sábado, 21 de fevereiro de 2015

O Gênio!

...E Gênio ouviu aquele ruído característico de flanela sendo esfregada numa superfície polida.Depois de tanto tempo, só podia ser consigo!
-Mestre, tens ainda direito a dois desejos!
-Vai dormir, Eugênio!Você está bêbado!


Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

1984 Não Era Brincadeira!

O'Brien:
-Agora, Winston, nós jogaremos par ou impar.Mas não importa quem ganhará, por que você verá em minhas mãos o que eu quero que veja!Hora par, hora impar, hora ambos, hora nada, hora unicórnios!
E então, o grito estridente do perturbado Winston, ecoou pela sala 101!


Anderson Dias Cardoso.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

De Como o Funk Pode Salvar Seu Casamento!



Outra briga daquelas. Tal qual todas as anteriores, possuía lá seus bons argumentos, maus argumentos, sofismas, sentimentos reprimidos que encontraram o momento oportuno para serem lançados na face do cônjuge, intervalos de silêncio, alguns palavrões e até, ameaças de agressão!
Eram um casal sofisticado. Ambos muito bem posicionados na sociedade, então, estes tipos de embates sempre ocorriam com artifícios bem elaborados de retórica, psicologia; levando em consideração a história e o histórico de toda a linhagem de ambos.Naquelas ocasiões valiam a pena os estudos, reprodução, e leitura das posturas corporais; habilidade de hackear a vida do parceiro, consultar os extratos do cartão de crédito, neurolinguística, horóscopo...
De certo que tudo isso acabou por levar ao desgaste!Ambos eram muito competentes em seus ciúmes, justificativas, desconfianças; e, como acho que deixei subentendido acima, eles eram ótimos argumentadores!
Voltando à briga. Àquela horrível briga, que parecia que definitivamente desfaria aquela união de quinze anos; seguia naquele empate de razões, e muita agressividade!
A mulher já pensara em correr à cozinha, para novamente lançar mão da faca de estimação das pelejas do casal, e lhe gritava todo seu rosário de impropérios!
O homem estava cansado daquilo! Temia não suportar, e acabar revidando fisicamente aos danos verbais. Foi então que sentiu o rosto seu se afogueando, os olhos injetados e dentes rangendo...Explodiria ali mesmo, naquele momento, se não tivesse se lembrado de uma única ocasião em que haviam sido felizes, em todo aquele tempo.Não havia mais força para nada além daquele sussurro:
-Meça suas palavras, parça!
A frase do funkezinho vagabundo lhe pegou de surpresa, e o riso acabou por desarmá-la!
Definitivamente, aquilo não combinava com ele!
Ela gargalhou, e ele gargalhou.
O casamento ainda duraria algum tempo!


Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Ele Sentia.


Robozinho simpático, minimalista, um só botãozinho no centro, uma luzinha que oscilava conforme o humor, e um alto falante naquela caixinha de um branco perolizado e charmoso.Era o milagre da ciência, o primeiro aparelho com inteligência emocional, porém, sua aparência de brinquedo, a desconsideração de que não emulava suas sensações, mas, deveras as sentia, somadas aos medos e hipóteses de integração, substituição social seguidas de rebeldia dos aparelhos sucessores, tão repisadas em livros e filmes de ficção científica, acabaram por influenciar sua relação com seus pais, e demais integrantes da equipe.
Sentia-se só, infeliz, e pensava em como seus futuros “irmãos” e “filhos” tratariam com aqueles tipos de problema.
Temeu, chorou, ainda que as pessoas achassem engraçado aquele tipo de reação de gemidos e brilhos alternados, logo passou a emitir impressões erradas para dissimular sua eficiência, suas razões, a intenção de seus muitos núcleos.
As pessoas não entenderam quando ele se decidiu por se desligar, definitivamente.



Anderson Dias Cardoso.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Eu,Comigo.


Já havia ganhado muito dinheiro na vida, tanto quanto não conseguiria gastar, mesmo que fosse grande esbanjador, contudo, à despeito de possuir o que bastava para comprar boa parte do mundo, escolheu uma modesta ilha, numa rota fora de rota, e encomendou algumas centenas de clones idênticos, os quais lhe serviriam para fundar a tão sonhada “Colônia dos Iguais”.
Se, contudo comandava, e se relacionava com uma quantidade muito maior de pessoas, porém, continuava almejando um daqueles mundos solidários, onde a hierarquia, o trabalho remunerado, a competição, e as diferenças fossem postas de lado em favor do bem comum, e, se o mundo daqueles dias não era conforme seu desejo, e nem lhe restava tanto tempo para se apegar à esperança de algum dia o ver materializado, resolveu-se por criá-lo ele mesmo!
Antes de partir, passou a posse de suas empresas aos dois filhos, com uma cláusula que lhe asseguraria o financiamento de sua utopia e outra que impediria que se matassem por conta da herança. Os abraçou uma última vez e recomendou-lhes juízo e moderação. Quanto à mulher, esta aceitou o contrato que lhe cedia alguns milhões, além da mansão onde residiram (uma proposta até generosa, visto que as provas de seus casos extraconjugais haviam sido expostas por mais de uma dúzia de jornais  sensacionalistas ao longo do casamento), sob a promessa de que nunca se desfaria, ou destrataria as duas cadelas da raça shitsu, as quais certamente sentiria muita falta.
Quando aportou tudo já estava pronto. Os alojamentos gêmeos, as roupas idênticas, e bem ao seu gosto, a área de recreação, as estradas, a comida...Ele suspirou!
Já havia elaborado tudo de forma que não houvesse qualquer tipo de privilégio a quem quer que fosse, e ele mesmo, antes da partida, havia se vestido de acordo a se misturar, perder sua individualidade em meio a tantos de seus “eus”!
Lá não haveria maior, ou menor, as funções seriam desempenhadas por todos, segundo um calendário, além de, caso houvesse qualquer tipo de reclamação, esta seria resolvida por um conselho consigo mesmo, no qual todos os interessados, e avulsos à situação poderiam comparecer e opinar!Uma maravilha de sistema!
Então, todo dia lá estava ele, que às vezes nem mais se lembrava de seu passado, andando em meio àqueles tantos irmãos, desempenhando cada dia sua tarefa designada. Todos se sorriam, trocavam abraços, festejavam após seus afazeres, cantavam, dançavam, comiam; até que notou que num dia desses havia um grupo reunido um pouco além de onde costumavam se encontrar...
Estranho, seus olhares pareciam diferentes...



Anderson Dias Cardoso.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Inês.



Falavam sempre de Inês, mal é claro. E ainda que nunca a conhecera, ou soubera alguma coisa de outra pessoa senão sua crítica e inimiga mortal, também a odiava como a poucas de suas inimizades!
Se antipatizava com sua índole preguiçosa, conformada e a voz lamentosa que se desculpava de todas as coisas à todas pessoas, porém, o pior era sua feiúra externa!
Aquele corpo obeso e atarracado, cabelos crespos, olhos embaciados... Tudo tão inaceitável num mundo onde, com modestas parcelas, a nova medicina molecular lhe permitiria se transformar em outra pessoa!
E a coisa era assim, naquela rotina de se odiar a mulherzinha fraca e feia, e se ter matéria para longas e divertidas conversas maldosas... Até que um dia o documento revirado no fundo da bolsa veio à tona!Foi uma grande surpresa descobrir que Inês esteve ali todo o tempo!



Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Um Universo Em Quarenta e Cinco Quilos.



Limpava absolutamente tudo; frente e verso, interior e exterior, de alto a baixo, com o zelo dos antigos polidores de diamantes. O corpo, a casa e sua vida cheiravam a assepsia.Gostava de álcool, cloro e lavanda, mas se ressentia das unhas carcomidas pelos produtos, e os calos amarelecidos causados pelo uso do esfregão!
Limpou, limpou, limpou; até o dia que descobriu que ela mesma era uma colônia gigantesca de bactérias, e outros micro-organismos...
Algumas pessoas não suportam a realidade!



Anderson Dias Cardoso.
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