segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O Ninja!


Guerreiro do oitavo dã de Cajutso (uma milenar arte marcial envolvendo jiu-jítsu e capoeira, desenvolvida em um templo xintoísta secreto lá pras bandas de Mulungu, há uns 10 anos), filho exemplar, dono de uma banca de revistas underground pouco visitada, à qual deixava vez em quando sob os cuidados do sobrinho Cíço (menino ruim de conta; sempre passava troco errado!), para executar contratos de morte em qualquer lugar do Estado.
Naquele dia outra encomenda. Endereço, foto, passagem interestadual,vale-transporte, tíquete-refeição, a promessa de um pequeno rebanho de caprinos e o aluguel de pasto garantido até o fim do ano.E lá estava ele, descendo de uma lotação redundantemente lotada, no centro escaldante de Fortaleza.A roupa era preta, corpo inteiro; corpo inteiro mesmo; se bem que os olhos arredondados, maquiados com um traço mais obliquo saltavam do capuz como uma imitação constrangedora de um olhar oriental.
Perguntou e conferiu o endereço umas oito vezes, se sentia meio inseguro, mas continuou até que as informações o levaram ao prédio do Deputado. Algumas pessoas se sentiam incomodadas com o par de katanas penduradas no lombo, mas no fim, relaxavam.Todo mundo gosta de ninjas!
O prédio era monumental (ao menos para um interiorano), e havia um tumultuo por conta dos turistas, logo vencido e transformado um corredor meio irregular de curiosos. Tirou várias fotos, pediu alguns copos d’água para se manter no meio daquele tumultuo, mas foi se desfalecendo à medida da intensidade daquele calor!Por sorte, o forte cheiro exalado pelo tingimento da roupa preta, embebida de muito suor, acabou afastando dois terços das pessoas, e assim pôde alcançar o balcão.
-Reserva?
-Sim!
-Em nome de quem, macho?
-Raimundo Battousai.
-É não, macho!Eu assistia o desenho!
-É sim!
-Battousai é título!
-É nome!Toma aqui meu “resistro”!
-Macho, vai me “desculpá” mas esse seu “resistro” parece verdadeiro não!
-Tá duvidando de mim, macho?Pesquise aí!Pesquise aí nesse tal de Google aí que eles vão te falar direitinho!Fui “resistrado” no Cartório de 2° Ofício da cidade de Aracati!Pode perguntar aí no computador que eles vão informar direitinho!
-É não, macho!Tem isso aqui não!Cartório de 2° Ofício de de Aracati é de “resistro” de imóvel!
-Pro... Procura aí então:Cartório do Seu Alipino Gonzaga da Cruz e Silva!Vai logo macho, que eu tô me impacientando contigo!
-Tem isso aqui não,macho!
O ninja então sacou dos seus fundos emergenciais algumas notas de cem, olhou para um lado e outro e as depositou no balcão.
-Raimundo Battousai!Olhaí direito,macho!
-Ah!Num é que o senhor estava certo!Olha seu nome escrito aqui!-E foi o digitando no livro de entradas. Quando partiu para o quarto, que pelo número  certamente era muito mal localizado, o rapaz gritava de seu posto desejando-lhe uma ótima estadia!
O percurso fora meio sinuoso, e descia ao invés de subir, mas não via a hora de “jogar uma água no corpo”, trocar a roupa de baixo, e descansar alguns minutinhos.
O quarto era bem simples.Cama, criado mudo, um abajur e uma foto sorridente do moço impertinente que lhe havia atendido.Não havia ar condicionado.Ficou um pouco nervoso com o golpe, mas alguns minutinhos de meditação resolveriam bem seus sentimentos.Não havia telefone para serviço de quarto, e parecia que ali, mesmo seu celular não encontrava sinal.O estômago o incomodava um pouco, mas o corpo estava exausto.Bebeu um copo d’água para enganar a fome, e cochilou uns minutos...Ao todo foram uns 367 deles, nos quais, não sabia ao certo porque, sonhara com a cachorra Baleia!
A roupa ainda estava um pouco úmida e com um característico azedume.A boca amargava, e a fome persistia. Saiu do quarto e tentou se situar.Apesar de ninja, seu aparelho biológico de geolocalização parecia enguiçado desde criança!Era comum ligar para alguém para se encontrar, ou, que ligassem atrás de alguma notícia sua.
Aqueles corredores eram um pouco mais hostis do que o ambiente lá de cima. As pessoas estavam sempre ocupadas, nunca sorriam, e pareciam desconfiar daquele homem vestindo aquelas roupas estranhas.Provavelmente nunca esbarraram com um cosplay para ter a noção do que era verdadeiramente ridículo!Andou, andou, e continuava a se perder como de costume, até que encontrou a escadaria sem corrimão que seguia perigosamente para os andares superiores.
O fluxo de pessoas ia aumentando.Movimentos de gente bem vestida saindo para aproveitar aquele começo de noite, outros se encaminhando, em seus trajes de banho, para se refrescarem e exibirem o resultado de seu regime e malhação à beira da piscina.Pensou em quantos deles voltariam a ostentar o corpinho de “leitão” após aquele período de férias!Pensou também em ficar apenas de máscara, e levar consigo uma das afiadas katanas que trazia consigo, mas eis que o homem logo apareceu diante de si!
Era baixo, calvo, peludo, pálido, pernas arqueadas, unhas roídas, sorriso com dentes demais... Mas o roupão que ostentava era de muito bom gosto!
Tentou se aproximar, mas foi barrado por dois seguranças enormes.Pensou em sacar as lâminas e tingir as paredes de vermelho, mas sua profissão prezava pela discrição!
Disse uma ou outra palavra em um japonês com sotaque nordestino e os homens responderam com gargalhadas, que acabaram por lhe favorecer de alguma forma, pois despertaram a curiosidade do Deputado!
-De onde vem, filho?
-Sou natural de Nagazaki, seu Deputado!
-Hum...Por isso os olhos estranhos, e esse sotaque!Tá explicado!Há!Há!Há!-Piscou para um de seus protetores.
- Já pensou em se candidatar, filho?Hoje em dia, figuras como você fazem muito sucesso!Você pode nos ajudar a eleger um ou dois...
-Desculpe, mach...Senhor!Minha mãe está me pagando um curso de massagista!Não levo muito jeito com gente!Fico nervoso!
-A roupa de um homem diz muito sobre ele!-Sorriu com uma leve pitada de ironia.
-Muito agradecido Vossa excelência, mas prefiro amaciar o lombo dos outros!
-Espero que vote em mim na próxima eleição!
-Só se me der a honra de massagear Vossa Senhoria!
-Agora estou meio sem tempo, meu filho!-Disse com um sorriso simpático- Quem sabe no ano que vem!
-Minha família é grande!Somos em treze só lá em casa, imagina o resto!
-Ôpa!Se não for demorar muito!
-Nada,macho!Eu aprendi uma técnica com um monge lá de Limoeiro do Norte que só carece uns toques!Nem precisa deitar!E olha que ele cobra setecentos reais a sessão!
Deputado perguntou o quanto do roupão era necessário despir. Soltou a amarradura e expôs a barriga peluda, a qual havia sido solicitada.O ninja tocou rápidamente alguns pontos vitais, repetindo-os nos agora não tão impertinentes capangas!Aquele era o famigerado (entre seus pares, é claro), e terrível golpe “polegares orientais do jegue sagrado”. Logo um discreto “nó-nas-tripas” lhos acometeria; e os legistas certamente culpariam aquele modo de vida tão desregrado que notadamente levavam!
Pediu para fazer um selfie com a vítima, se despediu do grupo e foi procurar pela rodoviária mais próxima. Mal podia esperar para receber suas cabras!



Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

A Minha, e a Tua Vida...



Havia dobrado a esquina, deixando para trás a última tentativa de relacionamento. Garota simpática, inteligente, sorriso tímido e de dentes tão brancos quais nunca havia visto.O hálito era agradável, o beijo, delicado; ainda que nada lhe despertasse de simpatia ou libido.
Assim foi com algumas outras...
Passeava naquele dia, somente isso. O peito vazio ainda incomodava, mas sabia que nunca o completaria de maneira convencional, e além disto, havia poupado muito por suspeitar que um dia haveria de querer a solidão. A mãe, único afeto, fora levada por uma epidemia de tuberculose em 54, e, de lá prá cá todo relacionamento foi instintivo, lógico e interessado; coisa de sobrevivência!
Um quarteirão, outro, e outro. Os pés reclamavam muito; talvez sangrassem, mas sentia-se impulsionado a vagabundear até a exaustão.Não havia mais emprego, responsabilidade ou amigos que lhe ocupassem; então, continuou.
Não podia precisar onde se encontrava à meia noite. A boca secara, e já nem sentira o resto do corpo tamanho era o cansaço.As casas daquela vila lhe eram de alguma forma familiares, e a sensação da terra fina e solta raspando e cobrindo o envernizado recém comprado o angustiaram muito.Não era cuidado com a aquisição, mas um sentimento nostálgico que lhe invadira uma ou duas vezes na vida; então parou na encruzilhada, olhou demoradamente o conjunto até que quando ia se virar ouviu o choro.
O negrinho não estava tão distante, e ele não se importava; mas a curiosidade o arrastou para junto.
Ajoelhou-se perto do corpo miúdo, tentou falar alguma coisa para que este se virasse, mas se sentia desajeitado. Tocou o braço, e o rostinho vestia olhos inchados de choro, e um ranho que escorria até o peito, fazendo lodo com o pó da rua.Perguntou pela mãe, e ela o havia posto para fora de casa “prá namorar”.Aquilo o incomodou.Perguntou se acontecia com freqüência e  o garoto respondeu que à cada dia, com namorados diferentes; daí já não conseguia mais fitar aqueles olhos, inda assim o tomou no colo e o levou dali.
Uma semana, duas, e nada de veicularem o sumiço da criança. Esta havia ganhado peso, e tagarelava pela casa dia inteiro, à despeito de ele o ignorar quase sempre.Aquela identificação a qual o levara a abrigar em sua casa sumira quase que completamente, e ele agora era com qualquer pet, o qual se deve alimentar, higienizar, vermifugar, levar para dar uma volta.Tarefas que desempenhava tão desapaixonadamente quanto antes.
Dia chuvoso, sem passeio e a “manha” do garoto se manifestou em gritos, uns copos quebrados, arranhões e algumas palmadas. Abafou bem aquele rebuliço pois temia que os vizinhos o notassem,investigassem, pensassem mal, chamassem a polícia...Prometeu que sairiam no dia seguinte se lhe obedecesse; o garoto disse alguma coisa mas ele já havia se virado para ir terminar de lavar as louças do almoço.
-Sua mãe também era uma prostituta!
-O que disse?- a surpresa lhe socou o estômago.
-Ah!Agora me ouve?-zombou o garoto.
-O que sabe sobre a minha vida, seu fedelho!?
-Te vi chorando e falando enquanto dormia.
Os olhos do homem se estreitaram, espalmou a mão e acertou com vontade o pequenino; este chorou por uns minutos enquanto ia se recolhendo ao quarto improvisado.
-Te ponho na rua, moleque!-Gritou, e esperou que lhe respondesse de alguma forma e o justificasse no que pretendia fazer, mas nada ocorreu além de pesadelos e impressão de ser observado enquanto dormia. Levantou-se algumas vezes para verificar se a porta estava realmente trancada, e se havia coberto o buraco da fechadura.
No dia seguinte sentiu remorso, e algo parecido ao medo, mas o levou em passeio, ainda que não ousasse trocar uma palavra!
No percurso do parque o garoto apontou um ou dois conhecidos, e ele inicialmente pensou que falava de pessoas de seu próprio convívio, mas notou com estranhamento que ele o fazia descrevendo o papel destes na vida dele. Passou a prestar atenção a tudo que dizia, mas havia temor de perguntar alguma coisa.
Às vezes deixava o garoto se afastar, e brincar de “faz de conta” com algum amigo imaginário, mas este o perturbava inserindo coisas que havia pensado, ou vivenciado naquele dia, as quais quase sempre enquanto estava sozinho.
Tentou se afastar daquela criatura!Recuava passo à passo para que não notasse que se distanciava, mas logo que estava pronto a se virar, e sumir, o garoto correu e lhe chamou de pai. Ele se sentiu coagido pela quantidade de pessoas que lhe fitaram quando gritão “Não”, e acabou por o receber em um abraço dissimulado, e levá-lo para casa.
A criança agora estava mais estranha do que nunca. A sala parecia povoada de amigos imaginários, e o garoto já não comia ou dormia , além de descrever, de modo lúdico e surreal a vida inteira de ambos.
E a vozinha foi se alteando, inundando ,sufocando, angustiando o homem ao ponto deste correr da porta às escadarias, e destas às ruas sem ao menos se aperceber disto!
Ele flutuava sob o calor do dia, olhando para lado e outro temendo ser encontrado em meio àquele coral de vozes e sentimentos. Perambulou uma semana inteira, ou teria sido um mês?A criança surgia vez em quando, em alguma esquina ou encruzilhada, e ele tentava fugir; pelas pernas, medicamentos, bebida... A criança sempre o encontrava!
Outro dia quente, e os olhos pesados pelas noites insones criavam alguns delírios desconcertantes. Ele tinha certeza que estava ali, em pé; saído de uma loja de camping a qual lhe havia tomado todo dinheiro em troca de um 32 usado com código de identificação raspado.Se reconhecia como uma figura estrapeada pelo reflexo sujo da vitrine, e imaginou como seu hálito e cheiro agrediam os circundantes.Abriu o embrulho, e olhou ali mesmo arma e balas, recarregando calmamente o tambor enquanto as pessoas iam se afastando e se desviando de si.A criança também estava ali!Naquele dia havia lhe dito o quanto sua mãe o desprezara!O lembrou que, após o fim do casamento, ela tentara alguns relacionamentos honestos os quais serviriam para, no mínimo, os manter, os quais seus ciúmes, gritos e ameaças, afastaram cada um! Foram então despejados; mendigaram por algum tempo, e a mulher passara inicialmente a o ignorar, posteriormente o maltratava com xingamentos e golpes, na tentativa de que fosse embora. Um senhor, certo dia, lhe perguntou se ela não queria lhe alugar o corpo.Ela foi, e voltou de banho tomado, cigarros e alguma comida.Daquele dia em diante se mudaram para um quarto, barraco e casa decente; mas nunca sem algum tumultuo por conta dos fregueses e os cuidados do garoto!O negrinho o lembrou que fora oferecido à algumas famílias; sendo rejeitado pela cor e idade, então a mulher pagava mensalidade à quem lhe acolhesse, dizendo que ainda poderiam se servir dele em atividades domésticas pertinentes às suas capacidades. Um ano depois não haviam mais pagamentos, ou mesmo notícia da mãe até ter descoberto seu falecimento, muito tempo depois; e ele foi expulso e acolhido por desprezo e piedade em muitas casas; mas os afetos e gratidões haviam sido dispersos entre uma mudança e outra!
E estavam ambos ali, no presente. Olho no olho.O negrinho sorria, ele não.Havia ouvido daquela criaturinha asquerosa tudo o que não se lembrava, ou queria saber de si.Então o “infamezinho” avançou mais um passo, tomou a arma na mão e disse:
-Eu sei que você não tem coragem!Sempre foi um covarde, então deixa terminar isso prá você, meu amigo!
O garoto apontou para sua própria cabeça, com aquele mesmo sorriso, e disparou; mas foi o corpo do homem quem caiu!




Anderson Dias Cardoso.

domingo, 14 de setembro de 2014

O Herói!


Era daqueles heróis tradicionais, vindo de outra galáxia, com poderes sobre-humanos, moralidade ilibada, e outras qualidades que nos remeteriam aos clichês de hoje em dia.
Havia salvado a terra algumas centenas de vezes, de perigos de relevância variada, mas ainda assim alguns lhe chegaram a questionar o porquê de seus esforços serem num campo físico, sendo que a corrupção, e outros tipos de crimes continuavam ser cometidos mesmo sob seus olhos!
Será que só saberia “bater”?Não leria os jornais?Teria “rabo preso” com os políticos e empresas?Já ouvira falar que ele era como daqueles vigilantes motorizados que cobram uma taxa, grudam um adesivo na sua fachada e disponibilizam o celular para caso haja algum problema... Acredito nisso, já que quase nunca o vi salvando algum suburbano!
Parece que é judeu!Ouvi falar que até tem El no nome; o que me faz suspeitar ainda mais do cara, já que a Palestina tá uma bagunça, e ele não dá as caras por lá pra ajudar a resolver a confusão!...Fico pensando se é circuncidado. Pessoas à prova de bala devem ter o “couro” bem resistente...
Gosto bastante de teorias da conspiração, sabe?Um vizinho meu diz que essas batalhas monumentais que ele anda travando com esses inimigos anabolizados, e que destroem centenas de prédios, são encomendadas por empreiteiras de uns parentes do governador (há rumores de que o material com que reconstroem, ou reparam as construções são de segunda linha, e que isso não importa muito, já que logo-logo elas serão destruídas e reconstruídas de novo!), e que a gente pode esperar um novo imposto pro próximo ano, dirigido exclusivamente pra o custeio das consequências dessas “porradarias”...
E, enquanto as pessoas especulavam à respeito da sua vida, o herói, já muito debilitado por todas as armas e artifícios usados por seu aqui-inimigo, se arrasta sobre os escombros de um aglomerado atacadista ermo e desativado, procurando pela cápsula que guarda o dispositivo do “Juízo Final”!
O “homem” se movimentava sentindo os ossos soltos dançando sob suas carnes, um dos olhos provavelmente nunca mais enxergaria, e não havia certeza se algum dentista lhe conseguiria lhe implantar os dois incisivos perdidos numa das explosões, mas isto não importava agora!Estava a alguns centímetros daquele dispositivo mortífero, de engenharia também alienígena, com efeitos terríveis, que ele próprio ignorava!
Tomou-o em suas mãos!Era prateado, pequeno como uma caixa de charutos, e possuía um interruptor no centro com um adesivo em uma língua a qual reconhecia de sua infância extraterrena: Liga/Desliga; e um display acusando que havia apenas alguns segundos!
Um som suspeito estalou atrás de si. Ele se virou, e o monstro de oito metros de altura, pêlos grossos, uma jaqueta de couro de uns quinze invernos venusianos atrás, cravada com os botons de figuras ilustres as quais havia assassinado, fechava o punho sobre a cabeça do herói para o esmagar!
-Relaxa grandão, eu tô de saco cheio disso aqui também!
-Grunf, upk nummaf!-Respondeu a figura terribilíssima!
-Senta aí que falta pouco... -o herói afastou com um peteleco um pedaço do piso de uns trinta mil quilos do oitavo andar da administração (ele o sabia por conta daquele porcelanato horrível que havia notado enquanto fora atirado através das paredes do ambiente, e em uma micro fração de segundos viu e ponderou sobre o mal gosto do arquiteto que sugerira aquilo!Além do mais era muito poroso, o que dificultaria demais a higienização!Não se admirava de o encontrar tão encardido!).
Já acomodados quando estava tudo prestes a ser consumado (o monstro se utilizou de um cadáver avulso como almofada. Seu ossinho alienígena do cóccix havia sido danificado durante uma queda em uma de suas incursões noturnas ao banheiro, por conta de sua incontinência urinária), e então ambos se deram as mãos.
-Foi bom trabalhar contra você grandão. Vamos dar uma lição neles!
Woghjaid ashgom lhagutab!-uma lágrima escorreu daqueles olhos peludos, e tudo mais virou pó!




Anderson Dias Cardoso.

domingo, 17 de agosto de 2014

Os Filhos de John Doe.


De repente estava ali; terceiro ou quarto filme protagonizado, um talento duvidoso elogiado pela crítica, uma beleza contestável acentuada por uma centena de milhões de dinheiros, e aquela aura artificialmente criada pela mídia quando a mesma quer causar comoção, e conseqüentemente, aumentar suas vendas!
Não me antipatizava com o moço, ao menos naquele momento; mas é que as pessoas são muito criativas no que se diz a inventar formas de lucrar, e confesso que não pude deixar de me sentir enojado quando a televisão passou a avisar que uma clínica especializada, em particular, ofereceria o serviço de inseminação com o material genético daquele “garanhão”. Desliguei o aparelho e procurei nem pensar mais à respeito.
Anos depois, mantido o glamour do tal John Doe (mais por conta do bizarro empreendimento, que por qualquer de seus méritos), as ruas se tornaram uma vitrine estranha de crianças engenhadas para se parecerem com aquele homem em algum nível (eram tantas!), de acordo com a pureza da fonte e o preço pago, já que sêmen pirateado da estrela já podia ser adquirido no quiosque da esquina!
Naquele instante inicial houve muita confusão. Mães são criaturas muito protetoras, e sempre querem alçar seu filho ao destaque (principalmente se este lhe custara todas suas economias), e uma aparência mais aproximada de John era um certificado de sucesso, prosperidade, e autenticidade genética!Algumas delas tentavam forçar o encontro da prole com o genitor, mas sempre quem lhes respondia era o departamento jurídico, lhes afirmando que uma cláusula lho impedia tais tipos de relacionamentos. Diziam que era homem muito sensível, e sofreria muito com cada uma das separações que se sucederiam se houvesse precedentes, se bem que a maioria das mães desconfiasse que era o patrimônio que preservava!
Nasceram também alguns “mutantezinhos”. Estes sempre carregavam algum detalhe inconfundível do pai, como os olhos de um azul pálido, o cabelo liso e oleoso de matizes trigueiras, ou o incisivo levemente torto.Mas, fora isso, os demais traços degringolavam numa polidactilia, lábios leporinos, microcefalia, ciclopia, ou qualquer deformidade que certamente os excluiriam de um convívio social natural.
Os fornecedores garantiam a procedência do produto... Bem, pelo menos quando foram descobertos os primeiros casos!
Agora, o trágico mesmo foi quando começaram os boatos de que John Doe havia se desentendido com seu empresário, o famosíssimo e terrivelmente vingativo Harry Dick.
Foi-me óbvio que o “produto” lhe havia causado algumas situações embaraçosas, e parecia não se sustentar bem nos ambientes artísticos e políticos como antigamente; além de haverem boatos de que o dito empresário teria um novo “afeto”, um rapazinho de dezessete anos muito talentoso o qual lançaria na próxima oportunidade.
Um tempo depois, já fora de cena, o que se ouvia do ex-ator era que era alcoólatra contumaz, adicto de algumas drogas de luxo, e que havia se retirado para alguma de suas propriedades interioranas para se consumir sem culpa, ou interrupção.
Os jornais, há umas duas semanas, noticiaram que John havia sido pego com materiais de pedofilia em seus aparelhos eletrônicos. Algumas mães da região começaram a procurar a TV e as autoridades para reclamar de molestações de suas crianças.
Entre psiquiatras e psicólogos estão surgindo muitos questionamentos se tal comportamento pode ter alguma influência genética.
Os filhos de John Doe estão sendo hostilizados pela sociedade...  





Anderson Dias Cardoso.

sábado, 2 de agosto de 2014

Vitrine.

Era, ou melhor, estava uma criaturinha mirrada, esquálida, daquelas que chegam rastejar de fraqueza em certos dias. Seus fios haviam se ressecado, assim como a pele, e agora se desprendiam da cabecinha ossuda tufos negros e quebradiços,que deixavam aqueles  pontos calvos esbranquiçados.Uma figura desconcertante.
Na ocasião se sentia disposta, e, carregando o celular da moda, se encaminhou à geladeira para tomar o quinto copo do dia daquele preparado de alecrim e hortelã, o qual a internet lhe havia dito emagrecer!
A mão esquerda era ágil, e, com os dedos de unhas moídas, se comunicava com amigos virtuais, já que os “de fato” a haviam abandonado alegando teimosia e agressividade por conta de suas sugestões de tratamento! A mão direita segurava meio trêmula o copo.
O diurético e as vitaminas haviam acabado (ela ouviu falar de escorbuto, e decidira que seus dentes eram um belo enfeite para seu rosto, valia à pena mantê-los) e era quase hora do almoço, então procurou o quarto, notou no espelho de corpo inteiro algumas manchas arroxeadas espalhadas sobre a pele, mas fora isto, suas medidas quase a contentavam.
Sorriu se escorregou para dentro do vestidinho florido favorito e calçando a sandália de couro trançado, terminou seu ritual se maquiando, apanhando a bolsa saiu.
O percurso era costumeiro, cruzando com os mesmos semi-conhecidos de olhar estranho e acusador, e ela já não se importava mais com isto!Realizou o itinerário com apenas uma ou duas vertigenzinhas, bolsa inda mais cuidada agora com aqueles seus remédios, e o celular sendo molestado pelo polegar descarnado e frenético, marcando na rede sua estada em qualquer lugar que considerasse popular.
Sentiu o cheiro da comida se avizinhando, sofreu ânsias de vômito, mas continuava resoluta!Pediu mesa, água para seu remédio, e já ofereceu gorjeta antes de lhe entregarem o cardápio.
Devia ser assim sempre, o dinheiro tornava as pessoas amistosas.
Olhou num prato, e outro, mas não havia nada de tão impressivo. Esperou um pouco, cobrindo as narinazinhas sofridas com um lenço perfumado.Tentava dissipar o cheiro do ambiente.
Um homem bem vestido, solitário, se sentou um pouco distante. O trato e sorrisos da garçonete disseram que era pessoa refinada.
Trouxeram-lhe o prato mais requintado do lugar, e ela já se via levantando para se apresentar.
A cena foi tão constrangedora quanto sempre. Era seu dom causar surpresa!
Estendeu a mão, disse seu nome, e se encurvou para beijar o rosto do homem, enquanto pedia emprestado o prato para uma foto.
O hálito de fome lho agrediu o estômago, e ele perdeu o apetite. Insistiu, meio desconcertado, que ela comesse, mas aquele “quase cadáver” dizia que estava de regime.
Ela lhe ofertou almoço, só queria a foto, mas preferia não pagar pela mesma e vê-la indo parar no lixo.
-Há muita gente passando fome, e acho que desperdiçar comida é pecado!
A garota achou melhor deixar o homem à vontade. Se despediu, virou as costas enquanto postava eufórica a foto de “seu almoço” no Instagram.Todo mundo iria morrer de inveja!





Anderson Dias Cardoso. 
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