domingo, 17 de agosto de 2014

Os Filhos de John Doe.


De repente estava ali; terceiro ou quarto filme protagonizado, um talento duvidoso elogiado pela crítica, uma beleza contestável acentuada por uma centena de milhões de dinheiros, e aquela aura artificialmente criada pela mídia quando a mesma quer causar comoção, e conseqüentemente, aumentar suas vendas!
Não me antipatizava com o moço, ao menos naquele momento; mas é que as pessoas são muito criativas no que se diz a inventar formas de lucrar, e confesso que não pude deixar de me sentir enojado quando a televisão passou a avisar que uma clínica especializada, em particular, ofereceria o serviço de inseminação com o material genético daquele “garanhão”. Desliguei o aparelho e procurei nem pensar mais à respeito.
Anos depois, mantido o glamour do tal John Doe (mais por conta do bizarro empreendimento, que por qualquer de seus méritos), as ruas se tornaram uma vitrine estranha de crianças engenhadas para se parecerem com aquele homem em algum nível (eram tantas!), de acordo com a pureza da fonte e o preço pago, já que sêmen pirateado da estrela já podia ser adquirido no quiosque da esquina!
Naquele instante inicial houve muita confusão. Mães são criaturas muito protetoras, e sempre querem alçar seu filho ao destaque (principalmente se este lhe custara todas suas economias), e uma aparência mais aproximada de John era um certificado de sucesso, prosperidade, e autenticidade genética!Algumas delas tentavam forçar o encontro da prole com o genitor, mas sempre quem lhes respondia era o departamento jurídico, lhes afirmando que uma cláusula lho impedia tais tipos de relacionamentos. Diziam que era homem muito sensível, e sofreria muito com cada uma das separações que se sucederiam se houvesse precedentes, se bem que a maioria das mães desconfiasse que era o patrimônio que preservava!
Nasceram também alguns “mutantezinhos”. Estes sempre carregavam algum detalhe inconfundível do pai, como os olhos de um azul pálido, o cabelo liso e oleoso de matizes trigueiras, ou o incisivo levemente torto.Mas, fora isso, os demais traços degringolavam numa polidactilia, lábios leporinos, microcefalia, ciclopia, ou qualquer deformidade que certamente os excluiriam de um convívio social natural.
Os fornecedores garantiam a procedência do produto... Bem, pelo menos quando foram descobertos os primeiros casos!
Agora, o trágico mesmo foi quando começaram os boatos de que John Doe havia se desentendido com seu empresário, o famosíssimo e terrivelmente vingativo Harry Dick.
Foi-me óbvio que o “produto” lhe havia causado algumas situações embaraçosas, e parecia não se sustentar bem nos ambientes artísticos e políticos como antigamente; além de haverem boatos de que o dito empresário teria um novo “afeto”, um rapazinho de dezessete anos muito talentoso o qual lançaria na próxima oportunidade.
Um tempo depois, já fora de cena, o que se ouvia do ex-ator era que era alcoólatra contumaz, adicto de algumas drogas de luxo, e que havia se retirado para alguma de suas propriedades interioranas para se consumir sem culpa, ou interrupção.
Os jornais, há umas duas semanas, noticiaram que John havia sido pego com materiais de pedofilia em seus aparelhos eletrônicos. Algumas mães da região começaram a procurar a TV e as autoridades para reclamar de molestações de suas crianças.
Entre psiquiatras e psicólogos estão surgindo muitos questionamentos se tal comportamento pode ter alguma influência genética.
Os filhos de John Doe estão sendo hostilizados pela sociedade...  





Anderson Dias Cardoso.

sábado, 2 de agosto de 2014

Vitrine.

Era, ou melhor, estava uma criaturinha mirrada, esquálida, daquelas que chegam rastejar de fraqueza em certos dias. Seus fios haviam se ressecado, assim como a pele, e agora se desprendiam da cabecinha ossuda tufos negros e quebradiços,que deixavam aqueles  pontos calvos esbranquiçados.Uma figura desconcertante.
Na ocasião se sentia disposta, e, carregando o celular da moda, se encaminhou à geladeira para tomar o quinto copo do dia daquele preparado de alecrim e hortelã, o qual a internet lhe havia dito emagrecer!
A mão esquerda era ágil, e, com os dedos de unhas moídas, se comunicava com amigos virtuais, já que os “de fato” a haviam abandonado alegando teimosia e agressividade por conta de suas sugestões de tratamento! A mão direita segurava meio trêmula o copo.
O diurético e as vitaminas haviam acabado (ela ouviu falar de escorbuto, e decidira que seus dentes eram um belo enfeite para seu rosto, valia à pena mantê-los) e era quase hora do almoço, então procurou o quarto, notou no espelho de corpo inteiro algumas manchas arroxeadas espalhadas sobre a pele, mas fora isto, suas medidas quase a contentavam.
Sorriu se escorregou para dentro do vestidinho florido favorito e calçando a sandália de couro trançado, terminou seu ritual se maquiando, apanhando a bolsa saiu.
O percurso era costumeiro, cruzando com os mesmos semi-conhecidos de olhar estranho e acusador, e ela já não se importava mais com isto!Realizou o itinerário com apenas uma ou duas vertigenzinhas, bolsa inda mais cuidada agora com aqueles seus remédios, e o celular sendo molestado pelo polegar descarnado e frenético, marcando na rede sua estada em qualquer lugar que considerasse popular.
Sentiu o cheiro da comida se avizinhando, sofreu ânsias de vômito, mas continuava resoluta!Pediu mesa, água para seu remédio, e já ofereceu gorjeta antes de lhe entregarem o cardápio.
Devia ser assim sempre, o dinheiro tornava as pessoas amistosas.
Olhou num prato, e outro, mas não havia nada de tão impressivo. Esperou um pouco, cobrindo as narinazinhas sofridas com um lenço perfumado.Tentava dissipar o cheiro do ambiente.
Um homem bem vestido, solitário, se sentou um pouco distante. O trato e sorrisos da garçonete disseram que era pessoa refinada.
Trouxeram-lhe o prato mais requintado do lugar, e ela já se via levantando para se apresentar.
A cena foi tão constrangedora quanto sempre. Era seu dom causar surpresa!
Estendeu a mão, disse seu nome, e se encurvou para beijar o rosto do homem, enquanto pedia emprestado o prato para uma foto.
O hálito de fome lho agrediu o estômago, e ele perdeu o apetite. Insistiu, meio desconcertado, que ela comesse, mas aquele “quase cadáver” dizia que estava de regime.
Ela lhe ofertou almoço, só queria a foto, mas preferia não pagar pela mesma e vê-la indo parar no lixo.
-Há muita gente passando fome, e acho que desperdiçar comida é pecado!
A garota achou melhor deixar o homem à vontade. Se despediu, virou as costas enquanto postava eufórica a foto de “seu almoço” no Instagram.Todo mundo iria morrer de inveja!





Anderson Dias Cardoso. 

sábado, 26 de julho de 2014

Um Destes Muitos Mundos...

-... sim, mas a mensalidade é meio alta!
-Ah!Eu peguei aquele pacote intermediário, onde te oferecem quinze pontos para gastar entre “escolhas terceirizadas”,”  “responsabilização solidária”, e “ invisibilidade social ocasional”.Sei lá, acho que tomar conta da sua vida de vez em quando é necessário!
-Eu fico pensando como eles inventaram essa maravilha de serviço!
-Idade Média?Indulgencias?
-Talvez, mas acho que o toque de mestre que viabilizou a idéia foi terem se aproveitado do “politicamente correto”!Todo mundo tem seus esqueletos no armário!
-Pena que os benefícios mais interessantes do serviço caem na conta Premium, e um assalariado como eu não pode pagar tanto pra se safar de alguma coisa ilícita que me seja interessante!O “filé” fica, como sempre, com os “playboys”!Fiquei sabendo que rola ainda um pacote especial que te permite fazer o que quiser!Qualquer coisa mesmo!
-Semana passada eu pedi pro meu prestador “passar o pano” numas faltas minhas lá no serviço, acho que ele me resolveu uma ou duas, e me comeu os pontos da semana inteira!
-Sorte sua que consegue esses adiantamentos!Comigo é só à vista!
-É que eu conheço uns caras... O vacilão do meu patrão anda envolvido com umas vagabundas, ou coisa parecida!O prestador nunca diz ao certo como resolveu seu lado!
-Eu parei com a internet faz um tempo. Tô tentando conversar só com conhecidos.Pessoas confiáveis!Isso barateia bastante a contratação dos serviços!
-Eu uso mais a parada das escolhas!Eu sou meio indeciso, e isso me tira aquela pira de ficar me culpando quando alguma coisa dá errado!É bacana você confiar uma decisão importante a uma pessoa mais “esperta“ que você!Se não der certo, nem foi sua culpa!
-Fiquei sabendo que tão desenvolvendo uma tecnologia pra resolver essas paradas, só que fisicamente!Acho que vai ser tipo um implante que te desliga, e assume seu corpo pra resolver a situação!
-Esse serviço aí vai ser caro, aposto!E, cê sabe se eles vão rodar em cima da aptidão do usuário, ou vão dar uma turbinada na carcaça?
-Sei lá!O pessoal falava que a gente só usa dez por cento do nosso cérebro... Vai que eles sabem como destravar os outros noventa!
-Até hoje cê acredita nessa besteira!
-O problema é se não te devolverem a mente depois do trampo!
-Se a gente for pensar nisso nem põe, nem vive!




Anderson Dias Cardoso.

sábado, 19 de julho de 2014

Pensamento Solto.

Queria andar nu pela casa; mas o que fazer se não havia um corpo?Era somente um pensamento, desgarrado de um dono distraído, e que perambulava por aquele espaço sem saber ao certo se a ele pertencia, ou antes, havia nele estado!Estória tão estranha quanto quando a sombra de Peter Pan resolveu mais do que lhe imitar, e, fugida de quem a projetava, deu trabalho à personagem, e entretenimento a quem lia!
Não que aquele pensamento o soubesse!Era apenas um retalho; e como tal, não comportava nada além dos fragmentos do instante, e que deveria ter se dissipado por alguma distração, ou sucedido por outro pensamento... Mas não foi o que ocorreu!
E lá estava o tal; como um pequeno absurdo, confinado no espaço, auto-limitado em sua personalidade instantânea, incorpóreo, e, possivelmente, não reciclável!
Não podia se indagar, evoluir, ou se realizar!Ao menos fosse uma idéia relevante, ao invés de alguma impressão escapada de um dia quente! 
Seria identificado algum dia por uma destas tecnologias novas?Estudado como uma onda, energia, registro?
Etiquetado, quantificado, qualificado?
Procurar-lhe-iam o dono, e o tentaria encaixar entre seus irmãos, construir, à partir de suas sucessões, o minuto, o dia e a vida daquele homem?
Ele era apenas um pensamento bobo... Provavelmente o ignorariam.





Anderson Dias Cardoso.

terça-feira, 8 de julho de 2014

A Firma.



No contrato exigiam que não mantivéssemos qualquer tipo de contato além do estritamente necessário. Toques, olhares, palavras, sorrisos; todos regulados detalhadamente, inter e extra muros, por algumas centenas de linhas , a promessa de um cheque gordo e a ameaças implícitas de acontecimentos catastróficos em caso de descumprimento.
O prédio era bem bonito, dispunha de oito andares divididos em pequenas estações com portas sanfonadas, cujo conteúdo só o trabalhador que a ocupava conhecia. No meu caso, havia uma mesa, computador que periodicamente apresentava instruções de montagem, um conjunto de peças plásticas delicadíssimas as quais não era raro se partirem com o manuseio, uma caixa separadora com dezenas de espaços para o produto concluído, e um som ambiente que alternava entre músicas agitadas e calmas.
Periodicamente aparecia-me um funcionário de jaleco branco, crachá com um nome fictício (sabia disto pois o meu dizia José, mas minha certidão não concordava com isto!), uma prancheta, um par de canetas (vermelha e preta) penduradas no bolso, e usadas em ocasiões que não me deixava deduzir nada!
Quando soava a hora do intervalo as pessoas se encontravam nos corredores estreitos, silenciosas, vagarosas e cabeças meio baixas para evitar o toque. Havia uma fila para apanhar sanduíches ao gosto, refrigerantes ou sucos, e sobremesas variadas.O ambiente era muito limpo, e quanto ao sabor, duvido que alguém reclamasse.Segundo o ritual daquele espaço de tempo a maioria se encaminhava ao banheiro, onde as latrinas continham uma fita que acusava uma cor de acordo com as fezes do dia, e que voltava paulatinamente ao branco depois de cada descarga.
O bebedouro era uma outra parada obrigatória, e sua água parecia apresentar um gosto levemente diferente das costumeiras águas minerais do mercado, e uma vez ingeridas, pareciam hidratar e saciar muito bem o corpo, além de estranhamente me sentir um pouco mais eufórico e desperto depois de um copo ou dois daquele líquido!
Já de volta ao meu cubículo o serviço seguia monótono, porém interessante, raramente me trocavam as peças, ou surgia algum “supervisor” com cara de desagrado. O computador não me oferecia internet, e passou a piscar em vermelho quando tentei acessar este, ou outro link. Às vezes jurava ter ouvido cochichos nos corredores, se bem que em certa ocasião o barulho me pareceu entrecortado e repetitivo... Desconfio ser uma gravação!Será que há câmeras aqui na minha estação?
Hoje verifiquei meu contracheque. Haviam aumentado muito meu ordenado, sem qualquer motivo, mas, como o recomendado desde o início, achei melhor não questionar nada, mas quando cheguei em minha sala haviam retirado a mesa e o computador, e substituindo as caixas com peças estranhas por palitos coloridos com um cheiro adocicadamente forte e enjoativo!Ao menos me colocaram um tapete e uma almofada encardida onde me sentar... Não estou gostando nada disto!
Os cochichos nos corredores são perturbadores!Às vezes acho que escuto uma gargalhada entrecortada, mas a sala parece ter sido construída de modo a não apresentar nenhuma fresta para que eu possa verificar. Nos intervalos, quando ouso erguer um pouco a cabeça, as pessoas ainda parecem tão desconhecidas e impessoais quanto sempre!
Parece que recentemente mudaram o fornecedor de água. Esta está mais densa, com um sabor meio amargoso, e que tenho a impressão de me deixar  sonolento.Ultimamente tenho sofrido um leve formigamento nas pontas dos dedos, e meus cabelos parecem ter se tornado um pouquinho mais oleosos; mas eu não menciono isso à ninguém!O contrato não permite!Aliás, estas novas clausulas, estimuladas por outro aumento convincente (quem hoje em dia ganha tanto pra executar trabalhos tão simples quanto estes?), nos obriga a disfarçar nosso itinerário através de taxis previamente remunerados pela empresa, os quais nos buscam em pontos de ônibus aleatórios, indicados por um SMS enviado antes do expediente; a proibição de qualquer comentário à respeito de onde, e com que se trabalha, inclusive a intenção de pesquisa dos próprios funcionários passariam a ser verificadas por um algoritmo que listava as palavras –chave em todos os níveis da rede, identificava seu IP, deduzia seus contatos, e finalmente, decifrava o autor!Não sei se isso é realmente possível, mas temo que estejam nos vigiando de alguma forma!Às vezes me sinto observado nos lugares mais improváveis!Já ouvi falar de drones, satélites, escutas; mas o que tenho medo mesmo é do ser humano!Ando vendo algumas sombras, ouvindo alguns ruídos... Tenho sonhos estranhos!
Esta semana outro aumento. Entregaram em casa um terno de tecido caro para cada dia da semana.O corte me pareceu sob medida à despeito de eu não ter oferecido informações do tipo a ninguém, e, curiosamente, quando cheguei em minha sala haviam retirado o tapete e a almofada.Fiquei em pé por horas, não queria me sujar naquela poeira fina do ambiente, mas depois das cãibras me resignei!Naqueles dias o tempo passou mais devagar. Eu consultava o relógio de minuto à minuto, esperava alguém me trazer o que fazer, ou me fiscalizar de alguma forma, mas nada acontecia!Vencia meu tempo, eu batia o ponto e deixava o local por um caminho maluco, e chegava exausto de tensão em casa!
Como poderia comentar indiretamente o que acontecia comigo?As pessoas dizem que o dinheiro é chamariz de interesseiros, mas tenho me tornado um “bem sucedido” tão excêntrico que todos se afastaram por meu silêncio, e por medo de serem envolvidos em alguma coisa que não acabe bem! Psicólogos oferecem sigilo profissional, mas eu desconfio de todo mundo!
Outro dia e agora parece que o número de salas foi diminuído pela metade; isto é, se fundiram de duas em duas, e as estruturas foram modificadas para acolher uma porta grossa de madeira, uma mesa, e dois blocos de notas, com suas respectivas canetas!Aquilo parecia alguma pegadinha, então decidi manter a mesma postura “profissional”, a qual foi imitada pelo parceiro de sala. Evitávamo-nos no que era possível.Quando um se sentava à mesa, o outro se encolhia no canto, rosto virado para a porta, e algum gesto que demonstrasse inquietação.Eu manuseei o bloco e a caneta algumas vezes.A testei na palma da mão, mas não ousei nada no papel.Meu companheiro a folheou, arrancou uma ou duas páginas e dobrou barquinhos.Vez em quando algum dos dois assoviava uma música, mas o outro ficava a se policiar para não repetir o ato, e demonstrar alguma simpatia, continuidade, ou empatia!No intervalo nos alternávamos meio que inconscientemente, quinze e quinze minutos.
Um mês depois e estou sozinho novamente. O salário recebeu novo acréscimo, e a sala foi duplicada, me presentearam com uma poltrona aveludada vermelha, a qual tinha seu local de permanência marcado no chão, algumas plantas artificiais enfeitavam o local(as samambaias particularmente eram incrivelmente convincentes), e o som ambiente fora substituído por  sons naturais!As conversações simuladas agora parecem distantes, e quase não vejo outros funcionários!O cardápio foi melhorado, e existem fichas individuais onde se pode escolher o tipo de culinária para cada dia da semana com um simples marcar de caneta; mas ainda assim estas tem um gosto um pouco diferente do que havia de ser. Não que esteja reclamando!São ainda melhores do que os mesmos pratos, consumidos em outros lugares; mas é que acho que a alimentação não deveria despertar sentimentos e impulsos que não os naturais, os quais venho lidando desde sempre!Devem nos temperar com algum tipo de hormônio... Isso às vezes me dá medo.
Gostaria de saber o que foi feito do meu companheiro de sala!Será que algum dia vamos nos encontrar?..Em algum tempo onde as restrições da empresa não façam mais sentido?
Às vezes penso em tirar férias. Esvaziar minha polpuda conta bancária e me mudar, sem deixar rastro, para algum lugar não convencional; ermo.Talvez eu devesse comprar uma pequena ilha.Mas quando penso em coisas como esta tenho a impressão que ainda continuo naquela sala, a boca saliva desejando aqueles sabores, a pele sofre um leve e cálido comichão, e os alto-falantes me insistem para ficar...


Anderson Dias Cardoso.

sábado, 28 de junho de 2014

Frequências.



Franzino, oculozinho de aro torto querendo despencar do nariz, escondendo uns olhinhos remelentos de um azul morto, cabelo ralo cor de palha e exalando um cheiro de falta de higiene; roupas amarrotadas, amarelecidas pelo tempo e manchadas de café... Não!Definitivamente não gostava daquela figurinha a qual haviam contratado, e nem me esforçaria para qualquer contato além dos requeridos pela profissão. Mas meus colegas de lida não pensavam assim.
Os encontrava sorridentes pelos corredores; gargalhantes às vezes, mas, curiosamente não havia escutado o som de minha antipatia!
Conversei com um ou outro; tentava arrancar alguma opinião negativa a respeito do desafeto, discretamente, e às vezes fazia insinuações sobre fatos os quais deduzia, sobre suspeitas que tinha do rapaz, mas eles foram se afastando!
Eu estava enfurecido; e um pouco além disto, já que continuava sem escutar a voz do mancebo!
Comentei com a moça do café, fiz algumas perguntas, e esta me assegurou que era pessoa de bem!Perguntei por que falava tão pouco, e ela respondeu que o rapaz era convidado em toda roda de conversa; que sabia muito, e era todo educação!
Curioso, me acheguei à uma reuniãozinha destas de fim de expediente. Escolhi sentar-me no lugar mais próximo a ele, e escutei.
Todos falavam, opinavam, discutiam; e eu fixava a bocarra de lábios finos esperando a primeira palavra.
Ele, notando com certo desconforto a minha presença, resolveu se por se distrair tomando partido do cara da contabilidade.
Falou uns bons minutos, e se riu de alguma coisa que dissera, sendo acompanhado por todos os outros... Mas eu não havia percebido sua voz!
Esforcei-me em me concentrar; beliscava-me sob a mesa toda vez que dizia algo, mas, aparentemente, todas outras vozes se lhe sobrepunham. Tomei iniciativa e propus uma pergunta escandalosa, e ele moveu os lábios em resposta.Todos riram.
Eu nunca fui um bom leitor de lábios...
Dia seguinte trabalhava com dificuldade e estava angustiado tentando imaginar o que havia acontecido naquele embaraçoso episódio. Perguntei novamente à mulher do café sobre a voz do garoto, e ela disse que era normal, bonita.Perguntou por que não me aproximava dele, e eu só respondi que preferia não fazê-lo.
O encontrei próximo à minha sala, e, meio envergonhado tentei o cumprimentar. Ele só me balbuciou vento.Eu o agarrei pelo colarinho amarrotado, mas logo surgiram uns intrometidos a nos apartar!
-Ele está zombando de mim, desde que entrou aqui!
-Sai fora maluco!Acho que vou ter que falar com o patrão pra te advertir, ou te mandar embora!Respeita o cara, ele na te fez nada!
-Ele tirou uma com minha cara ontem!
-Ele nem tava falando contigo!Cê pirou de vez mesmo cara!
As pessoas o defendiam, e notei que ele murmurava alguma coisa à direita e à esquerda, e eles assentiam, diziam que era verdade, que era assim a maneira correta de se agir em situações como aquela!
Todos estavam zombando de mim!Querendo me fazer passar por maluco; pedir demissão... Sei lá!
Tomei o elevador com o pretexto de apanhar uma pasta com protocolos que devia apresentar na reunião de amanhã. As pessoas se perfumavam muito por ali, e aquela musiquinha irritante, as conversas, o ambiente de confinamento...Segurei o vômito.
A porta se abriu, eu empurrei um ou dois, e eles praguejaram alguma coisa. Vomitei no canto de uma pilastra, apanhei algo embaixo do banco do carro, e quando me dei por mim já estava em pé, empunhando o 32, gritando para que ele falasse!
Haviam muitas pessoas ao derredor, e elas também gritavam muito!Eu precisava insistir!Mandei que se calassem, e eles se limitaram a sussurrar recomendações e preces.
-Fala!- E o homenzinho àquela altura já estava ajoelhado, com os olhos embaciados, gesticulando muito e dizendo mais ainda... Mas eu continuava nada escutando!
-Fala!-E ele foi se arrastando em direção aos meus pés, movimentando freneticamente os lábios torcidos de agonia, mas eu o chutei para longe!
-Faaaaaaaaaaaaala!-E eu gritava no mesmo instante que ele também o fazia, e a arma disparou sem que eu percebesse!
Todos estavam ali, abraçados, mudos e perplexos.
Também não pude ouvir quando as viaturas vieram me buscar.



Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

O Nome do Gato.


Nunca fora de dar nome a gatos, a despeito de em algum tempo de sua juventude haver possuído quase uma dúzia destes!Os chamava de qualquer coisa, e eles, reconhecendo em toda  palavra um convite a um prato gordo, obedeciam, formavam procissão onde quer que eu fosse.
Mas desta vez foi diferente!Estava mais maduro, e, talvez, quisesse impressionar alguém com a tal referência a alguma personalidade!
Por que não?
O nome lhe viera óbvio: Asimov!
Soava bem, incomum, além de que ficção científica me agradava bastante!
Mas costumes são coisas traiçoeiras, com os quais às vezes nem o esforço pode!
Se bem que, confesso, não estava lá tão comprometido com a causa!
Eu quase nunca o chamei pelo nome "maneiro" ao qual lhe havia batizado. Inda mais os outros!
O gato ouviu a vida inteira:
Chimoli, Asinove, Asamove, Dudu... E cresceu meio apalermado, sem seu senso de individualidade; ao menos no que se referia ao nome que lhe havia dado!



Anderson Dias Cardoso.

domingo, 1 de junho de 2014

Se Adaptando...



Ao invés de Kafka, ele era o inseto que se tornava humano!Deixava família volumosa, a pequenês discreta, a estabilidade das tantas patas, a carapaça e sistema adaptados às condições climáticas, venenos, radiações, poluição...
O que temia era a assepsia!A falta de detritos espalhados, o escuro, a umidade, os aromas peculiares que se volatilizavam dos sacos de lixo, animaizinhos mortos, e marmitas desleixadamente esquecidas depois de uma chegada e partida apressada para algum passeio demorado!
Logo eram só quatro membros!Desajeitados, lentos, lívidos...
Mas isto foi só o começo!
Roupas, comprovação de existência física, tantas certidões, impostos. O cárcere de emprego e horários, conversas, uma forma de se vestir e se portar imposta,  sem qualquer finalidade senão a de impressionar, mas que nada tem à ver com o acasalamento ou escolha de melhores genes , já que na maioria não são mais inteligentes os que ostentam suas respostas, não são mais ricos os que se vestem com maior esmero, não são os mais fortes os que aparentam maiores músculos, nem mais éticos seus juízes!
Tudo é marcado de um ritualismo social estranho, uma tentativa de exposição de si, e uma depreciação do próximo; mas tudo com muita polidez.
Conversas suaves, desnecessárias, cheias de adjetivos, pronomes pessoais, sorrisos forçados... Ouvi dizer que chamam isso de hipocrisia, mas ainda não entendo muito dessas intrigas de gente humana!
Agora se me dão licença, aquele lixo logo ali está me chamando!Adoro sobras meio apodrecidas!



Anderson Dias Cardoso.
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