quinta-feira, 17 de março de 2011

Terrores Noturnos.


Houve tempos onde as camas não eram divididas a não ser no amor, e os sonos eram mais tranqüilos, as colunas não se deformavam tanto e os dias passavam menos extenuantes e irritadiços.A Revolução Industrial espremeu nas cidades as gentes e os espaços se tornaram raros e os quartos acolheram dois ao invés de um.
Hoje, o que era praticidade tornou se romantismo, ou quase; pois existe o ressonar, cutucões e flátulos, que no dia seguinte produzem no mínimo protestos e talvez a separação!
Atormentei muitíssimo meu matrimônio com estes mesmos sons, movimentos e aromas até que o conformismo  sossegou uma esposa raivosa e a noite passou a ser dormida por inteira.
Acostumado a um descanso silencioso me vi espantado por uma conversa empolgada às 3:00 da madrugada!
Ela sorria, respondia a uma amiga desconhecida para mim e dizia: "Depois eu te conto!", e sorria mais alto, e meu coração tentava escapar do peito! O monólogo durou alguns minutos e findo, meu sono demorou a me convencer novamente!
Muitas vezes me espantei com minha esposa; outras beirei a morte com aquela voz alta que me fazia um espectador de um diálogo estranho, com uma interlocutora abstrata!



Anderson Dias Cardoso.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Religiosidade.


Chegou perfumado, em suas mãos presente e flores;
Chamei-o Alberto mas este não era seu nome, e quando me disse amor preferi ouvir prazer.
E como amor ingrato não reconheceu seus gostos no banquete oferecido.
E se forcei a prosa, dizendo dos meus afetos fez se de estranho, como se falasse de outro!
E eu o bajulei por seus olhos azuis, sua boca rosada e seu mais apetecível silêncio!
E o depois; numa sala aconchegante dividimos uma TV, enquanto ela nos dividia,
E ao se aproximar o sorrateiro sono,
Ou um disfarçado tédio eu me despeço sem beijo,
Peço que volte amanhã, ou mesmo algum dia qualquer, e aceno fria a Alberto;
E ele me relembra que o nome é Jesus!


Anderson Dias Cardoso. 

domingo, 13 de março de 2011

Um Selo De Qualidade???É Comigo???

Recebi esse selo de qualidade de um blog que acompanho e aprecio bastante!http://raylsonbruno.blogspot.com

O negócio é postar o selo, responder às perguntas e repassá-lo para outros blogs que eu considere que mereçam e ainda não têm:( A forma de postagem seguem mais ou menos esse mesmo padrão)


Aqui estão as perguntas:
Nome: Anderson  Cardoso.
Uma música: Every Thing do Life House.
Humor: Na maioria das vezes falta...mas quando vem é um pouco ácido.
Uma cor: Duas...hehehehe!Azul e branco.
Estação: Inverno.
Como prefere viajar: De jeito nenhum...hehehe...
Um lugar: Minha casa.
Um filme: Na verdade um documentário: A Corporação do Micheal Moore.
Um livro: A Bíblia.
Um prazer: Ler.
Um seriado: Os Simpsons.
Time do coração: Meu coração tá ocupado com coisas mais úteis...
Frase mais dita por você: minha esposa disse que é: "Sei lá!!!", uma outra é "Esqueci o que tava falando..."
Porque tem um blog: Escrever é uma forma de despertar outras pessoas para os absurdos que nos cercam.
Sobre o que você escreve: Nada em específico, mas geralmente retrata as misérias humanas.
Escreva a primeira coisa que vier a cabeça:"Pra que???"
O que achou do selo: Muito bacana, me sinto valorizado!




E aqui estão os blogs que eu considero merecedores:

http://acorda-amor.blogspot.com/
http://deaeomundo.blogspot.com/
http://na-ponta-do-meu-lapis.blogspot.com/
http://wwwreginagois.blogspot.com/
http://culturaleste.blogspot.com/
http://blogdoprofex.blogspot.com
http://mmelomaisdomesmo.blogspot.com/
http://mousahrt.blogspot.com/
http://filosofiadebanheiroecias.blogspot.com
http://www.variedadesedicas.com

sexta-feira, 11 de março de 2011

O Menino Das Marionetes.


A traição delatada  e a ira paterna lhe presenteou com um espancamento e a amputação de uma enorme parcela  da língua, e a mãe, aterrorizada esperou pelo repouso do monstro e fugiu com seu ferido para uma aldeia distante.
A criança não mais falava,  e sempre se encontrava às pernas de sua mãe. Era criança agitada, triste, e por não saber como avivar aquele olhar ela pegou agulha e linha e pôs se a cozer alguns trapos e dando-lhes uma forma bem precisa, fazendo nascer  um boneco bem simpático! A criança sorriu, e a mãe lhe entregou o boneco, mas o garoto tomou os instrumentos e imitando seus  movimentos  logo o deu um irmão.
A criança se esmerou naquela arte e superou a genitora; logo a casa quase não continha tantos bonecos,  a mão construtora também os animavam em um teatro vívido,  multicolorido, e de personalidades  tão distintas quanto às dos humanos;  e no dia em que ela o enxergou junto a estante dos brinquedos, vestindo sua mão com um dos favoritos  ele se voltou com uma surpresa... A boca do boneco se moveu, e a voz do garoto soou!
Dois anos de silêncio, e ainda poucas palavras... Ele falava pelo boneco!
A mão abriu lhe a boca e encontrou a meia língua, e ela se ajoelhou o obrigando falar, mas tudo era gemido, então ela ergueu o boneco, pretendendo  desvendar o truque, mas  a simplicidade de tecidos e amarras era tudo!  E foi acomodando o boneco à pequena mão que a voz ousou ressurgir!
Os  bonecos então falavam de fantasias; cantavam e dialogavam desenvoltos, mas recusavam a emprestar a voz ao passado, ou a temas dolorosos. Eles confortavam a mulher, a faziam rir, e dessas brincadeiras nasceu um modesto teatro que alegrou aquela aldeia.
Todas as crianças se achegavam e até se acotovelavam a fim de observar a menos distância um espetáculo raro para remotas datas, e findo espetáculo se aproximavam ainda mais; admirados  com tão grande talento em tão pequeno corpo! Os bonecos faziam festa!
Muitos dias de teatro e as crianças, já acostumadas com os bonecos  tentaram conversa com seu manipulador, mas este; abrindo os lábios tentava, mas não deixava escapar nenhuma palavra; a mãe, comovida  anunciou sua mudez e todos os olhos se cruzaram em desconfiança e a mulher reforçou abrindo a boca e mostrando a língua mutilada! Ela lhes contou a história; eles se foram murmurando...
A noite trouxe uma multidão à porta da casa, e os gritos os arrastaram para a frente do casebre e as tochas os iluminaram mais que a lua!
Clamaram: - Bruxa! Demônio!- E os apedrejaram
Naquele tempo não se conheciam histeria... Naquele tempo não Havia Freud.

Anderson Dias Cardoso. 

segunda-feira, 7 de março de 2011

Diógenes e a Lâmpada.




Os pés empoeirados chutam a peça, o corpo se inclina, apanha e limpa-a fazendo reluzir o metal desprezado.
Ia atirá-la fora, como um desprezo às tentações dos deuses que desde muito ignorava, mas a vibração do artefato o aterrorizou, e a névoa se corporificou como uma
manifestação quase onírica que ofereceu, com voz firme, os desejos que lhe cabiam.
-Mestre Diógenes, tens direito à três desejos!
O andrajoso se irritou ao máximo! Reduzira ao mínimo os caprichos da vida e agora outro (além de Alexandre) o tentava seduzir com as intranquilidades do possuir!
Nada queria, mas a voz instava ansiosa para que seus pedidos o libertassem.
Diógenes se lembrou de seus parcos bens; seu barril-casa, seu alforge, seu bastão e tigela e o coração se estremeçeu ao imaginar perder sua liberdade ao se prender pelo apego a oque quer que fosse e então voltou-se resoluto ao Gênio e barganhou seus desejos.
-Dos três quero somente um, e desobrigado estará de sua empreita!- Acertada a estranha troca o Gênio inquiriu o filósofo e lhe concedeu o pedido.
O Gênio partiu radiante, deixando selado a lâmpada; agora habitada por um eufórico novo morador.
Muitas outras vezes esfregada, a lâmpada liberava somente o pó que maculava as mãos pois o filósofo se recusava sair e atender qualquer pedido que o libertasse de sua nova liberdade...
Um lar...era tudo que precisava!

Anderson Dias Cardoso. 

sábado, 5 de março de 2011

Itinerários De Um Lobisomem Moderno.

Estava sozinho, ou, acompanhado por um estranho e a noite se apresentava clara, sossegada
e os ponteiros do relógio se adiantavam com mais pressa. Um pigarro, ou coisa parecida me
tira do transe; meu companheiro de espera se movimenta muito e a suspeita começa a aguçar
meus ouvidos, e inquietar meus sentidos.
Houve um toque; um sobressaltar do coração e a boca gemeu baixinho. A mão pressionou o
ombro e me virei assustado olhando para as mãos que podiam bem estar empunhando uma arma!
-Calma!- A voz, ao menos não ameaçava.
-O que quer de mim?- Dois passos inconscientes me levaram a me afastar.
-Calma...eu não mordo...Não mais!
Mantive-me a uma distância segura, em prontidão para qualquer golpe ou disparo, pouco me
importando com o assunto de meu interlocutor.
Passado os instantes iniciais de tensão a voz começou a tomar contorno, e quando a calma
veio entabulamos uma simpática conversa!
O pequeno homem calvo vinha da região norte, estava albergado não sei aonde e sua
conversa agora me entretia até a chegada do metro. Parecia entendido em mitologia, e se
dizia fã de Rômulo e Remo, ou melhor, da "Loba" que os amamentou; deu a entender que era
coisa de família.
Do tal mito passou a me perguntar o que havia me assustado naquele encontro e eu revelei
que achava que era um lunático armado. Ele suspirou aliviado e aquilo me intrigou e
passei de interrogado à inquiridor e acabei me descobrindo falando com um "Lobisomem"que
procurava se integrar à sociedade!
Realmente era lunático! Sua "estrutura" não combinava em nada com os mitos, relatos e
fotografias!
-Mais ou menos como os índios meu interesse pelas matas se findou! Cinema, automóveis,
restaurantes...Eu quero conforto!- Se explicou.
-E quanto ao pelo?
-Depilação à laser, hormônios...Não acha que essa discreta calva me caiu bem?
-E a "cara de cachorro"?
-Ótimos cirurgiões! Atendem 24 hrs, e realizaram as cirurgias na lua cheia! Serraram
aqui, enxertaram ali- e mostrou algumas cicatrizes quase imperceptíveis, e no fim da
apresentação me presenteou com cartões dos tais especialistas, e me fez diversas
recomendações de hotéis-clínica especializados em atendimentos no pós-operatório!
-Posso indicar um dentista, ortodontista, meu aparelho mastigatório teve que ser
totalmente readaptado quando em forma lupina!- Mais alguns cartões saltaram na minha mão!
-E as costas arqueadas?- Me indicou ortopedistas.
-E quanto aos instintos animais?
-Muita psicanálise meu amigo!!! Posso indicar! Era uma agressividade latente; desejo por
sangue, instintos sexuais bestiais...tudo coisa do passado! Hoje sou uma nova pessoa!
Menos carne na dieta, menos ira no coração, e desejos mais contidos...
O metro veio deslizando silencioso pelos trilhos, e ao entrar no vagão  me perdi daquela
figura curiosa. Então percebi que a ciência começava a trazer das matas mais do que os índios, matando uma cultura, matando o folclore...

Anderson Dias Cardoso. 

quarta-feira, 2 de março de 2011

A Pequena Crônica De Um Publicitário Em Potencial!

Duas cadeiras das muitas da barraquinha de hot-dogs ocupadas, uma conversa alegre, de
boca cheia; nada de importante apenas a diversão pós aula de sempre.
Interrompidos pela chegada de um amigo e seus novos amigos (coisa que faz parte da natural desagregação de fim do colegial) resolvemos os convidar a tomar assento.
Dessa reunião dois grupos de diálogo se formam, mas água e azeite novamente se repelem; um deles, meio constrangido silencia; e o recém chegado se empolga comentando os projetos musicais da banda que ameaça a se formar.
Eu tento falar ao amigo, mas os amigos do amigo eram mais ilustres e minha voz soou fraca
então preferi o silêncio!
A conversa atingiu o ponto do planejamento da capa do CD e as idéias (muito primárias por
sinal!) foram lançadas para a votação, e das melhores sacaram a tradicional proposta da
figura do monstro!
Monstro devorando, monstro no cemitério, monstro e mulheres nuas, monstro rasgando a capa do CD e saltando para fora...E enquanto decidiam a fonte e localização geográfica da mesma no CD eu pude escutar o nome da banda: "The Intruders"!!!
A negociação se desenvolvia empolgadíssima, e uma idéia me veio à mente, e desejei tomar parte da conversa:
- A banda se chama "The Intruders"?- Ousei; e as vozes se calaram atentas.
- Sim!
- "Os Intrusos", não é???
- Sim!- Houve uma expectativa em torno da minha interrupção.
- Vocês planejam colocar a figura de um monstro rasgando a capa do CD e saltando para
fora do mesmo?
- É.- Se inclinaram para frente.
- Acho essa idéia meio batida, que tal algo mais sofisticado e original?
- Como o quê?
Abri um sorriso perto do  cínico e disse:
- Um homem deitado, pronto para fazer seu exame de próstata!
E as gargantas liberaram as mais selvagens gargalhadas, e logo que as lágrimas deixaram de escorrer dos olhos divertidos um dos amigos do amigo me disse:
- Isso é que é ser intruso!!!Há,há,há!!! Ei amigo; você é engraçado; por acaso toca algum instrumento???

Anderson Dias Cardoso. 

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Adotados Nascem dos Sonhos.

Quando o espelho lhe começou a contar a verdade a respeito de seus cabelos encaracolados
e olhos negros em uma família de madeixas escorridas e olhos claros; quando a idade
começou a lhe clarear a mente ela correu para os braços paternos e interrogou sua
procedência.
Era filha do vácuo?A cria da rejeição ainda nos braços procurou os caminhos de seu
itinerário!
Filha de quem?Deixada por quê???E as perguntas se avolumavam junto à angústia de se
descobrir estranha ao seu passado e procurou se esconder ainda mais sob os braços do pai
que não era pai, e sentiu falta da mãe que não era mãe e que cumpria horário numa
importante reunião.
Do abraço o pai se afastou um pouco, e as mãos fortes se ofereceram às delicadas, e de
joelhos se nivelou ao olhar triste; e ela, agora arisca negou a carícia.
Não sou filha, não vim daquele ventre amado era o que as frases imaturas tentavam
explicar, e ainda outras tantas tumultuavam se na boca miúda.
Mas os olhos do pai se esqueceram dessa dor empática quando lhe brilhou uma estória à
mente, e um sorriso foi o início da cura!
-Você é minha filha sim; mas não nasceu da barriga da mamãe! A criança, confusa e
surpresa interrompeu o choro e se apegou a possibilidade de uma redenção.
-De onde eu nasci?
-Houve um tempo onde não entendíamos o mundo então inventávamos vários deuses que com suas vidas se explicavam todos os mistérios, e desses
um foi Zeus, o pai dos deuses, e dele e Métis, a deusa da prudência nasceu  Atênas, a
deusa da sabedoria!
Os olhos vermelhos de choro começaram a se transmutar e gradativamente começaram a
refletir segurança, e ela implorou por continuação.
-Ela não teve um nascimento normal, ou fácil, ou mesmo convencional!Ela não foi gerada no
útero de Métis, mas na cabeça de Zeus!!!
A criança  suspirou admirada, mas o pai não ofereceu trégua à sua curiosidade:
-A cabeça daquele poderoso deus doeu com as dores do parto, e o pai gritava tais dores e
deu à luz, com a ajuda de seu filho Hefesto sua linda filha veio ao mundo e foi a mais
sábia, e amada por seu pai, que a fez seu braço direito!
A criança olhou-o sem entender, mas ele, ainda com o sorriso brilhando nos lábios
completou sua estória:
-Você nasceu, assim como aquela deusa! Nasceu na minha mente ainda antes de nascer!Nasceu
dos sonhos em que eu a imaginava com os mesmos olhos escuros e cabelos crespos!E esse seu
sorriso era minha delícia, e eu esperei tantos anos por esses seus abraços!Eu sonhei
você, e sofri por cada dia que esteve longe de mim, e procurei por esse sonho até que a
encontrei, esse sonho que era você...minha filha!
Dai então o pequeno coração se aquietou, se abriu a receber todo aquele amor pois não se
compreendia mais como um descarte, mas como presente.

Anderson Dias Cardoso. 

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A Comédia do Nome.

Na maternidade o alvoroço, a decisão importante do nome do infante!
Uma colagem dos antepassados familiares, ou a homenagem às personagens famosas?
O que se ressaltar? Inteligência, sensibilidade, ou mesmo fortuna?
Ah! Para meu filho um nome espichado como o tal D.Pedro II! Nome nobre, imponente e com
todos os anjos e arcanjos!
Identidade de várias linhas, nome que chame a atenção, representação de todas as
virtudes!
E foi ditado ao oficial aquela composição enorme de nomes, e de Certidão à CPF, de
cartões à passaportes passou (o nome) a ser um espanto, enfado, e aborrecimento ao que o
pertencia; e nas progressões dos dias a mão que era ágil ao redigir tamanho título tornou se agora econômica e preguiçosa impressora de uma breve e estilizada rubrica!!!

Anderson Dias Cardoso. 

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Padeiros Não tem coração!

No rodízio para se comprar lanche o escalado foi "Fulano", sujeito baixo e robusto e em toda normalidade da situação chegou à padaria e fez seu pedido, e o padeiro, enquanto embalava as quitandas começou a assuntar:
-O filho do "Sicrano" também trabalha com vocês na Selaria?
-Sim, trabalha.-Respondeu Fulano lacônicamente.
-Ele deve comer como uma anta né???Digo...pelo tanto de quitandas que esta levando...
Fulano respondeu com um sorriso de mofa e apressou seus passos para compartilhar a galhofa com os companheiros de serviço.
O rosto de deboche, ao atravessar a porta chama a atenção, e a história arranca muitas risadas e uma promessa de vingança a ser executada no dia posterior.
Outro dia, e o ofendido se escala para à compra e promete, no mínimo desaforos!
E lá ele se demora um pouco, aumentando as expectativa e especulações a respeito do que seria feito ao pobre padeiro, pois o ofendido o excedia em muito em tamanho e força.
A chegada trouxe junto também um sorriso de escárnio, nada de sangue ou hematomas e quando questionado a respeito da vendetta respondeu satisfeito:
-Cheguei, pedi as quitandas e logo o apertei ameaçadoramente para que repetisse o que tinha dito de mim. Queria que me chamasse de "Anta" na minha cara!!!
-E ai??? O que ele disse???- Perguntamos ansiosos pelo desfecho da tragédia, e ele disse cheio de malícia:
-Ele disse que não tinha dito nada daquilo, e que isso era invenção daquele macaquinho!
Então as risadas mudaram de endereço!
 Essa é uma história real.


Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Inversões Em Uma Noite Estranha.

Curiosamente entre a marquise escura da auto-peças e o parque que, com suas luzes ofuscava
a noite um corpo se guardava do frio sob uns trapos sujos, cuja a voz se alteou mais que
as músicas que embalavam as brincadeiras e brinquedos do lado alegre da rua.
-Ei!
Ao acercar me o monólogo rápido expôs sua situação, e me comoveu com suas misérias:
-Sou aidético, morador de rua, estou doente e tenho fome...Podia me comprar algo para
comer?
O coração doeu de compaixão e revirei os bolsos e encontrando quatro reais, remanescentes
do último salário, meu suprimento para a próxima semana, resoluto atravessei a rua e
me desfiz da metade dessa minha pequena "fortuna" e na barraca de cachorro-quente  recheei
um pão com toda variedade e os melhores sabores possíveis para meus parcos recursos!
Atravessei contente a rua; o coração leve mesmo entendendo que a caridade quase me
esvaziara os bolsos e limitara ainda mais meu fim de mês.
Ao me notar, o corpo magro se endireitou recostando se na parede, e eu me inclinei
oferecendo-lhe um cachorro-quente fartamente recheado, e novamente sua voz soou forte para
agradecer:
-Cadê o refrigerante???
Não, não era para agradecer!Entreguei-lhe o agrado, e o deixei devorando o
"cachorro-quente seco"!
Aquela foi apenas uma das minhas estranhas noites que me lembro divertido mesmo após
tantos anos!!!

Anderson Dias Cardoso. 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A Criança de Olhos Azuis.

Idênticos, aconchegados ao peito materno acolhidos com algumas lágrimas, e a voz monótona do médico a alerta para a urgência da situação.A equipe prepara os equipamentos, e na bandeja jaz o coração; e a mãe fita ambos tentando decidir qual deles deve viver.
-São tão iguais...-as mãos tocaram os pequenos rostos, e os delicados olhos se abriram, e o susto demonstrou a diferênça:Uma delas tinha olhos muito azuis, azuis como nunca  visto!O médico a despertou novamente, agora de seu encanto, e ela sussurrou:
-Este...apertou uma ultima vez a outra criança- Perdoe-me meu filho...
Transplante realizado e coração pulsando as baterias de exames comprovaram sua cura...Comprovaram a cegueira!!!
Olhos lindos, cristalinos como fontes virgens...olhos estéreis.
A mãe se entristeceu, e se alegrou e a criança cresceu com toda a graça; criança independênte e de protagonista passa a narrador:
"-Penso no engano dos meus olhos, que me deram o direito a nascer, e salvo pela estética e "normalmente feliz" imagino se olhos que vêem tem mais direito à vida que olhos cegos, ou se é uma vida mais cômoda quem decide por nós."

Anderson Dias Cardoso. 

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Coletivo No Coletivo.

Se arrastava com toda a lentidão de monstro pesado, e ponto a ponto devorava um e outro,
e no seu ventre tudo se arranjava com muito aperto.A catraca registrava milhares, o
estômago uma centena, e todas vozes tentavam comover o duro coração de motorista, mas
este abria a porta sempre que solicitado e amontoava ainda outros tantos passageiros!
O calor se multiplicou, e a pressão intraveicular quase rompeu as leis da física, e
próximo ao próximo ponto houve um grito de basta, o sorriso do motorista, e o olhar
indiferente do cobrador e mais uma alma acresceu a conta, e agora sim as tais leis
naufragaram no mar de corpos!O impensável ocorre, e os corpos juntos se tornam um,
amalgamados numa massa tosca; um novo organismo!
A empresa, ameaçada por entes furibundos, e transeuntes oportunistas se apressou a dar
solução e com todo um maquinário rompeu as estruturas do carro, e de lá escapou a grande
forma, confusa e enlouquecida, aquele hecatônquiro que agora tentava clamar por justiça,
mas milhares de sons não se fizeram entender!
Sob a tutela da lei, e isolados em um galpão improvisado a criatura tornava simpática
toda ligação fisiológica, principalmente neural, e o organismo se constituiu num grande
cérebro, e sua razão pediu por um advogado.
Nos tribunais vigorosas discussões, e a defesa da empresa levantou questões como o
reconhecimento daquele organismo como um cidadão, já que agora era espécime nova,
coletiva!Pesquisaram os reais passageiros daquela viagem, e constataram um ou dois
transgressores, e quiseram imputar suas culpas a todo o novo corpo, mas a estratégia foi
mal vista, interpretada como maldosa; então tentaram um censo das "supostas vítimas",
alegando não terem encontrado vestígios de todos os declarados, mas um exame de Dna
mapeou cada vida, e confirmou a verdade da catástrofe!
No decorrer do processo alguns dos integrantes do ser (agora chamado de Uno) desejaram se
emancipar; seduzidos por insinuações de subornos; visando um motim daquele corpo.
O canto do dinheiro corrompeu uma dúzia, e uma vez separados olharam saudosos seu breve
passado, e a falta e a saudade instalados levaram todos a depressão...Um em cada
apartamento solitário deram cabo à sua vida.
A comoção de mais essa tragédia comoveu, e a resposta do processo lhe foi favorável. Como
uma colônia humana resolveu se deslocar para longe daquela sociedade que, pela surpresa
lhes era solidária, mas uma vez acostumada lhe fariam objeto de ódio e preconceito.
O dinheiro da indenização lhe garantiu um espaçoso lar, e o suprimento vitalício de suas
necessidades, e uma vez lá instalado redigiu um livro baseado em sua vida comunitária,
e com o tempo o grande corpo se convulsionou e lançou de si uma criatura à imagem e
semelhança de si, e logo ao nascer já falava e se juntou ao esforço de Uno em
construir um novo mundo, uma nova sociedade coletivista.
A casa se transformou em aldeia, e aldeia em cidade, e essa foi elevada à potência de metrópole!
Desenvolvida, rica e igualitária; era a imagem ideal de sociedade, e os "homens sós" (designação pela qual
nomeavam os bípedes) começaram a afluir para aquela comunidade...
O jornal do dia gritava em enormes palavras em negrito que os "Unos" devoravam seus
filhos, eram sacrílegos, promíscuos e então o governo, com uma legislação discriminatória
desconsiderou a classificação "humana" daqueles seres, ordenou a esterilização de todos,
e por fim obrigou a separação dos corpos visando a reintegração à sociedade tradicional.
Muitas cirurgias foram mal sucedidas, muitas tristezas foram fatais, e o preconceito
gerado pelos jornais exterminaram os últimos espécimes, e por fim a sociedade
individualista ressurgiu ainda mais forte!

Anderson Dias Cardoso. 

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Uma Nova Babel.

Um segundo pecado, a nova Babel construção literária  de tijolos sem encaixe se ergue num
mundo vazio.
É logo desfeita em meio a protestos, e som de murmúrios dividida não por língua, mas
por linguagem!
A infortuna prole migrante da litigante construção se espalha, e a confusão das
linguagens dá luz a diversas caricaturas...
Literalistas, cimentam o sentido da letra com zelo farisaico;
Simbolistas encontram o sentido até na falta do sentido;
E entre niilistas e anarquistas a linguagem se desfaz e se refaz de rebeldia e caos.
Mas se cria muito o já criado,
Se aproveita, recicla, renomeia...
E onde se separam por divergências literárias se unem inconcientemente à massa estéril da mesmice
absorvendo se um ao outro como produto diverso,
No fim todo igual...
E fagocitam-se e criticam-se como se houvesse alguma diferença!
E ainda entre produtores e consumidores da dita literatura, há o limbo brumoso,
O vestíbulo da ignorância de analfabetos funcionais;
Quando analfabetos "OPCIONAIS"...

Anderson Dias Cardoso. 

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

As Negra Não Devem Ser Mães...

O Seio lactante é permissão para o nascimento, o movimento da senzala à casa grande;
permuta forçada de almas!
As negras não devem ser mães.
O colo negro acolhe as crias; branca e preta.Os peitos vertem "vida" nas bocas "ávidas", e a Sinhá sorri de alívio ao tocar o seio seco.
As bocas sugam, as carnes se engordam da fartura láctea, mas aquela branca se escancara mais, e o quinhão maior exaure a fonte!
A boca negra geme de fome, e os olhos escravos libertam a lágrima.
Uma alma se apruma, a outra, raquítica, mingua.
Uma salta do colo, a outra desce à cova!
Num devir, o branco se doutora, às custas do leite africano.
E à negra qual recompensa?
Negras não devem ser mães...




Anderson Dias Cardoso.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A Feiura Dissecada.

Pintaram a boca à feiura!Lhe coloriram os olhos e lhe tiraram o buço,coraram lhe as maçãs
do rosto e alisaram suas madeixas!
Os dentes foram clareados, desentortados e foi retirado todo o sarro!A pele se esticou e
os seios, as coxas, o ventre foram moldados à bisturi!
De inicio a intenção era sua morte,
mas poucos casos, bolsos fartos lograram êxito, mas no geral a escondiam, meio
envergonhados sob panos e cosméticos.
A Indústria refestelava, e gritava "FEIA", e quando lhe vinham em choro estendia-lhes um
caro estojo, lhes calçava salto alto, e num vestido de nobre corte rompiam a crisálida,
pensando ser borboletas!
Assim voavam umas borboletas, e nasciam outros tantos feios, acusando a genética,
praguejando contra a sorte, aborrecendo seus genitores; não conformados à falta de
simetria, ou formosura...
Sem saber sendo um tempero estético, o contrapeso que evita a saturação do belo,
resguardando da banalidade e monotonia!!!
Revoltam-se, deprimem-se, porém continuam a nascer!
Mas eis que vi; a aberração das aberrações:
Um feio conformado; alegre!
Uma feiura que festeja o sabor visual da beleza de outros, e transmuta-se, ele mesmo num
desses belos.E me olhei no espelho, e minha feiura simpática me sorria...
E me amei ainda mais!!!

Anderson Dias Cardoso. 

sábado, 29 de janeiro de 2011

O Maior Anão do Mundo!

Selecionei uma, entre tantas salas de bate-papo, das não tão populosas pois multidões;
mesmo virtuais, me incomodam.
Digitei aquele nick e procurei por parceiros de prosa mas uns tipos pareciam invisíveis, enquanto outros gritavam e se faziam ouvir; e eu, "O Maior Anão do Mundo" dizia "olás" sem resposta até que a piedade me trouxe uma conversa morna que buscava o básico, sem intimidade.
Um preenchimento de prontuário para um doente social.
E eu disse do nome de minha mãe, minha ocupação, e os livros que li, e a pergunta tabu
veio embutida em uma dúzia de questões, disfarçando se de indiferença:
-Qual é mesmo sua altura?
Demorei pouco para responder; pensando se daria fim ao meu chiste, e à ignorância da
interlocutora:
-1,75.
A resposta arrancou uma interjeição e aqueceu a conversa; e novas linhas revelaram uma
vergonha do próprio preconceito:
-Mas disse que era anão!
-Sim, "O Maior Anão do Mundo"! Tão grande que minha deficiência escapa aos olhos pouco atentos!
Eu ri um pouco, mas logo uma pequena tristeza me tocou o coração, e eu pensei nas
possibilidades dessa realidade:
Ser homem pequeno;
E uma enorme solidão.

Anderson Dias Cardoso. 

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O Mágico?

Na infância, quando o parque era um lugar mágico, e o meu contato com o dinheiro se
resumia às coleções de poucas moedas me encontrei entre duas surpresas:Um passeio no
primeiro, e um pouco mais do segundo!
Naquele dia minha mãe deitou uma nota nova em minha mão estendida; eram cinco mil cruzeiros; uma
pequena fortuna para um garoto pobre; um tesouro a ser preservado por algumas semanas!
O passeio;  gostoso nos moldes proletariado, com ônibus, catraca, balas e balanços, num
parque que se dividia entre os novos brinquedos elétricos, que se agitavam velozes
brilhando suas luzes,  arrancando sorrisos e enchendo os peitos de singelas alegrias; e os tradicionais, tanto lúdicos quanto possível, um paraíso de altos e baixos de
gangorras, travessias de pontes e balanços de pneu!
E entre gritos, e sorrisos a energia quase infinita de meu corpo infantil se dissipava, gasta em traquinagens, e no fim da tarde a cantina exalou seus cheiros e fomos atraídos para o balcão das delícias,
das quais pedi um cachorro quente e logo saquei (confesso que com uma certa pena) aquela
nota nova e a estendi, pagando meu consumo.
Minha mãe se comoveu, recuou minha mão e acertou minha conta e minha alegria foi
completa; guardei meu tesouro no bolso limpei os lábios, vermelhos de ketchup, embolei o
guardanapo e, ainda sem nenhuma noção ecológica o atirei no canteiro verdíssimo!
No meu retorno uma verborragia entusiasmada desenhou meu passeio à imaginação dos que
não me acompanharam, e me emocionava descrever os brinquedos, sentimentos, e as cores do
dia, e no ápice do meu delírio arranquei orgulhoso minha nota de cinco mil cruzeiros, a
qual minha mãe me impedira de gastar, e a chacoalhei orgulhoso, então, surpreso notei que
a cédula havia se transformado naquele guardanapo sujo de ketchup...


Anderson Dias Cardoso. 

domingo, 23 de janeiro de 2011

A fuga.

O que se querer?
Amores que passam sejam eternos?
Felicidade, excessão da vida seja regra?
Dores anestesiadas; sofrimentos suprimidos?
Carne de bronze,coração de aço!
Cale o mundo dissonante, pare o tempo, deporte o medo e me crie uma nova vida;
De ouvidos surdos à mentira e olhos esquecidos da maldade!
Coração de carne, corpo de luz!
Ser completo e doador, reconhecendo e ofertando amor que morre a cada dia em outras vidas.
Modelo de Deus!
Perdoa a insolência!!!Não almejo trono, sou apenas verme!
Pequeno enlouquecido pelas intempéries, crueldades, e vazios existenciais...
Corpo ferido, coração vazio...

Anderson Dias Cardoso. 

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Eclipse Galinhas e a Ortodoxia.

Dia ordinário, mormacento, e todos exércitos galináceos já haviam despertado pelo cantar
firme de seus galos e iam novamente se encaixando nas estruturas naturais do
galinheiro.
Houveram cópulas, disputas, posturas, muita ração e minhocas arrancadas da
terra fofa e o dia já alcançava a décima hora da manhã com todos seus tumultos; foi então
que a lua, em todo seu atrevimento começou a devorar o sol, movendo-se sobre ele.
O mundo se maravilhou e os óculos escuros e chapas de radiografia faziam visíveis o
devorador e o fagocitado, e aquela escuridão parecia diferente aos espectadores; quase
mística, e ela furtava não só toda a luminosidade mas também as atenções!E novos deuses nasceram daquele fenômeno,e ressurgiram outros tantos: sumérios, babilônios, incas...deuses astrais acrescidos ao panteão de superstiçõe, e o espetáculo da natureza forçou uma interpretação espiritual, uma ação dos astros além de suas competências...
Aquela noite, que caia quase que de improviso sobre o hemisfério sul quebrou o ritmo nas
cidades e campos, e naquele quintal as galinhas foram se acalmando, quase notando a
brevidade daquele dia e foram uma a uma se empoleirando nos galhos da jaboticabeira
cheias de energia porém resignadas à um dia tão curto em uma vida tão curta, aquele meio
dia com contagem de um.
Cada corpo se aconchegava à outro preparando-se para uma possível  noite fria, e os
movimentos diminuíram e o sono começou a ameaçar e pesar sobre os corpos penosos, e os
olhos cerraram findando a consciência de mais um dia...Mas, rápido como a vinda daquela
noite a segunda aurora trouxe seus primeiros raios, e eles foram se adensando até que as
pálpebras não mais pudessem retê-los por completo e o calor trouxe desconforto, e o chão
convidou a bailar entre comida e pó e a granja se alegrou,mas a noite retornou
naquele mesmo dia, não tão de assalto mas com uma suave gradação e um pouco menos confusa
e o novo amanhecer foi comum como todos os outros e na sucessão de amanhãs alguns daquela
geração morreram de peste, outros foram vendidos ao açougue, e novos ovos eclodiram, mas
os céus não lhe foram motivo de espanto, e não houveram profecias ou oráculos ou
interpretações astrais e então Deus viu maior razão nas aves que nos homens...

Anderson Dias Cardoso. 
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