sábado, 19 de julho de 2014

Pensamento Solto.

Queria andar nu pela casa; mas o que fazer se não havia um corpo?Era somente um pensamento, desgarrado de um dono distraído, e que perambulava por aquele espaço sem saber ao certo se a ele pertencia, ou antes, havia nele estado!Estória tão estranha quanto quando a sombra de Peter Pan resolveu mais do que lhe imitar, e, fugida de quem a projetava, deu trabalho à personagem, e entretenimento a quem lia!
Não que aquele pensamento o soubesse!Era apenas um retalho; e como tal, não comportava nada além dos fragmentos do instante, e que deveria ter se dissipado por alguma distração, ou sucedido por outro pensamento... Mas não foi o que ocorreu!
E lá estava o tal; como um pequeno absurdo, confinado no espaço, auto-limitado em sua personalidade instantânea, incorpóreo, e, possivelmente, não reciclável!
Não podia se indagar, evoluir, ou se realizar!Ao menos fosse uma idéia relevante, ao invés de alguma impressão escapada de um dia quente! 
Seria identificado algum dia por uma destas tecnologias novas?Estudado como uma onda, energia, registro?
Etiquetado, quantificado, qualificado?
Procurar-lhe-iam o dono, e o tentaria encaixar entre seus irmãos, construir, à partir de suas sucessões, o minuto, o dia e a vida daquele homem?
Ele era apenas um pensamento bobo... Provavelmente o ignorariam.





Anderson Dias Cardoso.

terça-feira, 8 de julho de 2014

A Firma.



No contrato exigiam que não mantivéssemos qualquer tipo de contato além do estritamente necessário. Toques, olhares, palavras, sorrisos; todos regulados detalhadamente, inter e extra muros, por algumas centenas de linhas , a promessa de um cheque gordo e a ameaças implícitas de acontecimentos catastróficos em caso de descumprimento.
O prédio era bem bonito, dispunha de oito andares divididos em pequenas estações com portas sanfonadas, cujo conteúdo só o trabalhador que a ocupava conhecia. No meu caso, havia uma mesa, computador que periodicamente apresentava instruções de montagem, um conjunto de peças plásticas delicadíssimas as quais não era raro se partirem com o manuseio, uma caixa separadora com dezenas de espaços para o produto concluído, e um som ambiente que alternava entre músicas agitadas e calmas.
Periodicamente aparecia-me um funcionário de jaleco branco, crachá com um nome fictício (sabia disto pois o meu dizia José, mas minha certidão não concordava com isto!), uma prancheta, um par de canetas (vermelha e preta) penduradas no bolso, e usadas em ocasiões que não me deixava deduzir nada!
Quando soava a hora do intervalo as pessoas se encontravam nos corredores estreitos, silenciosas, vagarosas e cabeças meio baixas para evitar o toque. Havia uma fila para apanhar sanduíches ao gosto, refrigerantes ou sucos, e sobremesas variadas.O ambiente era muito limpo, e quanto ao sabor, duvido que alguém reclamasse.Segundo o ritual daquele espaço de tempo a maioria se encaminhava ao banheiro, onde as latrinas continham uma fita que acusava uma cor de acordo com as fezes do dia, e que voltava paulatinamente ao branco depois de cada descarga.
O bebedouro era uma outra parada obrigatória, e sua água parecia apresentar um gosto levemente diferente das costumeiras águas minerais do mercado, e uma vez ingeridas, pareciam hidratar e saciar muito bem o corpo, além de estranhamente me sentir um pouco mais eufórico e desperto depois de um copo ou dois daquele líquido!
Já de volta ao meu cubículo o serviço seguia monótono, porém interessante, raramente me trocavam as peças, ou surgia algum “supervisor” com cara de desagrado. O computador não me oferecia internet, e passou a piscar em vermelho quando tentei acessar este, ou outro link. Às vezes jurava ter ouvido cochichos nos corredores, se bem que em certa ocasião o barulho me pareceu entrecortado e repetitivo... Desconfio ser uma gravação!Será que há câmeras aqui na minha estação?
Hoje verifiquei meu contracheque. Haviam aumentado muito meu ordenado, sem qualquer motivo, mas, como o recomendado desde o início, achei melhor não questionar nada, mas quando cheguei em minha sala haviam retirado a mesa e o computador, e substituindo as caixas com peças estranhas por palitos coloridos com um cheiro adocicadamente forte e enjoativo!Ao menos me colocaram um tapete e uma almofada encardida onde me sentar... Não estou gostando nada disto!
Os cochichos nos corredores são perturbadores!Às vezes acho que escuto uma gargalhada entrecortada, mas a sala parece ter sido construída de modo a não apresentar nenhuma fresta para que eu possa verificar. Nos intervalos, quando ouso erguer um pouco a cabeça, as pessoas ainda parecem tão desconhecidas e impessoais quanto sempre!
Parece que recentemente mudaram o fornecedor de água. Esta está mais densa, com um sabor meio amargoso, e que tenho a impressão de me deixar  sonolento.Ultimamente tenho sofrido um leve formigamento nas pontas dos dedos, e meus cabelos parecem ter se tornado um pouquinho mais oleosos; mas eu não menciono isso à ninguém!O contrato não permite!Aliás, estas novas clausulas, estimuladas por outro aumento convincente (quem hoje em dia ganha tanto pra executar trabalhos tão simples quanto estes?), nos obriga a disfarçar nosso itinerário através de taxis previamente remunerados pela empresa, os quais nos buscam em pontos de ônibus aleatórios, indicados por um SMS enviado antes do expediente; a proibição de qualquer comentário à respeito de onde, e com que se trabalha, inclusive a intenção de pesquisa dos próprios funcionários passariam a ser verificadas por um algoritmo que listava as palavras –chave em todos os níveis da rede, identificava seu IP, deduzia seus contatos, e finalmente, decifrava o autor!Não sei se isso é realmente possível, mas temo que estejam nos vigiando de alguma forma!Às vezes me sinto observado nos lugares mais improváveis!Já ouvi falar de drones, satélites, escutas; mas o que tenho medo mesmo é do ser humano!Ando vendo algumas sombras, ouvindo alguns ruídos... Tenho sonhos estranhos!
Esta semana outro aumento. Entregaram em casa um terno de tecido caro para cada dia da semana.O corte me pareceu sob medida à despeito de eu não ter oferecido informações do tipo a ninguém, e, curiosamente, quando cheguei em minha sala haviam retirado o tapete e a almofada.Fiquei em pé por horas, não queria me sujar naquela poeira fina do ambiente, mas depois das cãibras me resignei!Naqueles dias o tempo passou mais devagar. Eu consultava o relógio de minuto à minuto, esperava alguém me trazer o que fazer, ou me fiscalizar de alguma forma, mas nada acontecia!Vencia meu tempo, eu batia o ponto e deixava o local por um caminho maluco, e chegava exausto de tensão em casa!
Como poderia comentar indiretamente o que acontecia comigo?As pessoas dizem que o dinheiro é chamariz de interesseiros, mas tenho me tornado um “bem sucedido” tão excêntrico que todos se afastaram por meu silêncio, e por medo de serem envolvidos em alguma coisa que não acabe bem! Psicólogos oferecem sigilo profissional, mas eu desconfio de todo mundo!
Outro dia e agora parece que o número de salas foi diminuído pela metade; isto é, se fundiram de duas em duas, e as estruturas foram modificadas para acolher uma porta grossa de madeira, uma mesa, e dois blocos de notas, com suas respectivas canetas!Aquilo parecia alguma pegadinha, então decidi manter a mesma postura “profissional”, a qual foi imitada pelo parceiro de sala. Evitávamo-nos no que era possível.Quando um se sentava à mesa, o outro se encolhia no canto, rosto virado para a porta, e algum gesto que demonstrasse inquietação.Eu manuseei o bloco e a caneta algumas vezes.A testei na palma da mão, mas não ousei nada no papel.Meu companheiro a folheou, arrancou uma ou duas páginas e dobrou barquinhos.Vez em quando algum dos dois assoviava uma música, mas o outro ficava a se policiar para não repetir o ato, e demonstrar alguma simpatia, continuidade, ou empatia!No intervalo nos alternávamos meio que inconscientemente, quinze e quinze minutos.
Um mês depois e estou sozinho novamente. O salário recebeu novo acréscimo, e a sala foi duplicada, me presentearam com uma poltrona aveludada vermelha, a qual tinha seu local de permanência marcado no chão, algumas plantas artificiais enfeitavam o local(as samambaias particularmente eram incrivelmente convincentes), e o som ambiente fora substituído por  sons naturais!As conversações simuladas agora parecem distantes, e quase não vejo outros funcionários!O cardápio foi melhorado, e existem fichas individuais onde se pode escolher o tipo de culinária para cada dia da semana com um simples marcar de caneta; mas ainda assim estas tem um gosto um pouco diferente do que havia de ser. Não que esteja reclamando!São ainda melhores do que os mesmos pratos, consumidos em outros lugares; mas é que acho que a alimentação não deveria despertar sentimentos e impulsos que não os naturais, os quais venho lidando desde sempre!Devem nos temperar com algum tipo de hormônio... Isso às vezes me dá medo.
Gostaria de saber o que foi feito do meu companheiro de sala!Será que algum dia vamos nos encontrar?..Em algum tempo onde as restrições da empresa não façam mais sentido?
Às vezes penso em tirar férias. Esvaziar minha polpuda conta bancária e me mudar, sem deixar rastro, para algum lugar não convencional; ermo.Talvez eu devesse comprar uma pequena ilha.Mas quando penso em coisas como esta tenho a impressão que ainda continuo naquela sala, a boca saliva desejando aqueles sabores, a pele sofre um leve e cálido comichão, e os alto-falantes me insistem para ficar...


Anderson Dias Cardoso.

sábado, 28 de junho de 2014

Frequências.



Franzino, oculozinho de aro torto querendo despencar do nariz, escondendo uns olhinhos remelentos de um azul morto, cabelo ralo cor de palha e exalando um cheiro de falta de higiene; roupas amarrotadas, amarelecidas pelo tempo e manchadas de café... Não!Definitivamente não gostava daquela figurinha a qual haviam contratado, e nem me esforçaria para qualquer contato além dos requeridos pela profissão. Mas meus colegas de lida não pensavam assim.
Os encontrava sorridentes pelos corredores; gargalhantes às vezes, mas, curiosamente não havia escutado o som de minha antipatia!
Conversei com um ou outro; tentava arrancar alguma opinião negativa a respeito do desafeto, discretamente, e às vezes fazia insinuações sobre fatos os quais deduzia, sobre suspeitas que tinha do rapaz, mas eles foram se afastando!
Eu estava enfurecido; e um pouco além disto, já que continuava sem escutar a voz do mancebo!
Comentei com a moça do café, fiz algumas perguntas, e esta me assegurou que era pessoa de bem!Perguntei por que falava tão pouco, e ela respondeu que o rapaz era convidado em toda roda de conversa; que sabia muito, e era todo educação!
Curioso, me acheguei à uma reuniãozinha destas de fim de expediente. Escolhi sentar-me no lugar mais próximo a ele, e escutei.
Todos falavam, opinavam, discutiam; e eu fixava a bocarra de lábios finos esperando a primeira palavra.
Ele, notando com certo desconforto a minha presença, resolveu se por se distrair tomando partido do cara da contabilidade.
Falou uns bons minutos, e se riu de alguma coisa que dissera, sendo acompanhado por todos os outros... Mas eu não havia percebido sua voz!
Esforcei-me em me concentrar; beliscava-me sob a mesa toda vez que dizia algo, mas, aparentemente, todas outras vozes se lhe sobrepunham. Tomei iniciativa e propus uma pergunta escandalosa, e ele moveu os lábios em resposta.Todos riram.
Eu nunca fui um bom leitor de lábios...
Dia seguinte trabalhava com dificuldade e estava angustiado tentando imaginar o que havia acontecido naquele embaraçoso episódio. Perguntei novamente à mulher do café sobre a voz do garoto, e ela disse que era normal, bonita.Perguntou por que não me aproximava dele, e eu só respondi que preferia não fazê-lo.
O encontrei próximo à minha sala, e, meio envergonhado tentei o cumprimentar. Ele só me balbuciou vento.Eu o agarrei pelo colarinho amarrotado, mas logo surgiram uns intrometidos a nos apartar!
-Ele está zombando de mim, desde que entrou aqui!
-Sai fora maluco!Acho que vou ter que falar com o patrão pra te advertir, ou te mandar embora!Respeita o cara, ele na te fez nada!
-Ele tirou uma com minha cara ontem!
-Ele nem tava falando contigo!Cê pirou de vez mesmo cara!
As pessoas o defendiam, e notei que ele murmurava alguma coisa à direita e à esquerda, e eles assentiam, diziam que era verdade, que era assim a maneira correta de se agir em situações como aquela!
Todos estavam zombando de mim!Querendo me fazer passar por maluco; pedir demissão... Sei lá!
Tomei o elevador com o pretexto de apanhar uma pasta com protocolos que devia apresentar na reunião de amanhã. As pessoas se perfumavam muito por ali, e aquela musiquinha irritante, as conversas, o ambiente de confinamento...Segurei o vômito.
A porta se abriu, eu empurrei um ou dois, e eles praguejaram alguma coisa. Vomitei no canto de uma pilastra, apanhei algo embaixo do banco do carro, e quando me dei por mim já estava em pé, empunhando o 32, gritando para que ele falasse!
Haviam muitas pessoas ao derredor, e elas também gritavam muito!Eu precisava insistir!Mandei que se calassem, e eles se limitaram a sussurrar recomendações e preces.
-Fala!- E o homenzinho àquela altura já estava ajoelhado, com os olhos embaciados, gesticulando muito e dizendo mais ainda... Mas eu continuava nada escutando!
-Fala!-E ele foi se arrastando em direção aos meus pés, movimentando freneticamente os lábios torcidos de agonia, mas eu o chutei para longe!
-Faaaaaaaaaaaaala!-E eu gritava no mesmo instante que ele também o fazia, e a arma disparou sem que eu percebesse!
Todos estavam ali, abraçados, mudos e perplexos.
Também não pude ouvir quando as viaturas vieram me buscar.



Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

O Nome do Gato.


Nunca fora de dar nome a gatos, a despeito de em algum tempo de sua juventude haver possuído quase uma dúzia destes!Os chamava de qualquer coisa, e eles, reconhecendo em toda  palavra um convite a um prato gordo, obedeciam, formavam procissão onde quer que eu fosse.
Mas desta vez foi diferente!Estava mais maduro, e, talvez, quisesse impressionar alguém com a tal referência a alguma personalidade!
Por que não?
O nome lhe viera óbvio: Asimov!
Soava bem, incomum, além de que ficção científica me agradava bastante!
Mas costumes são coisas traiçoeiras, com os quais às vezes nem o esforço pode!
Se bem que, confesso, não estava lá tão comprometido com a causa!
Eu quase nunca o chamei pelo nome "maneiro" ao qual lhe havia batizado. Inda mais os outros!
O gato ouviu a vida inteira:
Chimoli, Asinove, Asamove, Dudu... E cresceu meio apalermado, sem seu senso de individualidade; ao menos no que se referia ao nome que lhe havia dado!



Anderson Dias Cardoso.

domingo, 1 de junho de 2014

Se Adaptando...



Ao invés de Kafka, ele era o inseto que se tornava humano!Deixava família volumosa, a pequenês discreta, a estabilidade das tantas patas, a carapaça e sistema adaptados às condições climáticas, venenos, radiações, poluição...
O que temia era a assepsia!A falta de detritos espalhados, o escuro, a umidade, os aromas peculiares que se volatilizavam dos sacos de lixo, animaizinhos mortos, e marmitas desleixadamente esquecidas depois de uma chegada e partida apressada para algum passeio demorado!
Logo eram só quatro membros!Desajeitados, lentos, lívidos...
Mas isto foi só o começo!
Roupas, comprovação de existência física, tantas certidões, impostos. O cárcere de emprego e horários, conversas, uma forma de se vestir e se portar imposta,  sem qualquer finalidade senão a de impressionar, mas que nada tem à ver com o acasalamento ou escolha de melhores genes , já que na maioria não são mais inteligentes os que ostentam suas respostas, não são mais ricos os que se vestem com maior esmero, não são os mais fortes os que aparentam maiores músculos, nem mais éticos seus juízes!
Tudo é marcado de um ritualismo social estranho, uma tentativa de exposição de si, e uma depreciação do próximo; mas tudo com muita polidez.
Conversas suaves, desnecessárias, cheias de adjetivos, pronomes pessoais, sorrisos forçados... Ouvi dizer que chamam isso de hipocrisia, mas ainda não entendo muito dessas intrigas de gente humana!
Agora se me dão licença, aquele lixo logo ali está me chamando!Adoro sobras meio apodrecidas!



Anderson Dias Cardoso.

domingo, 18 de maio de 2014

Medo de Bonecas...



Estava ali, deitada sobre a mesinha de vidro; mas houveram outras a me incomodar antes daquela!
Corpinho de tecido, enchimento de algodão ou sintético; mãozinhas, pezinhos e cabecinha emborrachados. Confesso que era uma manufatura interessante; bem acabada, com olhos convincentes, dobrinhas bem desenhadas, cabelinho sedoso, rubor discreto nas bochechinhas; mas a figura das feições estava errada!Aliás, sempre estavam!
Aquela criatura, jogada sem qualquer cuidado em meio aos outros brinquedos parecia sofrer!Acho que a intenção de seu “Gepeto” era que fosse um rostinho alegre, mas aqueles olhinhos “franzidos”, aquela boquinha caricatamente aberta, parecia dissimular um incômodo, uma dor, um desespero... Era de se suspeitar que aquele arremedo de gente, em suas entranhas macias e antialérgicas, e naquele crâniozinho de borracha oca, tramasse alguma vingança, e isso era perturbador em situações de falta de energia, solidão, ou períodos onde se está psicologicamente abalado!
Já ouvi histórias a respeito de algumas bonecas que viram a cabeça, bibelôs do Buda que sorriem dentes afiados... Vamos mudar de assunto, pela boa saúde da minha próxima noite de sono!
Outra coisa que me deixa um pouco pensativo é a disposição dos pais em presentearem seus filhinhos com aquelas coisas!Eles são atestados de que o mundo não é um lugar maneiro!Acredito que a maioria das estampas daqueles serezinhos bizarros é uma projeção inconsciente dos autores, daquele momento em que, retirados do aconchego morno, úmido e viscoso do ventre da mãe, como inquilino, é expulso para a primeira surra de sua vida!A caretinha dos danadinhos é aquele instante do grito que carrega os pulmõezinhos com o primeiro oxigênio corrompido experimentado, com toda sorte de bactérias e a ilusão de assepsia daquele ambiente alvejado de cloro!É aquele mesmo primeiro choro, só que maquiado pela aparência de alguns meses à mais, uns quilinhos sobressalentes e a tentativa de fazer a o pranto parecer riso!
Quanto às crianças; elas são muito corajosas!Confiam em bonecas e querem ir ver o palhaço...
Ah!Palhaços... Eles também são criaturas assustadoras...



 Anderson Dias Cardoso.

sábado, 10 de maio de 2014

Auto Sabotagem.


Andava triste, muitos haviam notado. Visitava constantemente suas farmácias prediletas, evitava todo contado desnecessário, e até fora internado em algumas circunstâncias com marcas estranhas pelo corpo.
Diziam que havia sido ameaçado por telefone, várias vezes, por uma voz que dizia parecer conhecida, de madrugada, mas eu acredito que o término do casamento por conta daquela ocasional traição, e a mudança da esposa e filhos para outra cidade havia mexido com sua cabeça. Ele sempre negou abertamente, e procurou participar de toda festança disponível, mas reclamava de sintomas de sonambulismo e inapetência, além de adicionar outro maço de cigarros à sua rotina.Nunca fora de beber;  experimentou desta vez, mas o gosto continuava não lhe apetecendo.
Parece que o processo de ameaças havia se intensificado na última semana. Achei que o havia visto em uma casa de camping, e pensei que seria interessante para ele refrescar a cabeça no “mato”, mas parece que não era bem isso que ele pretendia...Se soubesse teria tentado conversar com o cara!Armas em casa costumam ser uma coisa perigosa!Mas ele andava tão estranho!
Vi outro dia ele conversando com alguém. Parecia nervoso, e repetia que tinha que se defender; a outra pessoa sugeriu que chamasse a polícia, mas ele virou as costas e o ignorou.
Eu até queria me aproximar, mas achei melhor não... Ele podia estar metido em alguma treta, e acabar sobrando pra mim também.
As luzes da sua casa agora costumavam se acender e apagar em horários bem esquisitos!Vizinhos curiosos sempre notam qualquer variação de comportamento, e sofrem daquele comichão de espalhar seu conhecimento a quem estiver disposto a ouvir, mas, curiosamente em casos de morte parece haver uma espécie de amnésia e cegueira coletiva!Sempre se encontra um cadáver depois de tantos dias, pelo incômodo do cheiro, geralmente anunciado por uma criança de pais desfavorecidos!Tudo tão conveniente!
Encontraram a casa desarrumada, suja, e com comida instantânea estragada distribuída nos mais diversos lugares!O corpo exangue, o sofá tinto de vermelho e o celular deitado ao lado.
Achei meio sinistra essa história, mas os caras viram o policia, que era conhecido da galera, dizer que a voz do perturbado no celular era a mesma do finado, distorcida por algum efeito de computador.Se entendi bem, ele deixava suas ameaças na secretária enquanto dormia, as ouvia de manhã...
Mundinho de malucos!Os kamikazes de antigamente eram muito mais bacanas!




Anderson Dias Cardoso.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...