sexta-feira, 1 de abril de 2011

Chocolate e Mentiras.


A mesma mentira soava na rádio, e o caminhão se quebrava em lugar idêntico!
A propaganda do desastre ensaiado vendia o chocolate vagabundo como iguaria fina; e chamava às pressas estúpidos felizardos para lhes esvaziar o baú...
Chocolates enfeitados de adjetivos! Divertida farsa!
A primeira compra foi só surpresa, negociação tranqüila e simpatia demais para motoristas acidentados.
Fregueses familiarizados os chamavam pelo nome, mandavam lembranças aos entes e se abraçavam às caixinhas de porte inferior ao anuncio.
O acesso ao doce barato desculpava a falsidade da publicidade, e nos meses seguintes ainda esperavamos pela próxima quebra do caminhão instável...
Um engano que seguia doce; aumentando os lucros de seus pais ao preço dessa banalização de mentiras...
Singelas; mas ainda mentiras.

Anderson Dias Cardoso. 

quarta-feira, 30 de março de 2011

Um Desses Dias Amargos.


O despertador fere os ouvidos enquanto o sol vandaliza os olhos e o relógio me empurra para minha rotina!
Visto roupas rotas, tomo uma refeição pobre e sigo espremido na lotação e oprimido no emprego.
A rádio não sintoniza meus gostos, as vozes me irritam todas!
E os diálogos? Realmente hoje nada me interessa!
A hora freia, minha angústia aumenta e a tarefa entregue tortura as mãos e o nervos!
Ouço um podcast e penso: Pode “Cast out”! Tento me concentrar no silêncio, mas a broca ao lado o fulmina!
O martelo acerta duas vezes o mesmo dedo, a paciência atinge seu limite, mas a legislação me impede de “matar” alguém! E zombando de mim  até os minutos recusam a finar, antes parecem se replicarem em sucessivos instantes!
No almoço, marmita fria, carne dura, verduras murchas e pouca fome!
No quilo, o tempo se apressa, o estômago pesa e o corpo amolece!
No seu fim a máquina costura rápido, a mente trabalha lenta e a obra feita quase merece o lixo!
Penso em pedir dispensa, penso nas despesas e por fim me despeço do pensamento!
Custa! O  fim do expediente, custa mas chega!
E minha alegria é  o ônibus cheio, uma programação televisiva repetitiva e os costumeiros pesadelos...
Dos quais o pior deles é o “bolso vazio”!

Anderson Dias Cardoso. 



domingo, 27 de março de 2011

Caridade Torta.

Cumprindo a parte que os cabia, propondo se ao trabalho social romântico que vez ou outra toca o coração dos homens se encaminharam às cercanias da cidade levando pasta, ataduras, anticépticos, dapsona... sua medicina para corpos semi-decompostos..
Avistaram a vila triste, a "Casa de Hansen" e o sorriso e conversa animada se obscureceram e quando adentraram na comunidade de farrapos humanos a sua saúde quase os envergonhou!Tanta podridão dorida... Terrores físicos e carências emocionais!
O marido adiantando-se rogou os que não se afastassem, e quando notaram receptividade seus passos convergiram esperançosos e alguns desses correram, mas pararam à costumeira distância.
O casal ia se apresentar, dizer de suas especialidades como hansenólogos, e as intenções de cuidá-los, mas as vozes os conduziram apressadas a uma emergência!
Num barraco úmido uma jovem mãe de mãos enfaixadas se contorcia na cama manchada de sangue e pus, e as contrações anunciavam a vinda de uma nova vida como um contraste de vida e morte.
A criança nascida, linda e perfeita foi espetáculo para uma dúzia de olhos, e esperada por outra centena fora do casebre, e sua beleza foi um breve esquecimento da feiúra da maldita doença.
Lavaram-na em água fria, ataram o umbigo, cobriram-na com uma toalha limpa que haviam trazido, e quando a criança foi entregue à mãe esta encolheu as mãos, que exibiam crostras, mas o amor brilhou em seus olhos então ela quis abraçar seu rebento; e o coração da médica doeu de ciúmes.
As mãos enfaixadas da mãe se deixaram entrever, e exibiam o aspecto um pouco repulsivo, mas eram passíveis de  recuperação, então a médica reforçou a dobra do tecido e entregou a menina à mãe, fazendo recomendações de que não lhe tocasse a pele nua.
Nesse instante a médica escorregou os dedos sobre o ventre que recusou por tanto tempo em gerar, e esses mesmos dedos secaram uma lágrima que disfarçava a inveja em ternura... Ela olhou para seu esposo, e seus olhos negociaram a farsa, e ambos trocaram a caridosa missão pelo desejo de maternidade!
Eles disseram das péssimas condições sanitárias do local, convenceram a mãe do contágio certo da criança, e omitiram que antes do maldito sentimento lhes acometer  estavam dispostos a tratá-la, deslocando-a para um lugar mais apropriado, e ainda cuidar dos daquela colônia.
A oferta de adoção foi feita, e considerando o bem da pequena tudo se resolveu com muitas lágrimas sentimentos de dor, gratidão, e contentamento!
Como sinal de muito boa vontade o casal tratou as mãos feridas, e as atou com novas faixas, esquecendo propositalmente o dapsona e outros medicamentos que reverteriam o entorpecimento nevral e tratariam os ferimentos evitando a perda de membros e órgãos. Se despediram, cumprimentados pela legião de mortos vivos pela sua bondade e ousadia diante da doença e da repulsa, e todos desejavam melhor sorte para a criança que agora escapava daquele destino.
Eles partiram e se esqueceram daquele lugar, chamaram a menina "Vitória", como tantas outras fugidas da morte e a boa criação que a deram lhes apaziguava o coração.
Anos depois o leprosário foi vendido a uma construtora para um empreendimento condominial após ser purgado; e os doentes se espalharam por toda a cidade, e em um passeio familiar a já adolescente Vitória depositou algumas moedas numa caneca de uma certa pedinte, e sua mãe, surpresa voltou alguns passos e fitou os olhos (agora cegos), e as mãos desprovidas de dedos e reconheceu a mãe de sua filha... Então a  caneca soou com mais algumas moedas atiradas pela compaixão de Vitória, e a mulher sorriu um sorriso triste de agradecimento...

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Camiseta Suja.




Como a solução para camisetas sujas em um serviço tipicamente manual resolvi me utilizar de um estranho, mas muito eficaz engenho: Virava-as ao avesso e as vestia novamente, deixando a  sujeira escondida ao desvirá-las no fim do expediente.
Sempre que os olhos incompreensíveis me alcançavam, com um julgamento típico eu me afirmava em silêncio, e as vezes sorria desses pensamentos que minha estranheza causava.
As vezes, quando interrogado me dizia devoto de "SANTO ANTÔNIMO", o padroeiro dos avessos, e me ria do trocadilho, aumentando ainda mais a pose de doido!
O ápice das más interpretações, foi  uma  irmã confusa oferecendo  a camiseta à minha mãe e expondo minha loucura, ou falta de asseio:
-Mãe, acho que o mano não toma banho direito, olha só como o avesso das camisas estão imundas!!!
Algumas pessoas devem ser explicadas...Na maioria; eu as prefiro enxergando com seus
próprios preconceitos.

Anderson Dias Cardoso. 

segunda-feira, 21 de março de 2011

O Ciclo Das Mediocridades.


Novamente humilhado naquele emprego ridículo, por um chefe despótico em uma situação financeira pouco melhor que a sua  foi outra vez se refugiar no diminuto banheiro tentando esconder algumas lágrimas e esvaziar a bexiga tensa.
Livrou se do choro com um pouco de água fria, recostou-se na vagabunda porta de lata, que gemeu alto e então levantando  afastou-se, e enquanto a respiração reencontrava seu compasso a bexiga reclamou por alívio.
Executava todo o ritual de se despir quando, olhando para o interior da bacia encontrou uma formiga que por lá errava próxima a água.
Ele conteve ainda a urina e se maravilhou com as proporções entre si e a formiga.
Esqueceu suas  vexações e se imaginou um colosso capaz de aniquilar toda uma colônia daquelas criaturinhas insignificantes. Sorriu de deboche, e urinou violentamente varrendo-a quase morta para a superfície das águas e completou seu escárnio com uma descarga a qual segurou a botoeira por longos instantes.
Saiu satisfeito, sentindo-se novamente homem, não verme!
Uma semana após, falecia por uma forte gripe...

Anderson Dias Cardoso. 

quinta-feira, 17 de março de 2011

Terrores Noturnos.


Houve tempos onde as camas não eram divididas a não ser no amor, e os sonos eram mais tranqüilos, as colunas não se deformavam tanto e os dias passavam menos extenuantes e irritadiços.A Revolução Industrial espremeu nas cidades as gentes e os espaços se tornaram raros e os quartos acolheram dois ao invés de um.
Hoje, o que era praticidade tornou se romantismo, ou quase; pois existe o ressonar, cutucões e flátulos, que no dia seguinte produzem no mínimo protestos e talvez a separação!
Atormentei muitíssimo meu matrimônio com estes mesmos sons, movimentos e aromas até que o conformismo  sossegou uma esposa raivosa e a noite passou a ser dormida por inteira.
Acostumado a um descanso silencioso me vi espantado por uma conversa empolgada às 3:00 da madrugada!
Ela sorria, respondia a uma amiga desconhecida para mim e dizia: "Depois eu te conto!", e sorria mais alto, e meu coração tentava escapar do peito! O monólogo durou alguns minutos e findo, meu sono demorou a me convencer novamente!
Muitas vezes me espantei com minha esposa; outras beirei a morte com aquela voz alta que me fazia um espectador de um diálogo estranho, com uma interlocutora abstrata!



Anderson Dias Cardoso.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Religiosidade.


Chegou perfumado, em suas mãos presente e flores;
Chamei-o Alberto mas este não era seu nome, e quando me disse amor preferi ouvir prazer.
E como amor ingrato não reconheceu seus gostos no banquete oferecido.
E se forcei a prosa, dizendo dos meus afetos fez se de estranho, como se falasse de outro!
E eu o bajulei por seus olhos azuis, sua boca rosada e seu mais apetecível silêncio!
E o depois; numa sala aconchegante dividimos uma TV, enquanto ela nos dividia,
E ao se aproximar o sorrateiro sono,
Ou um disfarçado tédio eu me despeço sem beijo,
Peço que volte amanhã, ou mesmo algum dia qualquer, e aceno fria a Alberto;
E ele me relembra que o nome é Jesus!


Anderson Dias Cardoso. 

domingo, 13 de março de 2011

Um Selo De Qualidade???É Comigo???

Recebi esse selo de qualidade de um blog que acompanho e aprecio bastante!http://raylsonbruno.blogspot.com

O negócio é postar o selo, responder às perguntas e repassá-lo para outros blogs que eu considere que mereçam e ainda não têm:( A forma de postagem seguem mais ou menos esse mesmo padrão)


Aqui estão as perguntas:
Nome: Anderson  Cardoso.
Uma música: Every Thing do Life House.
Humor: Na maioria das vezes falta...mas quando vem é um pouco ácido.
Uma cor: Duas...hehehehe!Azul e branco.
Estação: Inverno.
Como prefere viajar: De jeito nenhum...hehehe...
Um lugar: Minha casa.
Um filme: Na verdade um documentário: A Corporação do Micheal Moore.
Um livro: A Bíblia.
Um prazer: Ler.
Um seriado: Os Simpsons.
Time do coração: Meu coração tá ocupado com coisas mais úteis...
Frase mais dita por você: minha esposa disse que é: "Sei lá!!!", uma outra é "Esqueci o que tava falando..."
Porque tem um blog: Escrever é uma forma de despertar outras pessoas para os absurdos que nos cercam.
Sobre o que você escreve: Nada em específico, mas geralmente retrata as misérias humanas.
Escreva a primeira coisa que vier a cabeça:"Pra que???"
O que achou do selo: Muito bacana, me sinto valorizado!




E aqui estão os blogs que eu considero merecedores:

http://acorda-amor.blogspot.com/
http://deaeomundo.blogspot.com/
http://na-ponta-do-meu-lapis.blogspot.com/
http://wwwreginagois.blogspot.com/
http://culturaleste.blogspot.com/
http://blogdoprofex.blogspot.com
http://mmelomaisdomesmo.blogspot.com/
http://mousahrt.blogspot.com/
http://filosofiadebanheiroecias.blogspot.com
http://www.variedadesedicas.com

sexta-feira, 11 de março de 2011

O Menino Das Marionetes.


A traição delatada  e a ira paterna lhe presenteou com um espancamento e a amputação de uma enorme parcela  da língua, e a mãe, aterrorizada esperou pelo repouso do monstro e fugiu com seu ferido para uma aldeia distante.
A criança não mais falava,  e sempre se encontrava às pernas de sua mãe. Era criança agitada, triste, e por não saber como avivar aquele olhar ela pegou agulha e linha e pôs se a cozer alguns trapos e dando-lhes uma forma bem precisa, fazendo nascer  um boneco bem simpático! A criança sorriu, e a mãe lhe entregou o boneco, mas o garoto tomou os instrumentos e imitando seus  movimentos  logo o deu um irmão.
A criança se esmerou naquela arte e superou a genitora; logo a casa quase não continha tantos bonecos,  a mão construtora também os animavam em um teatro vívido,  multicolorido, e de personalidades  tão distintas quanto às dos humanos;  e no dia em que ela o enxergou junto a estante dos brinquedos, vestindo sua mão com um dos favoritos  ele se voltou com uma surpresa... A boca do boneco se moveu, e a voz do garoto soou!
Dois anos de silêncio, e ainda poucas palavras... Ele falava pelo boneco!
A mão abriu lhe a boca e encontrou a meia língua, e ela se ajoelhou o obrigando falar, mas tudo era gemido, então ela ergueu o boneco, pretendendo  desvendar o truque, mas  a simplicidade de tecidos e amarras era tudo!  E foi acomodando o boneco à pequena mão que a voz ousou ressurgir!
Os  bonecos então falavam de fantasias; cantavam e dialogavam desenvoltos, mas recusavam a emprestar a voz ao passado, ou a temas dolorosos. Eles confortavam a mulher, a faziam rir, e dessas brincadeiras nasceu um modesto teatro que alegrou aquela aldeia.
Todas as crianças se achegavam e até se acotovelavam a fim de observar a menos distância um espetáculo raro para remotas datas, e findo espetáculo se aproximavam ainda mais; admirados  com tão grande talento em tão pequeno corpo! Os bonecos faziam festa!
Muitos dias de teatro e as crianças, já acostumadas com os bonecos  tentaram conversa com seu manipulador, mas este; abrindo os lábios tentava, mas não deixava escapar nenhuma palavra; a mãe, comovida  anunciou sua mudez e todos os olhos se cruzaram em desconfiança e a mulher reforçou abrindo a boca e mostrando a língua mutilada! Ela lhes contou a história; eles se foram murmurando...
A noite trouxe uma multidão à porta da casa, e os gritos os arrastaram para a frente do casebre e as tochas os iluminaram mais que a lua!
Clamaram: - Bruxa! Demônio!- E os apedrejaram
Naquele tempo não se conheciam histeria... Naquele tempo não Havia Freud.

Anderson Dias Cardoso. 

segunda-feira, 7 de março de 2011

Diógenes e a Lâmpada.




Os pés empoeirados chutam a peça, o corpo se inclina, apanha e limpa-a fazendo reluzir o metal desprezado.
Ia atirá-la fora, como um desprezo às tentações dos deuses que desde muito ignorava, mas a vibração do artefato o aterrorizou, e a névoa se corporificou como uma
manifestação quase onírica que ofereceu, com voz firme, os desejos que lhe cabiam.
-Mestre Diógenes, tens direito à três desejos!
O andrajoso se irritou ao máximo! Reduzira ao mínimo os caprichos da vida e agora outro (além de Alexandre) o tentava seduzir com as intranquilidades do possuir!
Nada queria, mas a voz instava ansiosa para que seus pedidos o libertassem.
Diógenes se lembrou de seus parcos bens; seu barril-casa, seu alforge, seu bastão e tigela e o coração se estremeçeu ao imaginar perder sua liberdade ao se prender pelo apego a oque quer que fosse e então voltou-se resoluto ao Gênio e barganhou seus desejos.
-Dos três quero somente um, e desobrigado estará de sua empreita!- Acertada a estranha troca o Gênio inquiriu o filósofo e lhe concedeu o pedido.
O Gênio partiu radiante, deixando selado a lâmpada; agora habitada por um eufórico novo morador.
Muitas outras vezes esfregada, a lâmpada liberava somente o pó que maculava as mãos pois o filósofo se recusava sair e atender qualquer pedido que o libertasse de sua nova liberdade...
Um lar...era tudo que precisava!

Anderson Dias Cardoso. 

sábado, 5 de março de 2011

Itinerários De Um Lobisomem Moderno.

Estava sozinho, ou, acompanhado por um estranho e a noite se apresentava clara, sossegada
e os ponteiros do relógio se adiantavam com mais pressa. Um pigarro, ou coisa parecida me
tira do transe; meu companheiro de espera se movimenta muito e a suspeita começa a aguçar
meus ouvidos, e inquietar meus sentidos.
Houve um toque; um sobressaltar do coração e a boca gemeu baixinho. A mão pressionou o
ombro e me virei assustado olhando para as mãos que podiam bem estar empunhando uma arma!
-Calma!- A voz, ao menos não ameaçava.
-O que quer de mim?- Dois passos inconscientes me levaram a me afastar.
-Calma...eu não mordo...Não mais!
Mantive-me a uma distância segura, em prontidão para qualquer golpe ou disparo, pouco me
importando com o assunto de meu interlocutor.
Passado os instantes iniciais de tensão a voz começou a tomar contorno, e quando a calma
veio entabulamos uma simpática conversa!
O pequeno homem calvo vinha da região norte, estava albergado não sei aonde e sua
conversa agora me entretia até a chegada do metro. Parecia entendido em mitologia, e se
dizia fã de Rômulo e Remo, ou melhor, da "Loba" que os amamentou; deu a entender que era
coisa de família.
Do tal mito passou a me perguntar o que havia me assustado naquele encontro e eu revelei
que achava que era um lunático armado. Ele suspirou aliviado e aquilo me intrigou e
passei de interrogado à inquiridor e acabei me descobrindo falando com um "Lobisomem"que
procurava se integrar à sociedade!
Realmente era lunático! Sua "estrutura" não combinava em nada com os mitos, relatos e
fotografias!
-Mais ou menos como os índios meu interesse pelas matas se findou! Cinema, automóveis,
restaurantes...Eu quero conforto!- Se explicou.
-E quanto ao pelo?
-Depilação à laser, hormônios...Não acha que essa discreta calva me caiu bem?
-E a "cara de cachorro"?
-Ótimos cirurgiões! Atendem 24 hrs, e realizaram as cirurgias na lua cheia! Serraram
aqui, enxertaram ali- e mostrou algumas cicatrizes quase imperceptíveis, e no fim da
apresentação me presenteou com cartões dos tais especialistas, e me fez diversas
recomendações de hotéis-clínica especializados em atendimentos no pós-operatório!
-Posso indicar um dentista, ortodontista, meu aparelho mastigatório teve que ser
totalmente readaptado quando em forma lupina!- Mais alguns cartões saltaram na minha mão!
-E as costas arqueadas?- Me indicou ortopedistas.
-E quanto aos instintos animais?
-Muita psicanálise meu amigo!!! Posso indicar! Era uma agressividade latente; desejo por
sangue, instintos sexuais bestiais...tudo coisa do passado! Hoje sou uma nova pessoa!
Menos carne na dieta, menos ira no coração, e desejos mais contidos...
O metro veio deslizando silencioso pelos trilhos, e ao entrar no vagão  me perdi daquela
figura curiosa. Então percebi que a ciência começava a trazer das matas mais do que os índios, matando uma cultura, matando o folclore...

Anderson Dias Cardoso. 

quarta-feira, 2 de março de 2011

A Pequena Crônica De Um Publicitário Em Potencial!

Duas cadeiras das muitas da barraquinha de hot-dogs ocupadas, uma conversa alegre, de
boca cheia; nada de importante apenas a diversão pós aula de sempre.
Interrompidos pela chegada de um amigo e seus novos amigos (coisa que faz parte da natural desagregação de fim do colegial) resolvemos os convidar a tomar assento.
Dessa reunião dois grupos de diálogo se formam, mas água e azeite novamente se repelem; um deles, meio constrangido silencia; e o recém chegado se empolga comentando os projetos musicais da banda que ameaça a se formar.
Eu tento falar ao amigo, mas os amigos do amigo eram mais ilustres e minha voz soou fraca
então preferi o silêncio!
A conversa atingiu o ponto do planejamento da capa do CD e as idéias (muito primárias por
sinal!) foram lançadas para a votação, e das melhores sacaram a tradicional proposta da
figura do monstro!
Monstro devorando, monstro no cemitério, monstro e mulheres nuas, monstro rasgando a capa do CD e saltando para fora...E enquanto decidiam a fonte e localização geográfica da mesma no CD eu pude escutar o nome da banda: "The Intruders"!!!
A negociação se desenvolvia empolgadíssima, e uma idéia me veio à mente, e desejei tomar parte da conversa:
- A banda se chama "The Intruders"?- Ousei; e as vozes se calaram atentas.
- Sim!
- "Os Intrusos", não é???
- Sim!- Houve uma expectativa em torno da minha interrupção.
- Vocês planejam colocar a figura de um monstro rasgando a capa do CD e saltando para
fora do mesmo?
- É.- Se inclinaram para frente.
- Acho essa idéia meio batida, que tal algo mais sofisticado e original?
- Como o quê?
Abri um sorriso perto do  cínico e disse:
- Um homem deitado, pronto para fazer seu exame de próstata!
E as gargantas liberaram as mais selvagens gargalhadas, e logo que as lágrimas deixaram de escorrer dos olhos divertidos um dos amigos do amigo me disse:
- Isso é que é ser intruso!!!Há,há,há!!! Ei amigo; você é engraçado; por acaso toca algum instrumento???

Anderson Dias Cardoso. 

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Adotados Nascem dos Sonhos.

Quando o espelho lhe começou a contar a verdade a respeito de seus cabelos encaracolados
e olhos negros em uma família de madeixas escorridas e olhos claros; quando a idade
começou a lhe clarear a mente ela correu para os braços paternos e interrogou sua
procedência.
Era filha do vácuo?A cria da rejeição ainda nos braços procurou os caminhos de seu
itinerário!
Filha de quem?Deixada por quê???E as perguntas se avolumavam junto à angústia de se
descobrir estranha ao seu passado e procurou se esconder ainda mais sob os braços do pai
que não era pai, e sentiu falta da mãe que não era mãe e que cumpria horário numa
importante reunião.
Do abraço o pai se afastou um pouco, e as mãos fortes se ofereceram às delicadas, e de
joelhos se nivelou ao olhar triste; e ela, agora arisca negou a carícia.
Não sou filha, não vim daquele ventre amado era o que as frases imaturas tentavam
explicar, e ainda outras tantas tumultuavam se na boca miúda.
Mas os olhos do pai se esqueceram dessa dor empática quando lhe brilhou uma estória à
mente, e um sorriso foi o início da cura!
-Você é minha filha sim; mas não nasceu da barriga da mamãe! A criança, confusa e
surpresa interrompeu o choro e se apegou a possibilidade de uma redenção.
-De onde eu nasci?
-Houve um tempo onde não entendíamos o mundo então inventávamos vários deuses que com suas vidas se explicavam todos os mistérios, e desses
um foi Zeus, o pai dos deuses, e dele e Métis, a deusa da prudência nasceu  Atênas, a
deusa da sabedoria!
Os olhos vermelhos de choro começaram a se transmutar e gradativamente começaram a
refletir segurança, e ela implorou por continuação.
-Ela não teve um nascimento normal, ou fácil, ou mesmo convencional!Ela não foi gerada no
útero de Métis, mas na cabeça de Zeus!!!
A criança  suspirou admirada, mas o pai não ofereceu trégua à sua curiosidade:
-A cabeça daquele poderoso deus doeu com as dores do parto, e o pai gritava tais dores e
deu à luz, com a ajuda de seu filho Hefesto sua linda filha veio ao mundo e foi a mais
sábia, e amada por seu pai, que a fez seu braço direito!
A criança olhou-o sem entender, mas ele, ainda com o sorriso brilhando nos lábios
completou sua estória:
-Você nasceu, assim como aquela deusa! Nasceu na minha mente ainda antes de nascer!Nasceu
dos sonhos em que eu a imaginava com os mesmos olhos escuros e cabelos crespos!E esse seu
sorriso era minha delícia, e eu esperei tantos anos por esses seus abraços!Eu sonhei
você, e sofri por cada dia que esteve longe de mim, e procurei por esse sonho até que a
encontrei, esse sonho que era você...minha filha!
Dai então o pequeno coração se aquietou, se abriu a receber todo aquele amor pois não se
compreendia mais como um descarte, mas como presente.

Anderson Dias Cardoso. 

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A Comédia do Nome.

Na maternidade o alvoroço, a decisão importante do nome do infante!
Uma colagem dos antepassados familiares, ou a homenagem às personagens famosas?
O que se ressaltar? Inteligência, sensibilidade, ou mesmo fortuna?
Ah! Para meu filho um nome espichado como o tal D.Pedro II! Nome nobre, imponente e com
todos os anjos e arcanjos!
Identidade de várias linhas, nome que chame a atenção, representação de todas as
virtudes!
E foi ditado ao oficial aquela composição enorme de nomes, e de Certidão à CPF, de
cartões à passaportes passou (o nome) a ser um espanto, enfado, e aborrecimento ao que o
pertencia; e nas progressões dos dias a mão que era ágil ao redigir tamanho título tornou se agora econômica e preguiçosa impressora de uma breve e estilizada rubrica!!!

Anderson Dias Cardoso. 

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Padeiros Não tem coração!

No rodízio para se comprar lanche o escalado foi "Fulano", sujeito baixo e robusto e em toda normalidade da situação chegou à padaria e fez seu pedido, e o padeiro, enquanto embalava as quitandas começou a assuntar:
-O filho do "Sicrano" também trabalha com vocês na Selaria?
-Sim, trabalha.-Respondeu Fulano lacônicamente.
-Ele deve comer como uma anta né???Digo...pelo tanto de quitandas que esta levando...
Fulano respondeu com um sorriso de mofa e apressou seus passos para compartilhar a galhofa com os companheiros de serviço.
O rosto de deboche, ao atravessar a porta chama a atenção, e a história arranca muitas risadas e uma promessa de vingança a ser executada no dia posterior.
Outro dia, e o ofendido se escala para à compra e promete, no mínimo desaforos!
E lá ele se demora um pouco, aumentando as expectativa e especulações a respeito do que seria feito ao pobre padeiro, pois o ofendido o excedia em muito em tamanho e força.
A chegada trouxe junto também um sorriso de escárnio, nada de sangue ou hematomas e quando questionado a respeito da vendetta respondeu satisfeito:
-Cheguei, pedi as quitandas e logo o apertei ameaçadoramente para que repetisse o que tinha dito de mim. Queria que me chamasse de "Anta" na minha cara!!!
-E ai??? O que ele disse???- Perguntamos ansiosos pelo desfecho da tragédia, e ele disse cheio de malícia:
-Ele disse que não tinha dito nada daquilo, e que isso era invenção daquele macaquinho!
Então as risadas mudaram de endereço!
 Essa é uma história real.


Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Inversões Em Uma Noite Estranha.

Curiosamente entre a marquise escura da auto-peças e o parque que, com suas luzes ofuscava
a noite um corpo se guardava do frio sob uns trapos sujos, cuja a voz se alteou mais que
as músicas que embalavam as brincadeiras e brinquedos do lado alegre da rua.
-Ei!
Ao acercar me o monólogo rápido expôs sua situação, e me comoveu com suas misérias:
-Sou aidético, morador de rua, estou doente e tenho fome...Podia me comprar algo para
comer?
O coração doeu de compaixão e revirei os bolsos e encontrando quatro reais, remanescentes
do último salário, meu suprimento para a próxima semana, resoluto atravessei a rua e
me desfiz da metade dessa minha pequena "fortuna" e na barraca de cachorro-quente  recheei
um pão com toda variedade e os melhores sabores possíveis para meus parcos recursos!
Atravessei contente a rua; o coração leve mesmo entendendo que a caridade quase me
esvaziara os bolsos e limitara ainda mais meu fim de mês.
Ao me notar, o corpo magro se endireitou recostando se na parede, e eu me inclinei
oferecendo-lhe um cachorro-quente fartamente recheado, e novamente sua voz soou forte para
agradecer:
-Cadê o refrigerante???
Não, não era para agradecer!Entreguei-lhe o agrado, e o deixei devorando o
"cachorro-quente seco"!
Aquela foi apenas uma das minhas estranhas noites que me lembro divertido mesmo após
tantos anos!!!

Anderson Dias Cardoso. 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A Criança de Olhos Azuis.

Idênticos, aconchegados ao peito materno acolhidos com algumas lágrimas, e a voz monótona do médico a alerta para a urgência da situação.A equipe prepara os equipamentos, e na bandeja jaz o coração; e a mãe fita ambos tentando decidir qual deles deve viver.
-São tão iguais...-as mãos tocaram os pequenos rostos, e os delicados olhos se abriram, e o susto demonstrou a diferênça:Uma delas tinha olhos muito azuis, azuis como nunca  visto!O médico a despertou novamente, agora de seu encanto, e ela sussurrou:
-Este...apertou uma ultima vez a outra criança- Perdoe-me meu filho...
Transplante realizado e coração pulsando as baterias de exames comprovaram sua cura...Comprovaram a cegueira!!!
Olhos lindos, cristalinos como fontes virgens...olhos estéreis.
A mãe se entristeceu, e se alegrou e a criança cresceu com toda a graça; criança independênte e de protagonista passa a narrador:
"-Penso no engano dos meus olhos, que me deram o direito a nascer, e salvo pela estética e "normalmente feliz" imagino se olhos que vêem tem mais direito à vida que olhos cegos, ou se é uma vida mais cômoda quem decide por nós."

Anderson Dias Cardoso. 

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Coletivo No Coletivo.

Se arrastava com toda a lentidão de monstro pesado, e ponto a ponto devorava um e outro,
e no seu ventre tudo se arranjava com muito aperto.A catraca registrava milhares, o
estômago uma centena, e todas vozes tentavam comover o duro coração de motorista, mas
este abria a porta sempre que solicitado e amontoava ainda outros tantos passageiros!
O calor se multiplicou, e a pressão intraveicular quase rompeu as leis da física, e
próximo ao próximo ponto houve um grito de basta, o sorriso do motorista, e o olhar
indiferente do cobrador e mais uma alma acresceu a conta, e agora sim as tais leis
naufragaram no mar de corpos!O impensável ocorre, e os corpos juntos se tornam um,
amalgamados numa massa tosca; um novo organismo!
A empresa, ameaçada por entes furibundos, e transeuntes oportunistas se apressou a dar
solução e com todo um maquinário rompeu as estruturas do carro, e de lá escapou a grande
forma, confusa e enlouquecida, aquele hecatônquiro que agora tentava clamar por justiça,
mas milhares de sons não se fizeram entender!
Sob a tutela da lei, e isolados em um galpão improvisado a criatura tornava simpática
toda ligação fisiológica, principalmente neural, e o organismo se constituiu num grande
cérebro, e sua razão pediu por um advogado.
Nos tribunais vigorosas discussões, e a defesa da empresa levantou questões como o
reconhecimento daquele organismo como um cidadão, já que agora era espécime nova,
coletiva!Pesquisaram os reais passageiros daquela viagem, e constataram um ou dois
transgressores, e quiseram imputar suas culpas a todo o novo corpo, mas a estratégia foi
mal vista, interpretada como maldosa; então tentaram um censo das "supostas vítimas",
alegando não terem encontrado vestígios de todos os declarados, mas um exame de Dna
mapeou cada vida, e confirmou a verdade da catástrofe!
No decorrer do processo alguns dos integrantes do ser (agora chamado de Uno) desejaram se
emancipar; seduzidos por insinuações de subornos; visando um motim daquele corpo.
O canto do dinheiro corrompeu uma dúzia, e uma vez separados olharam saudosos seu breve
passado, e a falta e a saudade instalados levaram todos a depressão...Um em cada
apartamento solitário deram cabo à sua vida.
A comoção de mais essa tragédia comoveu, e a resposta do processo lhe foi favorável. Como
uma colônia humana resolveu se deslocar para longe daquela sociedade que, pela surpresa
lhes era solidária, mas uma vez acostumada lhe fariam objeto de ódio e preconceito.
O dinheiro da indenização lhe garantiu um espaçoso lar, e o suprimento vitalício de suas
necessidades, e uma vez lá instalado redigiu um livro baseado em sua vida comunitária,
e com o tempo o grande corpo se convulsionou e lançou de si uma criatura à imagem e
semelhança de si, e logo ao nascer já falava e se juntou ao esforço de Uno em
construir um novo mundo, uma nova sociedade coletivista.
A casa se transformou em aldeia, e aldeia em cidade, e essa foi elevada à potência de metrópole!
Desenvolvida, rica e igualitária; era a imagem ideal de sociedade, e os "homens sós" (designação pela qual
nomeavam os bípedes) começaram a afluir para aquela comunidade...
O jornal do dia gritava em enormes palavras em negrito que os "Unos" devoravam seus
filhos, eram sacrílegos, promíscuos e então o governo, com uma legislação discriminatória
desconsiderou a classificação "humana" daqueles seres, ordenou a esterilização de todos,
e por fim obrigou a separação dos corpos visando a reintegração à sociedade tradicional.
Muitas cirurgias foram mal sucedidas, muitas tristezas foram fatais, e o preconceito
gerado pelos jornais exterminaram os últimos espécimes, e por fim a sociedade
individualista ressurgiu ainda mais forte!

Anderson Dias Cardoso. 

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Uma Nova Babel.

Um segundo pecado, a nova Babel construção literária  de tijolos sem encaixe se ergue num
mundo vazio.
É logo desfeita em meio a protestos, e som de murmúrios dividida não por língua, mas
por linguagem!
A infortuna prole migrante da litigante construção se espalha, e a confusão das
linguagens dá luz a diversas caricaturas...
Literalistas, cimentam o sentido da letra com zelo farisaico;
Simbolistas encontram o sentido até na falta do sentido;
E entre niilistas e anarquistas a linguagem se desfaz e se refaz de rebeldia e caos.
Mas se cria muito o já criado,
Se aproveita, recicla, renomeia...
E onde se separam por divergências literárias se unem inconcientemente à massa estéril da mesmice
absorvendo se um ao outro como produto diverso,
No fim todo igual...
E fagocitam-se e criticam-se como se houvesse alguma diferença!
E ainda entre produtores e consumidores da dita literatura, há o limbo brumoso,
O vestíbulo da ignorância de analfabetos funcionais;
Quando analfabetos "OPCIONAIS"...

Anderson Dias Cardoso. 

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

As Negra Não Devem Ser Mães...

O Seio lactante é permissão para o nascimento, o movimento da senzala à casa grande;
permuta forçada de almas!
As negras não devem ser mães.
O colo negro acolhe as crias; branca e preta.Os peitos vertem "vida" nas bocas "ávidas", e a Sinhá sorri de alívio ao tocar o seio seco.
As bocas sugam, as carnes se engordam da fartura láctea, mas aquela branca se escancara mais, e o quinhão maior exaure a fonte!
A boca negra geme de fome, e os olhos escravos libertam a lágrima.
Uma alma se apruma, a outra, raquítica, mingua.
Uma salta do colo, a outra desce à cova!
Num devir, o branco se doutora, às custas do leite africano.
E à negra qual recompensa?
Negras não devem ser mães...




Anderson Dias Cardoso.
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