segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Dois Dedos D'água!



Andava avesso à vida, como aquele que encara as felicidades como discretas sereias boêmias.
Fora marido que já passara por atraiçoeiramento da mulher de seus votos; já perdera todos amigos que valiam lhe a pena e um emprego ruinzinho, mas de rendimentos que lhe garantiam os poucos mimos que sua rigidez aquisitiva permitia!
Desacreditara à certa altura de toda palavra positiva que recebera; as negativas sempre lhe pareciam mais sinceras, e quando a mãe tentava o animar, repetindo o prato favorito ele pensava em qual das milhares de degustações aquilo tudo havia deixado de fazer sentido!
Sua cadela cega fora conforto até que a senilidade roubou lhe a razão canina, e ele agora era só mais um outro à quem dispensava latidos nervosos.
A diabetes o permitiam um vago visual, proibia os outros pratos desejáveis e o presenteara com a impotência, e se feria com qualquer gravidade, a danada o permitia sangrar eternamente!
Quando aquele dia decidiu recolher sua luz pés doíam de andanças, em confortáveis palmilhas ortopédicas, mas não desejou retornar ao velho pouso, então o tropeção o lançou na imunda poça do desrespeito político...
Debateu-se um pouco, mas resolveu deixar-se inundar so pulmão "efisemados”, pois pequenas tragédias se afogam em dois dedos d’água.


Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Kleine Levin Em Nagazaki...




Não seria apenas mais uma daquelas imersões sonífero- patológicas das quais vez por outra retirava do convívio a inquieta garota.
A mãe persistia outra vez, e segurava-lhe mansamente a cabeça, aplicando emplastros e incensando a fronte de acordo com os saberes sincréticos herdados da pequena aldeia da qual migrara junto ao marido e a enferma criatura dormente.
Haviam zumbidos e estrondos à distância, e soubera, por possuidores de rádio, que os céus haviam convidado os fantasmas aéreos para trazerem seus ovos de pólvora para semear corpos sem vida, fogo e fumo às cidades circundantes; das quais Hiroshima por uma grande explosão já não era!
O seu homem a deixara para morrer nos campos, e ela ainda tinha esperança que ao menos os bombardeiros trouxessem o som que espantaria os demônios que prendiam a prole à letargia!
A criança se movia vez em quando, mas em seus sonhos o corpo sufocava e se debatia livrando se paulatinamente da membrana que prendia sua matéria ao sonho, flutuou perdida por um tempo dentro de si, mas quando a lucidez a assaltou era o momento em que os três pássaros se desfizeram da carga única, para a destruição de tantos!
Não houve resistência, seja por parte de corpos, madeira ou papéis - de arroz; tudo sofria ignição instantânea, e logo se dissipava em partículas agora também contaminadas.
O que não era vencido pela onda calcinante se tornava em escombros estampados de negativos antes vivos; sem qualquer surpresa ou esforço pra se proteger do improviso!
Os nomes rodopiavam engraçadamente trágicos na mente da adormecida, e a consciência pedia pra fugir!Enola Gay, The Great Artist e, num hiato gargalhante surgira uma nomenclatura retardatária: Nescessary Evil!
Eram apenas grandes aves que confabulavam bem humoradas entre si, e diziam da surpresa do desastre que a primeira carregava ao ventre!
Elas se foram da jovem, mas as pernas mirradas se esforçavam em alcançar seu vôo, e quando já era tão próxima que permitia o toque viu que o ventre volumoso da única criatura prenhe se abrira tanto quanto seu soluçado sorriso!
E a ave desprendeu de si o a segunda cria, um  carrancudo homem obeso, irmão mais velho do garotinho que havia arrasado a cidade anterior; e os seus olhos envermelhecidos se tornaram à criança em fúria, e ele partiu tal qual a força de mil terrores à consumir as vidas!
A garota gritou outra vez, e de terceira pessoa a perspectiva lhe abriu os olhos para o fogo que as consumiria em um presente sensível, mãe e filha, e um último e inconsciente abraço.
A pele ardeu por fim; prevendo antecipadamente uns bons dias, mas ela não pôde despertar pra avisar ninguém...


Anderson Dias Cardoso.

domingo, 18 de novembro de 2012

O Livro Me Garantia a Conquista...

Sentou-se ao fundo, como de costume, e o amor, que nem era belo tomou também seu lugar.
Veio-lhe à cabeça que o livro dizia que a mentalização do sentimento dominaria a mente alheia, e projetaria a empatia necessária pra iniciar o romance!
Era só potenciar o eco de pensamento de que era bem quisto que mesmo o presente namoro não seria empecilho! 
-Me amas Fulana!É certo que me amas, com toda força e empenho!- Era mais ou menos este o rosário psíquico que tecia pra influenciar a rapariga!
Vez ou outra as simpatias da moça pareciam declinar, daí se requeria mais empenho, e quase sentia se envergonhado ao imaginar que seus pensamentos podiam reverberar em gritos desesperados pelas paredes da sala!
Olhava ressabiado às costas do educador, e conferia se algum dos outros discentes ouviu que quase implorava a voz que antes ordenava obediência afetuosa!
Repetiu a ladainha ao infinito, até que notou que suas notas haviam condenado o ano!
A garota seguiu o namoro e os estudos, ao encantador só restou a lição inversa do livro!


Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

O Fruto Dos Sonhos Frustrados.


Era homem capaz, corpo forte, disposto e amigo das águas.
Evoluía em movimentos complexos ao ponto de ofuscar a experiência de seus pares e tutor.
Diziam ser meio peixe, ou evolução laboratorial, mas a modéstia sempre o fazia se achar fruto do acaso, e das poucas lições de nado de seu pai; num tempo em que o velho achara destino ser medalhista!
O salário mirrado rendia sunga e lições, e a insistência pela perfeição lhe furtou o tempo de escola, e depois do falecimento paterno pouco havia restado do sonho!
Apesar dos esforços houveram tantos melhores do que o jovem, e o que restara de si se consumia entre a carga e descarga de um atacadista.
A vida foi se amargando, e nem havia dinheiro pra visitar algum clube.
À despeito do amor que sentia por seu pai era impossível esconder de si a mágoa!
Tornou-se companheiro dos destilados, e afastou os amigos restantes... Quando deu por si havia ferido com os punhos ao gerente, e foi atirado à rua.
Neste dia errou instintivamente por caminhos que cheiravam à sal, e quando encontrou o mar o sol já recolhia seus raios.
Assentou-se isolado na brancura fina da areia, e do assento logo fez de improviso um leito; onde adormeceu de tristeza.
O que acordou foram os espasmos de susto pelo grito, e logo apercebido da morte que rondava a fragilidade do pequeno corpo, se lançou ao tecido aquoso trazendo corajosamente a alma que fora buscar!
Sendo surpreendido pelos flashes dos transeuntes, logo colhia o trabalho de guarda-vidas e infinitas congratulações!
O direito de herói o concedia o melhor posto da praia, mas não fora humildade, e sim rancor que o levou a escolher o mais afastado!
Não houvera a cura da chaga do sonho projetado, e sempre que olhava o mar, se lembrava das intenções do pai...
Não era de se surpreender que no ermo revolto onde decidira ser, vez por outra, quando não havia alguém por perto, o guarda-vidas deixava uma ou outra vida perecer!

 
Anderson Dias Cardoso.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Misofobia e Outras Patologias Recreativas.


As severas reprimendas da mãe em suas primeiras primaveras quanto à suas incontinências intestinais se insurgiram, e uma vez libertas das regiões subconscientes o moviam agora em estranhos e tristes rituais de limpeza e arrumação; dos quais os últimos decorreram dos períodos onde o entendimento rondava a confusão da pequena mente e a genitora o obrigava a ordenar além de seus parcos brinquedos.
Aos quatorze já o irritavam o desalinho e até a desarmonia de móveis, imóveis e pessoas; e já era acometido por pequenas “gasturas” por manchas e encardidos onde quer que avistasse.
Aos dezessete já tinha as mãos consumidas de cloro, a casa vedada e labutava 18 horas pela salubridade do lar, enquanto o estomago ulcerava de ansiedade pelos poucos instantes em que o corpo o obrigava o repouso.
Nestes dias o laudo pericial já o concedia o título de inválido, e governo o amparou com salário mínimo.
Nos anos subseqüentes acentuaram-se os surtos misófobos e ataxofóbicos e ele já visitava com suas disposições as vizinhanças, e invadia casas, agredindo seus moradores pelo direito de higienizar suas casas.
No auge de suas psicopatias vitimou uma idosa por seu imundo amado banheiro; e quando a sociedade o julgou sua causa o encontrou uma alma que já não era capaz de responder por si, e então a sapiência do magistrado converteu sua pena em oportuna terapia:
O homem perambulava agora contente, entre um banheiro público e outro!



Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Quando Um Abismo Chama Outro Abismo...


Pedia licença em cada casa, e à despeito de sua polidez e bons antecedentes o seu vício; particularmente sua cleptomania, o tornava alvo de imprevistos constrangedores.
As pequenas peças nos lugares visitados participavam da mágica prestidigitação do mancebo, que por sinal era bem competente; se bem que a suspeita de seus tantos pequenos furtos detonavam focos de piadinhas dentre os possíveis defraudados mesmo antes que a mão adestrada alcançasse qualquer alvo de desejo, coibindo o ato e gerando ojeriza no larápio!
A patologia acabou por afastá-lo de suas amizades pelo tempo suportado por alguém que amava o convívio, e logo ele visitava as relações abaladas ao tempo que anunciava tratamento psiquiátrico!
Enquanto desenvolvia qualquer conversa sacava do bolso o penhor de sua recuperação:
-É apenas um frasco onde reúno todos os medicamentos inibidores de minha compulsão!- E tragava sem água e com o esboço de riso confiante nos lábios, mas logo que permitia a ocasião reclamava a sede que não teve ao se medicar, ou as dores fisiológicas das quais todos padecem e visitava sozinho a cozinha ou o banheiro...
Vasculhava qualquer cesto de lixo, e todo descartável que com certeza nunca dariam falta e o embolsava ainda que envolta em pútridos detritos; voltando à sala desculpava qualquer demora e imergia ainda mais agitado na prosa!
Em sua casa revirava os manchados bolsos na avidez de apreciar seu produto!
Um vício se disfarçou em outro, e em sua mudança convidou seu inquilinato:
A cinzenta e cevada família de ratazanas, que se esbaldava na fétida imundice de seus pequenos, porém volumosos crimes!


Anderson Dias Cardoso.
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