domingo, 12 de junho de 2011

Os Três Porquinhos.


A ciranda foi rompida pelo corpo negro e as garras aduncas que rumavam em velocidade buscando os pescoços, e os porcos se distribuíram cada qual à sua casa, se escondendo da fome lupina!
A mais próxima e frágil moradia fora construída de palha pela preguiça de Cícero, e a porta não soou firme ao ser batida, e sua proteção lhe pareceu mais um artifício psicológico que uma fortaleza material para o gigante volume peludo que uivava ao redor.
As ameaças não trouxeram o “alimento” aos seus dentes, tão pouco o rosnar; então se resolveu por testar a fragilidade estrutural do esconderijo com o ar de seus possantes pulmões, e esta se desfez com tão pouca resistência que não pode deixar de se orgulhar! O porco se aproveitou da alegria e surpresa do predador e fugiu para se abrigar em uma cabana pouco mais reforçada.
Heitor questionou o amigo fugitivo  a respeito do Lobo, mas a resposta logo foi avistada e ambos se juntaram na tentativa de enxotar a criatura, mas ela se babava e afiava as garras na madeira da cabana.
O ritual de intimidação sonora, o cintilar dos olhos nas imperfeições da construção e logo as  patas começaram a forçar a porta, e o peso do corpo imenso envergou toda a parede, dando passagem àquela fome viva, mas os porcos já haviam deixado a casa pela janela tosca que nunca era notada quando fechada.
O Lobo se aproximou pouco confiante da estrutura da terceira casa, provou a rigidez das paredes de alvenaria e tentou mais alguns uivos, mas estes saíram roucos e menos assustadores. Se formava uma outra imagem da fera, já cansada, e convencida de sua falha em deixar que fugissem para lugar sólido, fora de suas possibilidades!
A conversa dos porcos se  animou na segurança da casa, e o Lobo era só uma silhueta no horizonte e as flautas encheram o ambiente, danças franziam os tapetes e desarrumavam o mobiliário!
Uma segunda roda de danças foi desfeita quando o terceiro porco olhou o relógio.
Os outros o inquiriram e ele disse:
-Eles são realmente pontuais!-Um furgão estacionou, e desceram figuras de macacões brancos.
A porta foi atendida com toda cortesia e depois das apresentações aqueles homens conduziram os dois porcos ao furgão sob as explicações de seu companheiro:
-É muito stressante para um porco passar por esse tipo de situação, e sinto ser necessário um acompanhamento psicológico além de um período de descanso em uma clínica de repouso para que esse infeliz episódio não lhes cause danos mais sérios!-Achegou se mais aos seus amigos.
Espero que esteja tudo conforme o combinado!Tudo conforme o alto valor que me cobraram!
-Tudo está perfeitamente preparado de acordo com o seu apreço aos seus caríssimos amigos!Acreditamos que sairão de lá inteiramente satisfeitos, e gratos por terem tão amoroso companheiro!
A despedida se deu entre abundante choro, e os abraços não puderam recompensar a bondade do terceiro porco, mas eram a única moeda disponível àquele tipo de situação!Beijaram se nas faces, e foram escoltados aos confortáveis bancos do furgão, enquanto um dos enfermeiros voltou à cumprimentar o terceiro porco.
Ao apertar-lhe o casco sorriu divertido e sacou um envelope pardo e o entregou:
-Essa é sua parte do dinheiro. Fiquei espantado com sua sutileza! A carne quase foi prejudicada pela tensão imposta pela trama, mas esse seu “cuidado e afeto” acabará por tranquilizar seus companheiros, e suas carnes continuarão tenras e saborosas!
-E quanto ao Lobo?
-Já acertei a parte que lhe cabia. Vinte por cento! Ele também fez um ótimo serviço!
-Realmente o trabalho dele convence!
-Assim como o seu!Um ótimo trabalho!
-Não é por isso que me chamam de Prático?-O porco gargalhou gostosamente.
-Quando tiver mais algum “amiguinho” em vista... - O “enfermeiro” deixou seu amigo porco ainda gargalhando e sumiu com o furgão do açougue levando sua saborosa e ingênua carga.

Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Nascido Produto.

Foi acordado que não seria dado um nome, mas atribuído uma marca à criança.
Era a vanguarda da publicidade!
Logo nasceu aquele pequeno produto, patrocinado desde o ventre pelo seu homônimo, tendo desde o parto às roupas e ainda a certidão de nascimento estigmatizadas pela grife, e era invejado pelo alto valor de mercado daquilo que representava!
Curiosamente a personalidade se desenvolveu segundo a proposta e a criança marca andava e se expunha nas ruas e revistas agregando espontaneidade humana ao comércio que a patrocinava e chegou a tumultuar com seu carisma todas as lojas obrigando a abertura de sucursais sazonais para suprir as demandas oportunistas.
A concorrência reagiu dando a luz à outra criança marca, e a guerra se expandiu e engoliu toda a sociedade; que resolveu-se por batizar sua prole segundo a marca de sua preferência, e novamente houve reação, desta vez inibitória, e processos relativos à direitos de marca e pouco a pouco as “nomenclaturas” foram retornando ao normal; aos Joãos e Josés.
Vez por outra as marcas se encontravam nas ruas e se olhavam com desprezo, e se mediam em seu terreno através do mercado de ações e aceitação popular; outras  crianças marcas  sofreram com as variações de popularidade e a morte de seus símbolos... Nesse caso as "etiquetas" foram substituídas por apelidos!
A adolescência veio com identidade própria e novas ideologias, e a descoberta de quase escravidão de funcionários em países subdesenvolvidos e outras imoralidades relativas à marca.
Foi vergonhoso demais para se considerar como uma logomarca humana conivente, então decidiu por se divorciar de seu nome, e assumiu uma atitude rebelde, e iconoclasta!
 Ele se drogou, roubou, matou e ao ver a deterioração de sua vida e imagem se negou a prestar esclarecimentos aos representantes de sua indústria espelho, e se deixou encontrar pelos jornais em uma sarjeta, como um maltrapilho traficante de drogas.
Ofereceu sua biografia em poucas páginas e muitas linhas de protesto!Disse se identificar com os explorados ao invés de seus patrícios, e anunciou sua luta e o nome messiânico que envergava agora, e pela força de suas expressões os repórteres julgaram ter conhecido um novo mártir de causas sem solução!
A história foi anotada, o menino marca faleceu de overdose num daqueles dias, e na publicação jornalística sua estampa não mencionou seu passado famoso e suas desilusões, e sua breve biografia omitiu a íntima relação com a famosa marca...

 Anderson Dias Cardoso.

domingo, 5 de junho de 2011

Livro dos Recordes.


Mirei minha mediocridade, feiúra e baixa estatura e notei que a fama estava longe de mim, num nicho de bizarrice bem comum nos dias atuais. Foi consultando o “Livro dos Recordes” que descobri possibilidades de me fazer notar, e dessas selecionei empolgado um feito para marcar minha existência e me empenhei de todo, e fiz com que outros se empenhassem da mesma forma!
Encerrei-me em minha casa e decidi não sair até “bater” o indiano “Nelson” em sua reclusão de 53 anos.
A família estranhou a meta, mas foi solidária ao meu sonho e me forneceu o necessário à conclusão do meu ideal, e ainda ponteou relacionamentos com fornecedores de maneira previdente, tratando da possibilidade de suas mortes como a interrupção de um sonho!
A morte realmente veio, e de 79 até 93 já havia ceifado meus pais e rompeu as relações próximas que muito me auxiliavam a acessar o “mundo exterior”; mas a Internet e celular chegaram em poucos anos e devido ao bom relacionamento estruturado pelos finados com açougueiros, padeiros e outros, me era garantida comida à porta!As contas eram pagas pela boa pensão deixada por meus pais.
Cada ano maior orgulho, e a solidão não era tão aguda quando se podia freqüentar salas de chat!
Utilizava-me dessa ferramenta, mas não comprometia minha identidade, pois temia chacotas e relacionamentos que pudessem me furtar de cumprir minha jornada.
O mundo nem me parecia um encanto, pois ao me informar nos noticiários, os males da humanidade sobrepujavam toda ordem e beleza dos poucos momentos amenos que ocupavam o resto daqueles programas. E quanto aos filmes... Eu sabia que não retratavam a realidade!
Nos momentos de ócio, entre os afazeres domésticos e outras atividades rotineiras comecei um diário onde registrava minhas memórias, e me excitava ao imaginar quantas pessoas se admirariam com minha vontade férrea e se iludiriam com histórias inventadas para preencher o vazio de acontecimentos interessantes que eram a realidade dos dias compridos e solitários de clausura.
O quadragésimo ano de reclusão foi comemorado com mesa farta, e duas cadeiras vazias. Brindei-me com muito vinho, comi “Spaghetti  à Carbonara” fingindo ser de minha mãe.Escutei os discos preferidos de meu pai e ousei uns passinhos de dança na sala acarpetada!
Senti rodar as estruturas de meu pequeno mundo, e cai sorrindo sobre a quina vítrea da mesa de centro e nem mesmo notei que a minha vida abandonava aquela casa, rompendo meu contrato com a imortalização do meu feito!
Dos meus credores o padeiro era o mais sovina, e não se conformou ao ver que eu não havia saldado minha conta antes de partir e em sua revolta resolveu desvirtuar meu feito e inventou minha loucura e a morte de meus pais por conta dessa minha ambição, e me desmereceu em outros comércios e círculos até que minha memória foi de todo vilipendiada, e eu tornado num  demônio esquizofrênico; alguém para se esquecer.
Felizmente não se costuma escrever insultos como epitáfios, então levei somente o gosto do desperdício de existência para o túmulo!

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

A Escalada.



Desavença nascida de concorrência intra-institucional e os dois jovens já não se suportavam.
O novo funcionário se esforçava para dar todas as respostas às necessidades da empresa, não por profissionalismo mas por ser seu alvo o cargo de seu gerente.
Fofocas e intrigas se tornaram  comuns, e os demais funcionários se dividiam discretamente em apoio aos contendentes, e aos poucos a cisma se tornou em ódio dissimulado e o ambiente da firma pesava, e pequenas rixas surgiam aqui e ali.
Naquele dia, na roda partidária do Novato a conversa soava alto, em tom de protesto e desafio a respeito da privacidade dos celulares, computadores e todos meios pelos que pudessem ser espionados.Nesse momento os olhos dos maiores inimigos se cruzaram, e o Gerente se retirou pesando os efeitos daquele homem perverso naquele meio, e o que podia ser feito para anular o motim que se configurava.
Resolveu-se por aproveitar das informações do diálogo e montou uma estratégia para descobrir algo que pudesse resultar em uma “justa causa”.
Vasculhou a Internet e encontrou um programa de invasão, e logo o testou no celular de sua esposa conseguindo acessar e baixar arquivos do mesmo. Sorriu previamente pela sua vitória!
Nenhum celular ficou fora da averiguação, não pôde descobrir nada de incriminador nos demais funcionários, e havia deixado o do Novato para ser averiguado posteriormente, com mais calma. O que aconteceu na hora do lanche.
Vasculhou as mensagens, a agenda, e qualquer coisa que achava que poderia ser comprometedora; e na pasta de fotos os olhos piscaram rápido tentando dissipar aquela imagem repugnante! Resolveu baixar o arquivo e saiu rapidamente deixando todos surpresos e confusos. Seu rosto era o mais confuso o possível.
Por terceiros veio a noticia, no dia seguinte, que a mulher do Gerente havia sido morta por este em um acesso de fúria, e que este, logo em seguida havia se matado!
Foram investigados os pertences do insano, inclusive o celular e computadores e nada foi encontrado de suspeito; ele havia apagado a foto da vergonha e o Novato sorriu sozinho de seu êxito! Ele abriu seus arquivos de foto e viu um pequeno grupo de fotos:
Um homem bonito, a mulher do Gerente, e ambos juntos em uma só imagem!Apagou todas e agradeceu às duas maravilhas que o auxiliaram a galgar mais uma posição na empresa:
Orkut e Photoshop!

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 29 de maio de 2011

A Pitonista.


Chegou à cidadezinha de nova Delfos, local de peregrinação mística próxima à grande São Paulo e ajeitando seus petrechos em um hotel econômico rumou animada ao monte Parnaso para obter algumas respostas.
Multidões se avolumavam fora da caverna, protestando descontentes com algo que só a proximidade esclareceria.
Se acotovelou aos que vinham em sentido oposto, atropelou alguns revoltosos e inquiriu recebendo como respostas xingamentos e empurrões, mas os metros de esforço posteriores a fizeram alcançar uma clareira e avistar o pequeno grupo sacerdotal que parecia explicar toda a situação.
O coração era um batuque só, e o passo foi célere ao encontro da resolução de seu tormento.
-Preciso de uma consulta!
-Infelizmente ninguém será atendido hoje!
-Como pode ser isso!? Seria hoje um dia nefasto não declarado nos calendários místicos?
A moça de pés descalços e ricos ornamentos depôs o véu e se adiantou ao grupo de sacerdotes se desculpando:
-Terceirizamos o serviço de emanações inebriantes e parece que houve algum problema nos encanamentos e hoje infelizmente não nos chegou nem um “vaporzinho” para que realizássemos nosso trabalho!
-Não pode ser!!!Eu vim de tão longe!!!
-Sentimos muito!-Todos concordaram com um triste meneio de cabeça.
-Preciso voltar amanhã!Tenho um emprego à espera, meu seguro está no fim... É uma ótima oportunidade mas esse problema afetivo tem me tirado a paz, e eu preciso de uma resposta!
Por favor!Eu ouvi falar que ninguém sai daqui sem resposta!Por favor, tentem mesmo sem o “Vapor de Píton”!
Eles se entreolharam, e com pena assentiram e a convidaram-na à caverna.
Os olhos já habituados à falta de luminosidade logo viram a simplicidade daquele templo, cujo luxo se consistia em luminárias incandescentes e um trípode posto sob uma fenda fabricada para se assemelhar a uma rachadura natural.
A pitonisa sentou-se elegantemente sobre o banquinho enquanto os sacerdotes formavam um semicírculo que esperava pelas frases desconexas para cumprirem sua parte no ofício.
De estática a mulher passou a apresentar discretos movimentos labiais, as mãos pressionaram as unhas vermelhas no estofado, e as comprimiram mais e mais até se lascarem, e o corpo começou a responder a impulsos invisíveis e convulsionou espumando a boca e revirando os olhos em suas órbitas. Ela se desprendeu do banco e tombou no chão nu, sussurrando frases rápidas e quase inaudíveis.
A garota ficou horrorizada! O corpo de intérpretes se aproximou para encerrar o expediente e se concentraram em ouvir bem para compreender.
-Quanto ao teu relacionamento, eis o que diz a pitonista:
"A grande borboleta
Leve numa asa a lua
E o sol na outra
E entre as duas a seta
A grande borboleta
Seja completa-
Mente solta... Ou não."
A garota tentou absorver a mensagem, e logo sorriu de contentamento, e se voltou grata aos seus bem feitores:
-Me sinto tão emocionada!Então são essas as palavras do sábio Apolo!
-Para ser sincero é Caetano Veloso!
Depois desse episódio a incompetência humana e o sincretismo cultural-religioso mataram muitos outros cultos!

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O Peixe e a Ecologista.


Gostava de culturas alternativas, das quais a que mais a interessou foi a ecologia.
Cultivava uma pequena horta, reciclava, participava de passeatas e plantio de árvores, e na perfeição de sua militância só havia um pecado: Um peixe beta, ganhado como um presente bizarro de aniversário!
Conservou-o inicialmente como um objeto profano, mas a beleza da coloração e as barbatanas hipertrofiadas logo fizeram esquecer a proibição de conservar cativa uma vida, e o pet se tornou sua extravagância predileta!
A praticidade do peixe a permitia uma mobilidade incrível, e ela passou a levá-lo por onde quer que fosse em um aquário elegante, redondo, e com uma tampa atarraxável.
Essa curiosa criatura asiática dispõe de um sistema respiratório, que envolve tanto respiração branquial quanto labiríntica sendo possível a conservação do mesmo em ambientes herméticos, dos quais um era o já citado aquário que costumava ser transportado em uma colorida bolsa térmica bordada com temas naturais.
Todos se interessavam em ver, e o globo aquoso exibia a dança de véus que se estendiam calmos e despretensiosos.Era muito bonito de se ver!
Num dos dias quentes ela escondeu o peixe sob a sombra dos vidros escuros de seu carro e rumou para o “Evento Verde” em uma conhecida cidade do Amazonas, e partiu feliz, se guiando por mapas e informações de beira de estrada.
Muito tempo de viagem e um posto havia ficado a uns 200 km de alguma cidadezinha sem marcação de placas, e a estrada sinuosa e de fortes aclives venceu o automóvel, e o calor a ejetou de dentro dele.
De início esperou pacientemente por ajuda, tentou o celular, mas a região era estéril de linhas. A via morta não ofereceu nem rugido de motores distantes, então preferiu procurar pela resolução numa caminhada dolorida para tão despreparado corpo!
O recipiente redondo, junto à bolsa pesou e os pés se encheram de bolhas e ela descansou na quentura do asfalto os dois objetos, e retirou o peixe para observá-lo e trocar o ar do aquário. Encerrou o cuidadosamente  na bolsa e resolveu se por  seguir adiante, intimidada pelo caminho cheio de altos por onde havia passado.
Não achou cidade ou sombra!
Sentiu algumas vertigens e sede e pensou em beber a água do peixe, mas sentiu que isso trairia suas convicções então resistiu e andou mais um pouco.
Renovou de novo o ar e ofereceu formigas ao peixe, e sentiu seus lábios rachados sangrarem e a garganta se estreitar de sede, e andou.
Andou...Andou.....Andou.........Andou.................Andou..............................Andou e tombou depois de dia e meio de caminhada, se negando a água do peixe e ainda esperançosa de ajuda.
Retirou novamente o peixe da bolsa, fitou-o por uns cinco minutos e sorriu meio orgulhosa da decisão que havia tomado!
Guardou-o novamente e apanhou um bloco de notas e rabiscou o nome: Chico Mendes; e o prendeu atarraxando o papel na tampa do aquário. Depositou a carteirinha da “Associação Ambientalista” sobre o mesmo e deixou o resto de vida se escoar, e ser evaporada de seu corpo!
Ela não traiu seu propósito!Nem mesmo diante da morte!
A estrada que a havia levado até ali, e que impediu a localização e resgate passava por manutenções e os corpos só foram encontrados muito tempo depois, um ao lado do outro:
O peixe, e a ecologista!


Anderson Dias Cardoso.

domingo, 22 de maio de 2011

Um Fim Alternativo.


Entregues ao belíssimo jardim puseram se a explorar as possibilidades do lugar com toda gana sensorial recém criada e descoberta.
O criador sorria enquanto os guiava e apontava esse sabor, aquela textura, uns tantos cheiros e muitas outras  vidas!
-São suas!
-Como?-Soaram as duas vozes em uníssono.
-Todas existências e possibilidades!Criei-as para vocês!Tornem se um grande povo e dominem sobre minha criação!
-Nós o amamos!
-Não mais do que eu! Mas recomendo que não comam daquela árvore!
-Qual seria o motivo?
-Uma espécie de conhecimento!Ele os fará a independentes...Os fará grandes; mas suas grandezas terão o ônus da diminuição de seus irmãos, e finalmente tentarão suprimir minha presença de suas vidas!
-De forma alguma Senhor!Lhe somos devotados de todo o coração!
-Sei que são!
O sorriso foi nublado por algum pensamento triste, e Ele se despediu e partiu prometendo voltar na viração do outro dia.
-Eu os darei a dádiva de conhecerem o tamanho de minha graça através de uma outra realidade.
O casal não compreendeu, não questionou, não se importou, mas o dia convidava a um passeio; e o clima, a um banho!
Adão dormia e Eva se enfeitava com flores, e se mirava num remanso e sorria de suas novas cores, e uma voz disse doçuras por detrás do tronco da árvore.
Era uma criatura graciosa, colorida e alada. Desceu preguiçosa para mais perto para que sua voz soasse melhor.Perguntou da fome e a ofereceu um pomo, outro ainda, e por fim aquele proibido, mas ela recusou!
-Além de saciada poderás ser como Deus!
Os lábios tremeram, e a mão tímida se estendeu para apanhar sua desgraça!
O gosto era excelente, assim como todos os outros mas o susto do assalto da mão possante de seu companheiro quase a fez engasgar!
-Por que fez isso!??
-Quero minha independência!
-Se é assim, quero me emancipar também!Não só de Deus, mas também de ti!-E a maçã desceu garganta abaixo!
A lucidez veio como um gosto amargo ao paladar, e na inquirição do dia posterior ambos se entregaram, e também a serpente! A sentença devia se cumprir, assim como as maldições que naturalmente acompanhavam aquela rebelião.
O relacionamento não sobreviveu à mágoa  da tentativa  de suplantarem um ao outro   e apartando-se não mais se viram, e ao cumprirem seus dias pereceram pelos seus pecados; e com eles toda a humanidade!


Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

As Trevas, o Silêncio e o Toque.


Julgava que minha criança estaria confinada às sombras e ao silêncio.
Não respondia a estímulos visuais ou auditivos e se debatia apartada da vida comum, causando nos  imenso tormento.
Era corpo presente e alma aprisionada...
No desespero da ocasião; num fluir de lágrimas disse  preferir que fosse aborto!
Gritei e me abracei  ao também desesperado pai, e ambos ouvimos os soluços famintos da criança.
A comoção da tragédia foi suplantada por instintos primários ,e mais uma vez ousamos nos aproximar do berço para nos  surpreender pelo amor que não havíamos notado, e não podendo nos conter tomamo-la nos braços e oferecemos mimos e alimento, e a meiga criatura silenciou e adormeceu.
A covardia inicial se converteu em força, e o amor resolveu cultivar aquela alma com todos os cuidados e recursos;caso não podendo trazê-la de seu confinamento, ao menos de alguma forma adentrariam aquele mundo de poucas impressões,  transformando aquele “quase existir” numa existência mais plena o possível.
Aconchegava-a ao peito para que sentisse o perfume suave de canela durante a amamentação, e incentivava as pessoas próximas que se marcassem com cheiros que os caracterizassem, então cada qual se perfumava, e se fazia conhecer por seu perfume!
Oferecia estímulos sempre notando as reações, e com dois tapinhas aos ombros lhe  despertava ao código que viria logo em seguida, e ela, já grandinha pedia atenção mostrando a mãozinha espalmada.
A mão nos lábios pedia água, à barriga mostrava a fome e eu ia apresentando e codificando os objetos e pessoas através do tato, e a fazia sentir seu corpo, e ainda o comparar aos  demais que a cercavam e logo era ela quem me apresentava novos sinais e me sensibilizava às texturas e formas de maneira que pudesse entender seu mundo!
Dos sinais o mais apreciado era o abraço!Ele dizia tudo!Ele era em si um mundo de significados!
A independência relacional foi seguida pela móvel, e nós a pusemos de pé e firmamos seus passos, e uma vez segura a fizemos conhecer a topografia do imóvel, em suas zonas proibidas e permitidas.
Apresentamos todos os objetos, ensinamos todas as funções, e uma vez absorvidas a lançamos ao mundo exterior, às ruas, carros, cães; e o sol se fez provar um pouco, e o vento fazia caricias violentas, e suas cócegas arrancavam risos.
Risos acompanhados pelos nossos!!!
Da amargura do nascimento atribulado nada restara! Naquele dia havia alegria nos três corações; e ao calor do dia perceberam que não haviam trevas densas suficientes para não serem iluminadas pelas brilhantes luzes do amor!

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 15 de maio de 2011

A Prostituta.


Tudo muito mecânico e profissional; me despia oferecendo o corpo de poucos atrativos por um preço modesto e era freqüente que o cliente fantasiasse um outro corpo de uma outra que se encontrava além de suas posses.
Geralmente eram fantasias predefinidas, pouco imaginativas, mas que serviam bem ao gozo.
Sentia-me desprezada, mas incorporava de olhos fechados a fantasia de perfeição, ao menos durante o coito, me sentindo grata por não descontarem o preço do prazer por não ser a “Idéia”, mas sim só a substância.
Entre gemidos, vez por outra escapavam os nomes dessas “Idéias”, e às vezes a emoção transparecia tão intensa que o sexo seguramente não era sua busca, mas algum afeto e realização de um típico amor platônico.
Era um teatro desigual, onde o cliente se desfazia em alguma realidade onírica, e vivia sua personagem com todo o vigor, prazer e possibilidades; enquanto me cabia a interpretação técnica, desapaixonada, mas devendo ser digna de toda credulidade e prazer...
Era brincadeira onde só um se diverte!
O ato era sempre breve, e o contato posterior, impessoal e mudo. E os corpos nus puxavam uma ponta de lençol e o sono consumia os minutos restantes do tempo que lhes cabia.
Quando o sono abandonava o quarto, e os olhos se abriam revelando toda a sordidez do espaço, com seus cheiros, sons, e ainda se lembrava do amor barato que fez, o cliente se tornava irritadiço, e vestia rápido suas roupas deixando o combinado sobre a cama, freqüentemente em um bolo de poucas notas amarrotadas.
A porta batia forte em desprezo à baixeza de minha profissão, enquanto separava minha paga entre aluguel, e algo para comer.
Após um desses tantos relacionamentos lavei-me, me arrumei para outro encontro, tranquei o quarto e ao entregar as chaves ao zelador sorri do paralelo entre aquele quarto e minha vida, mas foi um riso breve e amargo, não tinha tempo para especulações filosóficas e riso.
Outro cliente esperava!

Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

A Carpideira.


Um cortejo discreto de uns cinco carros atravessou os portões da casa dos mortos, seguindo a uma distância discreta o carro funerário, e das tristezas de minha perda me angustiou a chegada de um outro finado.
Afastei-me do túmulo da família para me concentrar no drama que começaria a se encenar.
Um enredo repetido a uns poucos minutos, mas de personagens diversos, e então vi aquela dúzia e meia de figuras que desciam; de rostos limpos e sem estampa de dor seguindo quase risonhos para entregar seu morto à cova.
Meus passos e curiosidade me levaram ao ajuntamento de velantes, e vi descansado no esquife o corpo magro de uns muitos anos de uma senhorinha de aspecto triste, maquiada com poucas cores e muito esmero, conferindo uma quase graça trágica ao corpo vazio.
Respeitei o silêncio!Respeitei-o ainda mais que os acompanhantes e procurei ouvir as palavras de consolo do curto sermão que encomendava a alma... Mas tamanho desrespeito de conversas e risinhos calaram a voz do sacerdote, e foi resolvido descer o corpo mais rápido para que o dia de luto tivesse tempo a ser gozado!
Enquanto as pás atiravam porções de terra como arremates da sepultura o cortejo se ia para os compromissos inadiáveis que os aguardavam.
Permaneci, pesando a terra que cobria o caixão, e os movimentos mecânicos dos coveiros não eram mais humanos que daqueles que a deixaram ali...
À uns é comum que o “pão” tenha um sabor comum de morte; aos segundos a indiferença causava me  estranheza.
Quando dos visitantes da senhora só restava eu; me lembrei de uma velha carpideira negra que celebrava com sua dor a morte daqueles a quem os parentes desejavam honrar; homenagens estas feitas com seus escândalos, e demonstrações de afetos exacerbados.
O dinheiro pagava aquelas lágrimas, e ela, assim como os tais coveiros, participava do comércio da morte; mas ela, de forma sensível executava seu oficio com a mesma dor dos pagantes...
Atentando aos contrastes de costumes e profissões me lembrei de meu morto, e daquele que não me pertencia, e depositei sobre aquele túmulo algumas lágrimas grátis, mas que valiam todo meu sentimento...
Acho que foram as únicas...

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 8 de maio de 2011

A Honestidade Não Tem Perdão.

Distribuição muito irregular de postes nas ruas, e num desses trechos de penumbra a carteira chamou minha atenção. Tomando a  em minhas mãos  examinei o material  vagabundo, e também seus compartimentos dos quais achei  documentos e um cartão de uma certa loja.
Ponderando nas dificuldades de se retirar cópias de documentos procurei no dia seguinte a dona da carteira, e entre consultas às listas telefônicas e serviços telefônicos (eram tempos onde não se ouvia falar de Internet) identifiquei com muita dificuldade a tal senhora e a convidei à minha casa para que lhe entregasse seus pertences.
No dia seguinte quase uma comitiva adentrava minha sala enquanto assistia o jornal, e minha tia me serviu de recepcionista e porta voz. Eu escutava os diálogos entrecortados pelas notícias sem me voltar; era muito tímido e não necessitava de agradecimento, me sentia feliz por ter sido útil.
A carteira foi recebida e um discreto agradecimento foi seguido por um silêncio que deduzi como a partida da caravana.
-Cadê o dinheiro que estava aqui?-A voz de um dos tantos homens do grupo soou desconfiada.
Uma tia confusa tentou responder que não havia nada além dos documentos e o cartão, e perguntou o que especificamente havia sido subtraído da carteira.
-Havia 400 R$ em espécie e 200 R$ em cheque!
Fui convocado a listar o que havia encontrado, e reafirmei que era exatamente o que havia entregado. Eu o fiz sem ao menos me levantar da poltrona, com um leve mover de pescoço na direção dos que me tinham como suspeito.
Com alguns murmúrios, agradecimentos entre dentes e oferecimento de ajuda caso algum dia necessitasse foram desaparecendo um a um pelos batentes da porta me julgando em seus corações, me odiando pelo bem que fiz...


Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A Culpa.


No terminal esperávamos que o motorista desse partida num ônibus lotado onde nem janelas abertas aliviavam o calor.
Minha esposa reclamava muito do caro descaso da passagem para a humilhação do tratamento, da espera de mais ou menos 45 minutos... Outros reclamavam nesta mesma indignação.
Trocamos de veículo para que o lavassem, e ainda esperamos parecendo esquecidos pela empresa, e dos irritados; um senhor soltava alguns palavrões intermitentes, dos quais o fluxo foi aumentando gradualmente até que o ônibus se pôs a caminho, e ainda, além disso.
O volume dos protestos elevou-se ainda e alguns risos e cochichos vieram a revelar a deficiência do reclamante, a algumas censuras debochadas divertiam os passageiros.
A cabeça se movia de um lado ao outro, as mãos seguravam um cobertor e uma sacola amarela com esquisitices; impropérios jorravam dos lábios como uma cantiga profana, maldições que filtradas pelo humor se tornavam riso.
Um grupo de amigos sentados ao fundo eram os que mais se divertiam com os insultos do louco, e um deles alertou os para que prestassem atenção à reação do homem, e ao descer em seu ponto chegou próximo à porta e gritou:
-Oh, Jacaré!
Houve um grito raivoso e o pobre se levantou amaldiçoando e procurando de quem procedia o insulto.
Gargalhadas maldosas, e o apelido ecoou em umas tantas vozes, que procuravam dissimular sua localização!Quase todos contribuíram para aquela ira; deliciados.
O louco encarava um e outro, e ameaçava com socos no ar, mas as vozes não se calavam!
-Jacaré!Oh, Jacaré!Jacaré!Jacaré... Riam e provocavam!
Um rapaz foi descoberto pelo ultrajado, foi xingado em particular, recebeu alguns chutes aos quais fez parar com ameaças, vigor juvenil e uma massa corpórea maior.
O homem se afastou, voltando ao seu banco, e o garoto implicou mais uma vez!
-Oh, Jacaré!
O homem veio num repente e saltou no próximo ponto, e todos riram vitoriosos!
Enquanto desciam uns outros, alguém percebeu a carreira do louco, e gritou enquanto uma pedra de quase um quilo atravessava dois vidros quase atingindo uma das almas que se guardou de humilhar o pobre homem!
Os gritos substituíram os risos, e avisaram que outra pedra já chegava... Os corpos se movimentaram procurando escape; cada qual escondendo-se covardemente atrás do corpo mais próximo!

O ônibus fora abandonado pelo motorista, que se desculpava e se explicava pelo celular aos seus superiores; as portas cerradas nos limitavam na mira das pedras e os gritos dos desesperados pediam que seguíssemos o caminho para longe do perigo.
 O motorista finalmente atendeu e uma enxurrada de desesperados alcançou a rua já limpando as lágrimas e se afastando do ônibus, que agora era o alvo imóvel da saraivada.
A cobradora inquiria quem era o culpado, e o último dos provocadores foi apontado, e os mais sensatos disseram que quase todos participaram daquele espetáculo triste...
O cobrador havia se afastado muito, corria atrás do louco que capengava entre os carros em movimento...
A culpa corria com a loucura daquele homem ou se dissimulava nos jovens que se afastavam discretamente até se esconder da visão?
Afinal, de quem foi a responsabilidade???

Anderson Dias Cardoso.


domingo, 1 de maio de 2011

Uns Cânceres...


Hoje vi um câncer passeando num carro do ano, ao lado de seu pai!
Trajava camisa xadrez azul, e a cabeça luzia falta de fios...
 Era jovem câncer; talvez uns 11 anos; não pude ver seu rosto, mas não ignorei sua magreza!
Nada diferente dos demais; usava como todos a etiqueta de prazo de validade e todas previsíveis expectativas de um futuro breve!
Já conheci outros destes, uns já me foram até aparentados:
Uma Avó-Câncer e um Tio-Câncer... Houve ainda uma Vizinha-Câncer e outros conhecidos e ainda hoje eles parecem se multiplicar através de falhas genéticas, ingestão hormonal, e outros aditivos químicos e banhos solares!
São replicados como nosso legado científico, nossa produção econômica de morte!
Um desses horrores se deitou na minha cama! O Tio-Câncer outra vez citado, e eu quase sempre me negava a visitar meu próprio quarto, pois a morte assediava seu corpo esquelético, e o embebia de tanta dor que seu sofrimento era o bastante para nós dois!
Meu Tio-Monstro se negava a higiene, à comida, e se satisfazia num sono convulsionado que furtava consciência  às suas torturas, e quando despertado, choramingava tal qual uma criança febril, querendo desfazer  se novamente naquele modesto sossego!
A cova recebeu seu corpo e os vermes não tiveram muito com que se regalar!
A dor que deixou de sentir nos serviu de consolo, e a multidão dos chorosos se dispersou para reassumir suas vidas, e bloquearam de suas mentes a tristeza daquela patologia, fingindo que o pobre homem morrera de um outro mal!
O tabu persistiu, enquanto o mesmo mal era, e é fabricado e consumido em silêncio...
Enquanto outros corpos geravam seus próprios inimigos com ajuda de estruturas sintéticas e anormais produtoras de fartura...
Enquanto a economia se movimenta em favor da morte em detrimento à vida!

Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Atriz...Atroz.


Vidrada à tela, quase ébria de êxtase pela sua imersão quase inconsciente naquela estória assim permaneceu até o cair dos créditos sobre o fundo negro, até que a trilha silenciou.
Cinéfila desde sempre agora digeria a trama tensa que a capturara por tantos instantes, e entre pseudo-bruxas e intrigas a vontade de ao menos figurar uma cena num outro mundo construído por qualquer mente prodigiosa se avolumava e perturbava a alma!
A pressão do desejo se juntou à estória vista; e tomando o telefone implorou a presença do melhor amigo.
Na chegada o apertou num abraço, e já dentro da casa o fez perder alguns minutos em gostosa prosa, até que o tratamento cortês desapareceu num grito, e a garota correu à rua com vestes rotas e rosto marcado de sangue. Ela gritava “ESTUPRO”!
Reuniram-se tantas pessoas quanto os espaços permitiam, e das frases esparsas souberam das barbaridades e formaram o veredicto, e com paus e pedras se encaminharam para executar a sentença!
O corpo do “monstro” chocou-se ao chão, já úmido de sangue; a cabeleira negra engrossava seus fios através desse fluído.
Ele não gritou!Não compreendia o motivo da violência!Só sentia a rigidez dos golpes e das pedras até que o espírito abandonou o corpo!
Entre as consolações da multidão a garota sorria por dentro. Conseguira representar seu primeiro papel com desfecho além da expectativa, e agora  gozava daquelas  lágrimas que rolavam copiosas como coroa de sua cena, enquanto o corpo amigo descansava ao colo de uma pequena plateia familiar que murmurava seus lamentos por medo da represália dos revoltosos.
Passado o tempo e esquecida a história a garota, agora mulher; apropriada de seu dom de interpretação e confiança rumou para a capital à cata de peças de teatro, campanhas publicitárias ou qualquer caminho que a levasse à TV; mas mesmo dotada de todas as expressões e qualidades, mesmo enganando a todos com suas pequenas trapaças não logrou êxito em qualquer projeto, e entre drogas e prostituição foi se desvanecendo em um palco muito diverso daquele tão sonhado...


Anderson Dias Cardoso.

domingo, 24 de abril de 2011

Ritual de Passagem.


Havia cumprido alguns rituais de passagem e agora os pés descalços procuravam ser silenciosos enquanto a presa parecia próxima, ainda que escondida pela mata densa.
As técnicas de rastreio eram muito eficientes e o sol das quatro mostrava os possíveis caminhos sombreados seguidos pelo animal, e os sulcos desenhavam o espécime em características e peso. Já haviam se passado dois dias de perseguição e expectativa, a carne não importava, mas era necessária a demonstração de virilidade que tão valioso troféu conferia.
Na perseguição chegou a um rio estreito onde as pegadas findavam; abaixou, sorveu um pouco de água e seguiu atravessando a corrente quase morta, e sentiu um leve cansaço e ardor nas extremidades que eram agora povoadas de grandes calos.
Não se lamentou, antes, sentiu um leve orgulho!
A trilha bem marcada permitia alguns instantes para se alimentar, e na procura por larvas embaixo nos troncos decompostos nada encontrou, mas notou um ninho no alto de uma árvore quando um raio de sol lhe feriu os olhos. Subiu, tanto pelos alimento quanto pela vista; um ponto de localização.
Eram ovos de tucano, e foram engolidos com certa pena, e na copa espessa do jatobá  se fixou em descobrir o animal.
Desceu eufórico tomando os apetrechos que se escoravam no tronco possante e correu esquecido dos pés torturados. Folhas roçavam seu corpo, galhos feriam e úmido de suor diminuiu seu ritmo com a proximidade do animal!
O coração tamborilava no peito eufórico, o ar faltava pelo esforço da corrida e ele se ocultou atrás de um arbusto, e vislumbrou pela primeira vez sua caça: Um veado campeiro de pelagem castanha detalhada de branco.
Preparou o arco, selecionou a seta mais aguçada, e na mira alcançou os olhos despreocupados e doces da criatura, e o impulso num repente o abandonou!
 A dignidade e beleza do bicho o confundiram, deixando nascer um afeto!
O título de caçador pareceu coisa egoísta, até insignificante; e ainda pesou a troca da vida pelo sabor, e ele quis deixar viver  não só esse, mas todas as criaturas de sangue rubro, decidido a não mais caçar, não mais devorar vidas, e ao se virar, abandonando respeitosamente o novo liberto foi meditando a respeito das maravilhas daquela fauna...
Na surpresa uma  onça o abateu, se regalou com aquele corpo piedoso...
E ele salvou aquele veado pela segunda vez!

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Ralôuin.


Em Marisco, aquela pobre cidade, uma personalidade foi recebida e assim considerada simplesmente por sua vinda do exterior.  E era moda da hora se referir ao tal “Mister” e ter algo a se dizer deste e seus agregados.
Pouco tempo instalados e as mercearias lhes ofereciam uma conta, as pessoas ofereciam sua amizade, e mulheres esperançosas de uma boa vida se ofereciam para dar cabo ao seu casamento.
No fascínio pelo novo o idioma local parecia dar lugar a um estrangeirismo, e muitas línguas tentavam uma pronúncia razoável, outras abusavam de umas poucas palavras conhecidas e executadas fielmente, num caminho inverso à Policarpo Quaresma...
Por sua vez a família americana seguia sua vida, meio alienada, meio indiferente às bajulações, preocupando se quase somente em manter-se nos costumes de sua terra; costumes que mesmo discretos lhes faziam atração a quase todos os curiosos.
As comemorações iam se seguindo, do Ano Novo à Independência, e o calendário alcançou 31 de outubro. Fantasias foram vestidas, as abóboras iluminadas colocadas ao redor do sobrado e as crianças foram lançadas nas ruas poeirentas sob as recomendações de cautela, e um celular posto no bolso para possíveis emergências.
A família de Cirilo após uma panelada deliciosa conversava e suava, tanto pelo prato quente  quanto pelo barraco abafado e compartilhavam anedotas recentes e riam alto,  animados, enquanto mãos pequenas lá fora  batiam em outras portas e recebiam sorrisos sinceros ou não.
 Os de Cirilo estavam felizes em sua volta de sua empreita em Brasília a respeito de viagens interplanetárias.
A cidade havia se preparado para uma festividade a qual nem era sua, e as balas e doces foram depositadas nas cestinhas sob a meiga ameaça: Tricks or Treats! (o significado havia sido garimpado em dicionários, ou aprendido de filmes) E um sorriso tentando simular perversidade!
Cirilo contava a de um cangaceiro; se engasgava com o riso e todos o acompanhavam com lágrimas nos olhos.
As cestinhas estavam cheias e cobertas por um pano branco que escondia a deliciosa fartura; as seguravam com ambas as mãos!Um prodígio para uma região tão pobre.
Miriã esquentava o leite no fogão de lenha, e o calor aumentava ainda mais, e ao tormento respondiam com mais humor!
Das casas visíveis no perímetro permitido uma quase se assemelhava ao espírito de terror requerido pela ocasião, e entusiasmados os irmãos se apressaram para talvez conhecer uma bruxa ou figura mitológica que vivesse por lá. Machucaram a porta com violentos socos, interrompendo a rotina da família  e cortando as falas ainda na garganta.
Cirilo levantou-se de sobressalto tentando imaginar qual dos vizinhos vinha os saudar, e abriu a porta com um sorriso satisfeito para então ver aquelas duas criaturinhas muito brancas, com cestas nas mãos. Eles responderam ao sorriso que não era para eles com um outro mais bonito, e mais completo de dentes:
- Tricks or Treats!
-Cirilo procurou manter o sorriso nos lábios, apesar de não entender bem o que acontecia; fez um gesto de espera para o pequeno casal vestidos de Lady Gaga e Prince e deixando entreaberta a porta sumiu dentro da casinha para voltar com um litro de óleo, o qual depositou numa das cestas e beijando a ambos os despediu meio abruptamente com uma batida de porta.
-Quem era Cirilo?- Indagou Miriã.
-Um daqueles meninos pedindo coisas pra a escolinha... tavam vestindo umas ropas muito esquisitas...
-É... esse mundo tá ficando cada veiz mais pior!
-Tô cum saudade de Sírius!
-Eu também!

Anderson Dias Cardoso. 

Reflexão À Um Texto Amigo.

 Interessante as interações sentimentais entre nós, humanos!
A maioria dos processos são totalmente extracorpóreos e as vezes unilaterais e ainda assim se sente o outro em nós mesmos, e associamos esses sentimentos ainda ao exterior, e unimo-nos finalmente à sons, sabores, sensações, formando um ser múltiplo meio nós, meio o mundo, meio o outro!

Anderson Dias Cardoso. 

domingo, 17 de abril de 2011

Inimigos.



Após o expediente partia apressado tentando alcançar a condução, a qual pagava com uma nota amarrotada e seguia para um endereço obscuro onde habitava uma kit net bagunçada repleta de DVDs, quadrinhos e miniaturas.
Cruzou apressado a porta que pedia com um adesivo “distância”, despiu-se angustiado e agarrou a fantasia e foi a vestindo sobre o corpo suado. Com bastante dificuldade conseguiu montar sua personagem, e ao passar ao lado de um espelho sorriu bem satisfeito. Mirou seus agora ferozes olhos e se disse:
-Seu nome é Logan!
Não havia uma Harley Davidson, o dinheiro ainda não era suficiente então a opção era enfrentar olhares preconceituosos em lotações e toda parte, não havia o respeito à excentricidade, que o dinheiro compra então suas aventuras eram mais modesta que a do verdadeiro herói, e seus inimigos se armavam de zombaria, causando feridas  talvez impossíveis para seu fator de cura.
Por outro lado a personagem o fortalecia, e em seu nicho o que chamava a atenção era a caracterização impecável, o andar altivo, arrogante! Ali ninguém ousava fitá-lo por muito tempo, nem mesmo Batman ou Jaspion!
Seus ossos adamantinos, suas garras retrateis, sua capacidade de recuperação instantânea e sentidos animalescos eram mal pesados e faziam suspirar aqueles que “tinham” poderes menores como voar, intangibilidade, celeridade, controle climático, telepatia, telecinésia...
Existia uma aura em torno da personagem, da sua virilidade agressiva, um magnetismo animal as quais os homens invejavam, e as mulheres desejavam.
Então passeava orgulhoso pelo evento, entre o stand de Jornada nas Estrelas e Chaves quando seu aguçado faro rastreou, dentre milhares de heróis o seu arquiinimigo!
Entre empurrões e saltos espetaculares nas bancadas de produtos foi desenvolvendo seu balé mortal até que seu corpo pousou suave poucos metros dele: Dentes-de-Sabre!
Ele comprava umas rosquinhas e um copinho de café quando o barulho da expulsão das garras o fez se virar. Parecia confuso com a situação, mas logo se deu conta do que estava para acontecer! As fibras de seu corpo se contraíram preparando a energia do salto, a adrenalina excitou-os e o sabor do sangue inimigo se antecipou em seu paladar!
Ambos rosnaram:
-Creed!
-Logan!
E saltaram cortando o ar e seus corpos com o metal e a queratina de suas garras! Arranharam-se, morderam-se, socaram-se e as roupas iam sendo destruídas enquanto as garras plásticas e as unhas cultivadas a longos meses se partiam e o sangue e hematomas iam surgindo tão abundantemente quanto nos quadrinhos! Bateram-se e quebraram todas as bancas daquele espaço enquanto Darth Vader, Homer Simpson, e tantas outras personagens torciam por seu preferido, e ainda alguns  filmaram para um novo post no You Tube!
O “embate terminou em empate”, ambos tombaram exaustos ao mesmo tempo, mas ainda ameaçavam uma retribuição assim que seus corpos estivessem totalmente curados; mais ou menos daqui uns cinco minutos!
 O pode mutante falhou, e uma ambulância foi chamada para o socorro, e ambos foram movidos ao som de aplausos para seu retiro em algum hospital, onde permaneceriam pelo menos um mês!
Aquele evento ficou para história e todos  fizeram questão de elogiar e agradecer seus organizadores; que além de oferecerem uma ótima estrutura para os amantes do Cosplay, ainda inovaram oferecendo uma espetacular luta entre tão mortíferos e amados personagens!

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Fetiche.


No acidente o carro lhe levou uma perna; belíssima, torneada como uma coluna de bronze e terminada em pezinho delicado, que deixou sua imagem inversa como uma peça de saudades!
Após o doloroso luto um conformismo discreto quase lhe alegrou o coração, mas ainda se negava a fitar o lugar mutilado.
Eu, entre carícias e palavras de conforto não me mostrava chocado com aquela falta e ainda me espantava com a formosura restante. Então a confiança pôde retornar; a erguendo pelas mãos lhes fez recobrar a vida, e o sorriso se tornou constante, se viu preparada para receber sua nova perna!
Ela se encaixou no ponto de vergonha e minha linda era de novo uma infanta, ousada em seus passos e rodopios e ao cabo de dias a intimidade das partes a levou às brincadeiras mais extravagantes.
Numa ocasião, descobertas ambas pernas o luzir da perna metálica me despertou a curiosidade, e me encantei com sua força e rigidez. Seu toque frio seduziu-me o tato e meus olhos fugiam constantemente do foco dos olhos negros para o lustroso aparato!
Uma compulsão foi o que se tornou para mim! Ao invés da maciez dos fios escuros preferia acariciá-la onde não era ela! E eu tentava disfarçar tal interesse alternando minha atenção entre o aço e a carne!
O namoro levou ao casamento e o amor foi envelhecendo junto aos corpos e aquela perna se mantinha  eterna, tanto pelo zelo quanto pela muda de peças, enquanto a outra tinha transtornado seu aspecto, minada de rugas, manchas, varizes, estrias e salpicada de sulcos faziam me resvalar numa repulsa inconsciente...
Não obstante meu amor foi fiel até seu fim, nenhuma carne me atraiu, de forma alguma a traí, e se fraquejou alguma vez o coração o que seduziu não pôde me retribuir os chamegos;
Meu outro afeto era frígido, rígido e inoxidável!

Anderson Dias Cardoso. 

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Amor De Filha.


Algumas vezes salvas da miséria pela habilidade culinária da mãe, que vez por outra era trazida a casas opulentas para preparar banquetes, dos quais as sobras e umas poucas notas lhes recompensavam.
 Gasto os parcos rendimentos e devorada a comida fria a preocupação se assomava à nova fome e a mulher saia a biscatear de todas as formas para lhes assegurar o teto e o consolo ao estômago vazio.
A necessidade e caráter a condicionaram ao trabalho, e desses a primeira lhe forçava a aceitar centavos por litros de suor, mas esperava da vida a recompensa em sua filha e quando ousava sonhar um pouco mais além se via retribuída por uma filha formada e próspera, em uma casinha sua e uns poucos mimos.
Das freguesas costumeiras uma se tornou amiga, e sua filha amiga da filha, as crianças se perdiam na imensidade do imóvel enquanto a mãe revezava entre o fogão e a vassoura.
As crianças se encantavam com a imensa coleção de bonecas, da quais selecionavam as mais belas para construírem suas estórias e assumir seus papeis ainda que inconscientemente, e ao fim do expediente ficava a saudade, principalmente daquela que não tinha bonecas para fantasiar!
Mãe e filha dobraram a esquina, e a mão calejada entregou uma moeda à pequena para que satisfizesse um pequeno capricho de uns poucos caramelos no bar mais próximo; e separando-se a menina alcançou o balcão e fez seu pedido e os recebeu em um saquinho quase murcho, e ao se virar para retomar sua volta à casa um homem de camisas brancas a abordou, e nivelando se a ela, e olhando nos seus olhos ele se disse um anjo, pediu que não gritasse ou revelasse sua identidade e lha oferecia o desejo do coração!
-Peça; eu vim para realizar!As palavras brilhavam entre  dentes branco!
A garota baixou a cabeça, lembrou se de sua mãe, dos trabalhos e fadigas e fez silêncio por uns minutos e retornou ao desejo já decidida:
-Quero bonecas mais belas que as de minha amiga!
Satisfeito o desejo o anjo a deixou e as histórias de mãe e filha seguiram seu previsível caminho rumo à mediocridade...

Anderson Dias Cardoso.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...