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sexta-feira, 19 de julho de 2024

...


Café forte, doce e quente, queimando sua língua.

Tão delicioso, que merece o sorriso que agora estampa-lhe rosto! Talvez, sua irmã queira, também, uma boa xícara.

Dez passos, e ela se posta ao lado da cama.

Três toques no corpo, e a surpresa... GRITO!

-Está morta!

Choro. Muito choro.

Angústia e desespero.

-Minha irmã! Preciso chamar alguém!

Corre para a cozinha, ao telefone mais próximo, porém, antes que chegue, olha para a xícara sobre a mesa.

-Parece que esqueci de você, não é verdade?

Apanha o recipiente, e o leva aos lábios:

-Frio! – Olha, meio desapontada, então, estende a mão à garrafa, em seguida, a sacode.

-Cheia! Espero que esteja fresco – fala consigo mesma, enquanto caminha até a pia, onde derrama o líquido escuro.

Quando volta, puxa a mesma cadeira onde descansara anteriormente. Senta-se e apanha a alça do recipiente, o curvando para entornar um generoso tanto na peça recém enxaguada.

Café forte, doce e quente, queimando-lhe a língua.

Se lembra de sua irmã. De certo que sua querida apreciaria um gole, talvez, uma broa...

Maria ainda a encontraria morta, por tantas vezes.

 

 

 

Anderson Dias Cardoso.

sábado, 5 de março de 2011

Itinerários De Um Lobisomem Moderno.

Estava sozinho, ou, acompanhado por um estranho e a noite se apresentava clara, sossegada
e os ponteiros do relógio se adiantavam com mais pressa. Um pigarro, ou coisa parecida me
tira do transe; meu companheiro de espera se movimenta muito e a suspeita começa a aguçar
meus ouvidos, e inquietar meus sentidos.
Houve um toque; um sobressaltar do coração e a boca gemeu baixinho. A mão pressionou o
ombro e me virei assustado olhando para as mãos que podiam bem estar empunhando uma arma!
-Calma!- A voz, ao menos não ameaçava.
-O que quer de mim?- Dois passos inconscientes me levaram a me afastar.
-Calma...eu não mordo...Não mais!
Mantive-me a uma distância segura, em prontidão para qualquer golpe ou disparo, pouco me
importando com o assunto de meu interlocutor.
Passado os instantes iniciais de tensão a voz começou a tomar contorno, e quando a calma
veio entabulamos uma simpática conversa!
O pequeno homem calvo vinha da região norte, estava albergado não sei aonde e sua
conversa agora me entretia até a chegada do metro. Parecia entendido em mitologia, e se
dizia fã de Rômulo e Remo, ou melhor, da "Loba" que os amamentou; deu a entender que era
coisa de família.
Do tal mito passou a me perguntar o que havia me assustado naquele encontro e eu revelei
que achava que era um lunático armado. Ele suspirou aliviado e aquilo me intrigou e
passei de interrogado à inquiridor e acabei me descobrindo falando com um "Lobisomem"que
procurava se integrar à sociedade!
Realmente era lunático! Sua "estrutura" não combinava em nada com os mitos, relatos e
fotografias!
-Mais ou menos como os índios meu interesse pelas matas se findou! Cinema, automóveis,
restaurantes...Eu quero conforto!- Se explicou.
-E quanto ao pelo?
-Depilação à laser, hormônios...Não acha que essa discreta calva me caiu bem?
-E a "cara de cachorro"?
-Ótimos cirurgiões! Atendem 24 hrs, e realizaram as cirurgias na lua cheia! Serraram
aqui, enxertaram ali- e mostrou algumas cicatrizes quase imperceptíveis, e no fim da
apresentação me presenteou com cartões dos tais especialistas, e me fez diversas
recomendações de hotéis-clínica especializados em atendimentos no pós-operatório!
-Posso indicar um dentista, ortodontista, meu aparelho mastigatório teve que ser
totalmente readaptado quando em forma lupina!- Mais alguns cartões saltaram na minha mão!
-E as costas arqueadas?- Me indicou ortopedistas.
-E quanto aos instintos animais?
-Muita psicanálise meu amigo!!! Posso indicar! Era uma agressividade latente; desejo por
sangue, instintos sexuais bestiais...tudo coisa do passado! Hoje sou uma nova pessoa!
Menos carne na dieta, menos ira no coração, e desejos mais contidos...
O metro veio deslizando silencioso pelos trilhos, e ao entrar no vagão  me perdi daquela
figura curiosa. Então percebi que a ciência começava a trazer das matas mais do que os índios, matando uma cultura, matando o folclore...

Anderson Dias Cardoso. 

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Adotados Nascem dos Sonhos.

Quando o espelho lhe começou a contar a verdade a respeito de seus cabelos encaracolados
e olhos negros em uma família de madeixas escorridas e olhos claros; quando a idade
começou a lhe clarear a mente ela correu para os braços paternos e interrogou sua
procedência.
Era filha do vácuo?A cria da rejeição ainda nos braços procurou os caminhos de seu
itinerário!
Filha de quem?Deixada por quê???E as perguntas se avolumavam junto à angústia de se
descobrir estranha ao seu passado e procurou se esconder ainda mais sob os braços do pai
que não era pai, e sentiu falta da mãe que não era mãe e que cumpria horário numa
importante reunião.
Do abraço o pai se afastou um pouco, e as mãos fortes se ofereceram às delicadas, e de
joelhos se nivelou ao olhar triste; e ela, agora arisca negou a carícia.
Não sou filha, não vim daquele ventre amado era o que as frases imaturas tentavam
explicar, e ainda outras tantas tumultuavam se na boca miúda.
Mas os olhos do pai se esqueceram dessa dor empática quando lhe brilhou uma estória à
mente, e um sorriso foi o início da cura!
-Você é minha filha sim; mas não nasceu da barriga da mamãe! A criança, confusa e
surpresa interrompeu o choro e se apegou a possibilidade de uma redenção.
-De onde eu nasci?
-Houve um tempo onde não entendíamos o mundo então inventávamos vários deuses que com suas vidas se explicavam todos os mistérios, e desses
um foi Zeus, o pai dos deuses, e dele e Métis, a deusa da prudência nasceu  Atênas, a
deusa da sabedoria!
Os olhos vermelhos de choro começaram a se transmutar e gradativamente começaram a
refletir segurança, e ela implorou por continuação.
-Ela não teve um nascimento normal, ou fácil, ou mesmo convencional!Ela não foi gerada no
útero de Métis, mas na cabeça de Zeus!!!
A criança  suspirou admirada, mas o pai não ofereceu trégua à sua curiosidade:
-A cabeça daquele poderoso deus doeu com as dores do parto, e o pai gritava tais dores e
deu à luz, com a ajuda de seu filho Hefesto sua linda filha veio ao mundo e foi a mais
sábia, e amada por seu pai, que a fez seu braço direito!
A criança olhou-o sem entender, mas ele, ainda com o sorriso brilhando nos lábios
completou sua estória:
-Você nasceu, assim como aquela deusa! Nasceu na minha mente ainda antes de nascer!Nasceu
dos sonhos em que eu a imaginava com os mesmos olhos escuros e cabelos crespos!E esse seu
sorriso era minha delícia, e eu esperei tantos anos por esses seus abraços!Eu sonhei
você, e sofri por cada dia que esteve longe de mim, e procurei por esse sonho até que a
encontrei, esse sonho que era você...minha filha!
Dai então o pequeno coração se aquietou, se abriu a receber todo aquele amor pois não se
compreendia mais como um descarte, mas como presente.

Anderson Dias Cardoso. 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A Criança de Olhos Azuis.

Idênticos, aconchegados ao peito materno acolhidos com algumas lágrimas, e a voz monótona do médico a alerta para a urgência da situação.A equipe prepara os equipamentos, e na bandeja jaz o coração; e a mãe fita ambos tentando decidir qual deles deve viver.
-São tão iguais...-as mãos tocaram os pequenos rostos, e os delicados olhos se abriram, e o susto demonstrou a diferênça:Uma delas tinha olhos muito azuis, azuis como nunca  visto!O médico a despertou novamente, agora de seu encanto, e ela sussurrou:
-Este...apertou uma ultima vez a outra criança- Perdoe-me meu filho...
Transplante realizado e coração pulsando as baterias de exames comprovaram sua cura...Comprovaram a cegueira!!!
Olhos lindos, cristalinos como fontes virgens...olhos estéreis.
A mãe se entristeceu, e se alegrou e a criança cresceu com toda a graça; criança independênte e de protagonista passa a narrador:
"-Penso no engano dos meus olhos, que me deram o direito a nascer, e salvo pela estética e "normalmente feliz" imagino se olhos que vêem tem mais direito à vida que olhos cegos, ou se é uma vida mais cômoda quem decide por nós."

Anderson Dias Cardoso. 

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Coletivo No Coletivo.

Se arrastava com toda a lentidão de monstro pesado, e ponto a ponto devorava um e outro,
e no seu ventre tudo se arranjava com muito aperto.A catraca registrava milhares, o
estômago uma centena, e todas vozes tentavam comover o duro coração de motorista, mas
este abria a porta sempre que solicitado e amontoava ainda outros tantos passageiros!
O calor se multiplicou, e a pressão intraveicular quase rompeu as leis da física, e
próximo ao próximo ponto houve um grito de basta, o sorriso do motorista, e o olhar
indiferente do cobrador e mais uma alma acresceu a conta, e agora sim as tais leis
naufragaram no mar de corpos!O impensável ocorre, e os corpos juntos se tornam um,
amalgamados numa massa tosca; um novo organismo!
A empresa, ameaçada por entes furibundos, e transeuntes oportunistas se apressou a dar
solução e com todo um maquinário rompeu as estruturas do carro, e de lá escapou a grande
forma, confusa e enlouquecida, aquele hecatônquiro que agora tentava clamar por justiça,
mas milhares de sons não se fizeram entender!
Sob a tutela da lei, e isolados em um galpão improvisado a criatura tornava simpática
toda ligação fisiológica, principalmente neural, e o organismo se constituiu num grande
cérebro, e sua razão pediu por um advogado.
Nos tribunais vigorosas discussões, e a defesa da empresa levantou questões como o
reconhecimento daquele organismo como um cidadão, já que agora era espécime nova,
coletiva!Pesquisaram os reais passageiros daquela viagem, e constataram um ou dois
transgressores, e quiseram imputar suas culpas a todo o novo corpo, mas a estratégia foi
mal vista, interpretada como maldosa; então tentaram um censo das "supostas vítimas",
alegando não terem encontrado vestígios de todos os declarados, mas um exame de Dna
mapeou cada vida, e confirmou a verdade da catástrofe!
No decorrer do processo alguns dos integrantes do ser (agora chamado de Uno) desejaram se
emancipar; seduzidos por insinuações de subornos; visando um motim daquele corpo.
O canto do dinheiro corrompeu uma dúzia, e uma vez separados olharam saudosos seu breve
passado, e a falta e a saudade instalados levaram todos a depressão...Um em cada
apartamento solitário deram cabo à sua vida.
A comoção de mais essa tragédia comoveu, e a resposta do processo lhe foi favorável. Como
uma colônia humana resolveu se deslocar para longe daquela sociedade que, pela surpresa
lhes era solidária, mas uma vez acostumada lhe fariam objeto de ódio e preconceito.
O dinheiro da indenização lhe garantiu um espaçoso lar, e o suprimento vitalício de suas
necessidades, e uma vez lá instalado redigiu um livro baseado em sua vida comunitária,
e com o tempo o grande corpo se convulsionou e lançou de si uma criatura à imagem e
semelhança de si, e logo ao nascer já falava e se juntou ao esforço de Uno em
construir um novo mundo, uma nova sociedade coletivista.
A casa se transformou em aldeia, e aldeia em cidade, e essa foi elevada à potência de metrópole!
Desenvolvida, rica e igualitária; era a imagem ideal de sociedade, e os "homens sós" (designação pela qual
nomeavam os bípedes) começaram a afluir para aquela comunidade...
O jornal do dia gritava em enormes palavras em negrito que os "Unos" devoravam seus
filhos, eram sacrílegos, promíscuos e então o governo, com uma legislação discriminatória
desconsiderou a classificação "humana" daqueles seres, ordenou a esterilização de todos,
e por fim obrigou a separação dos corpos visando a reintegração à sociedade tradicional.
Muitas cirurgias foram mal sucedidas, muitas tristezas foram fatais, e o preconceito
gerado pelos jornais exterminaram os últimos espécimes, e por fim a sociedade
individualista ressurgiu ainda mais forte!

Anderson Dias Cardoso. 
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