sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

As Negra Não Devem Ser Mães...

O Seio lactante é permissão para o nascimento, o movimento da senzala à casa grande;
permuta forçada de almas!
As negras não devem ser mães.
O colo negro acolhe as crias; branca e preta.Os peitos vertem "vida" nas bocas "ávidas", e a Sinhá sorri de alívio ao tocar o seio seco.
As bocas sugam, as carnes se engordam da fartura láctea, mas aquela branca se escancara mais, e o quinhão maior exaure a fonte!
A boca negra geme de fome, e os olhos escravos libertam a lágrima.
Uma alma se apruma, a outra, raquítica, mingua.
Uma salta do colo, a outra desce à cova!
Num devir, o branco se doutora, às custas do leite africano.
E à negra qual recompensa?
Negras não devem ser mães...




Anderson Dias Cardoso.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A Feiura Dissecada.

Pintaram a boca à feiura!Lhe coloriram os olhos e lhe tiraram o buço,coraram lhe as maçãs
do rosto e alisaram suas madeixas!
Os dentes foram clareados, desentortados e foi retirado todo o sarro!A pele se esticou e
os seios, as coxas, o ventre foram moldados à bisturi!
De inicio a intenção era sua morte,
mas poucos casos, bolsos fartos lograram êxito, mas no geral a escondiam, meio
envergonhados sob panos e cosméticos.
A Indústria refestelava, e gritava "FEIA", e quando lhe vinham em choro estendia-lhes um
caro estojo, lhes calçava salto alto, e num vestido de nobre corte rompiam a crisálida,
pensando ser borboletas!
Assim voavam umas borboletas, e nasciam outros tantos feios, acusando a genética,
praguejando contra a sorte, aborrecendo seus genitores; não conformados à falta de
simetria, ou formosura...
Sem saber sendo um tempero estético, o contrapeso que evita a saturação do belo,
resguardando da banalidade e monotonia!!!
Revoltam-se, deprimem-se, porém continuam a nascer!
Mas eis que vi; a aberração das aberrações:
Um feio conformado; alegre!
Uma feiura que festeja o sabor visual da beleza de outros, e transmuta-se, ele mesmo num
desses belos.E me olhei no espelho, e minha feiura simpática me sorria...
E me amei ainda mais!!!

Anderson Dias Cardoso. 

sábado, 29 de janeiro de 2011

O Maior Anão do Mundo!

Selecionei uma, entre tantas salas de bate-papo, das não tão populosas pois multidões;
mesmo virtuais, me incomodam.
Digitei aquele nick e procurei por parceiros de prosa mas uns tipos pareciam invisíveis, enquanto outros gritavam e se faziam ouvir; e eu, "O Maior Anão do Mundo" dizia "olás" sem resposta até que a piedade me trouxe uma conversa morna que buscava o básico, sem intimidade.
Um preenchimento de prontuário para um doente social.
E eu disse do nome de minha mãe, minha ocupação, e os livros que li, e a pergunta tabu
veio embutida em uma dúzia de questões, disfarçando se de indiferença:
-Qual é mesmo sua altura?
Demorei pouco para responder; pensando se daria fim ao meu chiste, e à ignorância da
interlocutora:
-1,75.
A resposta arrancou uma interjeição e aqueceu a conversa; e novas linhas revelaram uma
vergonha do próprio preconceito:
-Mas disse que era anão!
-Sim, "O Maior Anão do Mundo"! Tão grande que minha deficiência escapa aos olhos pouco atentos!
Eu ri um pouco, mas logo uma pequena tristeza me tocou o coração, e eu pensei nas
possibilidades dessa realidade:
Ser homem pequeno;
E uma enorme solidão.

Anderson Dias Cardoso. 

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O Mágico?

Na infância, quando o parque era um lugar mágico, e o meu contato com o dinheiro se
resumia às coleções de poucas moedas me encontrei entre duas surpresas:Um passeio no
primeiro, e um pouco mais do segundo!
Naquele dia minha mãe deitou uma nota nova em minha mão estendida; eram cinco mil cruzeiros; uma
pequena fortuna para um garoto pobre; um tesouro a ser preservado por algumas semanas!
O passeio;  gostoso nos moldes proletariado, com ônibus, catraca, balas e balanços, num
parque que se dividia entre os novos brinquedos elétricos, que se agitavam velozes
brilhando suas luzes,  arrancando sorrisos e enchendo os peitos de singelas alegrias; e os tradicionais, tanto lúdicos quanto possível, um paraíso de altos e baixos de
gangorras, travessias de pontes e balanços de pneu!
E entre gritos, e sorrisos a energia quase infinita de meu corpo infantil se dissipava, gasta em traquinagens, e no fim da tarde a cantina exalou seus cheiros e fomos atraídos para o balcão das delícias,
das quais pedi um cachorro quente e logo saquei (confesso que com uma certa pena) aquela
nota nova e a estendi, pagando meu consumo.
Minha mãe se comoveu, recuou minha mão e acertou minha conta e minha alegria foi
completa; guardei meu tesouro no bolso limpei os lábios, vermelhos de ketchup, embolei o
guardanapo e, ainda sem nenhuma noção ecológica o atirei no canteiro verdíssimo!
No meu retorno uma verborragia entusiasmada desenhou meu passeio à imaginação dos que
não me acompanharam, e me emocionava descrever os brinquedos, sentimentos, e as cores do
dia, e no ápice do meu delírio arranquei orgulhoso minha nota de cinco mil cruzeiros, a
qual minha mãe me impedira de gastar, e a chacoalhei orgulhoso, então, surpreso notei que
a cédula havia se transformado naquele guardanapo sujo de ketchup...


Anderson Dias Cardoso. 

domingo, 23 de janeiro de 2011

A fuga.

O que se querer?
Amores que passam sejam eternos?
Felicidade, excessão da vida seja regra?
Dores anestesiadas; sofrimentos suprimidos?
Carne de bronze,coração de aço!
Cale o mundo dissonante, pare o tempo, deporte o medo e me crie uma nova vida;
De ouvidos surdos à mentira e olhos esquecidos da maldade!
Coração de carne, corpo de luz!
Ser completo e doador, reconhecendo e ofertando amor que morre a cada dia em outras vidas.
Modelo de Deus!
Perdoa a insolência!!!Não almejo trono, sou apenas verme!
Pequeno enlouquecido pelas intempéries, crueldades, e vazios existenciais...
Corpo ferido, coração vazio...

Anderson Dias Cardoso. 

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Eclipse Galinhas e a Ortodoxia.

Dia ordinário, mormacento, e todos exércitos galináceos já haviam despertado pelo cantar
firme de seus galos e iam novamente se encaixando nas estruturas naturais do
galinheiro.
Houveram cópulas, disputas, posturas, muita ração e minhocas arrancadas da
terra fofa e o dia já alcançava a décima hora da manhã com todos seus tumultos; foi então
que a lua, em todo seu atrevimento começou a devorar o sol, movendo-se sobre ele.
O mundo se maravilhou e os óculos escuros e chapas de radiografia faziam visíveis o
devorador e o fagocitado, e aquela escuridão parecia diferente aos espectadores; quase
mística, e ela furtava não só toda a luminosidade mas também as atenções!E novos deuses nasceram daquele fenômeno,e ressurgiram outros tantos: sumérios, babilônios, incas...deuses astrais acrescidos ao panteão de superstiçõe, e o espetáculo da natureza forçou uma interpretação espiritual, uma ação dos astros além de suas competências...
Aquela noite, que caia quase que de improviso sobre o hemisfério sul quebrou o ritmo nas
cidades e campos, e naquele quintal as galinhas foram se acalmando, quase notando a
brevidade daquele dia e foram uma a uma se empoleirando nos galhos da jaboticabeira
cheias de energia porém resignadas à um dia tão curto em uma vida tão curta, aquele meio
dia com contagem de um.
Cada corpo se aconchegava à outro preparando-se para uma possível  noite fria, e os
movimentos diminuíram e o sono começou a ameaçar e pesar sobre os corpos penosos, e os
olhos cerraram findando a consciência de mais um dia...Mas, rápido como a vinda daquela
noite a segunda aurora trouxe seus primeiros raios, e eles foram se adensando até que as
pálpebras não mais pudessem retê-los por completo e o calor trouxe desconforto, e o chão
convidou a bailar entre comida e pó e a granja se alegrou,mas a noite retornou
naquele mesmo dia, não tão de assalto mas com uma suave gradação e um pouco menos confusa
e o novo amanhecer foi comum como todos os outros e na sucessão de amanhãs alguns daquela
geração morreram de peste, outros foram vendidos ao açougue, e novos ovos eclodiram, mas
os céus não lhe foram motivo de espanto, e não houveram profecias ou oráculos ou
interpretações astrais e então Deus viu maior razão nas aves que nos homens...

Anderson Dias Cardoso. 

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Verdade à Moda.

Procuro pela verdade desde que se acomode aos meus padrões.
Verdade relativa não absoluta;
Flexível quando necessária, comum e aprazível.
Quero uma verdade "moda", também "projetiva";
Que ao menos abrilhante minha "persona".
Uma verdade Social simbiótica que me ofereça um horizonte,
Um horizonte toldado pelas minhas próprias influências.
Meu zelo mutualista a defenderá de todo panteão de outras verdades e seus hereges;
E reinará me conduzindo à tolice.
Ou me abandonará quando suas estradas estéreis,
Pelo seu vazio me conduzirem à razão.

Anderson Dias Cardoso. 

Sabedoria Etílica.

E meu pai, aquele escravo de Dionísio desrosqueava a garrafa de aguardente regando o interior do copo e nos primeiros goles quem assumia era Apolo e os assuntos ficavam fáceis e o cosmos e todas suas estruturas se descortinavam sem enigmas ao seu entendimento, não como obsoletas profecias  Pítias...
Invertia palavras e criava soluções, e geria com a razão de uma criança os eternos dilemas da humanidade.
Era doutor, não dos convencionais, mas o tipo pajé-xamã-druida, com suas panacéias holistas de gestos e fórmulas.
Quando estadista, era a prosperidade do pobre, o desenvolvimento burguês e a paz da nação.
Quando profeta perscrutava pensamentos, tempo e espaço gozando das intimidades do próprio Deus e ouvindo os sussurros de suas maravilhas...
Tudo isso, esses universos de sapiências num girar de tampa e derramar do líquido.
Uma sapiência de faces afogueadas de olhos sonolentos e passos vacilantes...
Sabedoria etílica...
Razão alcoólica.

Anderson Dias Cardoso. 

domingo, 2 de janeiro de 2011

Cães e Seus Mendigos...

Quando "Matilha" tornou se em "Família" e tantos andrajosos se puseram
nas ruas cercados por procissões caninas compartilhando
tristezas,afetos,e restos de pratos frios!?
Sociedades heterogêneas de indivíduos excluídos criam universos
paralelos onde a visão da indiferença não alcança.
Pets tornando se entes?
Que absurdo!
Absurdo de afeto nobre que por falta de almas dignas se confere a
seres sem alma!?
É amor entre iguais; entre os "cães" das cidades; quadrupedes e
bípedes; nobres excrementos sociais.
Incrementos que enfeiam paisagens  mas amor que comove e se doa em
verdade, amor que pouco espera e de migalhas se agradam...
Migalhas de pão...
Migalhas de afeto!!!

Anderson Dias Cardoso(Buru.)

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Engrenagens nas Rodas da Insatisfação.

Vendidos, ainda, por baixo preço
Com dignidades de escravos
A vida vai rolando por ambientes opressivos...
Vezes rápida para o deleite
Vezes sonolentamente morosa para o desespero

Então, somos mercadoria viva
Engrenagens que se gastam
Nos movimentos da economia
Sem o lubrificante óleo da satisfação...

Anderson Dias Cardoso.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Meus Erros.

Quantos erros ainda cometerei?
Erros que resultarão em paradoxais acertos,e outros, ortodoxos erros?
Erros por impulso,ignorância ou deliberados!
Erros maldosos,piedosos,ou neutros!
Minha história se molda por eles,e por eles minhas veredas se desviam
por vias que não reconhecerei; e se iniciativas conotativamente
pejorativas ou paradigmas humanos condenam os mesmos, eles ainda me movem
em seus deslizes...
O erro é natural; inerente à estreiteza da minha existência,e seu peso
eu lanço de mim, ainda que com o grande luto do remorso, e sigo com
meus muitos passos retos, e alguns passos tortos...

Anderson Dias Cardoso. 

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Sorriso...


Sorriso tão somente um sorriso!
Contrações e distensões, instinto e por vezes cálculos.
Embalagem do engano, expressão duvidosa calando segredos.
Expressão da vida pulsante, frescura da amizade, dom que se presenteia
por contágio.
É sedução,encanto, simpatia, indiferença, escárnio, ira...é riso nervoso.
É roupa para cada ocasião, que aquece, protege, enfeita...mas também esconde!

Anderson Dias Cardoso. 

Eu?Meu...

A busca do “Eu” se extraviou e foi à procura no individual do que devia encontrar no coletivo;
E em seu desvairo o “Eu” se tornou “Meu” então a vida se tornou mercado e tudo mais produto, e no movimento de tanto comércio o que se comprou foi a solidão.
Nos relacionamentos houve a desconfiança, e nos afetos nasceram as dúvidas e seu fruto foi separação;
O mundo ficou rico de vazios matando o significado do possuir e o ganancioso “Meu” vendo a nulidade de seus esforços quis se findar nesse mesmo vácuo, para nascer novamente pessoa, não produto...

Anderson Dias Cardoso. 

sábado, 11 de dezembro de 2010

Homônimos e a Corrupção.

Uma pergunta trouxe à consciência de Hipócrates de volta à mesa,e ele se
desculpou por divagar como fazia com seus pacientes,sorriu um pouco e
disse como eram chatas todas aquelas consultas,dores e doenças do
proletariado,e mordeu um bocado do prato fino construído de vísceras de
carneiro,e se lembrou novamente de sua especialidade e disse em tom quase poético
que "não só o câncer devorava as vísceras",e comentou satisfeito que
algumas mortes haviam lhe conferido ótimos jantares,e que o desvio de
medicamentos oncológicos eram muito lucrativos,e todos na mesa se
reclinaram atentos aos valores de que se gabava o médico,e se
encantavam com a genialidade daquele companheiro,e então Paulo de
Tarso exclamou um "Glória à Deus" que o fazia adentrar na "Terra
Prometida".Adam Smith pediu outra garrafa de suor,ordenou que o garçom
distribuísse uma medida generosa a cada companheiro,e brindou à saúde
e à fortuna,e todos riram,e Paulo de Tarso Bendisse à Deus,e aos
homens de boa fortuna,mas no meio de sua doxologia Adam arrotou
satisfeito e retomou a palavra,perguntou se apreciavam aquele fino
estabelecimento e analisou a estrutura administrativa
daquele grande restaurante e deslindou os métodos daquele que 
era um de uma grande cadeia!-Belo método,muito tradicional e
humildemente reclamo a autoria:mercadoria de segunda,preços de
primeira,trabalho de imigrantes,salários baixos e ameaças de deportação,nada de
direitos,tudo com um belo sorriso estampado no rosto ...é o que
vale!!!Ninguém quer saber se exploramos alguns,desde que o prato e o
atendimento satisfaçam à um estômago vazio e um coração aborrecido!E
Clístenes tomou posse do resto da conversa e olhando para Paulo de
Tarso sorriu como se furtasse sua fala e dessa vez foi ele que elevou
uma bendição,e disse "Bendito sejam os signos!Benditos sejam as
marcas;que uma vez consagradas se adulteram e vendem a mentira!E todos
disseram Amém!E Paulo de Tarso emendou um Aleluia,e todos riram
divertidos.Clístenes ajeitou os cabelos,e seus olhos eram atentos e
atenciosos e repousavam em cada pessoa por uns instantes e os dominava
com seu carisma.-Somos a geração dos signos!Somos todos marcas,e como
disse,as razões sociais nada importam-mexeu novamente nos cabelos  e o
perfume do hálito dos famintos rescendeu gostoso por toda a mesa,e
logo adiantou a procedência:furto advindo de impostos sacrificantes,e
gabou-se,era sua melhor essência do proletariado,muito melhor que o
perfume das ruas,dos abraços suados em tempos de campanha...Nós somos
o futuro!!!Os gerentes do mundo!Administramos a fartura de recursos e
a transformamos em escassez,diminuímos estatisticamente a
pobreza,fingimos aumentar o poder aquisitivo da população,quando o que
aumentamos são os impostos,e lhes retiramos os direitos à
educação,saúde,e lazer,e ainda os fazemos pagar caro por esses e outros que fingimos oferecer; até que
se
consuma seus recursos e não os gaste em...Uma mão se ergueu,e a frase
foi cortada,e Goebbels assumiu apropriando se da ocasião:Não se
esqueça de nós camarada Clístenes,não se esqueça de nós!!!Uma nota de
perversidade simulada vibrou naquela voz.Nós criamos estas embalagens
bonitas que são apresentadas!Aumentamos as virtudes,diminuímos os
defeitos,e eliminamos as deficiências!!!Nós somos os "Criadores de
Símbolos"!Somos a voz que calunia seus adversários,mesmo sendo
melhores que vocês,nós somos o silêncio,a omissão,somos a forja de
tiranos,criadores de monstros,ao passo que também
beatificamos,endeusamos,instigamos à idolatria...somos a realidade
mutável do interesse,somos os construtores do mundo virtual,moldado ao
gosto das elites,em detrimento aos menos favorecidos...Somos a
ignorância e entretenimento para a pobreza,a manipulação e a confusão
da classe média,e as possibilidades e potências dos poderosos...e o
que
tens a dizer camaradas???Principalmente você Paulo,que está tão atento
à nossa fala,e nem mesmo ergue um novo louvor?Será que nos
desaprova,ou nos condena com seu silêncio???
-Não irmão;somos filhos de uma mesma proposta...uma confraria sagrada
que atua em diferentes ramos,suprindo a necessidade de propósito das
massas...nós criamos demandas,desejos e pastoreamos ovelhas confusas
aos pastos do mercado...Lindamente esvaziamos os significados e
deixamos as substâncias para já não sobrecarregar os corações tão
atribulados...Um Cristo moral é melhor que o Filho de Deus,rituais são
mais leves que transformações...então olha para Goebbels e seus olhos
e a boca estreita sorriem-Um produto não necessariamente deve ter uma
utilidade,mas deve despertar o desejo,e o desejo deve se transformar
em propósito...Meu produto é Deus,ou melhor,sua moral para regular as
relações sociais e proteger as classes altas da revolta das demais
camadas e desviar o foco da terra para o céu prometido,e para lhes
facilitar o caminho,lhes retiramos a cruz,e sem que percebam os
retiramos o próprio Cristo,deixando algo de sua útil doutrina...lhes
entregamos a embalagem enquanto o produto continua
guardado na prateleira;em verdade em verdade somos todos uma fraude
mutualista onde as ligações não são percebidas pelos círculos
externos,sob a regência de um Deus comum...a ganância!E se tomamos a
aparência,ou características de nossos homônimos é por pura
conveniência e facilidade de associação de imagem!Somos os heróis
reeditados para uma sociedade que não conhece seu passado,e nem mesmo
em profundidade as proposições de cada um desses nomes...

Anderson Dias Cardoso. 

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Desc(aso)ou(anso)?

O que quero é um pouco de preguiça,comprar de volta o tempo que vendi  barato,mandar calar o despertador e só por algum tempo ser dono de mim;
Bermuda chinelos e um coração leve;e a vida que corre depressa se amansa,e o futuro se afasta um pouco do hoje e eu convido o "agora" para celebração do meu ócio.A voz que clama por alforria;rouca de cansaço merece refresco e o corpo que o trabalho acoita reclama descanso mas o verdugo não se apieda e as jornadas se estendem para abater a alma e multiplicar as riquezas e quando enfrento o espelho vejo a morte se aproximando pelas costas;crânio suado,manto por lavar e sua ampulheta vazia  me acusa o atraso...

Anderson Dias Cardoso. 

sábado, 4 de dezembro de 2010

Estética Canina Coerciva.

Não me deram o privilégio do androginismo e de frente todo cão é
igual;sou cão macho,mas isso não importa se o corpo diz que não.
Tenho pelo negro,tenho pelo verde,tenho pelo rosa,só não tenho vontade
própria,sou escultura animal,sou ostentação de criatividade,sou...sou
ridículo!
Parte pelada,parte peluda,friorento tendo um dia tanto pelo;
admiro à muitos,até que perguntam o sexo,e se afastam sem esconder o
deboche!Ah!Fosse eu cão comum,um vira-latas qualquer,sem banho nem
tintura,vivesse de lixo;corresse na chuva sem temer termômetro!Mas sou vítima do sistema,sou obra do gosto...tentando me adaptar;sou a personalidade que não escolhe sua embalagem,sou o cão pós-moderno,imagem desse mundo  sem valores,completamente "despoodlerado"!!!

Anderson Dias Cardoso. 

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Filho do Mercado.

Vende-se uma vida; sem vínculos, sem afetos, mercadoria estocada na prateleira do
 ventre.
Vende-se caro o que não tem preço; (e quem disse que o amor não se compra?)
Produto sem prazo de validade; ovo surpresa, sem direito a devolução;
Vende-se o choro noturno, as dores de ouvido, as confusões da adolescência;
Vende-se a graduação, os preparativos do casório, talvez  a dor da morte;
Num comércio que ata vidas, constrói álbuns de fotos e torce o futuro.
Uma mãe enche os bolsos, a outra o coração, numa troca de absurdos;
A realidade constrange, a sociedade comenta, e essa prole caminha com seus dois valores, tranqüila;
Um valor de mercado,um valor de afetos!!!

Anderson Dias Cardoso. 

domingo, 28 de novembro de 2010

Sophia.

 
Família modesta;pai,mãe e um crioulinha linda que ensaiou seus
primeiros passos aos nove meses,e aos três anos já lia,escrevia,e era
dialeta competente;qualidades que lha conferiram a alcunha de
"Sophia",e era a alegria e esperança da casa.A mãe se incumbia de
lhe ensinar as letras,o pai,do sustento e ambos e da formação cristã.A
inteligência  lhes causava estranheza,e suas perguntas embaraço,e
dos poucos livros que lhe liam, e lhe davam a ler, a Bíblia era o
quotidiano;e ainda se alegravam na sua pobreza,pois deles era o Reino dos
Céus;porém em uma de suas carestia o orçamento os estrangulou,e a
mãe saiu em busca de um emprego,e a creche foi a melhor opção,e o pai
deixou a linda negrinho naquele mar de infantes;recomendou poucas
coisas,e deixou o resto dos sentimentos em um abraço terníssimo e
partiu através do portão descascado.A negrinha,nas estranheza da nova
realidade se consolou com os brinquedos que nunca teve;com os amigos
que nunca conheceu e foi só sorrisos,e brincadeiras de roda;mas uma
mão arrancou um dos elos da cadeia de crianças que giravam,e uns
gritos,impropérios,tapas,e murros espantaram à todos,e aquela
garotinha foi lançada à parede,e seus cabelos arrancados por alguma
desobediência;e aquele vulto,a "mulher-demônio" cobria a garotinha com
sua sombra e violência...foi quando uma voz infantil,com toda a firmeza possível
se alteou sobre todos os gritos dizendo:Qualquer que escandalizar um
destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fora que lhe pusessem
ao pescoço uma mó de atafona, e que fosse lançado no mar.
E, se a tua mão te escandalizar, corta-a; melhor é para ti entrares na
vida aleijado do que, tendo duas mãos, ires para o inferno, para o
fogo que nunca se apaga...Houve um silêncio,e a mão da
"mulher-demônio" largou a garotinha,e o tremor das mãos demonstrou sua
derrota.Deus falou naqueles lábios negros,que mal tinha reparado e a
condenou;e ela correu dali levando seus gritos e algumas lágrimas,e um
tumulto de adultos afluiu para a casa dos brinquedos,e as histórias
foram esclarecidas,e o pequeno anjo de pele negra se encontrou cercado
de sorrisos,e rostos maravilhados,e na vizinhança todos o amaram,e com
o tempo perdoaram aquela mulher bruta,e esqueceram todas suas
maldades,e nela nasceu um novo amor,e então viu que ele  novamente "Ele" veio ao mundo
para resgatar os perdidos;um milagre na boca de uma negrinha
brilhante!!!

Anderson Dias Cardoso. 

domingo, 21 de novembro de 2010

Deuses Perecíveis...

...E na terra mãos humanas começaram a forjar deuses de carne,na
medida dos nossos desejos,por vezes deuses impostos,iluminados pela
aura da tv,resguardando seu vazio através da distância.Vestiram-nos de
valores não seus,multiplas vidas de infinitos significados,confundiram
os à moda,às "tendências" e ideologias,vendendo-os como uma
verdade,transformando-os em padrão;e eu procurei enxergar a verdade
por trás do produto,e o encanto se desfez,e me foram desnudadas as
fragilidades do ser,e os deuses se juntaram a mim no
horizonte,depositando seus orgulhos na poeira  olharam se no espelho
procurando se encontrar,e descobriram-se como deuses enrugados,de
mechas grisalhas,e no reflexo estava impresso o seu passado,e notaram
fãs gritando seus nomes à substância,porém seu calor não os aquecia
pois era essa substância que o absorvia,e sentiram se um pouco vazios,e notaram  que aquelas mesmas mãos que os fizeram manuseavam suas riquezas,com sorrisos satisfeitos e apontavam no menu outros deuses para protagonizar novas histórias,e então eu notei que "desta vez" Nietzche estava certo,e senti pena dos deuses...

Anderson Dias Cardoso. 

domingo, 7 de novembro de 2010

Barbie X Darwin,e a Conspiração na Fila do Banco.

Filas são reveladoras nelas se conversa de tudo, negocia-se, inveja
se, tudo nada muito divertido mas faz parte da ordem então se tolera; e
numa dessas duas senhoras muito bem vestidas discutem a
pós-modernidade das crianças e seus brinquedos, o tema específico no
momento em que comecei a me interessar pela conversa girava em torno
da boneca Barbie e sua separação do boneco Ken e o novo namoro com o
boneco Blaine um boneco Australiano surfista,coisa revoltante e
controversa:
-Pois é Fulana, agora estão substituindo as funções das bonecas,antes
eram uma forma lúdica de ensinar a maternidade às garotinhas,depois
com a industrialização passou a ensinar o consumismo,com todas aquelas
roupinhas,acessórios e tudo mais,mas agora estão extrapolando;estão
querendo transformar nossas filhas em vagabundas"!!!!Onde já se viu
Fulana;estão separando até as bonecas!!!!O mercado está pervertendo os
bons costumes da sociedade!!!Eles acabaram com um relacionamento de
quase cinquenta anos por causa de que...???Me diga Fulana, de que????
-Isso foi um golpe publicitário Cicrana,só querem chamar a atenção
para a boneca procurando melhorar a exposição no mercado por isso
arranjaram um novo namorado para a ela...
-Não Fulana,eles estão querendo criar uma sociedade pervertida...É uma
forma subliminar de induzir a promiscuidade em nossas filhas,você não
percebe que uma relação tão longa é uma analogia ao casamento???Eles
estão dizendo ao subconciente das nossas crianças que o casamento é
uma instituição falida!!!Estão profanando a instituição mais sagrada
da sociedade com essa versão "sem vergonha" da Barbie!!!
-Ah,Cicrana isso que está falando é um absurdo,é necessário ao mercado
dar uma embalagem mais atual ao seus produtos, por isso as vezes eles
quebram alguns paradigmas inventam alguma moda,a tendência pós-moderna
de comunicação é de aproximação de produtos, serviços e outras coisas
da realidade do dia-a-dia, você não reparou que até os jornais estão
mais informais???Hoje dispensam as bancadas sentam se em longos
sofás;existe mesmo uma tendência à "popularizar e humanizar" algumas
parcelas da nossa vida,criar identificação...
-Isso é "semvergonhice" disfarçada!!!Abra os olhos Fulana!Abra os
olhos!!!Vai indo de acordo com a filosofia do mercado e logo você verá
sua filha Beltrana chegar "buchuda" em casa,eles estão se apossando de
mídias e produtos e lançam atitudes e mercadorias impregnadas de
simbolismos e fiscalizam nas ruas as influências que geram nessas
pessoas...Lembra daquele corte ridículo de cabelo do Ronaldo???No
outro dia todas emissoras mostravam fãs de todo mundo com aquele mesmo
corte horroroso...e aqueles meninos da roupa colorida???As ruas estão
parecendo um desfile de escolas de samba de tão coloridos...não estou
dizendo que isso aconteceu nesses casos, pra falar a verdade pra mim isso
é mal gosto mesmo, mas essa é uma forma de avaliação de receptividade
muito utilizada...
-Mas o que isso tudo tem a ver com a separação da Barbie???
-Fulana,abre o olho!!!O mercado não é só uma versão singela do
Darwinismo onde os brinquedos seguem a lei de sobrevivência dos mais
aptos e as modificações não visam uma adaptação ao mercado mas elas se
adiantam às tendências ou as copiam no pior, sempre no pior, nós não
vemos tendências de fraternidade baseadas no ser, mas as bonecas sempre
aparecem unidas à um ambiente opulento, à bens e coisas do
gênero,sempre gerando uma aura de competitividade e outro fator que
usam é a sexualidade...as bonecas estão cada dia com roupas mais
indecentes...daqui uns dias aposto que lançarão umas bonecas
funkeiras, isso é se não houver alguma; já pensou Fulana,eles dão uma
nacionalizada na própria Barbie e dai jogam na favela coloca uma
roupinha de funkeira e fica algo como "Barbara Poposuda", já tô até
vendo, uma boneca bombada onde poderá se regular o volume de silicone
em qualquer parte bastando uma bombinha vendida separadamente...
-Hahahahah!Credo Sicrana,dai o quem vai virar "Mc Ken e o Bonde das
Bonecas"!!!Hahahaha!!!Você é mesmo doida!!!
-É isso,tudo para desagregar a sociedade!!!Hahahahahaha!!!
-Não entendi.
-Começou quando a revolução feminista nos enganou; ela nos prometia
igualdade entre os sexos, oportunidades de voto,emprego, e tudo mais
então nos jogou em um mercado, como mão de obra barata, sob olhares
preconceituosos e nos privaram da criação de nossos filhos,ao invés de
uma guerra de sexos, não se procurou uma conciliação, uma valorização no
contexto familiar que proporcionaria núcleos mais consistentes e mais
felizes , dai a sociedade começou a se desintegrar gradualmente, as
crianças ficaram sob os cuidados dos avós,ou mesmo de creches ou outros
cuidadores; os casais, cansados depois de um dia de trabalho pesado
chegam indispostos em casa e não tem tempo nem paciência para seus parceiros e
para seus filhos, sua educação passou a ser de competência de terceiros,
depois dos colégios e hoje deixamos nossas crianças sob a
tutela da tv e dos computadores,sem nenhuma fiscalização e lá eles
compram das séries, novelas,filmes uma ideologia promiscua, e o
relacionamento passa a ser uma troca de corpos, uma intimidade
vazia, traições, mentiras...
-Mas Cicrana,o que eles ganham com isso???
-O mercado, os governos, e todo orgão regulador tende a dominar através
do medo, e como o medo constante gera danos como pânico, depressão, e
desmotivação então eles se valem da irmã mais nova desta,a ansiedade, que causa
menos danos e produz consumismo como uma forma de satisfação
imediata; um atenuante para as tristezas da vida heheheheeheh!!!
-Entendi Cicrana,se você não pode contar com seus próprios pais, se
seus parceiros são meras peças a serem usadas e descartadas,e se o
mercado de trabalho se vale de uma concepção Darwinista, a política não
responde ao  básico, então se recorre a esses subterfúgios de consumo
como um relaxante emocional, e esquece-se da família,não existem afetos,e os núcleos sociais são rompidos, então somem as lealdades e é cada um por si e todos pelo mercado!!!Mas quem estaria por trás disso tudo Sicrana???-E então nesse momento o caixa deposita a ultima nota nas mão da senhora que a outra chamava Fulana, ela interrompeu a conversa conferiu as cédulas e guardando-as na pequena bolsa se virou e foi explicando de quem se tratava naquela conspiração toda,e sua voz foi se perdendo no burburinho do banco e infelizmente não ouvi o final daquela interessantíssima história;mas  aquela voz ainda continua em algum lugar da minha mente me dizendo:Abre o olho Fulana!Abre o olho!!!!

Anderson Dias Cardoso. 
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