quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Frágeis Existências 6°Capítulo.

O tremor das mãos e o gosto ruim da boca; ou a noção dos mesmos, sumiram logo que o peso das cinco peças derramadas em suas mãos o fizeram notar a falta do valor integral de seus serviços.
-Se esta é minha carta de demissão ao menos esperava que fosse entregue pelo velho, e que acertasse o que me deve com a mesma honestidade com que se gaba nas feiras e mercados!
-E ai está seu salário, descontado as ausências e as lebres que furtou!- O sorriso de Bakur não foi uma ameaça, mas brilhou uma ironia que Dre quase chegava a apreciar.
-Bons patrões fazem vista grossa à essas insignificâncias!- Fechou as poucas peças em suas mãos e olhou com desdém para as terras às costas do gigante. - Ontem mesmo elogiei-lhe as filhas, louvando suas belezas enquanto bebia alguns canecos doados, mas agora...espero que não lhe sobre alguma em suas negociatas com o Estado.
-As terras do senhor Pudup foram entregues aos anciões, agora só lhe resta suas filhas, e esta é a minha tristeza em relação à você; o ver sendo demitido em condições tão penosas ao velho!
Dre piscou rápido os olhos, e sentiu ruborizar as faces.
-Ainda tem as filhas... A pena ainda não foi o suficiente para tamanha avareza...E ainda fico feliz em saber que está na mesma situação que eu, e que não serei mais despertado por seu hálito fétido!  
-Me empregarão no mercado, não fique tão feliz pela minha sorte, mas realmente sentirei falta de machucar alguns preguiçosos... Agora, se me dá licença preciso cobrar algumas dívidas do patrão...Devo aproveitar a investidura, enquanto ainda tenho e me divertir um pouco antes de passar a carregar fardos de cereais e carne seca.
-Por que tiraram as terras do velho Pudup?-Gritou Dre ao ver se afastar Bukur.
-Vá à Praça das Sombras para saber. - A frase foi dita sem que o grande homem se voltasse, num tom triste que contrastava com a rudeza daquele corpo.
À distância as copas altas e juntas formavam uma massa uniforme de cor verde escuro, e os caules iam surgindo e se entrelaçando nas encostas talhadas do palco semicircular. Eram construtos naturais e artificiais espantosos por seu porte, integrados como vista principal da praça.
As pedras de suas ruas eram as mais delicadas e bem polidas da cidade e seus caminhos formavam desenhos sinuosos e tranqüilos que subiam e desciam por níveis suaves, passando pelos outros paredões esculpidos, ou pelas árvores mais antigas.
O sistema de canalização, e as águas fartas do rio Saguf permitiram latrinas públicas, mas agora, com um ajuntamento que se ampliava até os limites da cobertura das árvores, e o enfraquecimento das correntes de todos os rios, um cheiro forte de urina incomodavam as narinas mais sensíveis.
-Já sabem dos assuntos dos anciões?- Dre seguia o curso das gentes procurando alguém que conhecesse mais que ele.
-Acho que diz respeito às migrações, ou coisa assim- Disse um senhor de barbas emaranhadas e salpicadas de alguma fruta muito madura.
-Só pode ser algum aumento nas contribuições- Uma mulher com poucos dentes, e muito sarro nestes puxou uma corda imaginária atada ao pescoço.
Haviam opiniões absurdas, outras nem tanto, então desistiu de perguntar e andou até que a massa humana estivesse bem compactada, daí afastava todos corpos possíveis com os cotovelos para chegar à distância onde o pronunciamento fosse decentemente audível.
Esperou um tempo e meio e as pernas formigavam, o estômago era só desconforto, e as muitas vozes se alteavam à medida que se demoravam os três velhos.
O corpo pesou sufocado pela compressão e calor dos outros corpos e ele procurou se escorar em algum ombro sólido, mas, recebendo olhadelas de desprezo tentou se afastar um pouco.
Suas entranhas se contorciam pela conjuntura de bebidas do dia anterior, emoções negativas e excesso de pessoas à sua volta e não segurando o que lhe subiu do estômago à garganta regurgitou um jato viscoso de cerveja e carnes defumadas semi-digeridas.
O alvo foi o vestido puído de uma senhorinha vincada de rugas e de extravagantes cabelos cor de laranja; ela tentou revidar o desaforo, enojadissíma, mas ao ver que cambaleava no breve espaço que o asco o proporcionou quase sentiu piedade. Deu os ombros e rumou para a casa lavar-se.
Algumas mãos o ampararam antes que tombasse sobre seus fluídos, e uma outra lhe entregou uma bolsa de água para que se refrescasse, ele tomou pequenos goles e despejou o resto do conteúdo sobre os cabelos ensebados.
-Quer que o leve para a casa?- Um homem cor de bronze envelhecido já havia metido o pescoço sob o braço direito de Dre, ele usava um grosso avental e cheirava à couro cru.
-Não! Eu preciso ouvir o motivo de minha demissão- Os olhos estavam embaciados pelo esforço do vômito.
Ele ainda se utilizava do amparo do estranho quando os três pequeninos homens foram vistos caminhando em passos curtos no palco de pelo menos oitenta braças de altura.
O pequeno do centro se vestia com as cores do trigo, das chuvas, e dos bosques e este era o Sábio do Pão.
À direita outro ostentava o branco, e o azul dos céus e era conhecido como Sábio dos Conselhos.
O terceiro vestia negro, mas um dia vestira branco e era o elo entre os deuses e os homens, seu nome era Ruguel, o Sábio dos Deuses, e agora era conhecido como “O Apóstata”.
Diziam serem os três gêmeos de três mães, mas não havia característica comum alguma além da barba longa que ostentavam e, após a queda dos deuses tais histórias não recebiam credito algum, mas eram estimados e exerciam poder real sobre toda a cidade dos quatro rios.
- Os campos das redondezas se secaram, e os chacais e aves de rapina nos cercam as entradas da cidade- disseram as três vozes em uníssono e com potência e gravidade suficiente para calar o burburinho- Mas nossos rios ainda correm vivos, e não fosse a tempestade haveria certeza de trigo à todas casas.
A vertigem partiu quando se concentrou naquela voz vinda dos três afluentes barbudos; Dre agradeceu o apoio e se firmou sobre sua própria força.
-Pessoas deixam suas fazendas e casas, vendendo-as por temor, a baixos preços à aproveitadores, deixando prejudicada toda a produção de grãos e ainda minando a confiança de seus irmãos...
-Outros arrendatários não põem seus estoques à venda e ainda negligenciam o acordo de preços, e inflacionam os valores aumentando os danos desta maldita seca...
-Alguns voltaram a invocar deuses que já havíamos deixado, por serem inúteis e desnecessários, mas nós vos dizemos que um de nossos cavaleiros voltou de passar por Gatak, e as cidades esvaziadas, e sua cavalgada foi acompanhada por nuvens pesadas de chuva!
Quando a frase foi pontuada os gritos se ergueram ao ápice da loucura, e todos os povos se abraçaram esperançosos, então os sábios esperaram a diminuição do êxtase para continuar o discurso.
-Com a chegada das chuvas mudaremos as estruturas desta terra para assegurar nossa existência e expansão para as regiões despovoadas.
-No momento aproveitaremos todos os que tiveram seus campos destruídos, todos desempregados por conta da seca, e mesmo, todos os ociosos e os empregaremos na construção de barragens e valas de irrigação, perfuração de poços, construção de celeiros, coleta de adubo e ainda os agricultores, para cultivarem as terras coletivas já que à partir de hoje receberemos de volta todas as que foram arrendadas para que haja pão em toda casa à preços justos.
-Também fica proibida a venda e mudança dos que possuem terras, e fica estabelecido o cultivo compulsório destas, da qual será tributada em seis décimos para distribuição aos carentes e reserva para caso de escassez.
Houve grande murmúrio, mas diante de uma quantidade enorme de desgraçados já irritados por fome e desemprego, aqueles de maior posse resolveram por se silenciarem por hora.
-Qualquer quebra das regras estabelecidas por este conselho deverá ser notificada à câmara, e cada levante será reprimido... É um período delicado e todos os traidores da terra e de nossos irmãos deverão ser punidos exemplarmente.
Os homenzinhos partiram como sombras, e pequenos focos de discussões nasceram aqui e ali e Dre se lembrou que um dia houve um quarto Sábio, que perdera sua função depois de encontrarem esta terra propícia e sua função foi extinta com sua morte, ele era o Sábio da Guerra, e ele era o pai de Ruguel.

Continua...
Anderson Dias Cardos.

domingo, 30 de outubro de 2011

O Pé de Frango.


Repulsivamente deitado ao chão o pé de frango engordurava alguns centímetros de asfalto à sua volta, certamente era figura desprezada de algum almoço ou mesa de boteco e jazia amarelo de açafrão no centro da rua.
Não haviam resíduos em volta, nem expectadores à vista e eu imaginava o frango amputado, e saboroso sendo repartido entre pratos, e mordido nos intervalos de risos e conversas enquanto a parte solitária se aquecia de sol, juntava pó e formigas e me embrulhava o estômago.
A força de sua imagem era respeitavelmente angustiosa; uma coisa destoante e absurda centralizada na passagem dos carros, com unhas agudas e um brilho oleoso e eu não conseguia deixá-lo e continuar meu percurso.
Naquele pé havia uma história e um par, mas era exatamente sua materialidade peculiar  e estranha por falta de vestígios comuns à sacolinhas de lixo em que provavelmente estivera contido que transformava sua presença  numa arte do absurdo.
É claro que o asco me prendia, estacado, fitando-o de cima para baixo ao menos enquanto não avistava qualquer passante, e eu já lhe imaginava odores repulsivos, e imaginava a fauna invisível que errava sob, e sobre aquele pé.
E eu olhei à minha volta, envergonhado de uma atitude demais estranha e, não notando alguém me rendi à minha curiosidade e o tomei em minhas mãos.
Os dedos se mancharam levemente de amarelo, e eu comprimi umas poucas formigas que o fazia de refeição.
O cheiro me alcançou as narinas, e os lábios provaram a carne magra e amarga.
Haviam sido dois dias de muita fome, e minha dignidade foi vencida então... 

Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Frágeis Existências 5°Capítulo.

-Já circulo por entre cadeiras quase três tempos e o taverneiro e todos outros me negam uma caneca de cerveja depois de eu já ter gastado meu resto de ordenado, e ainda esperar as peças do fim da lua grande, e nada disso é por eu ser mal pagador! A antipatia devia conceder alguma cortesia ao menos!-Murmurou-Dreh-Moga escolhendo e se sentando num banco próximo ao balcão.
-Não me admira eu os desprezar tanto!-Sorriu cinicamente para si mesmo, enquanto verificava os bêbados adjacentes.
-Também o desprezo Dreh, mas lhe pago o que quiser só para ouvi-lo se lamuriar!-Disse o rosto que se encontrou com o seu ao se sentar.
-Sendo assim, se divertirá muito com este meu dia amargoso- Estendeu a mão o mais alto que pôde para chamar a atenção do ajudante, e gritou à plenos pulmões, se certificando que todos ouvissem que molharia a garganta mesmo sem ajuda dos mesmos.
-Filho do taverneiro, me traga uma caneca cheia que já estou para pagar à Puneb por sua “misericórdia”- A última palavra saiu cantada dos lábios torcidos de Dreh-Moga, mas rosto algum se virou para encarar sua pequena vitória.
-Acho até justo que os odeie tanto quanto eles o odeiam!-Puneb sorriu simpático, e deitou o caneco meio cheio à mesa.
A bebida chegou às mãos de Dreh e ele rodeou três vezes o recipiente antes de ter coragem de levar à boca.
-Não me lembro de ter tomado uma cerveja tão ruim! Aposto que urinaram na minha bebida, mas nem me importo muito com isso depois de um dia massacrante nos campos!
-Urinaram na minha também... -O sorriso saiu triste, e Puneb piscou pesadamente os olhos claros, sua única peça de beleza.
-Soube que Puneb mandou o grandalhão o despertar com algumas carícias!-O sorriso ganhou vida e se transformou em gargalhada.
-Qualquer que seja a história não foi a metade do que o contaram- Dreh enxugou o canto da boca nas mangas da camisa, e reprimiu um arroto tímido.
- Sua surra não me importa; mas a quantidade de lavoura queimada preocupa um pouco!
-Queimassem todas eu teria uns bons meses de descanso, e depois, o descanso eterno!He!He!He!
-As secas estão devorando as terras em derredor, e as profecias dizem destes desastres...
-Fosse um deus não veria o tempo de me vingar das blasfêmias deste povo! –Deu um gole longo e se aproveitou da proximidade do taverneiro para mandá-lo enchê-la novamente. Ele franziu o cenho e praguejou como de costume em uma altura em que nunca se podia entender bem o que dizia e tomou o objeto da mão.
-Não me faça desfeita, ou poderá perder um outro bêbado por maus tratos ao seu convidado!-Puneb não pôde conter o riso!
-Já me disseram que as viúvas andam fazendo libações em oferta para que os deuses se tornem propícios novamente!
-Há!Há!Há!Tratam as divindades como rameiras, das quais desprezam após a satisfação, mas logo as procuram atrair com pequenos valores quando sentem o desejo retornar ao corpo!Um absurdo, Puneb! Não que acredite em deuses, ou tais coisas, mas se existissem de fato, e fosse um deles reteria a chuva até que consumissem uns aos outros!
-Soube que as canções também estão voltando...
-As tradições orais não podem dizer mais nada!Transformaram-se em cantigas de escárnio para crianças, e já não se pode recuperar as regras dos deuses tão desvirtuadas que estão!
-Mas os cultos estão retornando, e logo os deuses da terra se erguerão para espremer as nuvens e nos dar uma colheita farta!
-Gosto de cerveja escura, vitela, uma boa noite de sono, e dos deuses nada mais se pode presumir e ainda assim, cada qual procura sacrificar ao seu gosto!Eles expulsaram os três deuses da terra em favor de novos deuses, e logo deram o mesmo fim aos demais, e agora escolhem presentes aos mesmos de acordo com seus próprios gostos e vontades! Fosse um deus eu daria estas terras aos porcos do mato!
-Mas nós os servimos de coração!
-Não entende que caso eles existam isso não teria nada à ver com sinceridade?
-Soube que uma matilha de lobos devorou a família de Jopeb quando partiram para além das cidades abandonadas!Havia uma criança enferma na comitiva...
-Acho que os lobos começaram a devorar aqui na cidade também!
-Diz do velho colecionador?-Puneb afastou a caneca em preferência à conversa. Superstições e fofocas não podiam ser bem Apreendidas com a cabeça em voltas.
-Espero que seus canários morram todos! Acho que eles são o máximo de apego do velho maldito, e serviriam para incomodar o malandro, em retribuição aos mortos trapaceados!
-Ouvi que nos campos de seu senhorio as coisas não andam muito bem!
-Os campos queimaram um pouco, mas ele ainda tem umas oito ou nove belas filhas para negociar em caso de uma colheita fraca!- Eles se riram da piada.
-Acredito que a “beleza” das donzelas filhas de Pudub não o assegurariam mais que um ou dois palmos de terra sadia!-Há!Há!Há!- A gargalhada de Puneb contagiou além de Dreh, um ou dois ébrios que prestavam atenção na conversa.
-Disseram que uma delas já foi confundida com uma mula mirrada, e quase lhe puseram arreio nos lombos magros!-O primeiro curioso invadiu o diálogo.
-Se carregarem um ou dois balaios de cereal valerão mais do que a piada estipulada!- O segundo se atreveu comentar.
As gargalhadas potentes dos quatro se multiplicaram por sua espontaneidade, e logo muitos se riam dos que riam, sem saber do conteúdo do que os fazia sorrir, e um pouco mais de cerveja encerrou a noite junto à outras maldosas anedotas.

Continua... 
Anderson Dias Cardoso.

domingo, 23 de outubro de 2011

O Filho.

Aproveitou se da porta aberta, entrou e se sentou à mesa com um sorriso de saudade; o casal de idosos não esboçou reação temendo agressão, esperaram as exigências e chantagens, mas ele somente pediu que lhe passassem a manteiga.
Café forte e biscoitos de polvilho aumentaram-lhe a estampa de felicidade, e ele falou do tempo de sua ausência e das cartas que escreveu.
Perguntou pelo seu quarto, e nele se pôs a sentir o ambiente de olhos fechados e narinas dilatadas. Os anciões sorviam a estranheza da situação com tremores de mãos e palpitações.
-Como havia deixado!Com as mesmas impressões e detalhes!- Virou-se para a senhora e a tomou num abraço emocionado.
-Acho que está cansado, sua viagem e as emoções que sente agora devem o ter sobrecarregado, deite-se que lhe trarei cobertores e o travesseiro alto de que tanto gostava. -O velho olhou o abraço de sua senhora comprimir mais o corpo alto do estranho, procurou no bolso o celular e foi se retirando do quarto.
-Sinto falta do abraço de meu pai!-O coração saltou à boca, mas o sorriso disfarçou o pânico.
-Então, sirva-se de todo o carinho que o tenho!- O velho adiantou-se um passo e tentou alcançar o pescoço, sentiu-se erguido do solo com gargalhadas quase infantis. Lembrou-se do filho morto e umedeceu o ombro do estranho com suas lágrimas.
A relação parental artificial foi sendo construída pelos afetos do filho inventado, e carências do casal e já não haviam medos ou suspeitas; e a mentira foi verdade onde iam, e com quem quer que estivessem.
O cuidado familiar era o mais perfeito, e o desconhecido foi empregado e dividiu as despesas, os presenteou com passeios nunca planejados, comemorou todos aniversários perdidos, supriu totalmente a morte do irmão que sequer conheceu.
-Sua comida continua sendo a melhor que já provei mãe!
-Queria ter herdado suas habilidades manuais e a cor de seus olhos, pai
-Que bom que o temos de volta, depois de tanto tempo!- A mãe sempre possuía uma lágrima emocionada a ser derramada em gratidão.
-Queria não ter perdido todas minhas economias nos tratamentos de seu irmão; eu poderia lhe oferecer um pouco mais de conforto, talvez um carro!- O rosto oferecia um sorriso triste e sincero que era pagamento melhor que qualquer valor.
-Uma família é tudo que preciso!- O desconhecido sorriu satisfeito, e desapareceu para nunca mais voltar.
E em um outro lugar ele se aproveitou novamente de uma porta aberta...

Anderson Dias Cardoso.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Frágeis Existências 4°Capítulo.

Milhares de barracas de encaixe em madeiras coloridas, toldadas por trançados de palha exibiam cada qual sua mercadoria.
Condimentos, caças, vestes e o que quer que se necessitasse era encontrado na Feira dos Gansos; nome dado ancestralmente por se tratar de um local de rinhas de aves e que agora estendia seus espaços por ao menos mil passos graúdos.
Comerciar era uma arte, e toda a arrumação das barracas era disposta antes como banquete aos sentidos, e a própria distribuição dos comércios seguiam a seqüência: cheiros, sabores, diversidades de casa e vestuário, e só em sua periferia se encontravam animais frescos ou vivos.
-Um quarto por quilo de cebola?- A voz gritada se esforçou em constranger o comerciante por um preço tão absurdo.
-Mas são de ótima qualidade, como comprovou outro dia, Vataia. - A voz baixa tentou diminuir o impacto do escândalo.
-Realmente eram deliciosas por um sexto!-A mulher não diminuiu o tom da queixa, e alguns passantes deram mais atenção à rixa.
-A senhora sabe que a queima dos campos periféricos do norte prejudicaram as expectativas de colheitas, todos os vendedores estão aumentando seus preços.
-Isso é um absurdo!-Gritou a mulher com a cabeça segura entre as mãos em atitude de desespero- Aposto que os anciões nada sabem destes abusos!
Uma quantidade expressiva de pessoas se ajuntava ao redor da cena, e o homem sentiu suas faces enrubescerem e as palmas suarem ao ponto de gotejar. Limpou-as no avental de algodão cru e pediu com voz contida que ela se retirasse de sua banca.
-Eu mesma os denunciarei! Você e todas as barracas que aumentaram os preços sob pretextos falsos.
-Nossas barracas e preços dizem respeito à nós, deixe que venham neste lugar e eu mesmo me acertarei com os velhos!-Disse rangendo os dentes.
A multidão murmurou pragas sobre suas terras e colheitas, e ele retribuiu balançando os punhos e fazendo reluzir o bronze do punhal que carregava consigo.
A mulher saiu com sua bolsa mais pesada, disfarçando o sorriso:
-Cebolas cozidas na minha sopa!
Com a vizinhança esvaziada por boatos de uma seca persistente e seus cachorros abandonados entristeciam a vizinhança, e ele, ao se aproximar da soleira notou uma sombra saltando a cerca com alguns pertences seus. Não correu, suas pernas não tinham envergadura satisfatória para uma corrida, e seu corpo franzino não recuperaria nada, a não ser que lutasse com pulgas.
O gatuno havia lhe furtado as polainas, um pedaço grande de queijo e notou ainda a falta de um tacho de cobre e quatro peças. Cruzou o batente e fechou a frágil porta atrás de si.
As pernas doíam bastante, e as costas pesavam como se os fardos de feno ainda o oprimissem e ele descalçou as sandálias, lavou os pés e mãos e se deitou no enrolado de lã e palha que lhe formava um colchão estranho, porém confortável à um corpo tão cansado.
-Dizem que o sono alimenta... Vou agora me fartar!-Sorriu tristemente consigo mesmo.
Lançou-se pesadamente sobre o ao amontoado e sentiu os músculos se relaxarem muito devagar, a mente se aliviou de sua consciência e seus campos incendiavam novamente e ele tentava apagá-lo com as próprias mãos, mas era inútil e doloroso.
O sonho durou a noite toda.
Pela manhã corpo se contorceu dorido, e o estômago o alertou que já passara muito tempo sem trabalhar um bom pedaço de pão. As imagens de seu drama noturno lhe voltaram à cabeça, ele mandou que fosse embora e rumou para o forno de barro, e a portinhola gritou alto pela sua violação.
A mão tateou todo o interior procurando o bocado seco que deixara no dia anterior, e em seus movimentos tocou o vazio até que algo saltasse ao seu indicador lhe arrancando um grande naco.
-Maldito!-Arrancou a ratazana gorda do lugar atirando-a no chão batido.
-Morre desgraçada!Morre!Morre!Morre!-Pisou a cabeça peluda e os olhos vermelhos saltaram das órbitas, e a calda repulsiva tremeu uma última vez.
Não teve vontade de removê-la de sua cozinha. Limpou o sangue num trapo sujo e saiu a procurar alguma batata para acalmar os reclames de seu estômago.
Cavou longe dos canteiros queimados, e encontrou uns poucos tubérculos comidos de traças e os guardou nos bolsos, e logo que o sol agrediu suficientemente sua pele resolveu se por voltar pra casa.
Cozinhou-as como as havia apanhado, derramou o caldo marrom no solo esperou que esfriasse um pouco e logo a girava entre os dedos, notando os furos por onde haviam entrado as pequenas criaturas.
Já não se importava com aquela degradação. Mordeu o pedaço de fogo e gritou pela sua estupidez.
Atirou a batata para longe, mas logo riu!Riu!Riu!Riu!Um riso de lábios queimados e desespero!
-Perdi minha colheita!Meu cão!Minha esposa!Hi!Hi!Hi!-O riso era estúpido, e ele não ousava o libertar próximo à desconhecidos, continuou até adormecer novamente, com uma outra batata entre dedos.

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 16 de outubro de 2011

Índios.

O vermelho do urucum cobriu me o corpo; sumo de jenipapo e fuligem foram a tinta escura dos contornos desenhados das escamas do pirarucu.
Ajeitei o cocar e abracei a borduna e me juntei à roda da fogueira para a dança da onça.
Pé direito era o do passo largo ao lado, o esquerdo palmilhava à frente, mais econômico, e a excitação começava a se revolver no peito enquanto os gritos e esturros acrescentavam o sentido da dança.
O fogo ardia, a euforia das ervas e a expectativa da morte faziam o corpo se espasmar ao som das maracas. A saliva escorria pelos lábios.
 Agitávamos todos as armas ameaçando sombras e espíritos maus, enquanto fumávamos a xanduca para congregar à nós as forças de ancestrais e deuses favoráveis à tribo.
A fogueira resistiu dia e meio, e nos lançamos à peleja.
Apuã levou três almas em sua aljava, sua borduna esmagou dois crânios, partiu braços e costelas; Iberê manejou bem a zarabatana e o veneno ceifou seis vidas, mas das outras mortes nada soube, pois meus olhos se moviam para o maxilar que partia com um golpe certeiro do meu tacape, e para o tronco cevado que minha faca de pedra rasgava.
No fim do ajuste cortamos, como de costume, bambus e cipós para atarmos os corpos dos guerreiros mais dignos. Enterramos as crianças e guerreiros medíocres para não atrair feras ou insetos.
Tomamos então alguns carvões da fogueira de guerra e erguemos uma outra ainda maior, com troncos selecionados e recomeçamos os festejos, mas agora como um tributo místico à mais uma vitória.
A tribo dos Puijins era brava e poderosa, seu animal era a ariranha.
Dançamos as mesmas danças enquanto os anciões preparavam o banquete de corpos para nos fortalecer as mãos e espíritos, e ao esturro do homem onça nos vimos todos no frenesi de uma luta pelos bocados dos mais fortes.
Venci Ajagunã e Airy em uma disputa pelo coração de um poderoso, e o mastiguei absorvendo emoções e força daquele corpo.
Retornei à oca desfalecido pelo cansaço da guerra e festejo da vitória. Procurei sentir o vigor do guerreiro fluir em mim; mas não havia nada diferente...
Todos se gabavam dos novos poderes adquiridos dos adversários subjugados, como arma de prestigio e intimidação...
E eu fiz o mesmo.


Anderson Dias Cardoso.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Frágeis Existências 3°Capítulo.

-O que paga é muito pouco para terras tão vastas, Dalu!- A voz de Joped beirava a agressão.
-Não haverão colheitas neles neste ano, no mais, pouco posso extrair de suas terras uma vez que são pobres em madeira, e muitas terras tem sido abandonadas e prontas a serem empossada por quem queira! Lendas realmente são muito poderosas!
-Você blefa para me pagar o quinto do valor merecido!
-Ainda me afronta como se fosse um aproveitador?-Encurvou-se sobre a pequenez do camponês murcho da idade.
-Des...Per-dão!É que o que me oferece não me compra nada, nem um lote de terra...
-Ofereço muito justamente o sustento de sua viagem; e ainda acho um preço arriscado diante de um possível esvaziamento de Barin, assim como Gathar e as ouras quatro cidades!
-Preciso de mais, minha filha está doente...
-Raízes e ervas são gratuitas e mais confiáveis que fórmulas de boticários. Tome lá suas oitenta peças e se apresse, caso queira mesmo partir hoje. - A voz raivosa foi um argumento forte à um homenzinho conhecedor da virulência do comprador e a sacola de moedas foi entregue com setenta e cinco peças.
Dalu partiu sorrindo às escondidas para negociar outras terras.
A noite chegou quente e as carroças receberam os últimos nós. Da mobília gasta somente levaram colchões de palha, uma cadeira de madeira de lei além de panelas de pedra copos de madeira e as facas com que comiam.
Naíiba havia sido deitada próxima ao pote d’agua, os dois cães miúdos se encontravam aos seus pés.
-Molhe-a a boca de quando em quando, e umedeça novamente a toalha logo que  notar a febre retornando.
-Ela fala dormindo mamãe!
-O espírito dela tenta deixar o corpo, cuide bem de sua irmãzinha.
-Eu tenho medo, ela disse que os vermes a roem o estômago, não os quero ver!Não quero que ela morra!
-Ande mulher- gritou choroso Jopeb- ou quer que o maldoso Dalu nos humilhe além do que tem feito nos lançando de nossa própria terra?
As pernas gordas e cheias de varizes desceram dificultosamente o degrau, ela desatou o laço dos cabelos grisalhos e secou os olhos escuros.
-Ela vai morrer!-Abraçou com suas forças Jopeb.
-Talvez todos morramos...
-Os vizinhos e a moribunda partiram à duas horas- foi um comentário à mesa na casa de Ohik.
-Logo seremos somente nós e o maldito Dalu! Ele se aproveitou dos boatos de que ratos devoraram algumas crianças e velhos ainda em suas camas, da seca e contos de fadas para explorar outros pobres- Disse o pai.
-Tivesse posses ajuntaria aquelas terras à estas pela pechincha paga por Dalu!-Disse a mãe.
-Nossos campos não parecem fortes como em outros tempos, talvez esta seca e incêndios nos sejam sinais- Disse a fraca voz da avó num esforço de ser ouvida.
-A velha gemeu  algo- Disse a filha.
-Vocês a sentam junto às fofoqueiras da vizinhança e ela se encontra meio amalucada como estas! Por favor, dêem-lhe agulha e linha ao invés destes passeios alucinógenos!Disse o pai.
-Amanhã outros dois grupos escavarão canaletas de irrigação nas áreas mais críticas e logo estaremos a colher melões e figos graúdos e todas estas besteiras que estão sendo ditas serão esquecidas!
-Não me importo se toda a terra se secar, mas meu corpo não para por conta de tantas picadas!Disse a mãe.
-Os campos estão lotados de esterco, por que não usa um pouco esta sua cabeça e faz alguma coisa de útil!-Disse o pai.
-Pode deixar que trago amanhã um pouco de esterco para queimar e  lhes aliviar o couro- A voz estranha à conversa soou risonha e todos se viraram para ver quem chegava.
-Tio Quion!- A adolescente foi a mais rápida em seus cumprimentos, e ele retribuiu à esta e aos demais e logo convidou o amigo para a degustação de um licor de uma fruta exótica que havia conservado por alguns anos.
-Meu estômago ainda está ulcerado, mas adoraria um passeio por estes campos mortos!
 Andaram oito minutos silenciosos.
-As águas dos quatro rios parecem diminuir!
-Estão desviando os cursos para curarem os campos queimados- Ohik não pôde conter sua insatisfação por conversas de ignorantes.
-Olemb mediu o volume escoado por todos braços puxados dos rios e me pareceu bem assustado.
-São apenas ciclos.
-Os animais tem se aproximado muito das cidades, não mantemos celeiros e todos estes movimentos climáticos não prenunciam coisas boas... Ohik, vou me mudar!
-Pegou a mesma febre de filha de Jopeb!Só Pode estar louco!
-Quero que compre minhas terras!
-Só disponho de umas poucas cabras, e não deixarei que aja como um imbecil! Se persistir nesta loucura terá que entregar seu patrimônio por um punhado de cobre à Dalu.
-As cinco cidades estão desertas, e suas desgraças estão nos batendo às portas! Bantil é a mais próxima cidade, e é muito distante à quem não tem o que comer...
-Não necessitaremos partir!Estas terras ainda retêm sua força, e logo as nuvens nos refrescarão o calor, nos preparará o solo e encherá nossos rios!- Ohik forçou um otimismo tão exagerado que aumentou as preocupações de Quion, e se seguiram uns outros muitos minutos mudos.
A carroça rangia pesada de carga. Haviam se despedido com uma mentira de que haviam herdado terras melhores em uma outra cidade, mas a verdade escapava dos olhos tristes e das conversas espalhadas e que diziam ter entregado a propriedade por covardia em troca de uma mão cheia de cobre.
As tábuas rangiam principalmente nas bacadas, e a febre da menina queimava e fazia delirar e foram necessárias mãe e irmã para segurar o corpo quando começou à convulsionar.
Cital não quis chamar seu marido e a segurou até que o resto de vida deixou-lhe o tabernáculo.
O choro foi curto, e desceram o corpo numa cova rasa e a cobriram pedras e folhas secas enquanto pirilampos e outros brilhos ajudavam na iluminação das estrelas.
-Papai! Aqueles pirilampos brilham diferentes!
-Não são pirilampos minha filha, são lobos!

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 9 de outubro de 2011

Um Pequeno Comunicado!

Olá!
Em primeiro lugar eu gostaria de agradecer a cada uma das pessoas que passou por aqui; que visitou meu espaço e deixou um comentário ou desperdiçou alguns minutos lendo meus humildes escritos!Vocês me fazem me sentir gratificado por compartilhar meu mundo com vocês!Sério mesmo!São muito importantes mesmo!
Muito obrigado aos visitantes, e aos que frequentam este lugar!Ando muito ocupado últimamente mas procurarei retribuir o carinho na medida do possível!

A segunda parte quer dizer de "Frágeis Existências", que é um projeto em que estou me divertindo muito e pretendo continuar até que minhas idéias se esgotem, e até que isto ocorra eu postarei as continuações nas quartas enquanto postarei outros contos no domingo!
 Bom gente, é isso!
Agradeço de novo e desejo uma semana maravilhosa, um resto de ano perfeito e uma vida alegremente proveitosa!
Abração e, fiquem com Deus!


Jóqueis de Gigantes.

A mão de dedos gordos mediu em palmos o couro de pônei, o aparou na forma aproximada e a deitou sobre sua tábua de descarnar. Apanhou o cutelo de duas mãos e pôs se a lasquear a superfície peluda deixando a pele malhada lisa como pedia o trabalho.
Preparou a armação e a cobriu com a peça ainda úmida, cortou abas de sola, e o assento de estopa colada ao couro cozido e os juntaram todos ao suador costurado com linha bem resistente e o que se formou foi um belo arreio envernizado.
Seu dono já o esperava para a prova, sua expectativa se viu satisfeita e as moedas mudaram de mãos alegremente.
Somed cruzou o pátio sorrindo e apresentando a peça às filhas, mas não se deteve em comentários ou elogios; queria vesti-la nos lombos de Burei!
-Onde está você?- Pela inflexão da voz já podia se saber o que desejava e o rapaz logo se aproximou despindo a blusa pesada e se encurvou para receber baixeiro e sela.
-Olha como o látego e as barrigueiras são excelentes! Dão um arrocho perfeito!-O gigante se voltou à ver o que se passava sobre suas costas e sorriu satisfeito com o presente tão bonito.
Somed pisou o estribo e passou uma das pernas sobre anca preparada , segurou no punho do colar com muita posse e ao dizer: Vamos! A mulherada da casa sorriu e bateu muitas palmas.
Andaram por hora e meia nos lugares mais acidentados da propriedade, vez por outra parando e hidratando o homem sob suas cochas com o cantil que carregava ao lado.
Batia-lhe nos ombros dolorosamente, ou nos braços e cabeça quando teimava um caminho não indicado.
-São às vezes bestas mais imbecis do que qualquer eqüino!-Dizia sempre aos que participavam de seus gostos.
-És muito estúpido Burei; mas sua resistência e força me farão ganhar a “Corrida dos Gigantes” muito facilmente! Voltemos para que Balid possa o alimentar, e então repouse uma ou duas horas antes de continuar seu serviço!
O monstro de quase 1,80 de estatura inclinou a cabeça em satisfação, e logo arriscou um agradecimento:
-Ooo-Biaaadu!
Somed sorriu de satisfação ao notar ser possível resgatar o dinheiro de seu investimento tão cedo!
Das fazendas de gigantes saíam as mais admiráveis crias, melhoradas através de alimentação adequada às matrizes, seleção de espécies mais robustas e resistentes, e parteiras que soubessem calcular bem o momento de deixar que o filhote respire, para que o dano cerebral não o incapacite além das faculdades intelectuais desnecessárias, e com tais prejuízos calculados podiam desempenhar atividades além de sua função de corredor.
As matrizes haviam sido obtidas dos povos do sul, selecionadas pelos quadris largos de boas parideiras, pelos seios poderosos no aleitamento, e fertilidade sobrecomum.
Os reprodutores vinham dos povos gigantes e deles se pediam que tivessem um padrão médio de 1,77 metros (alguns diziam ser exagerado dimensões tão imensas e apostavam nos grandes de 1,65 metros como suficientes à uma carga de geralmente 70 ou oitenta centímetros e 25 quilos), pernas e colunas resistentes.
Todo este processo era dispendioso, pois empregava instalações com adaptações para estes tipos de animais muito custosas, cuidadores, parteiras, adestradores; e as dificuldades em se acertar o tempo ideal para o “fôlego” levavam a produção à uma escala pequena e perdas consideráveis, onde por ano nasciam pouco mais de 1.030 gigantes, dos quais 1% tinha o dano neurológico e compleições físicas ideais.
 Estes eram vencedores;  vencedores caríssimos!
No dia da “Lua gigante” Somed calçou as luvas de pele de castor, olhou para as mãos e concordou consigo mesmo de que haviam ficado perfeitas, mirou-se no espelho de cobre para acertar o resto da indumentária de cavalgada, subiu a calça e arrochou um pouco mais o cinto; passou as mãos pela camisa e aplanou as rugas, se dando por muito satisfeito.
Pela janela as moças se riam dos calções curtos e cabelos emaranhados de Burei. Seu corpo forte se virou e elas apontaram simultaneamente a marcação de posse de seu pai no flanco direito. Era a figura de um homem alado do qual o pai destas havia jurado ter lhe aparecido em sua juventude e dito que fosse gentil com seus irmãos.
Haviam ainda as marcas de rasgos feitos provavelmente por armações que haviam vazado os suadores, estas chegavam a comover algumas das donzelas.
A corrida daquele ano seria na floresta de Podag ao caminho de três dias, então o pai gritou que apanhassem logo o que lhes era necessário e tomou ele mesmo seu alforje preparado, e partiram.
Somed e sua família foram na carroça principal, seguido por Balid, seu mordomo e Sihaf seu filho e a última delas levavam forragem para os jumentos e Burei.
Vencido o caminho procuraram lugar para se estabelecerem naquela cidade de tendas, e não achando nada melhor montaram acampamento próximo ao brejo de Anv.
Somed sorriu novamente, era um homem alegre e sua vitória com certeza seria o melhor consolo, e sua posição geográfica em lugar inferior ainda serviria pra dar maior valor ao feito.
À noite, quando foram acesas as fogueiras cada clã deitavam suas carnes ao fogo e ofertavam pedaços fartos em demonstração de amizade, e se confraternizavam desejando lhes uma boa corrida uns aos outros e dançavam como um único povo.
Somed comeu o necessário, dançou muito pouco e se retirou para descansar bem cedo; eles que se empanturrassem, embriagassem e se cansassem sozinhos, ele havia vindo pela competição e as muitas peças que lhe acresceriam a fortuna.
Pela manhã os competidores se arranjavam atrás da linha rubra, uns pareciam bem, outros nem tanto e até algumas montarias receberam golfadas de vômito quente às costas e à outros a desistência desonrosa veio através de disenterias.
A floresta densa se erguia com uma falta de iluminação e obstáculos naturais que tornariam a corrida bem desagradável e perigosa; haviam charcos, insetos e alimárias intimidadoras, e era esta dificuldade e a falta de trilhas ou caminhos artificiais o fator decisivo da escolha do lugar.
O sol castigava tanto montador quanto montaria, e filetes de suor escorriam do dorso de todos, e os gigantes se agitavam sob as selas e eram acalmados por palavras de afeto e chicotes curtos. O astro então lançou seus raios mais fortes e os homens e suas bestas se moveram rápidos para o caos verde.
Mulheres e crianças gritavam em apoio ao seu favorito, apostadores faziam seus cálculos e outros espectadores assistiram o suficiente e se foram para aprontar sua partida para o outro lado da floresta.
Os primeiros metros vencidos pareceram mais fáceis do que presumia, mas já não avistava qualquer competidor; cada qual havia escolhido seu caminho por critérios de inclinação do solo, densidade de vegetação, claridade, etc.; e Somed observou o desempenho do gigante por um tempo de intervalo de hidratação ainda maior do que o costumeiro e notou que apesar da força da criatura seus lábios haviam se secado e ele o ouvia ofegar um pouco mais alto.
Desmontou-o e lhe ofereceu água; não deixou que bebesse muito para que não tivessem que parar para urinar. Estivesse chovendo diria que se aliviasse em seus calções mesmo, mas num tempo seco logo a uréia lhe irritaria a virilha.
A água o fizera muito bem e Burei corria mais disposto saltando troncos e abrindo caminho na folhagem com as mãos inquietas e virando se a cada tempo ouvia direção que deviam tomar.
 Escurecera muito naquele trecho, e vendo um terreno úmido deduziu que se transformaria em alguns metros num pântano, então puxou o punho do colar para a esquerda e quis rumar para o seco, mas Burei se recusou.
Forçou lhe o pescoço até que o viu estalar, e o moço balbuciava:
-Páaaaaaa-láaaaaaa, ai nãuuuuuum, páaaaaaaa láaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!
-Falta-me que tenha que descer de suas costas e assuma seu lugar para que rume para onde deseja!Você, não eu é a besta, então me obedeça!- Açoitou-o com o cabo do chicote e viu escorrer um largo filete de sangue próximo à têmpora.
-Juro que após a corrida, vencendo ou não eu lançarei aos cães!-Bateu novamente onde havia o ferido e venceu sua resistência.
Burei correu ainda mais depressa, Somed se deu por satisfeito pela velocidade e obediência e fixava bem os olhos para tentar vencer as trevas, e nos lugares mais densos inclinava um pouco a cabeça e percebia uma luz aqui, ou ali e ao gritar: Esquerda verme! Uma ponta de galho alto lhe feriu o lado e ele com o sangue vertendo sem controle pelo rasgo e o corpo miúdo rompeu gravetos e folhagens no solo.
O rebuliço e a leveza de suas costas levaram Burei ao susto, e voltando se para encontrar seu cavalgador e apalpando os espaços encontrou a viscosidade que o levou ao corpo.
Mexeu-o como podia, gritou, mas a resposta única foi a respiração alta e uma umidade crescente do flanco.
-Mooooooooooorrrrrrrrrrrrrrrrrreeeeeeeeeeeeee, morrrrrrrrrrrrreeee naaaaaauuuuuuuummmmmmm. -Repetiu a construção até que notou que a fórmula não ergueu o homem, então tomou o cantil e o tateou-lhe a boca, forçou o gole, e despejou o resto no lugar do sangue.
Despiu seu aparato e tomou seu senhor nos braços e seguiu o sentido contrário correndo com toda a força de suas pernas até a terra molhada e então seguiu o caminho em que teimara.
A vegetação parecia se lançar contra o corpo  as correias da sandália se partiram e a boca era só secura.
Os cinco tempos do caminho estimados se encolheram em três, e na pouca luz que enfrentava a mata viu o contorno dos apostadores que conferiam a chegada para impedir trapaças.
Avançou até que se fez visto de todos os que aguardavam, correu os olhos para achar quem recolhesse o enfermo, mas desfaleceu sem encontrar rosto familiar.
Os parentes acabaram por encontrar os dois corpos, e prantearam nos como iguais ao lhes serem narrados os esforços de Burei, que morrera de exaustão carregando um corpo que se esvaziara de sua alma minutos depois do impacto.
-Morreu como um homem!-Foi o que disseram todos, e lhe sepultaram como homem; e logo se perguntavam qual seria a fórmula para se construir montarias tão dedicadas!

Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Frágeis Existências 2°Capítulo.

Se uma seca persistente e contos de fadas esvaziaram as cinco cidades houveram incrédulos espoliadores arranjados em caravanas vasculhando cada casa, ou estrutura pública em busca de metais e rezes esquecidas ou deixadas pela pressa; e com um número de valores encontrados muito baixos para um esforço de uma caminhada de quarenta e três dias da mais próxima cidade, trilhas e estradas foram sendo engolidas pela vegetação e esquecidas por ambição frustrada.
-Ainda deve se encontrar prata nos nichos, os Ghatarin eram muito religiosos!
-Nokal disse que varreram todos os espaços, e tudo que encontraram foram alguns cães magros, dos quais deram um fim por pura piedade.
-Acredito agora que aquela cidade abrigava fantasmas à tempos, e o que se deu por último foi a diáspora daqueles que desistiram de suas vidas por conversa fiada!
-Mudeb cometeu sacrilégio urinando nos pés do totem de Pedil, disse ser uma oferenda pelas terras secas daquele lugar; nós nos rimos das afrontas inventadas por outros da caravana, mas minha memória me pregou uma peça agora me escondendo as lembranças do que me contou.
-Cuidado, os deuses podem se vingar- Provocou Laim já com um riso solto nos lábios.
-Deuses que lançam sortilégios e não impedem misérias nem são dignos de menção, e eu os vejo sendo apagados das mentes dos cultua dores logo que outra praga se abata sobre tais tolos!
 Os pés, animados pelas conversas afastavam a lama enquanto enxadas recortavam a terra, e de tempos em tempos os trabalhadores molhavam as vestes para aliviar o calor.
-Olhem!Nuvens pesadas pairam sobre as matas de Tusseq!
-Logo nos alcançará a chuvarada, e talvez nos voltem os vizinhos e suas belas filhas!- Houveram abraços de congratulação e alívio pela previsão do fim da carestia, e novas anedotas foram contadas em afronta à memória dos deuses.
O dia de serviço foi encerrado pela euforia daquela espera, e cada qual se abrigou em sua casa e se postou às janelas  sentindo as carícias agressivas do vento forte, mas uns poucos  imprudentes corriam com o peito nu chamando chuva.
-Sai daí Hotai! Não vês que vai se molhar?-Gritou a adolescente ao amigo que cambaleava entre as árvores.
-Não! Hoje me molho nesta chuva, e recomendo que vista algum trapo velho e me acompanhe nesta alegria!
-Nem pense nisto, minha mãe me rasgaria os lombos no látego!-E ela riu tão alto quanto lhes permitiam os pulmões.
Trovoadas e relâmpagos não demoraram em acompanhar a ventania, um leve temor fechou não poucas janelas; e fora das casas os cães se agitavam em uivos e ganidos angustiados.
-Cale-se Aufed!São os sons da mais bendita chuva!-Ralhou uma velha de cor, mas nem este, ou outro qualquer se recolheu às suas casinhas, e os urros aumentados passaram a ser incomodo e irritação aos seus donos.
As horas e expectativa aguçaram os ouvidos, e pelas frestas das construções eles viram nuvens negras navegarem baixas o céu, e muitos raios estalavam próximos e perigosos e já não havia quem desafiasse os poderes climáticos.
A noite adensou ainda a ventania trazendo um ar sufocante e no horizonte trevoso começou a se erguer uma luminosidade rubra, provavelmente filha das descargas circundantes, e o brilho crescia devorando as securas orgânicas da paisagem, e os confinados torciam por uma precipitação volumosa para lhes salvar os campos.
Era um cenário vermelho e negro, inquieto pelas movimentações invisíveis que lançavam-lhes poeira e fumaça, e o medo velado de forças sinistras os guardaram seguros em suas casas até o brilhar do dia seguinte.
A porta de Dreh-Moga foi açoitada oito vezes antes que atendesse; demorara não por sono ou preguiça, mas por se encontrar despido e certo de que a queima havia alcançado os campos de seu contratante; o que lhe garantia uma satisfação vingativa e alguns dias de folga.
-Quem me incomoda?
-Está atrasado para o serviço, vim aqui o escoltar ou convencer a cumprir suas obrigações.
-Me encontro enfermo, por isso não compareci nos campos férteis.
-Deixa me ver-te a aparência para que me convença de sua enfermidade!
-É contagioso!
-Não te creio, canalha!-O pé explodiu na porta frágil, e o sangue fugiu das faces do ameaçado.
Sua mão parecia ter ao menos oito dedos, e eles comprimiram o pescoço até que as lágrimas não puderam ser contidas; então o jogou como um boneco de pano no chão batido da sala; e ao recobrar o alento ousou se erguer sobre seus pés, mas o punho forte o curvou com um soco no estômago.
-Cof!Cof!Cof! Para de bater que vou! Por favor!
-O dinheiro do arrendamento pago aos anciões deve ser recobrado, e o lucro parece agora muito distante naquelas terras consumidas de fogo.
-Com certeza os anciões devolverão o dinheiro ao chefe Pudup; ou o prejuízo o levará a vender outra filha à escravidão para se recobrar...
-Não me interessam seus discursos, só vim o animar à trabalhar, vista suas camisas apanhe suas ferramentas; não o esperarei, pois tenho que despertar outros espertinhos!
Quando Dre-Moga se aproximou de seu lote de trabalho três dos outros empregados debruçavam-se sobre um corpo enegrecido de fuligem; um descarnava entregava-o ao outro para a salga, último separava outras carcaças úteis.
-Este não serve!-O sangue havia se coagulado em um tom muito escuro, e a carne fora quase de toda consumida.
-Veja!Parece que Dreh finalmente recebeu o salário de sua vadiagem!-As mãos correram às bocas tentando calar a gargalhada, mas a satisfação de ver aquela cara, que era quase sempre deboche,agora transtornada não pedia discrição alguma.
-Queria os lembrar que esta tempestade dobrou-lhes o trabalho, mas não o pecúnio!-Piscou um olho e desceu das costas a enxada de cobre já se defendendo de mais uma possível agressão, mas esta não veio. Eles esperariam outra forra do destino por mais este seu orgulho enquanto se deliciavam com os grandes hematomas tão à vista nos olhos e bochechas do inimigo.
O dia cheirava à queimado, e Podub só achou aquele recalcitrante no seu declinar. Ele se aproximou do monte de terra da vala sanitária e vinte metros antes já cuspia seus insultos como de costume.
Dre-Moga não prestou atenção no discurso, só se desculpou meio desanimado por sua farsa e preguiça e jurou ser mais cuidadoso com horários e dias úteis.
O homem alto e encurvado, com cabelos ensebados de aloe e roupas extravagantes falou por intermináveis nove minutos e se foi sem que Dreh tivesse idéia do resultado do monólogo e quando resolveu terminar o expediente furtou alguns filés de lebre e se foi para ao menos um jantar decente.
-Espero que esta sociedade miserável desapareça com sua avareza e ganância. -Olhou para a banda leste e um arrepio lhe eriçou os pelos da nuca.

Continua...
Anderson Dias Cardoso.

domingo, 2 de outubro de 2011

Frágeis Existências.

-Não deviam ter queimado os livros e as profecias na Festa da Fartura; essa confiança temerária já secou as terras em volta e já amarelou nossas pastagens! Não tivessem os outros aceitado as palavras da velha louca e partido para o norte já se haveria deflagrado uma guerra entre vizinhos pela posse de nossos mananciais e campos!
-Cale-se companheiro, as águas ainda correm vigorosas e as novas valas de irrigação devem alcançar e sanar os locais áridos e ainda teremos espaço para expandir nossas culturas!
-Mas as profecias...?
-Um freqüentador de taverna não deveria se preocupar tanto com sua alma desde que haja caneca cheia bem segura entre seus dedos; entorne o liquido à boca e deixe que os religiosos realizem seu ofício por nós pecadores!- A voz de Matul se alteou para compartilhar o chiste com todos os bebedores, e a intensidade da gargalhada e a alegria da bebida desencadearam um riso que se reavivava com comentários não deixando morrer a graça. Foi uma noite agradável, e Puneb resolveu-se por trocar seu temor por mais bebida e logo descansou em sua cama com um sono vazio de sonhos e de poucos movimentos.
Samug ajeitou um pouco de lenha ao fundo do trenó, já era velho e não apreciava esforços e não projetava sua vida para além de mais alguns dias; era assim desde uns vinte e cinco anos, pessimista e preguiçoso.
-Noram, pegue ainda aquele graveto fino logo ali e venha, pois ainda tens que me prepara meu guisado!- Os dedos amarelados de tabaco apontavam uma peça de oito centímetros e de casca solta, ótima para seu propósito de iniciar uma chama.
Ele era um ótimo acendedor de fogões, talvez sua única habilidade e prazer.
A garotinha contava nove anos e era bem o oposto do pai, era o fruto de sua velhice e presente deixado por uma mãe também muito nova a qual se resolveu por procurar um mantenedor mais ativo e provido na terra de IPas. Ele a amava pela presteza em lhe fazer o que mandava.
A garotinha correu com fôlego preso na direção indicada pela ordem, estava contente como em todos os dias de sua vida e então se abaixou para cumprir a última tarefa no campo.
-Ahhhh!Pai, uma aranha!- O terror a levou ao colo do pai, que contrafeito a ergueu do solo com um esforço indesejado.
-Desça que eu já a esmago, Noram!-A garotinha se agarrou inda mais ao colo, e o pai andou dificultosamente até o ponto da fuga e ao revirar as folhagens com seu cajado viu se deslocar um enorme ser de quase um palmo com suas pernas vermelhas com dobras amarelas.
-Nunca vi uma destas!
-Mata ela papai!- Os olhinhos se cerraram dolorosamente e o corpo vibrava seu medo.
A criatura se comprimiu contra o chão, ameaçando o bote, mas o homem a esmagou primeiro.
Enrolou-a em seu lenço, sem se preocupar muito com o muco residual de seu último resfriado, resolveu-se dai por alongar seu percurso até o centro, à praça onde se encontravam ricos sabidos para lhes interrogar a respeito de sua descoberta.
As estradas andavam mais poeirentas nestes últimos anos então a garotinha sempre corria à frente do trenó evitando as partículas sufocantes, apanhava algumas flores e improvisava um ramalhete perfumado para se distrair. Ela nunca se cansava de caminhadas longas e aquela durou ao menos uma hora e meia.
A praça fresca foi o alívio para pai e filha, assim como o era para todos os ociosos da cidade que vinham se esconder do calor sob as imensas árvores moldadas de Obter, das quais eram sobrepostas e encaixadas para absorver o calor e luminosidade excessivas num raio de um quilômetro e meio, e sob tais sombras eram discutidas políticas locais, se liam pergaminhos e deixavam soltas as crianças para que se divertissem.
-Não, meu caro Samug, esta com certeza não pertence à região! Não tivesse a esmagado tanto eu a compraria para guardar nos meus óleos conservantes!
-Dalu, realmente és doente!-Emendou um barbudo de boca assustadoramente grande, recebendo um coro de aprovação de toda a multidão. -Ela deve ter vindo das Matas Densas; e não conheço caçador corajoso algum que me busque uma destas para minha coleção... E quanto aos meus gostos, conheço o segredo de muitos de vocês e afirmo que este meu é brincadeira das mais inocentes!- Alguns riram, outros se engasgaram e uma porção grande fugiu do comentário de Dalu.
-Vejo que acreditam que digo a verdade!Ha!Ha!Ha!
-Boleg e eu encontramos um antílope de três chifres das regiões baixas nos limites da cidade, acredito que a seca tem os trazido para cá. Sevis, o peregrino disse que a terra está morrendo desde suas bordas e esta morte ameaça nos encontrar aqui, neste planalto fértil!
-Mais uma loucura desse maltrapilho!Os rios são fartos e as chuvas já estão chegando nos próximos meses; não há motivo para se amedrontar por uma seca de um ou alguns anos quando a natureza nunca nos falhou desde nossos antepassados.
-... Mas as profecias?-Tentou novamente Utud.
-Junte seus profetas ao louco andante!
As observações de Dalu ofendiam a crença de muitos, e agressividade e deboches com que as expunha irritava à todos, mas suas dimensões intimidavam quase todos; não à  Utud.
Ele saltou agarrando as barbas volumosas e lançando o punho esquerdo no olho direito de Dalu. Dos que os cercavam nem uma mão se levantou em favor do agredido até que reagiu e agarrou o pescoço do homem franzino.
Todos se esforçaram em livrá-lo daquelas mãos poderosas, e logo eram duas multidões, uma contendo a outra defendendo, e  as palavras apaziguadoras levaram cada qual à sua casa.
-Parabéns Utud, eu mesmo queria ter feito isso!-Foi o cumprimento mais ouvido naquele dia.
-Eu acredito nas profecias- Foi a resposta à todos eles.

Continua...
Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Vidas à Venda e Valores Relativos.

A fachada amarela descascada do cômodo mínimo surpreendia menos que o movimento do comércio, então se via alguns pobres e mendigos saírem sorridentes enfiando algo no fundo bolso.
Ela agarrou forte o anel e pela placa conferiu novamente a modalidade de negócios do lugar e só depois de oito minutos se atreveu se livrar do objeto caro.
 Não havia apego, somente pena.
O ambiente cheirava à fumo, e o balcão desafiava ao furto quem não apreciasse riscos e permaneceu vazio; com caixa registradora e objetos estranhos até que soou o terceiro e mais forte berro clamando atendimento.
O homem magro, de aparência marroquina e camisas de todo abotoadas lhe apareceu sorrindo uma boca triste, deficiente de dentes e oferecendo um pouco de mau-humor como recepção.
-Você quer...?
-Disseram que paga mais do que outros por jóias.
-Pago pela qualidade.
-Tenho um anel dinástico, pesado e de boa figura!
-Há quanto tempo o tem em posse?
-O descobri num cofre à dois dias... É o que restou de uma divisão de herança para uma família imensa.
Ele estendeu a mão e tomou a peça  com certa rudeza.
-Venda-o à outro.
-Preciso de dinheiro, e a peça é boa.
-Boa tarde.
-Vendo-a pela metade do preço, preciso de passagens para terras mais tranqüilas, distantes de memórias...
-Matéria sem alma não me apraz.
-Então o que compra dos miseráveis que se postam à sua porta.
-Sentimentos e apegos. Pago caro pelo que mais prezam.
-Por quê?
-Pelo prazer de possuir a maior importância de muitos.
-Para mim matéria é só matéria, com seu peso e valor de mercado...
-Para outros são pedaços d’alma.
-Se se vendem tão barato qual a causa dos sorrisos ao saírem?
-O imediatismo os consola dizendo terem feito um bom negócio.
-Mas a consciência os acusa quando são saciados os desejos e necessidades!
-Esta é a delícia do negócio!Compro barato suas primícias  e os vejo contorcerem em seus remorsos, mas suas abstinências e cobiças sempre os trazem novamente aos meus cuidados!
Esta é minha dupla recompensa!
-Mas... Por quê???- A voz gritada fez recuar com susto o interlocutor, mas a retribuição da afronta foi um sorriso.
-Alguns desejos não pedem explicações.
-Eis que entra outro freguês, e meu dinheiro quase me salta do bolso solícito para satisfazê-lo! –O Homem se adiantou à tomar um velho e descascado calhambeque de brinquedo da mão do miserável enquanto depositava notas graúdas na outra; mas os olhos foram surpresos pelo movimento da garota que tomava-lhe a peça da mão e o devolvia o dinheiro .
O pobre recuou um passo, e ela segurou-lhe o braço e lhe pôs o brinquedo e a pesada jóia na palma e o deixou evitando constrangimento; aquela alforria não necessitava palavra ou gratidão.


Anderson Dias Cardoso.

domingo, 25 de setembro de 2011

O Repentista.

Falhou no repente e caiu em desgraça; disseram-lhe ser feitiço o que lhe paralisou na boca o verbo!
Chamou outra rima e o próprio adversário se juntou à platéia esperando superação, mas o que veio foi choro e sua vitória foi o sabor da indignidade.
O homem fugiu das rodas dos cantantes e só ousou erguer a voz sozinho e com letra em mãos.
Andava seguindo conselhos, e banhou-se em água de ervas e sal grosso, atou um patuá e pediu proteção aos guias.
Mãe Rita julgou ser mau-olhado, e ele comprou cesta e deitou a gorda galinha, farofa, mel e aguardente, mas o trabalho não lhe devolveu o improviso; antes, o passado ia se evadindo e a vida se tornando pauta branca e sem ritmo.
E assim se deu, até que os seus olhos apagaram seu brilho; ele já não sabia quem era e novamente a dor dos circundantes foi maior do que a sua.

Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Os Lobos.


Pezinhos sonolentos deslizando no carpete fofo, e com um salto a garotinha alcança aquele platô acochado e se mete debaixo de pesados cobertores macios.
O cheiro de roupa de cama limpa é a delicia de suas narinas, e a boneca de pano já se encostava ao travesseiro adjacente se preparando para também se divertir com histórias de ninar.
A porta se abre silenciosa, e uma luz mais sólida que a do abajur que invade o quarto é rompida pela sombra amistosa; logo a dona do livro beija-lhe a testa, cobre-a ainda melhor, e só ai aconchegou se num canto da cama.
A história era a sua preferida, e ela se via vestida daquele vivo capuz vermelho correndo teimosamente por atalhos contra-indicados carregando a pesada cesta de agrados à vovozinha.
As mãozinhas se contraiam quando a mãe anunciava a presença do malvado lobo e o coração seguia o compasso dos passos do monstro, mas fosse a tal menina ela correria ainda mais, e sabedora das tramas se livraria, e vovozinha alguma seria banquete da fera oportunista!
Depois de devorada a velhinha a tensão se concentrava no embate entre as principais personagens, e a garotinha deixava transparecer ódio e sentimento de vingança que ao clímax; onde a invasão do lenhador e a extração sanguinária da senhorinha era extravasada em risos e palmas.
Com peito ofegante, e delicados filetes de suor perfumado descendo desde a cabeleira agora emaranhada ela se joga no abraço materno, saudando-a como co-participante da vitória de tão dignas personagens.
A euforia foi interrompida por uma questão que lhe veio à boca tão rapidamente que teve que ser repetida mais calmamente para que pudesse ser esclarecida.
-Mamãe... O que é um lobo?
-É um monstro malvado!
-Eles são muito maus, né mamãe?
-Sim... São todos lobos maus...
O sono a surpreendeu ainda com sorriso nos lábios, e se foi o travesseiro que a sufocou ou se a motivação do crime foi vingança pelos ciúmes de um marido infiel.Não houve tempo para rancor; ela mesma agora era parte de uma história à ser contada.
 

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 18 de setembro de 2011

Versões do Filme.

Agora encarnava um encanador apaixonado, mas já fora samurai, alienígena e imperador em seus papéis mais importantes; dos coadjuvantes e figurações nem fazia menção.
Foram daqueles períodos de bebedeiras, degradação não dignas de sua estrela, e que provavelmente seriam apagadas de seu passado por assessores de relações publicas.
No coquetel de encerramento das filmagens já cogitavam que pleitearia um Oscar na próxima premiação, mas isso não era surpresa para aquele talento.
As boas perspectivas se concretizaram na estréia, e nos concursos e bilheterias notáveis e o herói se movia em múltiplos universos midiáticos como ator definitivo.
Na vida, nenhuma novidade além daquele boato à seu respeito que esfacelou também a monotonia da internet e que dizia absurdos, dos quais seu uso e dependência de psicotrópicos.
Ele se riu; realmente havia abusado de bebidas e cigarro, porém sempre considerou as drogas uma prisão forte e desnecessária. Boatos às vezes o divertiam, além de manter sua figura lembrada.
Com as semanas a imagem de bom moço, cuidadosamente cultivada parecia frágil à novas investidas de criadores de ficção e vários compromissos e participações foram desmarcadas, com desculpas incoerentes; ele as aceitou, e se prometeu nunca mais aceitar-lhes qualquer convite.
Naquele dia os blogs o casaram com uma filipina misteriosa, em uma cerimônia secreta em um lugar oculto logo após se decidir por procurar se reabilitar em uma clinica sueca e em uma semana havia recuperado dois dos nove quilos perdidos e projetava uma prole mínima de cinco pimpolhos.
Era ridícula aquela vida paralela, fantasiada. Ele se recusou à responder cada acusação e desmentir toda fofoca mas aceitou a idéia e itinerário de uma daquelas mentiras.
Perdeu os oito quilos excedentes em um SPA sueco; a única verdade daqueles dias.
Sua mente se apaziguou totalmente quando preferiu revistas velhas e clássicos literários ao invés de televisão.
Um mês inteiro desta calma lhe saturou os sentimentos, e ele se resolveu por voltar à agitação de sua vida célebre.
Encontrou alguns narizes torcidos logo no desembarque, e massivas demonstrações de repulsa em toda parte.
Quando procurou por seus pares a empatia havia desaparecido em meio à conversas mornas e risos nervosos.
Descobriu, por terceiros que havia tentado forçar uma menor na mesma clinica em que se tratava e comprara o silêncio e deportação ao invés de detenção, a esposa havia reclamado de sua conduta e contratou advogados para resolver-lhe o litígio.
Debitaram-lhe ainda tais acréscimos: Perdas imensas no mercado imobiliário, uma filha bastarda com uma porto-riquenha, aquisição de um cavalo árabe para pratica de esportes, negação de propostas de candidatura para deputado pelo Texas e ainda outros tantos boatos que entretecidos cobririam ao menos oito anos de vida.
A noite daquele dia de leitura se alongou num tormento insone, e ele tentou vários telefonemas na madrugada para desfazer os comentários em algum programa.
As agendas programáticas cheias, o horário incômodo e sua influência diminuída contribuíram para a não resolução das farsas, e a solução foi desmentir nos principais blogs sua vida criada e ameaçar com processos quantos outros episódios nascentes.
Descobriu, fora do universo virtual, que suas poucas amizades se recusavam ser associadas à ele de qualquer forma, assim como os estúdios. Felizmente restava o dinheiro e imóveis; mas eles foram sendo dissipados pelo estilo de vida perdulário e acessos consumistas puramente emocionais.
O tempo apagou-lhe a centelha televisiva quase de todo, e suas muitas vidas se fundiram em uma biografia aberta virtual e os escândalos se restringiam quase totalmente à web.
Ainda volumosos esses movimentos de construção e desconstrução da imagem do ator na rede davam um bom dinheiro aos blogs sensacionalistas; e num apartamento aconchegante, mobiliado com peças discretas, ele acrescia seu próprio mito, vencido pela mentira ganhava a vida se interpretando de uma outra forma.


Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O Engraxate.

Acomodamo-nos próximos à porta; em lugar fresco, tentávamos adiantar o tempo para a aula em conversas comida e bebida.
O coreto em frente, a rua ao lado e a própria lanchonete eram vivos como um dia de sábado e eu notava um pouco de tudo e ainda me fixava nas banalidades ditas.
A barriga cheia e tempo ainda sobrando tendíamos em rematá-lo naqueles bancos duros, em silêncio, notando os fluxos e gestos do mundo ao redor.
Um garoto imundo rompeu nossa monotonia cruzando o portal; caixa de madeira enganchada no ombro esquerdo, levava seus petrechos e misérias ainda com porte digno.
-Moço, tenho fome... Pode me pagar um salgado?
-Claro, sirva-se!-A fome era coisa que me incomodava como uma afronta da indiferença, e eu observei o jovem se aproximar do balcão e pedir um pão de queijo.
Chocou-me sua humildade ao ver pegar o mais barato alimento da estufa, e eu me vi dizendo que pegasse um cachorro quente, ou o que lhe apetecesse, pois meu dinheiro era muito curto, mas bastava para lhe melhorar o paladar.
Ele pegou humilde um cachorro-quente, agradeceu com um sorriso e desceu os três degraus para a rua, foi quando se achegou um outro faminto e ele dividiu ao meio o que havia ganhado e ambos se foram.
A surpresa daquela misericórdia me prendeu ao banco, e de lá não me movi até que o garoto se desfizesse no emaranhado humano.
Queria ter ofertado um pouco mais deste meu pouco, mas a bondade alheia às vezes choca, escandaliza, paralisa...


Anderson Dias Cardoso.

sábado, 10 de setembro de 2011

O Avesso de Kafka.


á havia notado mudanças e escamações discretas, higiene deficiente e preferências alimentares exoticamente repulsivas. Seus odores me eram agora estranhos e passei a repelí-los ainda com coração doente de remorso.
Das tarefas domesticas antes feitas por outrem; mas que me diziam respeito, preferi executá-las por mim mesmo e passei a abusar de atos assépticos ostensivos, o que causava prantos escondidos e algumas confusões um tanto sentimentais.
Sentava-me à TV e seu reflexo me apresentava mais que a programação rotineira. Lá, no outro sofá se acomodavam três figuras desconfortáveis aos sentidos.
Vez em quando o ranger de suas articulações me causavam ojeriza, mas o afeto e a educação recebida me impediam a língua, e eu não protestava; contudo as atitudes submissas decorrentes de sua condição estranha eram recebidas com voz bruta, e às vezes palavrões.
Na cozinha salpicos de quitina forravam os pratos. Eu me recusava à comer e me voltava aos enlatados e biscoitos. Minha mãe chorava enquanto lhe restavam glândulas lacrimais; não por se enojar daquilo em que se transformara, mas pelas atitudes de seu primogênito.
Os cosméticos não salvaram a aparência de minha irmã, e pouco além de cremes aderiam à carapaça que se formava nas faces. Ela recortava rostos bonitos e os vestia para se consolar em sonhos, de sua monstruosidade.
O emprego de papai resistiu por algum tempo, por conta da piedade dos contratantes, mas outros contratados ameaçaram partir e ainda processar-lhes por fazê-los compartilhar um ambiente insalubre com um contaminado por uma doença desconhecida.
O fundo de garantia e o seguro nos ofereceram uns poucos dias de dignidade, mas ao nos apertar o orçamento eu já não ousava desperdiçar tostões com água sanitária ou produtos de limpeza.
Com a fome, a repulsa de um estômago fragilizado pelo vazio me levou ao ódio, e logo, ao conformismo e eu os via caminhar pela casa com indiferença.
Lhes servia as sobras mendigadas e lhes negava palavras.
Vez ou outra sentava no sofá vermelho carcomido, mãos ao queixo, notando os movimentos daqueles corpos chatos se arrastando pela sala poeirenta, e se se achegavam à mim os chutava levemente o dorso para que fossem se esconder embaixo de algum móvel.
 Conhecia-lhes bem e a contragosto todos seus hábitos imundos, mas não os lembrava sendo família.
No auge de minha angústia procurei por mudança. Me negaram emprego afirmando falta de qualificação, mas a verdade diziam de minhas relações familiares; então me mantive miserável por muito tempo, me submetendo à dieta de meus pais...
Fugi de casa... Me recusei a receber notícias
Hoje vivo de esgotos e suas pragas; conhecendo como poucos a psicologia dos insetos;  munido de preparados derivados de conhecimento de causa, realizo um serviço barato e eficiente, e na morte de cada um me pergunto quem estou matando; se mamãe, papai ou minha irmã.

Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Progeria.


Enlaçado ao braço e cheio de orgulho desfilava a nova namorada aos próximos e desconhecidos.
Uns olhos dançavam de canto à canto de suas órbitas, entre fofoca e observação, outros permaneciam estáticos como sorvedouros de surpresas.  Diferenças de idade nunca foram socialmente bem aceitas.
As roupas dele eram discretas, ela vestia uma juventude colorida para disfarçar muitas rugas, mas o efeito era tristemente inverso e eles se denunciavam como um casal estranho, destoante.
Ao andar pelas ruas disfarçavam a vergonha de sua diferença em conversas nervosamente animadas, e nos vácuos de passantes se lamentavam por não serem aceitos.
O namoro permanecia secreto aos entes, por conta dos mesmos efeitos experimentados pelos estranhos e aqueles passeios eram o laboratório para uma exposição de seus afetos, uma preparação para se assumirem aos seus pares.
A repulsa alheia não diminuiu ao longo dos dias, mas, acostumados à tais incômodos sentiam se mais confortáveis e seguros para demonstrarem afetos publicamente.
As mãos eram vistas freqüentemente atadas uma à outra, e as dele eram mais carinhosas, sempre tecendo afagos à face vincada, anteriores aos beijos apaixonados na delicada boca rugosa.
Agora a apresentava como um grande amor aonde iam, fazia soar confiante cada declaração de apreço e ela confirmava com voz infantil, tímida e sumida à círculos hipócritas que os saudavam e faziam votos de casamento; e se riam debochando dos dezenove anos desperdiçados do garoto com aquela simpática senhorinha ao verem que deixaram sua presença.
Eram o “escândalo” mais delicioso dos locais que freqüentavam.
Num dia frio arrancaram-na de um abraço. Eram três sujeitos parrudos e violentos, e ela gritou “Pai” ao mais baixo e ele ouviu ser gritado “minha irmã” da boca dos outros dois, e ainda “sem vergonha”, ”vagabundo”, ”pedófilo”, palavras entretecidas à socos e pontapés e outros insultos ignorados pela dor dos golpes.
Não a viu ser levada, seus olhos foram muito machucados.
O processo por pedofilia foi atenuado pela condição insólita do caso e rendeu o afastamento dos amantes e prestação de serviços comunitários ao jovem.
Eles se prometeram um ao outro e esperaram os quatro anos até a maioridade da velha menina, onde o poder da sujeição aos pais era menor.
Eles encontraram-se sem aprovação paterna, mas ainda sob outros tantos olhares desconfiados.
A doença havia consumido uns outros tantos anos da garota, mas o sentimento se conservava.
O beijo à boca enrugada trazia o gosto do amor verdadeiro, e isso os bastava.

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 4 de setembro de 2011

As Mães Sempre Esperam o Melhor.


O relógio havia avançado o suficiente para desesperar o coração de mãe, então contatou todos os amigos e ligou para a escola já vazia, e aumentou um pouco mais a angústia.
Visitou diversas vezes as janelas, depois, os portões.
Acendeu cigarros, velas, fez promessas, mas do garoto, nem rastro!
Sentou-se, levantou, consultou o relógio e a memória, mas nada se resolvia e o dia se encompridava numa agonia crescente.
Chamou a mãe, as três irmãs e a cunhada. O marido; aquele traste, não procuraria nada além de uma garrafa de aguardente e muito repouso.
Dividiram o bairro em quadras e encarregaram-nas de arranjar outros buscadores para o filho perdido.
Chamaram a policia, mas esta ainda era mais indolente que o pai do garoto e logo perderam a paciência ao preencher formulários e fornecer respostas e suposições:
-Nos dêem seus distintivos que resolvemos melhor que vocês!-A irritação da expectativa e os volumosos calos já lhas haviam consumido as paciências.
O tempo gasto foi bem menor do que a sensação de sua passagem, e seus corpos obesos pediram arrego com pouco mais de uma hora de procura, e a equipe se desfez e a mãe voltou para casa para chorar e esperar por uma sorte melhor.
Ela o esperou no sofá, sem forças para qualquer esforço. E o auge de sua tribulação veio quando a TV anunciou a morte de um garoto de onze anos, naquela região.
Ela ouviu que haviam sido quatro facadas e soluçou alto, desistiu de suas esperanças e se desfez numa letargia comovente.
A porta da cozinha se abriu timidamente, e ao verificar quem seria o invasor se deparou com um sorriso desconfiado de uma criança um pouco suja.
Ela o esmagou em um abraço que media em violência o tamanho de sua felicidade!
Ele disse que se demorou em alguma vadiagem com seu melhor amigo, mas ela agradecia sem perceber  à Deus que não tivesse sido ele o garoto morto e o fez prometer que nunca mais demoraria sem avisar.
Ele disse que sim.
Ela voltou-se aos seus afazeres e ele para seu quarto, ela terminava o almoço e ele guardava a faca manchada embaixo de seu colchão.

Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Freiras e Gatos.


Sempre haviam piedades nos corações dos donos de animais quando estes procriavam.
Eram a multiplicação de criaturinhas semelhantes à mãe, frágeis e delicadas, porém nunca previstas em orçamentos ou planejamentos espaciais, então eram oferecidas à quem as quisessem.
Nem todas eram acolhidas em um lar. Haviam as defeituosas, as sem atrativos estéticos, as miúdas que seguiam como um refugo pouco desejável.
As entidades envolvidas em adoções eram muito visadas, então a solução mais criativa era depositar “caixas de vida” às portas do convento.
A instituição não recebia nenhum nome inter-denominacional, e suas religiosas eram chamadas como outras tantas: Irmãs.
A regra era depositar os enjeitados na madrugada, em embrulhos tão discretos quanto a movimentação do descartante.
Havia certa solidariedade entre aqueles que tinham tal costume, pois com certeza as criaturinhas seriam muito bem tratadas pelas freiras, não havia motivo para culpas ou remorsos, então ao serem flagrados nestes pequenos delitos se faziam de inocentes e tal “inocência” era sempre presumida por aqueles que os surpreendiam.
Ele preparou sua caixa contendo cinco gatos magros; vestiu sua roupa mais escura e esperou a noite se adiantar até horários de pouco movimento. Seu caso era de pobreza e volume excessivo de animais de estimação.
Ele traçou seu percurso até a abadia em um roteiro marginal, discreto e de muitas sombras, e ao andar apressado por quinze minutos se encontrou aos portões daquele lugar sagrado.
Ele abaixou-se ternamente e depositou a caixa próximo à passagem, apanhou cada gatinho magro e se despediu com um beijo e algumas lágrimas.
-Eu os queria comigo, mas não tenho dinheiro e tenho que cuidar de sua mãe e irmãos... Elas cuidarão bem de vocês, vão ter comida, um lar e muito carinho junto a estas mulheres de Deus.
Os passos rápidos o levaram para longe daquele lugar, e os minutos se encarregaram em conformar o coração trazendo pensamentos bons à respeito da nova vida dos feios felinos.
-Eles terão um belo futuro!Deus abençoe aquelas almas caridosas cuidadoras destas indefesas criaturas- Foi breve e sincera oração.
A madrugada era fria porém Irmã Dulce se prontificou em enfrentar o sereno e descendo lentamente a escadaria tomou a caixa de gatos, brincou puxando de leve seus bigodes e cofiando lhes os pelos da cabeça, e ao adentrar no saguão gritou à Irmã Rosa que lhe ajeitasse água e temperos para o preparo daquele desjejum magro, porém saboroso!
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