sábado, 29 de março de 2014

Êxodo Digital-Parte 3.


Havia especulações de como seria a migração das massas para a virtualidade, e se esta mesma ocorreria como algo positivo, ou seria um evento impulsionado pelo pânico proporcionado pela agressividade e variedade de doenças surgidas por todo tipo de contaminação. É claro que a curiosidade, e o espírito aventureiro encaminhou uns bons milhares às filas de inscrição, mas toda a excitação teve de ser contida até que se calibrassem todos os ambientes e os adaptassem como recortes bem arranjados afim de esperar que a maioria da população se decidisse em se transferir para aquele lugar!
Coisa estranha, impensada e oculta à população; pela obviedade do impacto emocional negativo que certamente ocorreria, era o projeto de descarte dos corpos dos migrantes digitais!
Enquanto o Ministério da Saúde veiculava vídeos românticos de imensos cemitérios, espalhados em pontos muito remotos e proibidos, mas com delicadas lápides de uma sincera imitação de mármore negro, e aquele relvado sintético bem convincente se estendendo até encontrar no horizonte um por do sol maquiado; a verdade era que já se construíam fornos industriais não muito longe dos laboratórios de digitalização e logo haveriam caminhões de descarte carregando amontoados de cadáveres para serem incinerados logo que fossem expirados os prazos de contrato de conservação e reivindicação concedido às famílias!
No caso da minoria mais abastada, aconselhavam a criogenia com uma promessa meio verdadeira de que em breve seria provável reverter os dados ao corpo, e numa possível descontaminação da biosfera, retornar e recolonizar o espaço o qual lhes cabia por direito!
Haviam também muitas dúvidas e especulações à respeito de o quanto a realidade do programa seria fiel à nossa, e em que condições e quais privilégios estariam disponíveis aos convertidos, e isso pouco me interessou até que comecei a notar aquele mesmo artifício do uso de perfumes fortes quando minha mãe nos visitava em casa. Minha esposa disse que não, mas eu insisti que alguns conhecidos se perfumavam e se maquiavam em excesso para disfarçar os cheiros e crostas das ulcerações de algum daqueles tantos tipos de câncer. Questionei minha mãe, e ela negou algumas vezes; chorou e me abraçou.Eu estreitei o afago e ela me escapou um baixo gemido!
Eu disse, ao pé do ouvido que ela havia mentido, e ela se afastou. Eu ergui um pouco sua blusa e me assustei com a costela à mostra e uma parte apodrecida do lado.Ela se cobriu, e disse que já era de idade e que não se intrometeria na minha rotina de casamento.Eu disse que haviam possibilidades, mas ela retrucou que um médico domiciliar lha informou que este era dos novos;muito agressivo!Resmungou que, além de tudo, as unidades de oncologia se encontravam abarrotadas e seu cartão de consultas já havia sido consumido por problemas respiratórios que a vinham acometendo. Eu pensei em a digitalizar, mas não lhe disse nada!
Conversei com o amigo de um amigo, e ele afirmou que já admitiam algumas pessoas para aquela primeira simulação de universo, procurei algumas informações na rede e encontrei um quiosque bem próximo, e com uma média de solicitações baixa!
Eles não me garantiram nada, e ainda disseram que no beta algumas pessoas poderiam ser inseridas com algum bug físico-neural, e em alguns casos, no salto a pessoa se perdia em algum limbo ou simplesmente deixava de existir. Achei um tanto dramático, mas decidi arriscar.
A mulherzinha era arisca, das que nem situação ou retórica comoviam, e eu me irritava muito que parecesse não compreender que suas fobias por máquinas seriam menos nocivas que o destino que a esperava, e que naquele processo todo haveria ao menos a garantia de que seu código seria limpo da doença, seus poucos bens e ordenado mantidos, e logo que fosse possível eu e minha esposa a acompanharíamos naquela nova vida!
Ela negou, mas como já havia subornado com grande quantia tomada emprestada tive que me esforçar um pouco mais!Esbravejei, ameacei, pranteei, mas mesmo tão debilitada se arrepiava e ameaçava urinar nas fraldas pela possibilidade de se ver implantada de cabos e sifões de transporte digitais. Se de fato nada era tudo o que se sabia à respeito dos processos, algumas camaradas também idosas lhe fizeram figura, e asseguraram que conheciam quem dissera que experimentara e declinara da viagem diante de tanta dor!Um jovem da vizinhança ou coisa assim, mas, sinceramente não me lembro dele.
Como ultimo e desesperado recurso aumentei-lhe a dose dos analgésicos, e enquanto experimentava um sono absurdo eu desembolsava mais alguns tíquetes para comprar ajuda para transportar a recalcitrante!
Um amigo possuía um carro; eu o pedi emprestado e ele disse que me alugaria por um ou dois dias de ração, mas isso me ofendeu, pois o veículo antiquíssimo e falto de manutenção; provavelmente se desfaria na viagem, me deixando à mercê da sorte. Ofereci três latas pequenas de conserva de legumes e um pão de cevada, todos produtos de muito boa procedência, mas ele me disse que não se importava com essa coisa de marca, eu adicionei um vidro de compota de pêssego, e ele me entregou satisfeito a chave.
-Não sabia que ainda existiam pêssegos!-Desatarraxou rápido a tampa e arrancou com os dedos uma peça lambuzada do doce, metendo-a logo em seguida naquela boca cariada, enquanto eu protestava sua ajuda com aquele corpo, que flácido pela inconsciência, parecia pesar o dobro!Ele tateou com as mãos sujas o tornozelo, mas o transporte nos ficou meio desajeitado, abraçou as coxas, e próximo às manchas purulentas do ferimento no vestido, não tratadas naquele dia, foi tropeçando e contendo suas ânsias até o deitar no banco traseiro do veículo.
No caminho clima abafado, as janelas abertas por conta do ar-condicionado falido, e a fuligem desprendida das fábricas de reciclagem precipitava naquela paisagem árida e deformada por montes de entulho, e umas poucas árvores vestidas de sacolas plásticas e escurecidas pelo fumo de carvão. Era feriado municipal e haviam muitos coletores, separadores, e fiscais correndo atrás dos gigantescos caminhões de limpeza. Vez em quando algum deles escondia alguma coisa na mochila de lona, possivelmente dentro da marmita vazia do dia e ao fim daquela jornada era certo que procurariam o mercado de usados tentando encontrar um interessado pelo achado.
Consultei o velho GPS, mas este me mentiu novamente e, tentando acertar o rumo acabei consumindo o resto de cupons de combustível de meu amigo, mas este me assegurou que meu guarda-roupas, o qual havia trocado por uma torradeira, um par de sapatos de couro sintético e uma navalha com cabo de mogno, compensaria as despesas adicionais, afinal, pra que serviam mesmo os amigos!
Haviam diversas filas diante pequeno complexo decadente, mas nenhum indicativo de para que se destinavam. As portas sanfonadas imensas bem oxidadas estavam cerradas e havia um cheiro muito incômodo de urina fezes denunciando uma espera longa, alguns ainda arrastavam cobertores estrapeados e bocejavam seu mau-hálito a mais um dia ingrato!
Perguntei à um e à outro, mas disseram que haviam vindo pela sopa, ou por passes para o albergue; então notei um golias armado e corri sob a expectativa de minha mãe despertar à qualquer instante. Eu disse-lhe o nome , o por que e de como minha mãe havia sofrido alguns contratempos até chegar naquele lugar, ele arregalou os olhos.Era pra eu esperar uns instantes até que falasse com umas pessoas, mas me disse que eu dobrasse discretamente umas esquinas específicas e aguardasse um homem com um crachá laranja me trazer uma maca.
Quinze minutos depois, num corredor de prédios bem longo, em sua derradeira unidade, se escancarou uma porta dupla donde fluíram dois homens vestidos de branco com as respectivas identificações estampadas no peito. Não disseram nada, mas abriram as portas e levantaram habilidosamente toda aquela carne ,espetáculo bem mais agradável e profissional do que desempenhei com meu parceiro!Tomaram-lhe o pulso, perguntaram-me que medicamento e dosagens haviam sido administrados, então um lhe postou ao rosto uma máscara de oxigênio enquanto o outro anotava aqueles detalhes.
Eles empurravam aquele aparelho muito rápido, e eu me incomodava em ver os volumes de minha mãe dançando com as violentas e bruscas curvas. Tentei antecipar qual seria sua reação quando transformada em um ser binário!
Lembrava-me de uma certa discussão familiar quanto aos efeitos daquela conversão em nossa condição protestante!A matrona havia se batizado há algum tempo, e fervorosa, se perguntava se na perspectiva tricotomista em que fora instruída o espírito ficaria confinado ao corpo, enquanto somente a mente migraria para aquele outro mundo!Isso, se isso realmente fosse uma realidade!E se a mente sobrevivesse à matéria?E se aquelas especulações feitas, de que descartavam o corpo logo após a transição forem verdadeiras?E se a criatura virtual não fosse, mas se convencesse de que esta era realmente eu?E se tudo ocorresse desta forma, e eu, escolhendo ser transportada, teria cometido um suicídio por engano?E se minha alma tivesse sido dividida entre duas personagens, e enquanto uma descia à cova a outra, por sua vez continuaria sua existência, como nos seriam creditadas as falhas e acertos...?
Existiram alguns bilhões de outras perguntas feitas só por aquela mulher, mas pensar nelas, e no resultado do que estava a fazer já começava a lhe incomodar o estômago; pedi um copo d’água, mas parece que ninguém me prestava atenção!
Cada passo e ficava mais ansioso!Perguntei quanto demoraria tudo aquilo, pois temia que meu parceiro se impacientasse e partisse, estando eu com bolsos quase vazios. Eles responderam que logo tudo estaria acabado; então dobramos mais quatro corredores  e estacamos diante de uma portinha blindada.
-É aqui!O senhor deve partir agora. Siga as setas amarelas e não se perderá.- A voz do homem era ríspida, e desagradável!
-Não vou até ver toda a operação!-Respondi tão firme e convincente quanto me permitiu o medo.
-Daqui pra frente é com o Doutor, além do mais, está área é restrita, e civis não podem permanecer aqui!
-Eu pagu... -Antes que terminasse a frase já me agarravam pelo colarinho enquanto um deles procurava alguma coisa nos bolsos.
-Vá embora moleque!Nós estamos avisando, se causar algum problema vai se arrepender!
-Mas eu pague... -O primeiro soco me pegou de surpresa, rasgou meu lábio inferior e amoleceu-me uns três dentes.Os seguintes, assim como os chutes, me fizeram contorcer de dor naquele encerado.
- Você pagou pra fazer com que sua velha tivesse preferência na fila de espera, e isso é fraude!Suma daqui, e não diga nada à ninguém, ou a dona aqui pode ter um fim bem desagradável!
-Mas... Mas como eu vou saber que deu certo?-Eu tremia e suava muito. Estava apavorado!
-Nós temos seu email!Nós te mandamos a chave de acesso, daí você procura um ponto de conferência “Oficial”, e lá eles te levam pra uma salinha onde vai poder conversar com tua velha!Agora suma; nós temos muito trabalho para terminar hoje!
Eu sussurrei um triste obrigado e parti cambaleante procurando a saída.
 


Continua...
Anderson Dias Cardoso.

sábado, 22 de março de 2014

Êxodo Digital-Parte 2.


A sirene da escola nos coagia a voltar à sala de aula. Saímos da carcaça queimada do velho Chevrolet 78, atravessamos a imundice do pátio enquanto íamos discutindo a respeito de algumas questões engraçadas as quais vinham sendo apresentadas nos testes e exigidas nos relatórios semanais, que por sinal deviam ser respondidos também por toda a família, e que envolviam perguntas bem pessoais!
Mamãe mentia em boa parte deles por achar que isso feria nosso direito de privacidade, mas se dizia satisfeita com as melhorias acrescentadas na grade curricular, nessa tentativa de abrangência do aluno em todos ambientes aos quais faz parte, e a aquela celebrada novidade do acompanhamento psicossocial de toda criança, ao invés de apenas casos especiais.
Naquele dia as lições foram bem turbulentas, mesmo para um curioso garoto de onze anos; sendo que o som das brocas dos instaladores de câmeras e sensores emocionais forçava à gritaria a orientadora; o pó fino forrando o soalho, e pedaços de teto desabando sobre minha cabeça me fizeram saltar umas duas cadeiras e entabular uma conversa com o grupo de simpáticos dispersos da classe, desistindo assim das explicações sobre a obrigatoriedade dos novos aparelhos tomográficos em toda a população, e a pandemia de câncer que acompanhava aquela nova Revolução Industrial!
Abri uma caixinha de leite, ofereci à todos, e, ligando inconscientemente aqueles fragmentos didáticos da aula com uma observação de mais de uma vintena de cabeças nuas, (e alguns milhões extras de recentes tosados no mundo exterior) pela primeira vez notei que estávamos todos morrendo muito rápido.
Questionei-me se havia adoecido, fazia parte de uma tentativa de colaboração e solidariedade em esconder a desgraça alheia, ou era verdade todas aquelas baboseiras à respeito de piolhos. Perguntei a minha mãe, e ela ficou muito zangada!
Disse que era exatamente por isso que não me poderia me enviar para uma boa faculdade; pois gastavam grande parte do ordenado de ambos em alimentos, eletrônicos e qualquer coisa que constasse de um selo de indicação de que era livre de contaminações bacteriológicas, resíduos industriais e qualquer tipo de radiação nociva!Não, eu não estava doente, e ela assegurava isso me lembrando de quantos exames todos nós havíamos feito nesses últimos anos.
E eu acreditei nela... Ou acho.
Tempos depois e aquela velha novidade de digitalização de pessoas já começava a se popularizar, e alguns artistas encomendavam sua versão de mundo, se preparando para alguma eventualidade; além de surgirem, anunciados nas mídias, propostas de condomínios exclusivos inteiros para pessoas selecionadas, os quais estariam à disposição por alguns milhares de créditos, enquanto o governo, com seus problemas de saúde pública aumentando exponencialmente, procurava estatizar e organizar essa transição caótica e evitar a falência das transnacionais por conta de tantos processos. Ainda assim, o Estado Mundial carecia de lisura em se tratando de sua nova abrangência, já que parecia, aos olhos de todos, que os bens e produção estavam sendo desviados para algum fim escuso e não declarado!
Disseram que seria necessária a mudança do meio circulante, e que organizariam cooperativas de trabalho estatais para assimilar essa nova leva de desempregados, e deslocar para perto dos moradores seus postos de serviço a fim de diminuir gastos desnecessários com locomoção; o que protegeria ainda mais nossas reservas de combustíveis fósseis, que parecia minguar a cada ano!
A vida continuava sua mudança gradual para mim. Acho que pela plasticidade da juventude tudo se tornava meio normal logo que deixava de ser interessante nas conversas com os amigos, mas notava que minhas caminhadas para qualquer parte me cansavam um bocado, e os ossos latejavam por dentro da pele. Fora, o ambiente ameaçava com um céu se que mantinha fortemente acinzentados de poluição dias à fio.
Gostava de notar as pessoas vestindo engraçadas máscaras descartáveis por conta do chumbo das emissões dos automóveis, e que outros preferiam parodiar a situação com aquelas com filtros enormes, de desenho apocalíptico!
Outra coisa interessante era que os velórios deixaram de me incomodar pela perda, mas ainda me angustiavam pelo tédio de não sentir mais pena, e freqüência com as quais minha família era convidada.
Eram sempre figuras muito parecidas, todas calvas, esqueléticas, ulceradas, de veias expostas e olhos saltando das órbitas!O cheiro de flores me enjoava terrivelmente, então eu procurava fora as figuras mais animadas da vigília para escutar alguma anedota, ou corria atrás de algum petisco confiável, já que minha mãe não me deixava comer as mesmas porcarias próprias dos adolescentes, antes, continuava a burlar as entregas de ração e nos comprava comida saudável, por preços ainda mais exorbitantes!
Aos quinze a morte me deixou de ser coisa banal novamente; e eu me vi ali, comovido com as mesmas características impressas no corpo e face de meu pai, as quais costumava a debochar, e abraçava sentido a namoradinha também chorosa, só a abandonando-a quando insisti em segurar uma das alças do leve caixão, que agora era um padrão cedido pelas prefeituras para evitar aquelas conversas sentimentais de donos de funerárias, e assim transformar a morte num processo mais impessoal, ao tempo que fingiam compartilhar da dor e tomavam uma pequena parcela da responsabilidade sobre si, mantendo numa boa perspectiva quanto à opinião pública!Funcionava bem com os outros!Mas eu continuava amargurado e descia a ruazinha do cemitério tropeçando nas pedras soltas do pavimento e me lembrando que escavavam em algum lugar da América do Sul um berço para um Éden virtual baseado naqueles modelos prévios de doentes, prisioneiros, artistas e milionários!
A contaminação do solo, da águas, e ar vitimava agora mais pessoas do que o Governo gostaria, e ainda haviam menos faixas cultiváveis do que as necessárias, sendo assim sensato solucionar de alguma forma aquele morticínio!
Disseram que haveria uma resposta, e lugar para todos!
A TV dizia que aquela construção subterrânea fora executada em uma zona de baixo impacto sísmico, encapsulada por um leito rochoso, que foi convertido em uma abóbada reforçada por paredes impermeabilizantes, bloqueadores elétricos e geradores de vácuo. Sua localização era desconhecida, sendo alcançada por alguns túneis de manutenção com acessos restritos a membros das Organizações Mundiais, e seus técnicos, e tudo isso levava àquele bloco de oito quilômetros quadrados de tecnologia neuromórfica, com componentes de altíssima duração e seus ambientes inteligentes e adaptáveis, alimentados por bilhares de tentáculos de captação e conversão de hidrogênio.



Continua...
Anderson Dias Cardoso.

domingo, 16 de março de 2014

Êxodo Digital-Parte 1.



À vista daquelas águias subindo às estrelas, deixando atrás de si uma quilométrica cauda gasosa muito branca, transmitidas sob filtros de opiniões técnicas respeitáveis, louvores dos barões das comunicações e uma tímida comemoração do governo por mais aquela parceria que supostamente resolveria gargalos de transmissão de dados; ampliaria coberturas e melhoraria o tráfego na Hiper-Rede, acabava por se tornar um espetáculo indispensável aos olhos, e um certo orgulho induzido aos corações da nossa raça pioneira, que agora colonizava mais algumas polegadas de infinito para o bem do progresso da espécie!
Meu pai, no entanto, não se deixava comover, antes, se queixava da irresponsabilidade política, que desperdiçava recursos públicos quando quase um terço da população (inclusive ele) amargava o desemprego, e uma parcela ainda maior beirava a miséria.
Ficou mais irritado ainda, um pouco depois, quando foram vazadas informações de que aquele projeto bilionário não diminuiria em nenhum centavo, ou aumentaria em qualquer bit nosso serviço de internet; já que diziam se tratar de scanners de superfície e coisas do gênero.
Houveram desculpas televisivas muito bem encenadas, e promessas de que se esforçariam mais na criação de vagas de emprego, e num par de semanas ele foi contratado como catalogador de espécies, (tendo em vista seu bacharelado em biologia) sendo enviado a campo em semanas alternadas.
Tudo agora parecia muito urgente, e mágico; como se nos fosse necessário e interessante solver todas questões e problemas do universo num par de anos!
Enchemos de sondas os mares, mapeamos e resgatamos, mesmo em laboratório, todas as estruturas baseadas em carbono (já que à essa altura estimava se que mais de dois terços da fauna e flora conhecida havia desaparecido por conta de aventuras industriais, acumulo de detritos e intervenções no meio ambiente), localizamos cada átomo em nosso espaço imediato, simulamos possibilidades de realidade, passamos a conviver com estudos comportamentais, experimentamos drogas para alteração fisiológica...
Nada além do conhecimento era sagrado!
Naquela época os armazéns recomeçaram a oferecer umas poucas marcas novas de alimentos, com embalagens de fibras biodegradáveis, mas nada convencia de que seria possível, depois do pico de consumo à mais ou menos duas décadas atrás, dispor de tanta variedade de descartáveis, e bens de média duração.
Lembro-me de uma ocasião, como naqueles episódios de delírio antes do sono, de que meu pai surgiu na rua imunda como um daqueles gigantes que costumavam dar ordens aos pequenos; voltando sorridente não sei de onde com uma carcaça de um CPU trazida num abraço, e ele me chamava duma daquelas pilhas de lixo as quais eu brincava com outras crianças e me disse que aquilo era para concertar o outro; mas eu nem sabia ou queria saber do que se tratava; era apenas uma criancinha suja que queira voltar e ver outros garotos rolarem ladeira abaixo em carcaças de pneu!
O milagre e a satisfação do homem eram, porém justificada pela sua primeira incursão no mercado negro de peças usadas, a qual fora bem sucedida e prazerosamente arriscada, tendo em vista que os Fiscais de Consumo andavam rondando aquelas vizinhanças, às vezes agredindo, confiscando produtos e ajudando a inflacionar intencionalmente o mercado!
Numa conversa muito posterior, quando mencionei o episódio ele disse que lhe haviam oferecido uns certos implantes neurais por uma quantidade de dinheiro a qual ele não dispunha, mas a tal coisa ainda era muito tosca, com efeitos alucinatórios e de estímulo emocional pouco convincentes mesmo nas amostras de apresentação; além de lhe parecer um tanto arriscado ser operado por cirurgiões não credenciados, residentes em bairros de má fama!
Ficou feliz quando o noticiário anunciou que havia esforços discretos do Governo Mundial em produzir um espaço virtual para o encarceramento de prisioneiros de alta periculosidade, penas perpétuas e execuções; como uma resposta mais humana e possibilidades de extrapolação de utilidades e barateamento de custos!
Ele disse que aquilo seria o futuro, e aumentou o volume para se informar melhor do assunto.
-Mas o corpo não será morto?-Indagou uma provocativa repórter aos idealizadores do projeto, e estes apresentaram uma mesa cheia de estatísticas hipotéticas e provas interessantes de quer realmente era possível uma migração da alma para aquele simulacro de vida, sem qualquer perda de dados ou características.
-Papéis não provam coisa nenhuma!-Desafiou a profissional, com voz firme e zombeteira!
-E é por isso que nosso grupo experimental foi basicamente de doentes terminais, os quais estavam dispostos a arriscar alguma opção que não uma imediata eutanásia!Seus parentes assinaram as papeladas, e ao se realizar todo esse processo eles puderam, e podem manter contato e interagir com seu antigo enfermo à partir de um protocolo de acesso que os direciona a um pequeno universo restrito compartilhado por esse especial grupo de pessoas!Confesso que fiquei muito emocionado ao ver que as famílias testavam a alma dos nossos inquilinos com detalhes muito particulares de seus passados, e as respostas não puderam deixar ninguém confundido!
-Mas essas pessoas se tornaram apenas fantasmas para suas famílias!Não existe mais um contato físico... -Interferiu uma outra voz naquela salinha abarrotada e quente, mas não houve tempo de concluir sua sentença e o homem já sorria como aqueles que antevêem qualquer pergunta:
-Isso minha filha, é só por pouco tempo... Por muito pouco tempo!




Anderson Dias Cardoso.

domingo, 9 de março de 2014

Money.




Sacou uma moeda do bolso para doação a um esmolante, arrependeu-se, mesmo e a despeito das insistências e xingamentos do maltrapilho, resolveu gastar o dobrão num “cigarro picado”...
Lembrou-se que não fumava, odiava bebida, e balas lhe estragariam os dentes.
Brincou de cara ou coroa, e, das oito atiradas ao alto, cinco deram coroa!
Isso bem poderia ser um sinal, mas não acreditava nessas bobagens; mas, ainda assim, a moeda agora lhe havia despertado para uma afeição, e um sentimento estranho a respeito da individualidade da peça niquelada!
Acariciou a efígie, e pensou que ao contrário dos tempos onde as mesmas eram formas de propaganda imperial, mudando de acordo com o representante da vez, para sua honra e glória, esta não lhe dizia nada, não sabia quem era aquela mulher!
Fez a peça cambotear sobre a palma para lhe expor o valor impresso, e o “1 Real” escrito era qualquer coisa mais abstrata que deveria, já que a liga nem era das mais nobres. Não que isso não fosse mais uma loucura interpretativa e atributiva de valor, totalmente oportunista, ainda que bem útil!
Lembrou-se do antigo sistema de fracionamento da peça, e sorriu a imaginar que aquele artefato, devido à desvalorização imperceptível, substituída enganosamente por um holerite mais carregado de zeros, e notas mais graúdas, agora, se representasse em peso e tamanho seu valor atual, seria o décimo daquilo que brincava nas mãos.
E o que se dizer da desmaterialização do dinheiro?Da criação de moedas diversas, baseadas no cálculo, das transações online...
-E aí chefia, tem uns trocados aí?-A voz assustava, mas a aparência do abordante ainda mais!
-T-Tenho esta moeda...
-Cala boca seu mentiroso filho da. Vai tirando a roupa, e me passando, se não quiser levar um “teco” na cara”.
Ah!O dinheiro é uma coisa maravilhosa mesmo!



Anderson Dias Cardoso.
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