quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Amor e Loucura.

O contador de estórias, ele mesmo presenciou tal acontecimento: Os loucos se amaram!
O namorado entregou a caixa vazia e a namorada a abriu se encantou e ergueu polegar e indicador que seguravam o nada, e o olhou contra a luz, enxergando um brilho no vácuo.
-O mais belo anel de todos!Diamantes graúdos para celebrar um amor eterno!- E ela ornou o anular, orgulhosa da proposta.
Ela vestiu se de lírios, e se coroou com trançados silvestres.
Ele vestia jeans e camiseta de banda, e os ralos cabelos teimavam em se desalinhar.
Tomaram animais por convidados, e antigas árvores por testemunhas e se riram satisfeitos do enlace; mas o amor secou no mesmo repente do nascimento.
Ela se viu enamorada por um anjo, ou criatura abstrata; e ele tentou lhe apreender a alma, mas ela era esquiva ao toque, fria ao apelo.
Ele capturou um vento, e lhe armou um laço para os fios, mas ela desfez o arranjo.
Presenteou-a com uma flor que ainda não havia sido inventada, mas o cheiro não trouxe sensibilidade ao coração.
Cantou com o pensamento a mais bela música, mas aos ouvidos impassíveis soou como cacofonia.
Em desespero o amor ciumento tentou matar o amante, mas qual era seu rosto e quem era sua pessoa?
Se algum dia o via, era reflexo nos olhos da amada, e se era anjo para ela, ele o chamava demônio!
Na negociata sentimental ele ofereceu um meio coração, mas ela preferiu seu amor inteiro, visceral e egoísta e se afastou para nunca mais voltar.
O namorado, entristecido lançou o anel que não existia de sua mão, e curiosamente o contador de estórias viu que mesmo assim ele lhe marcara o dedo.

 Anderson Dias Cardoso.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

O Painel Dos Pintores Mortos.


Sempre havia um sorriso para aquela ala, para aquele painel quase folclórico onde orgulhosamente apresentava seus notórios antepassados em um emaranhado barroco de rostos.
Rezava a lenda que o primeiro à finar foi Augusto. Pintou-se numa jocosa brincadeira, onde ele era o coveiro que sepultava a si mesmo, e sorria, pá em punhos e cara cadavérica. Mal se diferençava o vivo do morto.
Tal brincadeira e logo descia deveras à cova.
Seu irmão, Afonso, lhe prestou homenagem e continuou os belos traços, se representando travestido de padre em exercício de extrema unção, concedendo ao menos o paraíso ao que, pela insensatez do chiste debochado pagou com a vida tal irreverência!
Morto também o irmão, em destino semelhante, interveio o filho deste com acréscimos de uma procissão, e se confortou se pintando anjo para guiar os dois parentes à glória celestial.
Seu destino não foi diferente, recebeu recompensa pela insolência e deixou os pincéis que recebera de seu pai, que recebera do irmão de seu pai, ao seu filho, que ousou pintar sua mão como a mão estendida de Deus resgatando a parentada morta.
Morreu também, este e outros tantos que fizeram emendas à obra mórbida, e aos que foram adicionados como figurantes no enterro, e este estojo que carrego em minhas mãos é testemunha de cada tragédia, e chegou-me através de um pai zeloso que morreu de velhice, e me impediu de brincar com minha vida pintando o que quer que seja nesse imenso recorte de mortes!
Não sou supersticioso, mas não flerto com as possibilidades; por mais absurdas que possam parecer, e assim como me mantive artista; porém longe dessa imensa representação da morte assim ensinarei ao meu filho Lucas que evite este local, e possa se manter vivo!
Ele será um grande artista! Em seus seis anos já caracteriza à todos que lhe agradam o coração com desenhos cheios de personalidade, bem similares ao real! Não e mesmo Lucas?
A menção do nome despertou a criança ruiva do transe, e ela se desviou dos rabiscos que traçava em giz vermelho.
O pai notou os óculos redondos, o bigode ralo, a discreta calva e a camisa xadrez numa figura próxima ao caixão.
Lágrimas deslizavam pelas bochechas rosadas.
Uma tristeza profunda beijou o coração paterno, ele se abaixou, abraçou a criança e lhe entregou o estojo.
Ambos sabiam o que isso queria dizer.

 Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Quem se importa?


Mal se aproximara do balcão e um atendente solícito lha devolvia o sorriso.
-Então, o que deseja a senhorita?
-Gostaria de adquirir alguns metros de corda.
-Temos cordas naturais e sintéticas, de três e quatro pernas, trançadas, torcidas, com ou sem alma... -O sorriso se enlargueceu na face mostrando o orgulho de funcionário entendido- Preciso saber a finalidade para aconselhar o melhor produto.
-Quero uma suficientemente confortável para um enforcamento.
-Seria para algum animal, ou pessoa?
-Para mim mesma- Sorriu um sorriso curto, e ele retribuiu com sorriso e movimentos exagerados denotativos de sua presteza.
-Sisal está fora de cogitação, seu atrito pode causar queimaduras dolorosas e em alguns casos decapitações. Acredito que isso seria demasiado desagradável, sangue tem efeitos emocionais pouco poéticos e indesejáveis a esse tipo de morte.
-Quero o chão branco como sempre, e o menor desconforto possível.
-Aconselho uma corda trançada de nylon com alma, elas são extremamente macias e fáceis de manusear, inclusive em amarrações, nós...
-Essa deve servir! Corte-me um bom pedaço para que o serviço não me seja perdido.
-Qual seria a altura do telhado da casa da senhorita?
-Mais ou menos quatro e meio.
-É um pouco alta. A senhorita terá alguma ajuda  nessa empresa?
-Me enforcarei na parte mais baixa, onde uma cadeira me bastará.
-Vejo que sabe se preparar; mas preciso de seu peso para calcular o diâmetro mais adequado para suportar o impacto de seu corpo... À propósito a senhora já examinou as condições estruturais do seu telhado, não é mesmo?
-Claro, a casa é nova não obstante já provei o madeiramento e ele é suficientemente forte. Meu peso é 42.
-Hum... P=m.g , daí existe a tensão da corda T=m+a... Aqui está! Acredito que uma corda de nylon de 8mm deve lhe servir bem. Alguma preferência de cor?
- Acredito que amarelo trará um pouco de ironia ao evento.
-Precisa de ajuda com os nós?
-Não, meu irmão foi escoteiro.
O vendedor desapareceu por um pouco, e logo surgiu já com embrulho em mãos.
-Consegui-lhe um bom desconto, sei que não será nossa cliente, mas aceite o agrado como um presente por sua simpatia.
-Obrigado, o senhor foi muito atencioso. - Ela sorriu-lhe uma última vez e deixou a loja.
Lavou-se, vestiu uma roupa que lhe agradava e preparou cuidadosamente a amarradura, com muita calma e nenhuma excitação. Ninguém estaria em casa antes das 7:00.
Serviu-se de uma boa xícara de café recém passado,um último prazer; estendeu um metro quadrado de plástico sob as pernas da cadeira, e se descalçou das sandálias, não queria ruído algum; escalou a cadeira e deitou seu pescoço no laço.
Saltou.
O corpo não se convulsionou muito, a língua saltou rebelde da boca roxa, os olhos se reviraram nas órbitas e o conteúdo dos intestinos foi excretado naquele espetáculo sem muitos movimentos.
Ela havia escolhido o silêncio, não queria incomodar a vizinhança.


 Anderson Dias Cardoso.

domingo, 24 de julho de 2011

Um Dia Se Perdeu.

Relógio Quebrado
Acordou sentindo a falta do dia anterior, como algo não vivido, como fragmento existencial perdido por qualquer razão.
Despertara da mesma forma; braço anestesiado, vista embaçada, nada diferenciando o episódio de outros tantos, exceto pelo salto de todas as datas; do jornal à folhinha embolada na lixeira.
Ninguém reclamou o dia de trabalho ou sua presença em qualquer parte e o celular não registrou alguma chamada.
Tentando compreender o fenômeno primeiro se certificou que lhe faltava mesmo as vinte e quatro horas ligando para todos conhecidos, e a cada resposta positiva mais se angustiava e logo abandonou a imensa lista pelo meio e se esqueceu de si um pouco no conforto do sofá. Mas logo se via enlouquecido pela anormalidade temporal que lhe havia roubado um dia sem que se tivesse entorpecido, ou sofrido algum dano neurológico.
Sentou-se à mesa e vasculhou a internet casos semelhantes, e encontrou desde abduções e viagens temporais à catalepsia mas não se deu por convencido por qualquer argumento ou hipótese então saiu para capturar um pouco de realidade em uma caminhada.
Nem noite fresca, ou silêncio do horário adiantado o permitiram alguma calma e ele procurou espaços pouco iluminados para se recostar, mas em alguns minutos já perambulava novamente tentando alcançar o dia de ontem.
No dia subseqüente inquiriu à todos sobre sua experiência, e foi repreendido por sua excitação pela maioria, e no decorrer dos dias mergulhou em frenéticas pesquisas, e o assunto era mais que recorrente e as pessoas de seu convívio, cada vez mais irritadiças.
De cético passou à crédulo, não em uma teoria, mas em todas. Cada qual num momento.
Pediu demissão de seu emprego, mudou-se para a casa da mãe; temia perder outro dia para entidades malignas, para o deus Cronos, em um buraco de verme,em uma psicose,em um surto cataléptico, ou ter lembranças sendo apagadas pela doença de Alzheimer...
Já mal dormia; o dia perdido tomou sua vida inteira.

Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

As Almas são Pretexto.

Cabeça,Lampada,Manto.
As almas escapavam dos lábios, dos gestos e pensamentos e os corpos seguiam como aparelhos orgânicos, instintivos, se aglomerando em grupos de afinidade rasos de comunhão.
O amor, no entanto, era repetido como mantra por toda boca e os abraços eram o inverso do calor, e o desejo se avolumava para se tornar em posse de uns outros espectros que nada irradiavam.
E eles se aproximam, e sua presença não me é bem vinda e eu reflito todos os atos e sorrisos, e minha aparente simpatia aos “espíritos dos mortos” me pesa como um constructo hipócrita; uma defesa aos “fantasmas” sociais.
E eu olho, aquele como perjuro, o outro como avaro, o casal como adúltero, as velhas que se assentam às sombras vespertinas, tecedoras de mexericos, e até àscrianças atribuo maldades e mimos!
A imagem do mundo é o retrato do limbo, e a maldade é quase tudo.
E ironicamente as almas perdidas esconjuram os demônios, mas apegam se aos seus vícios! 

Anderson Dias Cardoso.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

El Diablo.

Jonah Hex
Cultivava uma penugem, que um dia se tornaria volumoso bigode, ensaiava carrancas assustadoras entre os de menor estatura, às vezes conseguindo intimidar alguns, e guardava metade dos centavos para uma arma, a outra aumentava a coleção de quadrinhos de faroeste.
Das figuras mitológicas das estórias poeirentas, uma o assustava e despertava admiração pela vida independente, ambição e, mormente pela crueldade com que operava e eliminava qualquer que se interpusesse às suas razões, e deste homem, de biografia mutilada só restava a temida alcunha: El Diablo.
Em épocas de divertimentos eletrônicos era zombado por seus gostos antiquados, e os mais velhos não levavam em consideração as ameaças de um potencial pistoleiro, e ele era a criança estranha e mal humorada esperando seus dezoito anos para conquistar seu respeito e fazer tremer seus galhofeiros.
Ressuscitaria para si o tenebroso apelido, e com a certeza de que algum dia vivera aquele homem seria a continuação da violência e brutalidade, se resguardando da confiança que uma vez assaltou o predecessor, e que foi sua ruína, em uma bala pelas costas.
Na formação da sua identidade hostil resolveu-se por espancar algumas crianças vizinhas, e apedrejou dezenas de gatos e cães para aprimorar a mira, e se deu por satisfeito por escaparem somente por alguma intervenção.
Os vizinhos começaram a lhe apontar como garoto problema.
O cinto cortou-lhe as coxas e nádegas, e ele ainda desafiava a mãe com um silêncio e um olhar firme, de homem digno que suporta sem choro as durezas da vida, e não reservou ódio algum àquela mulher franzina. Até os matadores tem um código de conduta.
Aumentadas as traquinagens, e o menino agora enfrentava a todos, e vez em quando alvejava alguém com pedra, ou ameaçava com um canivete.
 O pai assumiu a correção, mas a rebeldia foi além de surras e psicólogos.
Aos doze o chamavam como queria, e conseguia algum dinheiro com pequenos assaltos, muito respeito através do medo, e sua pistola ensaiava alguns tiros, porém não havia derramado sangue algum.
Vadiando em uma noite qualquer sentiu sede e fome, e correu atrás do casal velho e lhe apontou o cano à cara, gritando, xingando e pedindo a carteira; e o velho, confuso com a abordagem estranha se embaraçou em seus gestos senis e com dificuldade arrancou uma sacolinha com muitas moedas e poucas notas.
A mulher tentou impedir o furto, e o garoto lha acertou a boca com a coronha; praguejou e tomou o dinheiro e se foi para algum boteco.
Pediu um sanduíche de mortadela e um refrigerante, comia gostosamente quando o telefone lhe avisou da morte de seu pai.
O estômago devolveu a comida ao exterior, e a cabeça confusa o levou a caminhar se aparando em qualquer muro.
Não viu como chegou em casa.
A mãe disse que foi um assalto, que segundo testemunhas o pai não reagira e ainda assim tombou com seis tiros.
Uma batida nas circunvizinhanças localizou o criminoso jogando snooker e bebendo cerveja, ele não esboçou nenhuma reação ao ser preso, ou alguma expressão ao ser interrogado e quando a viatura passou pela casa da viúva, para oferecer o conforto de ver ao menos preso o assassino, o garoto o viu, e aterrorizado correu para rasgar suas revistas, e se desfazer de sua arma.
Seu ídolo o veio visitar da maneira mais dolorosa! 

 Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Um Outro Adão.

Depois de tanto tempo as mãos habilidosas acariciaram o barro, e de uma porção formaram outro corpo e o Espírito soprou novamente em suas narinas uma alma.
Cobriu-lhe o corpo de vestes, e lhe deu pudor e lhe contextualizou quanto a geração em que havia sido criado, doando lhe um lar, uma oportunidade de emprego e conhecimentos pertinentes , e o instituiu arauto do Evangelho.
Sem a influência do pecado a relação entre Criador e criatura era sem intermediários ou simbologias e o próprio Deus o visitava e lhe falava ao pé da cama antes da chegada do sono, e sua voz e amor eram bálsamo aos confrontos e ferimentos de um  quotidiano profano.
Inserido na realidade das almas decaídas pregava o Evangelho de Cristo, e tentava provar a realidade espiritual como realidade absoluta; e Deus como a origem de toda  substância e espírito, mas ele pregou sem algum convertido, e por todos meios as palavras soavam loucura aos ouvidos pagãos.
A insistência o levou ao ostracismo, e obcecado pelos relacionamentos  perdidos por causa de sua obediência desprezou à Deus em suas visitas. E o novo filho, ressentido se afastou e no desespero de sua condição solitária se deu conta das vantagens de sua filiação.
Afirmou-se como descendente direto de Deus, e como prova ridícula mostrava o ventre sem orifício umbilical, mas seu argumento foi recebido por comentários desagradáveis.
Em uma tentativa mais convincente juntou suas economias e provou por exames cromossômicos que sua raiz genética  diferia de todas as outras, e entre especulações e euforia se proclamou como filho direto do Todo Poderoso!
Foi alvo de massíva   publicidade, e considerado salvador da humanidade como um espécime puro,de cadeia genética sem vícios, e se doou para pesquisas de doenças sem resoluções médicas, e através dele foram desenvolvidas vacinas e tratamentos eficazes.
E ele enriqueceu, e se envaideceu e sua origem nada mais lho dizia, a não ser na ostentação de sua nobreza celestial.
Ele era o segundo filho de Deus, e objeto de culto!
Deus se entristeceu com a cria que lhe virava as costas, e o vendo ser consumido pela vaidade que se tornou em queda, também viu as conseqüências do seu pecado sendo distribuídas e absorvidas por outras existências que se utilizaram daquele homem como amuleto de condução à cura ou ao paraíso.
O caráter singular do novo homem, despido da proteção da obediência foi vetor  e campo, para novas maldições,males, e doenças, e a multidão, fazendo –se de inocentes reclamava castigo maior àquele arauto de todas desgraças, e cogitando a remissão de todas as culpas através do holocausto queimaram-no em “fogo santo” nas vizinhanças arborizadas da “Nova Babilônia”.
O Senhor escondeu o rosto do sacrifício, e a multidão, sem ídolo algum para apalpar logo se esqueceu de Deus.


Anderson Dias Cardoso.

domingo, 10 de julho de 2011

Ovelhas e Lobos.

Ofereceu as mãos em solidariedade, porém ela as negou, e os olhos de maquiagem destruída por lágrimas eram hostis ao que lhe fazia o bem.
-Quem disse que quero ajuda?
-Você chorava.
-Minhas lágrimas dizem respeito a mim somente.
-Desabafar geralmente ajuda.
-A simpatia masculina à qualquer dor significa uma única coisa: Sexo.
-Aceite minha mão assim com aceito seus insultos, sem análises ou esperanças.
E ela, desaforada que era levantou-se por si e se adiantou, o deixando vários passos atrás.
-Espere!
-Me deixe que sou bicho sozinho e sei lidar com meus ferimentos.
-E eu sou moço direito e se quiser apresento referência!-O sorriso deixou escapar um pouco de cinismo, e a tensão só fez aumentar.
-Não acredito em bondade humana... Principalmente a de desconhecidos. Se não notou meu corpo é magro, meus cabelos são ressecados e essa maquiagem desfeita esconde olheiras quase tão negras quanto a pintura que se desfaz...
-Se se vê assim tão sem atrativos por que temer as investidas que acredita que lhe dou. Aceite ao menos um café amargo e me deixe desfazer estas suas impressões...
-Realmente não acredito na sinceridade de sua atenção.
-Então aceite somente o café e meu silêncio.
Sentindo-se incomodada com a perseguição do “benfeitor” resolveu parar em um Café qualquer, e sentando-se logo pediu sua xícara de café, forte e doce. Ele observou, e cumpriu o trato se mantendo em silêncio.
-Você é apenas mais um lobo... dos tantos que se fazem de ovelhas.
Os olhos continuavam fixos, e os lábios cerrados, a atitude apaziguadora a desconcertava.
-Minha confiança não é tão barata que se compra com um aspecto sereno e uma xícara de café.
Um sorriso de canto de boca, e ela não resistiu e baixou os olhos para a xícara já consumada.
-A minha mãe traiu meu pai... ele nos abandonou e chegamos à passar fome...
O homem meneou de leve a cabeça, sem se distrair da história e logo com uma olhadela fez com que viesse outra xícara. Ela deu um gole curto.
-Fui entregue à uma senhora, para que me cuidasse em troca de meus serviços, tive que trabalhar ainda muito nova, aos nove, e minha rotina era muito dura- A maquiagem agora se desfazia quase que por completo, e os olhos dele se enterneceram.
-Fui espancada por serviços “mal feitos”, e no dia em que resolvi revidar fui posta na rua.
Era uma criança na rua... No frio.
Os lábios do homem se comprimiram, e notava sua glote se movimentando em uma deglutição difícil, quase dolorosa.
-Fiz parte de grupos... E como disse, o sexo era o pagamento para os cuidados que me ofertavam...
A primeira lágrima se desprendeu dos olhos do ouvinte, ele a limpou timidamente.
-Então não me tente convencer da bondade dos homens, pois da minha história você não sabe um décimo... E nela, os “personagens” não passam de lobos; enganadores! Eu odeio todos! Eu odeio você e essa sua bondade dissimulada!!!
Enquanto ela gritava ele agarrou seus pulsos, e a puxou para seu abraço. Ela não resistiu; era apenas uma garota ressentida.
-Não quero nada de você, só vi sua tristeza e ela me doeu o coração. Além do abraço a acariciou com um beijo terno no topo da cabeça.
-Você é um anjo?
-Não... Sou apenas uma pessoa tentando ser gentil!
-Preciso ir... Eu me sinto melhor.
-Provarei que minhas intenções eram boas ao não perguntar nada ao seu respeito, ou itinerário.
-Assim fica provado que estava enganada... Não são todos lobos.
-Não. - E se despediram naquele mesmo abraço. E ela dobrou a esquina, e encolhida no casaco grosso esquentou as mãos nos bolsos. Três quadras dali e ela retirou a carteira de couro do bolso, conferiu a grande quantidade de notas, e logo os documentos e enquanto ele, notando a falta, perguntava a si mesmo, ela respondia:
-Nem todos são lobos Lúcio, alguns são ovelhas!

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Aluguel de Protesto.

Cercado de reclamações e inércia, e ainda sem emprego, resolveu-se por representar essa massa  de descontentes em troca de sustento, e notando sua pouca força e ainda, imbuído de sentimentos nobres recrutou uma multidão de também desempregados e anunciou em uma comunidade que dispunha de um grupo que representava qualquer causa em protesto, diante de qualquer injustiça.
Tímidos e desconfiados os primeiros clientes pagaram o quanto podiam por sua revolta, e lá estava o grupo tumultuando a porta da casa de mulheres traídas exigindo reparação, fechando escritórios devedores de funcionários, gritando palavras de ordem em frente à lojas que desrespeitavam seus consumidores...
Vergonha e intimidação eram terrivelmente eficazes, e encomendas dessa força passara a ser mercadoria procurada, e então a entidade passou à absorver novas porções de vadios e se dividiu em novas forças de enfrentamento.
Agora haviam vozes gritantes em toda  esquina, e a organização já havia se tornado incontível por qualquer força ou instituição, e sob o pulso forte do idealizador organizava sindicatos, contratava advogados e começava a comprar alguns deputados expressivos como garantia de continuidade e sucesso da empresa.
Logo o medo pacificou toda a cidade, e já sem “motivos” para se protestar as finanças decaíram, então começaram ondas de protestos extorsivos à qualquer pretexto.
A população já não via com simpatia aquela organização, e resolveu sair em defesa dos inocentes prejudicados, mas assim que a aglomeração alcançou a praça central foram cercados por viaturas, alvejados por balas de borracha e abatidos por jatos d’água.
Em meio à baderna aquele que um dia foi solicito às  queixas das mudas multidões, e solvedor de tantos problemas usava a voz que os emprestou por tantas vezes em uma empostação autoritária num megafone e apontava uma folha que o conferia o monopólio de qualquer manifestação, concedido pelo Estado.
Agora éramos protestantes ilegais.
  
Anderson Dias Cardoso.

domingo, 3 de julho de 2011

A Mudança.


Uma orgia de plásticos bolha e jornal e todos os móveis e objetos eram embalados para transporte.
Da boca da matrona partiam a maioria das reclamações, mas cada qual cuidava do que lhe era caro, afastando seus apegos das mãos dos carregadores, e entre sofás aveludados e vídeo game tudo foi se acomodando no fundo do baú, e ainda notando vagas e sob apelos sentimentais levaram peças dignas do lixo.
-Isso ou aquilo me trás recordações- e se agarravam aos dispensáveis e eles próprios os conduziam ao veículo.
Então, depois de seleções pautadas em sentimentos os “descartáveis descartados” foram arranjados de modo a facilitar a remoção e limpeza, e com olhadelas e suspiros já saudosos deixaram o imóvel cerrando o portão alto e ruidoso, já com sentimentos novos e felizes à respeito do novo destino.
Não houve cerimônia de despedida. Eram pessoas reservadas e em seus vizinhos não encontraram nenhum atrativo ou necessidade que os impulsionassem à comunicação.
Sua falta não foi notada, a não ser pela agitação canina no quintal.
No primeiro e segundo dias só houve silêncio, mas, notada a falta dos donos uivos doridos passaram a incomodar a vizinhança.
O coro choroso contava dois timbres, e tais timbres denotavam portes diferentes; muito grande e muito pequeno.
Vez ou outra o conjunto parecia se desfazer em uma briga barulhenta, mas logo se uniam em uníssono para invocar a presença de seus donos, e a cantoria durou uma semana e dois dias, até que um grande volume começou a chamar atenção se atirando contra o portão com todo restante de força. 
Notando o desespero finalmente se convenceram que já não havia moradores na casa e selecionado um; de espírito mais aventureiro, este trepou dificultosamente no muro alto e viu um corpo grande, porém magérrimo estendido próximo ao portão. Língua de fora, boca espumante e olhos revirados em suas órbitas.
Não muito longe encontrou o corpo descarnado e ossos meio roídos de um pequeno vira-lata.
As náuseas e a indignação foram regurgitadas dali mesmo, ele desceu do muro sem dizer palavra... Não havia mais vida naquela casa.

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Amigo Imaginário.


Já se arrumando sentia o forte cheiro de café, e descendo rapidamente a escadaria já via o casal amado na mesa posta aguardando sua passagem.
Com pedaço de queijo entre os dentes perguntou sobre a ausência do irmão e este surgia como uma aparição desgrenhada vindo da sala após um dos ataques de cinefilia que o acometia vez em quando. A manhã estava calma, sem olhares preocupados.
Das figuras uma outra se aproximou com passos surdos, e o apressou com os olhos tristes e não notando intenção de deixar o amanteigado e leite tentou o arrastar pelo pulso, o que espantou o trio.
-Me largue!Ainda não acabou!
-Quem está ai?-A mãe já se desesperava.
-Meu filho... Você tem que se tratar- Agora, com o pai eram duas forças o disputavam enquanto o irmão aborrecido arrastava sua cadeira e deixava o ambiente atribulado levando um pãozinho e uma xícara de chá.
-Está armado o circulo dos malucos!-A porta da sala fechou o restante do monólogo e o controle fez gritar a TV. Aquela briga não mais o pertencia.
A tensão foi diminuindo com o conformismo, e com as explicações e o jovem conseguiu se afastar dos gritos da mãe e do abraço do pai, que o retinha impedindo que alcançasse a porta, e num desmaio manjado o pai desviou seu cuidado para a mãe e ele escapou ainda os consolando à distância, e a segunda porta se fechou.
As mãos o sacudiram violentamente, e quando o viraram ele esteve fitando aqueles olhos envelhecidos de amargura, e falando o hálito o embrulhou o estômago e a náusea o distraiu daquilo que havia dito. Procurou se afastar e se reorganizar para então enfrentar os insultos.
-Quando essa loucura ira acabar???-O jovem melancólico distanciou-se dois passos- Estão destruindo sua vida!
-Vamos andando, tenho que ver Jéssica. -  O agredido tomou o caminho contrário evitando o olhar pesado e logo o foi seguido pelo ser murmurante, mas  ignorou a maioria das reclamações.
Soou a campainha e esperou oito costumeiros minutos; tempo mínimo às vaidades da beleza, que surgiu anunciada por um perfume fresco e adornada por um sorriso autêntico, branco e harmonioso. Houve um abraço tenso e a moça decodificou toda a situação.
-Vamos entrar!-Deslizou sua mão à dele e o tracionou rumo à casa, mas ele resistiu.
-Não posso! Não o quero deixar aqui fora... Ele é meu amigo!
-Ele não existe!
-Você não entende!Ele está aqui ao meu lado... -As mãos cerraram os ouvidos, e o sangue ruborizou as faces e ela tentou fugir da loucura mas quando os lábios acariciaram a testa o amor a enterneceu e ela o abraçou novamente. Agora os corpos se esqueceram de qualquer ameaça e gozaram do calor e afeto um do outro, mas foi gozo breve, pois o olhar descontente do amigo o irritou, e ele preferiu entabular logo uma conversa, contando amenidades e tentando uma distração para ambos com estórias divertidas.
O itinerário, deixada a namorada, foi uma seqüência quase agradável de visitas das quais a segunda foi na casa dos avôs.
 Eles, já acostumados com a presença invisível do amigo esperavam alguns segundos antes de fechar a porta. Tentavam ser corteses, mas com ar sempre descrente. Serviam dois pratos, dois copos e o participavam das conversas da família, mas ele permanecia encostado à parede da sala de jantar, com olhos raivosos esperando para deixarem aquele ambiente hipócrita.
Na casa de seu melhor amigo apanhou uma apostila e preferiu deixar incógnito seu acompanhante, e após cinco minutos de prosa já rumava para outra visita.
A “Casa” era o ambiente para se sentir tranqüilo. Tudo era performance, e as maiores esquisitices eram permitidas.
Moveu as cortinas pesadas e ao se mostrar  foi saudado com sorrisos, e “brincou” apresentando seu amigo invisível a toda trupe e eles se riram lembrando-se daquela brincadeira e saudaram o espaço vazio, e beijaram a face do nada e convidaram o “delírio” a se sentar na roda. Ele não riu das simpáticas brincadeiras.
O ensaio da peça se desenvolveu até a cena do escândalo da mulher traída, e quando a arma apontou o coração do jovem como vingança a voz do amigo antecedeu o grito da morte.
-Eu não agüento mais!Esmurrou duas... três vezes a boca do jovem; até que viu o sangue manchar os dentes.
-Alguém me ajude!-O círculo se mantinha distante ao embate, observando o espancamento.
O amigo o sacudia violentamente, e gritava maldições ao moço confuso.
-Socorro!Ele vai me matar!- O grupo continuava assistindo, sem esboçar reação.
A cabeça se chocou com o encerado, o ar começava a fugir dos pulmões e ao fixar os olhos, viu o círculo de amigos se desfazerem no ar enquanto a fúria do amigo se tornava em lágrimas.
O peso do moço era o inverso da agressão, e a voz possante diminuiu a um cicio triste.
-Sua loucura está destruindo minha vida!
A exclamação abriu-lhe os olhos, e viu que não era um teatro, mas um barraco quase destelhado e toda uma imagem de miséria.
Não haviam pais, avós, namorada ou amigos...
Havia um paupérrimo irmão cuidando de um louco às custas de doções.

  Anderson Dias Cardoso.

domingo, 26 de junho de 2011

As Vacas.

Reduziu e logo estacionou o “monstro” no acostamento  diante das três vacas.
Ao descer cuspiu a saliva grossa que lhe inundava a boca, mas esta teimou em prender-se aos lábios e marcar a roupa.
A pausa também era oportunidade para urinar e junto ao ruído do processo ouviu cochichar das bocas bovinas; que além de capim ruminavam um diálogo quase filosófico onde a problemática era as novas formas de clonagem, e ao ouvirem seus passos o incluíram no assunto.
-E o que lhe parece João?- O timbre doce da voz da criatura malhada o fez se esquecer de perguntar de onde se conheciam.
-Haverão ganhos interessantes à custos altos. Regeneração orgânica, retardo do envelhecimento, cura de doenças...Empirismo cientifico com animais e humanos, engenharia genética aberrante...
-Não é esse tipo de clonagem que está em debate- Resmungou a vaca castanha- O mundo está sendo inundado por clones intelectuais em escala industrial.
-Dizemos de reproduções de estereótipos comerciais criados pela veiculação viciosa de conteúdo irrelevante e induzente –Completou a rouca vaca negra.
-Ainda existem guetos de produção intelectual e relevante nas mídias...- Articulou com o hálito etílico e perdigotos saltando involuntariamente enquanto a razão combatia a vertigem e acertava os pensamentos.
-Sim! Conteúdo pago- assumiu a malhada- quanto à TV aberta ou qualquer veículo, eles  o apresentam tão repetitivamente, com diagramação tão pobre e linguagem tão desinteressante que não retornamos à esses canais e meios pela certeza de nos depararmos com uma reprise sem ao menos atrativos áudio-visuais!
-Essa mesma repetição é encontrada nos conteúdos dos canais “ordinários,”-Mugiu a vaca negra-  só que disfarçada de conteúdo novo, e cada vez mais apelativo.
-As variáveis da programação são basicamente os produtos, fetiches e ideologias desagregadoras pedidas pelas conjunturas sócio político econômica- sorriu a criatura castanha.
-Uma unificação ideológica mundial encabeçada por empresas exportadoras  de...-num repente a lucidez retornou ao motorista, e a realidade da conversa se tornou em um medonho delírio, e ele correu de volta ao seu caminhão, e dando partida arremeteu contra o trio ruminante, e daí em diante não era mais consumidor de “rebites”.


Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

A Sociedade Do Farol.


As paisagens humanas continuam comuns em todos faróis; o movimento de ambulantes, panfleteiros e malabaristas como bailarinos que se esbarram desajeitados em corpos veículos e produtos.
Pedintes são categoria à parte.
Estes vendem suas misérias, ou qualquer farsa, num teatro itinerante e talentoso; ou realidade tão escandalosa que nos acomoda às nossas misérias menores, e nos eleva com uma bondade que nos custa umas poucas moedas.
A certa distância um artista já maduro risca o cenário com malabares encardidos, e o espetáculo coagido pelas luzes do farol termina em uns poucos movimentos nem tão impressionantes e ele se apressa à sua coleta.
As mãos, rasas de moedas se enfiam no bolso e ele se prepara à margem esperando outro intervalo para um novo espetáculo; assim como outros comerciantes que ajeitam os doces e bugigangas em seus tabuleiros.
Em meio à característicos estereótipos, um se movimenta em destaque, com seu sorriso desconfortante e um enrolado de jornais e fita crepe.
A garota obesa e de pernas finas, seios muito volumosos e cabelos tosquiados à recente moda masculina... Roupas infantis em corpo imenso e a garota desfilava seu desleixo e seu sorriso louco nos lábios, enfrentando aquele mercado de miséria com a alegria da falta de razão.
Seus concorrentes se riam da criatura enquanto vendiam e se apresentavam, mas ela não notava o ridículo de sua performance e então lançava o seu único malabar artesanal, e o vendo viajar à tão pouca altura, tentava o segurar com uma única mão! 
O esforço tinha êxito à muito custo, mas nem sempre; e o enrolado caia sobre o velcro do tênis surrado que calçava.
Sem constrangimento ela se abaixava e com a mesma alegria continuava o ato, fazendo girar a peça tosca mais umas três vezes no ar, e rumava satisfeita à sua platéia!
Seus colegas de ofícios escondem o riso dos lábios, mas o deboche transparece no olhar. Também interromperam suas vendas para assistir a humilhação da garota louca, e ela se aproxima decidida e sua humilde simpatia faz baixar quase todos vidros elétricos!
O objeto que atirava agora estava guardado sob a axila esquerda, e as mãos retinham com ajuda da camiseta sua pequena fortuna; e despedindo-se do último carro foi descansar num banco sombreado por uma mangueira.
Contou as moedas e notas, e, muito empolgada disse consigo mesma:
-Falta pouco pra comprar a aliança!

 Anderson Dias Cardoso.

domingo, 19 de junho de 2011

A Prisão Branca.

Acordou de um sono farto em um chão macio num ambiente iluminado por luz branquíssima.
A surpresa preguiçosa o levou perceber-se em um claustro, e este se levantou como num sonho buscando no mínimo por uma saída; não encontrando  experimentou a espessura das paredes e as notou macias, porém aparentemente intransponíveis.
Totalmente desperto e irritado pôs se a procurar câmeras, microfones e esbravejou exigindo sua retirada daquela situação vexatória; mas nem som, nem movimento!
Seriam seus colegas do escritório com seus chistes jocosos, sua esposa, ou algum inimigo não declarado?
Continuou em seus esforços por mal calculadas duas horas.
Silêncio e calma.
A mente aquietou-se e recostado em um canto começou a notar o cubículo, com sua luz alva não ofuscante que era irradiada de todas as direções, sem, contudo destacar sua fonte. Provavelmente uma nova tecnologia.
A roupa branca que não vestia antes se fundia à diminuta paisagem e causava sensações angustiosas, e exausto de se debater contra um ambiente que nada dizia se rendeu novamente a um sono pesado, no chão nu.
A vigília monótona e os sonhos brancos começaram então a se tornar rotina.
O tempo passou a ser incontável, e as lembranças passaram a ser um difícil recurso, e era necessário distrações para não enlouquecer naquele cubo branco, então cantava as canções que conhecia. Não eram muitas e a voz cacofônica o irritava em demasia.
Mediu o recinto em palmos e acreditou ter 3X3.
Exercitou-se andando por aquele espaço, e realizando séries que manteriam sua disposição, saúde, e postura.
Notou que não havia fome.
O “receptáculo” hermético impressionantemente fazia da respiração coisa dispensável.
Sem dia ou noite, ou qualquer estimulo sensorial, e diminuída suas angústias já não se lembrava de que havia sido contador.
Haviam esposa e filhos?
 Os olhos piscavam em cadência cada vez mais espaçada, e a pele gradativamente foi se alvejando, até que não podia ser discernido em meio à brancura.
Vez enquando o coração pulsava, e todo o quarto vibrava...
Já não havia distinção...

 Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

AGata.

A cor da felina era negra, olhos verdes comuns e pêlo denso. Era quase objeto de mau-agouro, e assim gostava de pensar. Afastava supersticiosos.
O nome(Zoe); ao contrário, era retrato da natureza  agitada e vívida da criatura, e a este eu traduzia a quem inquirisse com o significado tétrico que viesse à mente garantindo uma aura mística negativa que levava às olhadelas desconfiadas, e pensamentos assustados.
Isso me divertia! Sadismo de quem não consegue causar um mal verdadeiro!
Entre brinquedo e hobbies era a gata que me divertia, e realmente a devotava carinho paterno e lha ornava com laços rubros e placas douradas e alimentava com finezas gastronômicas, que mais eram devoradas por formigas que propriamente pela gata.
A casa era parque aberto, sem restrições espaciais para os movimentos impulsivos do animal, porém a cama era preferida ao sofá, mas o colo morno era ainda mais convidativo.
Na noite me sequei após o desejado banho, e a toalha felpuda era o pelo do meu corpo liso e na caminhada para o quarto lá estava o bicho se enroscando em meus passos, com um balé ronronante que causava cócegas e risos.
Sentei-me na maciez do colchão, vestindo o que me faltava do vestuário; me distrai ligando em qualquer canal da TV. Zoe me acompanhou por alguns cliques, mas logo que a fome me arranhou o estômago interrompi seu divertimento desligando o aparelho, e observando sua reação.
Ela olhava a caixa muda, eu a observava pelo reflexo... Ela saltou  para a tela e sumiu no absurdo!
Houve o choque e choro. O medo veio muito depois, quando meus relacionamentos disseram agora entender a causa das tigelas sempre cheias e coisas para gatos...

 Anderson Dias Cardoso.

domingo, 12 de junho de 2011

Os Três Porquinhos.


A ciranda foi rompida pelo corpo negro e as garras aduncas que rumavam em velocidade buscando os pescoços, e os porcos se distribuíram cada qual à sua casa, se escondendo da fome lupina!
A mais próxima e frágil moradia fora construída de palha pela preguiça de Cícero, e a porta não soou firme ao ser batida, e sua proteção lhe pareceu mais um artifício psicológico que uma fortaleza material para o gigante volume peludo que uivava ao redor.
As ameaças não trouxeram o “alimento” aos seus dentes, tão pouco o rosnar; então se resolveu por testar a fragilidade estrutural do esconderijo com o ar de seus possantes pulmões, e esta se desfez com tão pouca resistência que não pode deixar de se orgulhar! O porco se aproveitou da alegria e surpresa do predador e fugiu para se abrigar em uma cabana pouco mais reforçada.
Heitor questionou o amigo fugitivo  a respeito do Lobo, mas a resposta logo foi avistada e ambos se juntaram na tentativa de enxotar a criatura, mas ela se babava e afiava as garras na madeira da cabana.
O ritual de intimidação sonora, o cintilar dos olhos nas imperfeições da construção e logo as  patas começaram a forçar a porta, e o peso do corpo imenso envergou toda a parede, dando passagem àquela fome viva, mas os porcos já haviam deixado a casa pela janela tosca que nunca era notada quando fechada.
O Lobo se aproximou pouco confiante da estrutura da terceira casa, provou a rigidez das paredes de alvenaria e tentou mais alguns uivos, mas estes saíram roucos e menos assustadores. Se formava uma outra imagem da fera, já cansada, e convencida de sua falha em deixar que fugissem para lugar sólido, fora de suas possibilidades!
A conversa dos porcos se  animou na segurança da casa, e o Lobo era só uma silhueta no horizonte e as flautas encheram o ambiente, danças franziam os tapetes e desarrumavam o mobiliário!
Uma segunda roda de danças foi desfeita quando o terceiro porco olhou o relógio.
Os outros o inquiriram e ele disse:
-Eles são realmente pontuais!-Um furgão estacionou, e desceram figuras de macacões brancos.
A porta foi atendida com toda cortesia e depois das apresentações aqueles homens conduziram os dois porcos ao furgão sob as explicações de seu companheiro:
-É muito stressante para um porco passar por esse tipo de situação, e sinto ser necessário um acompanhamento psicológico além de um período de descanso em uma clínica de repouso para que esse infeliz episódio não lhes cause danos mais sérios!-Achegou se mais aos seus amigos.
Espero que esteja tudo conforme o combinado!Tudo conforme o alto valor que me cobraram!
-Tudo está perfeitamente preparado de acordo com o seu apreço aos seus caríssimos amigos!Acreditamos que sairão de lá inteiramente satisfeitos, e gratos por terem tão amoroso companheiro!
A despedida se deu entre abundante choro, e os abraços não puderam recompensar a bondade do terceiro porco, mas eram a única moeda disponível àquele tipo de situação!Beijaram se nas faces, e foram escoltados aos confortáveis bancos do furgão, enquanto um dos enfermeiros voltou à cumprimentar o terceiro porco.
Ao apertar-lhe o casco sorriu divertido e sacou um envelope pardo e o entregou:
-Essa é sua parte do dinheiro. Fiquei espantado com sua sutileza! A carne quase foi prejudicada pela tensão imposta pela trama, mas esse seu “cuidado e afeto” acabará por tranquilizar seus companheiros, e suas carnes continuarão tenras e saborosas!
-E quanto ao Lobo?
-Já acertei a parte que lhe cabia. Vinte por cento! Ele também fez um ótimo serviço!
-Realmente o trabalho dele convence!
-Assim como o seu!Um ótimo trabalho!
-Não é por isso que me chamam de Prático?-O porco gargalhou gostosamente.
-Quando tiver mais algum “amiguinho” em vista... - O “enfermeiro” deixou seu amigo porco ainda gargalhando e sumiu com o furgão do açougue levando sua saborosa e ingênua carga.

Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Nascido Produto.

Foi acordado que não seria dado um nome, mas atribuído uma marca à criança.
Era a vanguarda da publicidade!
Logo nasceu aquele pequeno produto, patrocinado desde o ventre pelo seu homônimo, tendo desde o parto às roupas e ainda a certidão de nascimento estigmatizadas pela grife, e era invejado pelo alto valor de mercado daquilo que representava!
Curiosamente a personalidade se desenvolveu segundo a proposta e a criança marca andava e se expunha nas ruas e revistas agregando espontaneidade humana ao comércio que a patrocinava e chegou a tumultuar com seu carisma todas as lojas obrigando a abertura de sucursais sazonais para suprir as demandas oportunistas.
A concorrência reagiu dando a luz à outra criança marca, e a guerra se expandiu e engoliu toda a sociedade; que resolveu-se por batizar sua prole segundo a marca de sua preferência, e novamente houve reação, desta vez inibitória, e processos relativos à direitos de marca e pouco a pouco as “nomenclaturas” foram retornando ao normal; aos Joãos e Josés.
Vez por outra as marcas se encontravam nas ruas e se olhavam com desprezo, e se mediam em seu terreno através do mercado de ações e aceitação popular; outras  crianças marcas  sofreram com as variações de popularidade e a morte de seus símbolos... Nesse caso as "etiquetas" foram substituídas por apelidos!
A adolescência veio com identidade própria e novas ideologias, e a descoberta de quase escravidão de funcionários em países subdesenvolvidos e outras imoralidades relativas à marca.
Foi vergonhoso demais para se considerar como uma logomarca humana conivente, então decidiu por se divorciar de seu nome, e assumiu uma atitude rebelde, e iconoclasta!
 Ele se drogou, roubou, matou e ao ver a deterioração de sua vida e imagem se negou a prestar esclarecimentos aos representantes de sua indústria espelho, e se deixou encontrar pelos jornais em uma sarjeta, como um maltrapilho traficante de drogas.
Ofereceu sua biografia em poucas páginas e muitas linhas de protesto!Disse se identificar com os explorados ao invés de seus patrícios, e anunciou sua luta e o nome messiânico que envergava agora, e pela força de suas expressões os repórteres julgaram ter conhecido um novo mártir de causas sem solução!
A história foi anotada, o menino marca faleceu de overdose num daqueles dias, e na publicação jornalística sua estampa não mencionou seu passado famoso e suas desilusões, e sua breve biografia omitiu a íntima relação com a famosa marca...

 Anderson Dias Cardoso.

domingo, 5 de junho de 2011

Livro dos Recordes.


Mirei minha mediocridade, feiúra e baixa estatura e notei que a fama estava longe de mim, num nicho de bizarrice bem comum nos dias atuais. Foi consultando o “Livro dos Recordes” que descobri possibilidades de me fazer notar, e dessas selecionei empolgado um feito para marcar minha existência e me empenhei de todo, e fiz com que outros se empenhassem da mesma forma!
Encerrei-me em minha casa e decidi não sair até “bater” o indiano “Nelson” em sua reclusão de 53 anos.
A família estranhou a meta, mas foi solidária ao meu sonho e me forneceu o necessário à conclusão do meu ideal, e ainda ponteou relacionamentos com fornecedores de maneira previdente, tratando da possibilidade de suas mortes como a interrupção de um sonho!
A morte realmente veio, e de 79 até 93 já havia ceifado meus pais e rompeu as relações próximas que muito me auxiliavam a acessar o “mundo exterior”; mas a Internet e celular chegaram em poucos anos e devido ao bom relacionamento estruturado pelos finados com açougueiros, padeiros e outros, me era garantida comida à porta!As contas eram pagas pela boa pensão deixada por meus pais.
Cada ano maior orgulho, e a solidão não era tão aguda quando se podia freqüentar salas de chat!
Utilizava-me dessa ferramenta, mas não comprometia minha identidade, pois temia chacotas e relacionamentos que pudessem me furtar de cumprir minha jornada.
O mundo nem me parecia um encanto, pois ao me informar nos noticiários, os males da humanidade sobrepujavam toda ordem e beleza dos poucos momentos amenos que ocupavam o resto daqueles programas. E quanto aos filmes... Eu sabia que não retratavam a realidade!
Nos momentos de ócio, entre os afazeres domésticos e outras atividades rotineiras comecei um diário onde registrava minhas memórias, e me excitava ao imaginar quantas pessoas se admirariam com minha vontade férrea e se iludiriam com histórias inventadas para preencher o vazio de acontecimentos interessantes que eram a realidade dos dias compridos e solitários de clausura.
O quadragésimo ano de reclusão foi comemorado com mesa farta, e duas cadeiras vazias. Brindei-me com muito vinho, comi “Spaghetti  à Carbonara” fingindo ser de minha mãe.Escutei os discos preferidos de meu pai e ousei uns passinhos de dança na sala acarpetada!
Senti rodar as estruturas de meu pequeno mundo, e cai sorrindo sobre a quina vítrea da mesa de centro e nem mesmo notei que a minha vida abandonava aquela casa, rompendo meu contrato com a imortalização do meu feito!
Dos meus credores o padeiro era o mais sovina, e não se conformou ao ver que eu não havia saldado minha conta antes de partir e em sua revolta resolveu desvirtuar meu feito e inventou minha loucura e a morte de meus pais por conta dessa minha ambição, e me desmereceu em outros comércios e círculos até que minha memória foi de todo vilipendiada, e eu tornado num  demônio esquizofrênico; alguém para se esquecer.
Felizmente não se costuma escrever insultos como epitáfios, então levei somente o gosto do desperdício de existência para o túmulo!

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

A Escalada.



Desavença nascida de concorrência intra-institucional e os dois jovens já não se suportavam.
O novo funcionário se esforçava para dar todas as respostas às necessidades da empresa, não por profissionalismo mas por ser seu alvo o cargo de seu gerente.
Fofocas e intrigas se tornaram  comuns, e os demais funcionários se dividiam discretamente em apoio aos contendentes, e aos poucos a cisma se tornou em ódio dissimulado e o ambiente da firma pesava, e pequenas rixas surgiam aqui e ali.
Naquele dia, na roda partidária do Novato a conversa soava alto, em tom de protesto e desafio a respeito da privacidade dos celulares, computadores e todos meios pelos que pudessem ser espionados.Nesse momento os olhos dos maiores inimigos se cruzaram, e o Gerente se retirou pesando os efeitos daquele homem perverso naquele meio, e o que podia ser feito para anular o motim que se configurava.
Resolveu-se por aproveitar das informações do diálogo e montou uma estratégia para descobrir algo que pudesse resultar em uma “justa causa”.
Vasculhou a Internet e encontrou um programa de invasão, e logo o testou no celular de sua esposa conseguindo acessar e baixar arquivos do mesmo. Sorriu previamente pela sua vitória!
Nenhum celular ficou fora da averiguação, não pôde descobrir nada de incriminador nos demais funcionários, e havia deixado o do Novato para ser averiguado posteriormente, com mais calma. O que aconteceu na hora do lanche.
Vasculhou as mensagens, a agenda, e qualquer coisa que achava que poderia ser comprometedora; e na pasta de fotos os olhos piscaram rápido tentando dissipar aquela imagem repugnante! Resolveu baixar o arquivo e saiu rapidamente deixando todos surpresos e confusos. Seu rosto era o mais confuso o possível.
Por terceiros veio a noticia, no dia seguinte, que a mulher do Gerente havia sido morta por este em um acesso de fúria, e que este, logo em seguida havia se matado!
Foram investigados os pertences do insano, inclusive o celular e computadores e nada foi encontrado de suspeito; ele havia apagado a foto da vergonha e o Novato sorriu sozinho de seu êxito! Ele abriu seus arquivos de foto e viu um pequeno grupo de fotos:
Um homem bonito, a mulher do Gerente, e ambos juntos em uma só imagem!Apagou todas e agradeceu às duas maravilhas que o auxiliaram a galgar mais uma posição na empresa:
Orkut e Photoshop!

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 29 de maio de 2011

A Pitonista.


Chegou à cidadezinha de nova Delfos, local de peregrinação mística próxima à grande São Paulo e ajeitando seus petrechos em um hotel econômico rumou animada ao monte Parnaso para obter algumas respostas.
Multidões se avolumavam fora da caverna, protestando descontentes com algo que só a proximidade esclareceria.
Se acotovelou aos que vinham em sentido oposto, atropelou alguns revoltosos e inquiriu recebendo como respostas xingamentos e empurrões, mas os metros de esforço posteriores a fizeram alcançar uma clareira e avistar o pequeno grupo sacerdotal que parecia explicar toda a situação.
O coração era um batuque só, e o passo foi célere ao encontro da resolução de seu tormento.
-Preciso de uma consulta!
-Infelizmente ninguém será atendido hoje!
-Como pode ser isso!? Seria hoje um dia nefasto não declarado nos calendários místicos?
A moça de pés descalços e ricos ornamentos depôs o véu e se adiantou ao grupo de sacerdotes se desculpando:
-Terceirizamos o serviço de emanações inebriantes e parece que houve algum problema nos encanamentos e hoje infelizmente não nos chegou nem um “vaporzinho” para que realizássemos nosso trabalho!
-Não pode ser!!!Eu vim de tão longe!!!
-Sentimos muito!-Todos concordaram com um triste meneio de cabeça.
-Preciso voltar amanhã!Tenho um emprego à espera, meu seguro está no fim... É uma ótima oportunidade mas esse problema afetivo tem me tirado a paz, e eu preciso de uma resposta!
Por favor!Eu ouvi falar que ninguém sai daqui sem resposta!Por favor, tentem mesmo sem o “Vapor de Píton”!
Eles se entreolharam, e com pena assentiram e a convidaram-na à caverna.
Os olhos já habituados à falta de luminosidade logo viram a simplicidade daquele templo, cujo luxo se consistia em luminárias incandescentes e um trípode posto sob uma fenda fabricada para se assemelhar a uma rachadura natural.
A pitonisa sentou-se elegantemente sobre o banquinho enquanto os sacerdotes formavam um semicírculo que esperava pelas frases desconexas para cumprirem sua parte no ofício.
De estática a mulher passou a apresentar discretos movimentos labiais, as mãos pressionaram as unhas vermelhas no estofado, e as comprimiram mais e mais até se lascarem, e o corpo começou a responder a impulsos invisíveis e convulsionou espumando a boca e revirando os olhos em suas órbitas. Ela se desprendeu do banco e tombou no chão nu, sussurrando frases rápidas e quase inaudíveis.
A garota ficou horrorizada! O corpo de intérpretes se aproximou para encerrar o expediente e se concentraram em ouvir bem para compreender.
-Quanto ao teu relacionamento, eis o que diz a pitonista:
"A grande borboleta
Leve numa asa a lua
E o sol na outra
E entre as duas a seta
A grande borboleta
Seja completa-
Mente solta... Ou não."
A garota tentou absorver a mensagem, e logo sorriu de contentamento, e se voltou grata aos seus bem feitores:
-Me sinto tão emocionada!Então são essas as palavras do sábio Apolo!
-Para ser sincero é Caetano Veloso!
Depois desse episódio a incompetência humana e o sincretismo cultural-religioso mataram muitos outros cultos!

Anderson Dias Cardoso.
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