quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A Arte de Criar Pequenos Deuses...


Depois que descobrira, milagrosamente, a arte do vôo a delicadeza de seus pezinhos nunca mais provaram soalho; e as perninhas, já descarnadas pela negligência aos alimentos mirravam a cada dia um pouco mais!
Não haviam asas às costas que justificasse o alçar do corpo miúdo, ou explicação para as concessões da gravidade à tão despretensiosa alma, que desde o nascimento fora comprovada não ser anjo!
Se houve estranhamento inicial da parentada, foi pretexto para supersticiosos benzimentos!
O vigário tentou beatificar a criança, a negativa dos pais tornou-se em excomunhão, e ao povo leigo a criatura era fada; com todas as manifestações do imaginário folclórico!
Logo que os rumores da criança volante acorreram das cercanias os supersticiosos e seus incensários, e tomaram à despeito dos esforços dos pais em proteger a criança que somente desejava voar!
A reação familiar denotava, aos imaginativos camponeses, a intenção de resguardar a pequena divindade para um egoísta usufruto!
Então, os iracundos juntaram um corpo ao outro; esfolando-os por querer impedir as honras do culto à pequena e tímida deusa!
A brutalidade aos genitores maculou-lhe a razão, e quando planou eternamente a criatura sobre as orações, os seus trejeitos eram vazios, suas profecias eram dúbias, e seu olhar catatônico...



Anderson Dias Cardoso.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

As Treze Famílias, O Povo, E O Miseravelmente Rico...


Realmente os algoritmos encomendados aos célebres matemáticos e estatísticos pelas 13 famílias que regem das sombras a humanidade foram exitosos à priori em desestabilizar os mercados.
Grandes bancos, financiadores de pequenos e médios colapsaram; as seguradoras não puderam acudir a tamanho desande econômico e, juntando se aos primeiros arrastaram consigo toda a indústria!
Cada país desvalorizava sua moeda, tentando salvar sua estabilidade pela exportação de seus potenciais, mas a austeridade do momento demandava protecionismo; e a baixa de uma moeda incentivava a queda da seguinte!
As tais famílias sem escrúpulos se esbaldaram nas pechinchas dos desgraçados, comprando o resto de mundo para aumentar lhes fazenda e vaidades e, quando seus tentáculos alcançaram os limites de seu interesse olharam para a devastação que criaram e tentaram torná-la cosmo outra vez!
Ordenaram a todos os governos que se aplicassem no assistencialismo, que inaugurassem obras públicas que captassem toda mão de obra necessária à reestruturação da economia; e que fosse reestabelecido o padrão monetário ouro; que lhes superabundava às mãos!
Mas a situação dos povos era irremediável todas as estruturas haviam definitivamente ruído sob o preço da desconfiança; e o povo preferia novamente o escambo à nota, todo artigo básico mais que moeda!
Houve retorno maciço à segurança da terra, sob a cessão coagida dos latifundiários; e o povo se contentava às simples satisfações viscerais; um prato de comida tinha agora mais sabor de vida!
Houve um, em meio aos descontentes... Criatura peculiar; bancário desde a mocidade, seduzido pelo manejo de maços de tamanho valor e, quando o mundo ruiu contava com respeitável fortuna!
Ele era daqueles que amava o dinheiro por todos seus significados, e antes que este perdesse o efeito, trocou tudo que tinha por posses de valor não abstrato; para se refazer logo que fosse conveniente!
Quando notou que as alterações das sociedades se acomodavam à cultura agrária, que o dinheiro já não dizia nada de influências ele se apegou ao seu passado, e trocou tudo novamente por fardos de papel moeda e os guardou em seus celeiros!
Obsessão com a fortuna desvalorizada consumiu-lhe até o pão que o alimentava!Sua família já o abandonara há tempos, quando tentou comerciar a própria filha!
Era agora figura ressequida perambulando pelas feiras de troca tentando roçar o dedo nos já raros impressos; para os enfeixar em intermináveis fardos, nos imensos seguros cofres; onde o que guardava não eram muros ou paredes, mas a indiferença pelo que é vaidade!
Das treze famílias nada mais foi conhecido. Disseram alguns que uma vez descobertos fugiram para não pagar pela ruína de tantos...
Da economia... Esta se manteria em sua singeleza cooperativa até que algum carismático grupo se alçasse à tirania!
Quanto ao louco que ajuntava tesouros sem valor... Bem...Era apenas mais um louco!


Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Finos Pratos...


Era notado sempre pela bolsa envernizada de aparência cara que portava em um abraço íntimo; e seu tratamento quanto à compra, polidamente amargoso.
Quando seu andar ligeiro marcava com compasso claudicante e barulhento o sossego da vaidosa cerâmica alvejada, havia sempre pressa mal intencionada dos bajuladores de endinheirados em apresentar boa vontade!
A confeitaria era a mais cara, e as aquisições do carrancudo sempre pediam muitos braços, dos quais sempre eram obrigados a serem acompanhados por sorriso
Uma mão habilidosa abria o fecho, sacava o dinheiro plástico e digitava a senha, a outra sustentava resignada a peça trabalhada que guardava-lhe os misteriosos pertences!
Havia carro designado à específica entrega; ao menos dois dos melhores funcionários postavam na imensa mesa do cliente o peso das tortas, quitutes, e finezas culinárias; e, ao esperar a multidão de degustadores só havia um homem de branco que os assistira à porta, para lhes atiçar as curiosidades!
Quando deixaram a propriedade só houve movimento do que comprou; e o passo angustiado do homem o levou ao banquete!
Desatou da bolsa o recipiente de colostomia, atou o encaixe dolorido da sonda; sentou-se tomando prato à prato e sorveu apaixonado o cheiro daqueles sabores!
O mordomo-enfermeiro já entrou em contrato ciente:
“-A comida fica exposta até se desfazer meu interesse, logo após deve ir ao lixo!”
Era ódio patético à sua condição, era inveja e desprezo aos que podiam comer.

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 2 de setembro de 2012

Escrevente.


Era daqueles escritores habilidosos que tratavam bem suas melancolias; bom sabedor dos artifícios de sublimação de seus dissabores em literatura ao menos razoável.
E quando, às vezes a mente lhe negasse o verbo o dedo somatizava pauta e parágrafo, com saltos hesitantes e espaços exagerados!
Era quase sadismo revertido à fonte!
Uma compressão espasmódica de dores próprias para um tenso jorro literário!
Da felicidade sabia um tanto, porém não comunicava nada!
Era sentimento inda mais solitário; era plenitude por si só!
Da felicidade não diria nada, bastava egoístamente senti-la!

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Expectador de Expectativas.


Não que gostasse, mas era companheiro dos intervalos; vivente manhoso do que pouco prezava amante do momento anterior ao fato.
O quase beijo lhe adoçava mais a boca, e o quase “já”, aumentava a excitação!
Sabia que no potencial havia plenitude, na consumação, quase sempre não resistia o sonho!
E, foi nos vícios que se abandonou de fato ao platonismo existencial; onde para ele havia quase gente...
Quase ser...
Quase tudo!

Anderson Dias Cardoso.
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