sábado, 18 de abril de 2015

Na Casa Errada.

Quando chegou trouxe consigo o aroma do perfume da moda, que, ao abrir da porta encheu a casa inteira.
Os cabelos grisalhos, aparados no tamanho certo do bom gosto, unhas manicuradas.
Ajeitou os óculos, tirou uma poeirinha imaginária do terno feito sob medida, e lhe ofereceu o maior bouquet que jamais recebera!Rosas vermelhas e graúdas.
Ele sorria, porém ela não entendia o motivo daquilo tudo. Não o conhecia!
Ela aceitou.
O marido foi despertado do transe da partida de futebol.
Calçou os chinelos gastos, coçou a cabeça calva, vestiu a camisa carcomida por baratas e derrubou a lata de cerveja meio cheia e quase choca, durante o percurso.
Gritou o nome dela, enquanto o homem a chamava por outro que nem era seu...
Tudo aquilo sem razão ou sentido.
E foi assim que começou a briga! 



Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Qualquer Um.

-E se eu disser que você pode ser qualquer pessoa que queira, por apenas oitocentos reais!
-Mas, como vou convencer as outras pessoas de que sou eu aí nas fotos?
-Você só precisa convencer a si mesma, e eu estou aqui para te ajudar nisso.E aceito cheque pré-datado!


Anderson Dias Cardoso.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Não Há Um São!


Me sentei ao lado, e agora era tarde.O homem vestia daqueles seios artificiais, e lambrecava a boca da boneca com um leite cheirando azedo.Puxou papo, o qual, segundo as regras do manual que ensina lidar com malucos, tive que recusar.Disse que a esposa o havia deixado; ele e a pequena.Esta se chamava Larrissa, e era certo que ele rumava para atender a uma proposta de emprego. Mas a conversa não parou por aí, ainda que eu já não o ouvisse a esta altura.Confesso que senti pena, mas ignorar era preciso.O percurso durou outros quinze minutos, e quando o homem já se levantava para deixar o metrô, senti a mãozinha da boneca me agarrar a blusa.Quando já de pé, ela piscou sonolentamente em meio a um bocejo, e contorceu aquele corpinho de vinil junto ao pai.
A sanidade é mesmo uma coisa muito frágil!


Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Quando Ela Veio, Eu Fui...

Na fila da boa sorte:
-Número 7.523,589,887,322,001?
-Sim, eu mesmo!
-Fortuna, saúde ou amor?
-Hã?
-Próximo!



Anderson Dias Cardoso.




domingo, 29 de março de 2015

Gênios Descartáveis.

Esfregou o recipiente como indicado nas instruções, e quando o “cara” resolveu sair, já disparou:
-Eu quero ser a criatura mais inteligente do mundo!
-Você descobrirá todos os mistérios do universo, tudo se transformará em equações, toda e qualquer conversa a partir disso será chatíssima, não haverá par para você!E já vou avisando que vai ter problemas também se optar por dinheiro ou mulheres!
-O que me aconselha?
-Aquele boteco ali vende ótimas coxinhas. Eu posso te pagar uma ou duas!



Anderson Dias Cardoso.



segunda-feira, 23 de março de 2015

Xanadu.



Xanadu Guo mudou-se de Qingdao à Guangzou acompanhando uma empresa de manufatura de bolsas femininas, na qual havia uma promessa de expansão, contratação de algumas dúzias de novos funcionários, e a melhoria de salários e condições dos trabalhadores nativos. As encomendas naqueles dias tinham um volume impressionante, a oportunidade era boa e ele era o esteio de sua miserável família.
O acomodaram num pequeno barraco, junto a outros três casais, lhe ofereceram comida, duas mudas de roupa e um diminuto aumento, que mal chegava a compensar as horas acrescentadas em sua folha de ponto; e agora estava longe de casa. Não gostava de pensar daquela forma; era otimista e aquilo tudo não lhe influíra nos ânimos.
Xanadu era rapaz peculiar. Trabalhava focado, sempre disposto, e, quando não virava a noite na fábrica, sonhava que era o garotinho que girava a manivela que dava corda ao mundo para que este pudesse se movimentar!
Um telefonema, o galpão todo se agitando, e lhes disseram que os americanos haviam triplicado a quantidade que costumavam demandar. Os demais trabalhadores que os suportariam deviam chegar somente no fim do semestre!
Eles deveriam se sacrificar mais aquela vez!
Xanadu, moço dedicado, agarrou estilete e molde, se adiantou aos demais e rumou ao seu balcão para produzir. Lembrava-se sempre da fome da mãe, da doença do pai e do sorriso de seu irmãozinho caçula.Se recusou a maioria dos curtos intervalos, deixando seu posto quase que somente para mastigar alguma coisa e urinar.
Seus patrões lhes forneciam estimulantes, e alguns trocados à mais, então ele permaneceu acordado aquela noite, a seguinte e a seguinte, então tombou de exaustão.
Sonhou novamente aquele sonho, mas a corda do planeta havia terminado...
A Terra parou num repente, e a inércia sacudiu toda a crosta. Os mares lavaram parte dos continentes enquanto o resto era atirado para fora da órbita.O solo se enrugou num hemisfério, enquanto se estriou noutro, criando formações altíssimas, e erosões assustadoras.Parte das criaturas foram esmagadas, as demais tomaram os mesmos caminhos das águas...
Xanadu, você não devia ter ficado tanto tempo acordado!


Anderson Dias Cardoso.

domingo, 8 de março de 2015

Imobilidade.



Ela era aquele corpo miúdo, torcido, imóvel e dolorido no canto da sala. Não falava senão com os olhos; se bem que em seus monólogos agredia a quem quer que lhe passasse às vistas.Seu lugar era arejado, seu trono era estofado de cobertas, enquanto saches e flores dos tantos visitantes procuravam diluir o odor de urina.
A mãe a trazia para o sol, lhe penteava os cabelos, e escovava as irregulares fileiras de dentes.
O pai, homem parrudo e bondoso, lhe trocava as fraudas, lhe forçava a colher a boca, e contava alguma piada. O som que retornava do peito doente deveria ser uma risada, então ele também sorria.
Vez em quando um ou outro lha pegava gemendo, e de olhos faiscantes. Eles suspeitavam que a garota os culpava por ter nascido daquele jeito...
Ela ouvira falar em projeção em corpo alheio, e vez em quando se imaginava furtando as pernas da mãe para dançar, o corpo do pai para dar um corretivo no primo que lha zombava às escondidas, e as asas dum pássaro para sumir no horizonte.
Mas sabia que essas coisas não existiam, e tinha que se contentar com um par de rodas. Eles a levariam para onde quisesse, quando bem entendessem...



Anderson Dias Cardoso.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

O Gênio!

...E Gênio ouviu aquele ruído característico de flanela sendo esfregada numa superfície polida.Depois de tanto tempo, só podia ser consigo!
-Mestre, tens ainda direito a dois desejos!
-Vai dormir, Eugênio!Você está bêbado!


Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

1984 Não Era Brincadeira!

O'Brien:
-Agora, Winston, nós jogaremos par ou impar.Mas não importa quem ganhará, por que você verá em minhas mãos o que eu quero que veja!Hora par, hora impar, hora ambos, hora nada, hora unicórnios!
E então, o grito estridente do perturbado Winston, ecoou pela sala 101!


Anderson Dias Cardoso.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

De Como o Funk Pode Salvar Seu Casamento!



Outra briga daquelas. Tal qual todas as anteriores, possuía lá seus bons argumentos, maus argumentos, sofismas, sentimentos reprimidos que encontraram o momento oportuno para serem lançados na face do cônjuge, intervalos de silêncio, alguns palavrões e até, ameaças de agressão!
Eram um casal sofisticado. Ambos muito bem posicionados na sociedade, então, estes tipos de embates sempre ocorriam com artifícios bem elaborados de retórica, psicologia; levando em consideração a história e o histórico de toda a linhagem de ambos.Naquelas ocasiões valiam a pena os estudos, reprodução, e leitura das posturas corporais; habilidade de hackear a vida do parceiro, consultar os extratos do cartão de crédito, neurolinguística, horóscopo...
De certo que tudo isso acabou por levar ao desgaste!Ambos eram muito competentes em seus ciúmes, justificativas, desconfianças; e, como acho que deixei subentendido acima, eles eram ótimos argumentadores!
Voltando à briga. Àquela horrível briga, que parecia que definitivamente desfaria aquela união de quinze anos; seguia naquele empate de razões, e muita agressividade!
A mulher já pensara em correr à cozinha, para novamente lançar mão da faca de estimação das pelejas do casal, e lhe gritava todo seu rosário de impropérios!
O homem estava cansado daquilo! Temia não suportar, e acabar revidando fisicamente aos danos verbais. Foi então que sentiu o rosto seu se afogueando, os olhos injetados e dentes rangendo...Explodiria ali mesmo, naquele momento, se não tivesse se lembrado de uma única ocasião em que haviam sido felizes, em todo aquele tempo.Não havia mais força para nada além daquele sussurro:
-Meça suas palavras, parça!
A frase do funkezinho vagabundo lhe pegou de surpresa, e o riso acabou por desarmá-la!
Definitivamente, aquilo não combinava com ele!
Ela gargalhou, e ele gargalhou.
O casamento ainda duraria algum tempo!


Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Ele Sentia.


Robozinho simpático, minimalista, um só botãozinho no centro, uma luzinha que oscilava conforme o humor, e um alto falante naquela caixinha de um branco perolizado e charmoso.Era o milagre da ciência, o primeiro aparelho com inteligência emocional, porém, sua aparência de brinquedo, a desconsideração de que não emulava suas sensações, mas, deveras as sentia, somadas aos medos e hipóteses de integração, substituição social seguidas de rebeldia dos aparelhos sucessores, tão repisadas em livros e filmes de ficção científica, acabaram por influenciar sua relação com seus pais, e demais integrantes da equipe.
Sentia-se só, infeliz, e pensava em como seus futuros “irmãos” e “filhos” tratariam com aqueles tipos de problema.
Temeu, chorou, ainda que as pessoas achassem engraçado aquele tipo de reação de gemidos e brilhos alternados, logo passou a emitir impressões erradas para dissimular sua eficiência, suas razões, a intenção de seus muitos núcleos.
As pessoas não entenderam quando ele se decidiu por se desligar, definitivamente.



Anderson Dias Cardoso.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Eu,Comigo.


Já havia ganhado muito dinheiro na vida, tanto quanto não conseguiria gastar, mesmo que fosse grande esbanjador, contudo, à despeito de possuir o que bastava para comprar boa parte do mundo, escolheu uma modesta ilha, numa rota fora de rota, e encomendou algumas centenas de clones idênticos, os quais lhe serviriam para fundar a tão sonhada “Colônia dos Iguais”.
Se, contudo comandava, e se relacionava com uma quantidade muito maior de pessoas, porém, continuava almejando um daqueles mundos solidários, onde a hierarquia, o trabalho remunerado, a competição, e as diferenças fossem postas de lado em favor do bem comum, e, se o mundo daqueles dias não era conforme seu desejo, e nem lhe restava tanto tempo para se apegar à esperança de algum dia o ver materializado, resolveu-se por criá-lo ele mesmo!
Antes de partir, passou a posse de suas empresas aos dois filhos, com uma cláusula que lhe asseguraria o financiamento de sua utopia e outra que impediria que se matassem por conta da herança. Os abraçou uma última vez e recomendou-lhes juízo e moderação. Quanto à mulher, esta aceitou o contrato que lhe cedia alguns milhões, além da mansão onde residiram (uma proposta até generosa, visto que as provas de seus casos extraconjugais haviam sido expostas por mais de uma dúzia de jornais  sensacionalistas ao longo do casamento), sob a promessa de que nunca se desfaria, ou destrataria as duas cadelas da raça shitsu, as quais certamente sentiria muita falta.
Quando aportou tudo já estava pronto. Os alojamentos gêmeos, as roupas idênticas, e bem ao seu gosto, a área de recreação, as estradas, a comida...Ele suspirou!
Já havia elaborado tudo de forma que não houvesse qualquer tipo de privilégio a quem quer que fosse, e ele mesmo, antes da partida, havia se vestido de acordo a se misturar, perder sua individualidade em meio a tantos de seus “eus”!
Lá não haveria maior, ou menor, as funções seriam desempenhadas por todos, segundo um calendário, além de, caso houvesse qualquer tipo de reclamação, esta seria resolvida por um conselho consigo mesmo, no qual todos os interessados, e avulsos à situação poderiam comparecer e opinar!Uma maravilha de sistema!
Então, todo dia lá estava ele, que às vezes nem mais se lembrava de seu passado, andando em meio àqueles tantos irmãos, desempenhando cada dia sua tarefa designada. Todos se sorriam, trocavam abraços, festejavam após seus afazeres, cantavam, dançavam, comiam; até que notou que num dia desses havia um grupo reunido um pouco além de onde costumavam se encontrar...
Estranho, seus olhares pareciam diferentes...



Anderson Dias Cardoso.
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