava com o riso e todos o acompanhavam com lágrimas nos olhos.
As cestinhas estavam cheias e cobertas por um pano branco que escondia a deliciosa fartura; as seguravam com ambas as mãos!Um prodígio para uma região tão pobre.
Miriã esquentava o leite no fogão de lenha, e o calor aumentava ainda mais, e ao tormento respondiam com mais humor!
Das casas visíveis no perímetro permitido uma quase se assemelhava ao espírito de terror requerido pela ocasião, e entusiasmados os irmãos se apressaram para talvez conhecer uma bruxa ou figura mitológica que vivesse por lá. Machucaram a porta com violentos socos, interrompendo a rotina da família  e cortando as falas ainda na garganta.
Cirilo levantou-se de sobressalto tentando imaginar qual dos vizinhos vinha os saudar, e abriu a porta com um sorriso satisfeito para então ver aquelas duas criaturinhas muito brancas, com cestas nas mãos. Eles responderam ao sorriso que não era para eles com um outro mais bonito, e mais completo de dentes:
- Tricks or Treats!
-Cirilo procurou manter o sorriso nos lábios, apesar de não entender bem o que acontecia; fez um gesto de espera para o pequeno casal vestidos de Lady Gaga e Prince e deixando entreaberta a porta sumiu dentro da casinha para voltar com um litro de óleo, o qual depositou numa das cestas e beijando a ambos os despediu meio abruptamente com uma batida de porta.
-Quem era Cirilo?- Indagou Miriã.
-Um daqueles meninos pedindo coisas pra a escolinha... tavam vestindo umas ropas muito esquisitas...
-É... esse mundo tá ficando cada veiz mais pior!
-Tô cum saudade de Sírius!
-Eu também!

Anderson Dias Cardoso. 

Reflexão À Um Texto Amigo.

 Interessante as interações sentimentais entre nós, humanos!
A maioria dos processos são totalmente extracorpóreos e as vezes unilaterais e ainda assim se sente o outro em nós mesmos, e associamos esses sentimentos ainda ao exterior, e unimo-nos finalmente à sons, sabores, sensações, formando um ser múltiplo meio nós, meio o mundo, meio o outro!

Anderson Dias Cardoso. 

domingo, 17 de abril de 2011

Inimigos.



Após o expediente partia apressado tentando alcançar a condução, a qual pagava com uma nota amarrotada e seguia para um endereço obscuro onde habitava uma kit net bagunçada repleta de DVDs, quadrinhos e miniaturas.
Cruzou apressado a porta que pedia com um adesivo “distância”, despiu-se angustiado e agarrou a fantasia e foi a vestindo sobre o corpo suado. Com bastante dificuldade conseguiu montar sua personagem, e ao passar ao lado de um espelho sorriu bem satisfeito. Mirou seus agora ferozes olhos e se disse:
-Seu nome é Logan!
Não havia uma Harley Davidson, o dinheiro ainda não era suficiente então a opção era enfrentar olhares preconceituosos em lotações e toda parte, não havia o respeito à excentricidade, que o dinheiro compra então suas aventuras eram mais modesta que a do verdadeiro herói, e seus inimigos se armavam de zombaria, causando feridas  talvez impossíveis para seu fator de cura.
Por outro lado a personagem o fortalecia, e em seu nicho o que chamava a atenção era a caracterização impecável, o andar altivo, arrogante! Ali ninguém ousava fitá-lo por muito tempo, nem mesmo Batman ou Jaspion!
Seus ossos adamantinos, suas garras retrateis, sua capacidade de recuperação instantânea e sentidos animalescos eram mal pesados e faziam suspirar aqueles que “tinham” poderes menores como voar, intangibilidade, celeridade, controle climático, telepatia, telecinésia...
Existia uma aura em torno da personagem, da sua virilidade agressiva, um magnetismo animal as quais os homens invejavam, e as mulheres desejavam.
Então passeava orgulhoso pelo evento, entre o stand de Jornada nas Estrelas e Chaves quando seu aguçado faro rastreou, dentre milhares de heróis o seu arquiinimigo!
Entre empurrões e saltos espetaculares nas bancadas de produtos foi desenvolvendo seu balé mortal até que seu corpo pousou suave poucos metros dele: Dentes-de-Sabre!
Ele comprava umas rosquinhas e um copinho de café quando o barulho da expulsão das garras o fez se virar. Parecia confuso com a situação, mas logo se deu conta do que estava para acontecer! As fibras de seu corpo se contraíram preparando a energia do salto, a adrenalina excitou-os e o sabor do sangue inimigo se antecipou em seu paladar!
Ambos rosnaram:
-Creed!
-Logan!
E saltaram cortando o ar e seus corpos com o metal e a queratina de suas garras! Arranharam-se, morderam-se, socaram-se e as roupas iam sendo destruídas enquanto as garras plásticas e as unhas cultivadas a longos meses se partiam e o sangue e hematomas iam surgindo tão abundantemente quanto nos quadrinhos! Bateram-se e quebraram todas as bancas daquele espaço enquanto Darth Vader, Homer Simpson, e tantas outras personagens torciam por seu preferido, e ainda alguns  filmaram para um novo post no You Tube!
O “embate terminou em empate”, ambos tombaram exaustos ao mesmo tempo, mas ainda ameaçavam uma retribuição assim que seus corpos estivessem totalmente curados; mais ou menos daqui uns cinco minutos!
 O pode mutante falhou, e uma ambulância foi chamada para o socorro, e ambos foram movidos ao som de aplausos para seu retiro em algum hospital, onde permaneceriam pelo menos um mês!
Aquele evento ficou para história e todos  fizeram questão de elogiar e agradecer seus organizadores; que além de oferecerem uma ótima estrutura para os amantes do Cosplay, ainda inovaram oferecendo uma espetacular luta entre tão mortíferos e amados personagens!

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Fetiche.


No acidente o carro lhe levou uma perna; belíssima, torneada como uma coluna de bronze e terminada em pezinho delicado, que deixou sua imagem inversa como uma peça de saudades!
Após o doloroso luto um conformismo discreto quase lhe alegrou o coração, mas ainda se negava a fitar o lugar mutilado.
Eu, entre carícias e palavras de conforto não me mostrava chocado com aquela falta e ainda me espantava com a formosura restante. Então a confiança pôde retornar; a erguendo pelas mãos lhes fez recobrar a vida, e o sorriso se tornou constante, se viu preparada para receber sua nova perna!
Ela se encaixou no ponto de vergonha e minha linda era de novo uma infanta, ousada em seus passos e rodopios e ao cabo de dias a intimidade das partes a levou às brincadeiras mais extravagantes.
Numa ocasião, descobertas ambas pernas o luzir da perna metálica me despertou a curiosidade, e me encantei com sua força e rigidez. Seu toque frio seduziu-me o tato e meus olhos fugiam constantemente do foco dos olhos negros para o lustroso aparato!
Uma compulsão foi o que se tornou para mim! Ao invés da maciez dos fios escuros preferia acariciá-la onde não era ela! E eu tentava disfarçar tal interesse alternando minha atenção entre o aço e a carne!
O namoro levou ao casamento e o amor foi envelhecendo junto aos corpos e aquela perna se mantinha  eterna, tanto pelo zelo quanto pela muda de peças, enquanto a outra tinha transtornado seu aspecto, minada de rugas, manchas, varizes, estrias e salpicada de sulcos faziam me resvalar numa repulsa inconsciente...
Não obstante meu amor foi fiel até seu fim, nenhuma carne me atraiu, de forma alguma a traí, e se fraquejou alguma vez o coração o que seduziu não pôde me retribuir os chamegos;
Meu outro afeto era frígido, rígido e inoxidável!

Anderson Dias Cardoso. 

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Amor De Filha.


Algumas vezes salvas da miséria pela habilidade culinária da mãe, que vez por outra era trazida a casas opulentas para preparar banquetes, dos quais as sobras e umas poucas notas lhes recompensavam.
 Gasto os parcos rendimentos e devorada a comida fria a preocupação se assomava à nova fome e a mulher saia a biscatear de todas as formas para lhes assegurar o teto e o consolo ao estômago vazio.
A necessidade e caráter a condicionaram ao trabalho, e desses a primeira lhe forçava a aceitar centavos por litros de suor, mas esperava da vida a recompensa em sua filha e quando ousava sonhar um pouco mais além se via retribuída por uma filha formada e próspera, em uma casinha sua e uns poucos mimos.
Das freguesas costumeiras uma se tornou amiga, e sua filha amiga da filha, as crianças se perdiam na imensidade do imóvel enquanto a mãe revezava entre o fogão e a vassoura.
As crianças se encantavam com a imensa coleção de bonecas, da quais selecionavam as mais belas para construírem suas estórias e assumir seus papeis ainda que inconscientemente, e ao fim do expediente ficava a saudade, principalmente daquela que não tinha bonecas para fantasiar!
Mãe e filha dobraram a esquina, e a mão calejada entregou uma moeda à pequena para que satisfizesse um pequeno capricho de uns poucos caramelos no bar mais próximo; e separando-se a menina alcançou o balcão e fez seu pedido e os recebeu em um saquinho quase murcho, e ao se virar para retomar sua volta à casa um homem de camisas brancas a abordou, e nivelando se a ela, e olhando nos seus olhos ele se disse um anjo, pediu que não gritasse ou revelasse sua identidade e lha oferecia o desejo do coração!
-Peça; eu vim para realizar!As palavras brilhavam entre  dentes branco!
A garota baixou a cabeça, lembrou se de sua mãe, dos trabalhos e fadigas e fez silêncio por uns minutos e retornou ao desejo já decidida:
-Quero bonecas mais belas que as de minha amiga!
Satisfeito o desejo o anjo a deixou e as histórias de mãe e filha seguiram seu previsível caminho rumo à mediocridade...

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O Asco.


A ala mais visível do restaurante burguês era povoada por uns mesmos rostos abastados.
Mesas próximas a rua os expunham  como uma vitrine de vaidades muito apreciada, e os sorrisos e maneirismos afetados  eram o prato dos adolescentes!
Conversas, chopes, e alegria! O cardápio  com novidades de carnes e vinhos  e os pedidos forraram a mesa de beleza e aromas!
Andrajosos às vezes  também ousavam perambular por aqueles espaços a  remexer os lixos, esmolar e ofender o bom gosto da nobre freguesia.
A figura era esquelética. Cabelos desgrenhados e vestes rotas e imundas compunham uma imagem de miséria. Movia-se lenta, e sua tosse chamava atenção, e selecionando restos dignos os engolia como paliativo para uma imensa fome. 
Notando-a a conversa animada dos filhos da fortuna se tornou em sussurro;  convergiram  para aquele teatro de miséria e viram-na como contraste à suas  farturas...
Eles zombaram! 
A velha tossia alto... E eles riam!
Ela abaixou-se e abriu um embrulho, e mastigou mais alguma coisa, e eles lha ergueram um ruidoso brinde! Comiam bocados de carne e deixavam seus sucos escorrerem animalescamente das bocas cheias, e o gosto e a fome lhes foi um prazer a ser exposto, e a cada bocado mais aumentava a fome!
Eles continuavam a afrontá-la, e num início de irritação ela agitou a cabeleira, e atirou restos às mesas do escárnio e eles riram mais dos braços finos que não lhes alcançava com sua pouca potência!
Ela tossiu, praguejou e eles erguiam os pratos cheios!
Ela xingou... Xingou...Xingou; e os pulmões pediram clemência, e vendo a derrota da miserável eles gargalharam! Ela; por fim lançou um olhar malicioso e sorriu discretamente!
Um acesso de tosse ainda mais violento, e o peito expectorou, e a velha gargalhou, devolvendo lhes o  olhar de escárnio e cuspiu uma imensa massa de muco ensangüentado!
Os olhos orgulhosos  se desviaram enojadíssimos,  e os estômagos se revoltaram e aquele almoço que profanava as dignidades  se findou abruptamente!
A imagem se fixou na retina, e a repulsa à alma!
Cada qual pagou sua conta, e sem se despedir saíram para nunca mais voltar!

Anderson Dias Cardoso. 

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Surpresas Extraterrenas.


A TV se encontrava surpresa na cidade de Marisco, interior do Ceará.
 O câmera gemia baixo o riso, a imagem tremia um pouco e o repórter assumia o ar grave característico do ofício e uma família típica nordestina tentava se posicionar no melhor enquadramento possível.
Armado o cenário o patriarca dá um passo à frente,  a pedido do homem engravatado e a imagem fechou detalhando aquela curiosa criatura. Marcou a camisa xadrez azul entreaberta e a pele morena de poucos pelos, subiu pelo rosto largo e já meio enrugado pelo trabalho eficiente do sol, fixou se um pouco no bigode espesso que tentava esconder a boca falta de dentes, passeou por olhos bem cansados e terminou no surrado boné que estampava propaganda política.
Descobriu se logo que seu nome era Cirilo, e reivindicava a si e sua família como uma extravagante família extraterrena!
O homem engravatado então pôs se a passear pela sua história e descobriu uma longa genealogia localizada especificamente naquela terra, dos quais alguns dos  remanescentes; seus avós paternos haviam morrido anos atrás; em dias severíssimos.
-Vô Raimundo morreu de fome, vó Tônha morreu de tristeza!
A família agora contava seis pessoas: Ele, Miriã, e os quatro meninos Raimundo, Batista, Américo e o bebê Jurandir.
Moravam na casinha de adobro, tinham umas seis cabras e estavam cadastrados em planos de assistência do Governo!Tudo muito absurdo!
Da história família passou a questionar dos métodos de locomoção utilizados na viagem interplanetária, da existência de uma nave ou algo que comprovasse a verdade que teimavam em confirmar, e o homenzinho sacudia negativamente e acusava os jagunços nomeados “Calangos Secos” de terem surrupiado o módulo de sobrevivência que os trouxe até a terra.
-Roubaram tudinho os cabras!- Dizia muito indignado. - Acho que trocaram por carne seca numa vila acolá...
Interessado pela história, agora como um assunto cômico sentiu se simpatizar pelo homem e quis saber sobre o quotidiano; quis continuar o chiste, e soube que gostavam muito de novelas, séries americanas e filmes do Mazzaropi!
Tinham um fusca 79, o qual servia de galinheiro para umas poucas galinhas; a mãe, de braços muito finos escovava os longos cabelos três vezes ao dia, e todos os filhos esperavam se tornar jogadores de tênis, mesmo sem quadra ou equipamentos por perto!Coisas da admiração!
Cirilo os convidou para um café e lhes ofereceu um pedaço farto de queijo de cabra, que foi comido gostosamente, e mostrou-lhes a casa simples e os brinquedos das crianças, e se encaminhando para o fim da entrevista lhe foi perguntado por que tinha chamado a imprensa àquele lugar, e ele disse com voz firme que queria pedir ajuda ao governo para a construção de uma nave que os conduzisse ao seu planeta natal!
O repórter abriu espaço para que o homem fizesse o apelo, e até sentiu um pouco de pena daquela família, que parecia ter sido transtornada pelo clima quente.
A petição simplória reafirmava a confiança no governo, agradecia pela já iniciada transposição do São Francisco, e pedia a construção da tal nave, pois eles sentiam muita falta de seu planeta...
A câmera foi desligada, e numa rápida conversa dos envolvidos e cumprimentos sinceros a equipe da TV se despediu desejando muita sorte aos que ficavam!
Quando o pó do furgão se desfez no horizonte o homenzinho se abraçou com sua mulher, e dessa e seus filhos se formaram uma corrente humana, e Cirilo disse com voz desanimada:
-Eles não acreditaram ni nóis... Aposto que se fosse uma famía de  ET americano eles ia levar a sério!

Andeson Dias Cardoso.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Chocolate e Mentiras.


A mesma mentira soava na rádio, e o caminhão se quebrava em lugar idêntico!
A propaganda do desastre ensaiado vendia o chocolate vagabundo como iguaria fina; e chamava às pressas estúpidos felizardos para lhes esvaziar o baú...
Chocolates enfeitados de adjetivos! Divertida farsa!
A primeira compra foi só surpresa, negociação tranqüila e simpatia demais para motoristas acidentados.
Fregueses familiarizados os chamavam pelo nome, mandavam lembranças aos entes e se abraçavam às caixinhas de porte inferior ao anuncio.
O acesso ao doce barato desculpava a falsidade da publicidade, e nos meses seguintes ainda esperavamos pela próxima quebra do caminhão instável...
Um engano que seguia doce; aumentando os lucros de seus pais ao preço dessa banalização de mentiras...
Singelas; mas ainda mentiras.

Anderson Dias Cardoso. 

quarta-feira, 30 de março de 2011

Um Desses Dias Amargos.


O despertador fere os ouvidos enquanto o sol vandaliza os olhos e o relógio me empurra para minha rotina!
Visto roupas rotas, tomo uma refeição pobre e sigo espremido na lotação e oprimido no emprego.
A rádio não sintoniza meus gostos, as vozes me irritam todas!
E os diálogos? Realmente hoje nada me interessa!
A hora freia, minha angústia aumenta e a tarefa entregue tortura as mãos e o nervos!
Ouço um podcast e penso: Pode “Cast out”! Tento me concentrar no silêncio, mas a broca ao lado o fulmina!
O martelo acerta duas vezes o mesmo dedo, a paciência atinge seu limite, mas a legislação me impede de “matar” alguém! E zombando de mim  até os minutos recusam a finar, antes parecem se replicarem em sucessivos instantes!
No almoço, marmita fria, carne dura, verduras murchas e pouca fome!
No quilo, o tempo se apressa, o estômago pesa e o corpo amolece!
No seu fim a máquina costura rápido, a mente trabalha lenta e a obra feita quase merece o lixo!
Penso em pedir dispensa, penso nas despesas e por fim me despeço do pensamento!
Custa! O  fim do expediente, custa mas chega!
E minha alegria é  o ônibus cheio, uma programação televisiva repetitiva e os costumeiros pesadelos...
Dos quais o pior deles é o “bolso vazio”!

Anderson Dias Cardoso. 



domingo, 27 de março de 2011

Caridade Torta.

Cumprindo a parte que os cabia, propondo se ao trabalho social romântico que vez ou outra toca o coração dos homens se encaminharam às cercanias da cidade levando pasta, ataduras, anticépticos, dapsona... sua medicina para corpos semi-decompostos..
Avistaram a vila triste, a "Casa de Hansen" e o sorriso e conversa animada se obscureceram e quando adentraram na comunidade de farrapos humanos a sua saúde quase os envergonhou!Tanta podridão dorida... Terrores físicos e carências emocionais!
O marido adiantando-se rogou os que não se afastassem, e quando notaram receptividade seus passos convergiram esperançosos e alguns desses correram, mas pararam à costumeira distância.
O casal ia se apresentar, dizer de suas especialidades como hansenólogos, e as intenções de cuidá-los, mas as vozes os conduziram apressadas a uma emergência!
Num barraco úmido uma jovem mãe de mãos enfaixadas se contorcia na cama manchada de sangue e pus, e as contrações anunciavam a vinda de uma nova vida como um contraste de vida e morte.
A criança nascida, linda e perfeita foi espetáculo para uma dúzia de olhos, e esperada por outra centena fora do casebre, e sua beleza foi um breve esquecimento da feiúra da maldita doença.
Lavaram-na em água fria, ataram o umbigo, cobriram-na com uma toalha limpa que haviam trazido, e quando a criança foi entregue à mãe esta encolheu as mãos, que exibiam crostras, mas o amor brilhou em seus olhos então ela quis abraçar seu rebento; e o coração da médica doeu de ciúmes.
As mãos enfaixadas da mãe se deixaram entrever, e exibiam o aspecto um pouco repulsivo, mas eram passíveis de  recuperação, então a médica reforçou a dobra do tecido e entregou a menina à mãe, fazendo recomendações de que não lhe tocasse a pele nua.
Nesse instante a médica escorregou os dedos sobre o ventre que recusou por tanto tempo em gerar, e esses mesmos dedos secaram uma lágrima que disfarçava a inveja em ternura... Ela olhou para seu esposo, e seus olhos negociaram a farsa, e ambos trocaram a caridosa missão pelo desejo de maternidade!
Eles disseram das péssimas condições sanitárias do local, convenceram a mãe do contágio certo da criança, e omitiram que antes do maldito sentimento lhes acometer  estavam dispostos a tratá-la, deslocando-a para um lugar mais apropriado, e ainda cuidar dos daquela colônia.
A oferta de adoção foi feita, e considerando o bem da pequena tudo se resolveu com muitas lágrimas sentimentos de dor, gratidão, e contentamento!
Como sinal de muito boa vontade o casal tratou as mãos feridas, e as atou com novas faixas, esquecendo propositalmente o dapsona e outros medicamentos que reverteriam o entorpecimento nevral e tratariam os ferimentos evitando a perda de membros e órgãos. Se despediram, cumprimentados pela legião de mortos vivos pela sua bondade e ousadia diante da doença e da repulsa, e todos desejavam melhor sorte para a criança que agora escapava daquele destino.
Eles partiram e se esqueceram daquele lugar, chamaram a menina "Vitória", como tantas outras fugidas da morte e a boa criação que a deram lhes apaziguava o coração.
Anos depois o leprosário foi vendido a uma construtora para um empreendimento condominial após ser purgado; e os doentes se espalharam por toda a cidade, e em um passeio familiar a já adolescente Vitória depositou algumas moedas numa caneca de uma certa pedinte, e sua mãe, surpresa voltou alguns passos e fitou os olhos (agora cegos), e as mãos desprovidas de dedos e reconheceu a mãe de sua filha... Então a  caneca soou com mais algumas moedas atiradas pela compaixão de Vitória, e a mulher sorriu um sorriso triste de agradecimento...

Anderson Dias Cardoso.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...