domingo, 16 de fevereiro de 2014

O Denticídio!

Tércios Molaros Inferioris foi a primeira vítima do denticídio, e como sempre, as alegações em favor de sua extração, feitas por seu irmão mais velho, Incisivos Frontalis Superioris, ainda foi utilizada, posteriormente, para desalojar seus gêmeos não tão idênticos (já que o termo "heterozigótico" não seria muito apropriado neste caso, por motivo meio óbvio).
Se bem que, de início, a intenção, e os maiores desafetos pertenciam a uma vizinhança mais próxima, e desta se dizia que se achegavam demais a ele, o comprimiam ao ponto de se sentir claustrofóbico, ofegante, além de lhe impedirem a visita tão apreciada, três vezes ao dia, de seu grande, delgado e mentolado amigo Fio Dentalis!Era claro que poderia ter esperado a acomodação dos irmãos aos vácuos causados pela sua intriga, e encomendados ao terrível algoz "Boticão"; mas já não suportava mais o contato de sua polida dentina com a indesejável parentela!
Desta feita tombaram Incisivus Laterális Superioris Direitus, e o já meio amarelado e dileto roedor de raízes de açafrão, "Incisivos Frontalis Esquerdus"!
Àquela altura, um acidente à beira da piscina de um clube qualquer atingiu o pobre irmão "Incisivus Frontalis Inferioris", e, acabou também por bambear o corpo e a dignidade do orgulhoso "Incisivus Frontalis Superioris", e este pediu socorro, sendo apressadamente levado para ser orçado num renomado (e único) dentista da região; mas quem recebeu maior atenção, e proposta de emenda foi o outro, enquanto a ele, o cuidado não passou de uma pomada analgésica!
Resolveu-se por não aceitar ser entorpecido, antes, preferiu se hipersensibilizar para atrair as atenções, e em meio a uma inflamação e dolorimento, ao ser notado cochichou apontando o preço altíssimo do procedimento, também aconselhando baratear aquela visita com uma simples e eficaz extração, afinal, o nome do meio perdido parente era Inferioris, e isso já não indicava um bom futuro!Ninguém sentiria a falta daquele infortunado!
Caninus Superioris Esquerdus até tentou intervir, mas Incisivus se utilizou da acústica do bem desenvolvido palato para intimidar:
-Caninus Canóides, este devia ser teu nome de batismo, pequenino!Um dentinho feio, torto, e quase sem serventia alguma deseja falar!Mas é claro que nem ouviremos ao aleijão!
Os segundos molares já iam levantar-se em ajuda ao injustiçado, porém se lembraram que haviam notado manchinhas de infiltração em suas raízes, e era necessário se manterem discretos naqueles dias onde dentistas eram raridade, e extrações mais comuns que tratamento!Mas, o caso não acabou bem; já que Incisivus sabia da oposição, e logo clamou por justiça, ou melhor dizendo, assepsia.E assim se foram mais quatro irmãos!
Vez em quando, o dono da boca perdia alguns instantes de fronte ao espelho, sorria um sorriso que começava a se tornar quase só gengiva, e isso lhe incomodava um pouco. Assim também era durante a mastigação, onde devia lançar estrategicamente a comida, ou mesmo a goma que costumava a mascar para controlar seu mau-hálito, de um lado ao outro da parte anterior do daquela cavidade, onde restavam quase todos os pré-molares (um havia se perdido antes mesmo daquela rixa, logo depois do desaparecimento do último dente de leite, e fora um daqueles casos de descuido com a escovação, associado a um amor patológico à jujubas), dois incisivos frontais, quatro pré molares, quatro primeiros molares,e três caninos e meio!
Incisivus, com seu ego inflamado por suas manobras bem sucedidas contra seus irmãos, e, porém, temente de sua saúde, por conta dos ciúmes, desconfianças e invejas, “injustamente sofridas” por parte de seus semelhantes, já planejava secretamente o destino de sua oposição, ao tempo que se entusiasmava imaginando gozar de todo aquele espaço bucal sozinho, e possivelmente se utilizar das novas tecnologias as quais se comentavam aqui e ali!Carecia de um bom clareamento, uma limpeza de umas modestas manchinhas de tártaro (coisa muito pequena!), e, sem dúvida alguma, gostaria de um tratamento ortodôntico (uma palavra bonita, que escutara da última vez que visitou o dentista, e que diziam que seria muito comum em pouco tempo!), para lhe corrigir um leve desvio de raiz que o deixava levemente torto, com os tais novos aparelhos!
Ele sonhava grande, e ansiava cada ida ao consultório; até que o dono resolveu-se por trocar aqueles restos de dentes por algo mais prático e charmoso!O holocausto foi terrível, sangrento!
E aquela boca, de gengivas avermelhadas, amarradas de fio cirúrgico preto, e alguns pontos purulentos logo foram dando lugar a uma superfície de colorido menos denso, e toque mais suave!
Foi deitada ali uma maravilhosa e ergonômica dentadura, e daqueles outros inquilinos turbulentos, nunca mais se teve notícias! 



Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Frustração...


Hoje fiquei imaginando o seguinte diálogo entre Sócrates, e algum contemporâneo nosso qualquer:
-Tudo o que sei é que nada sei!
-Isso é muito relativo!
-Gente, cadê minha cicuta?

The End.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

A Solidão Que Antecede à...



Outro terremoto e as linhas foram novamente congestionados. Pedi um copo d’água; me trouxeram um descartável, mas a garganta continuava seca, e as palavras a escalavam junto ao choro  e os soluços!
A garotinha havia sacado dum qualquer morto o celular, disse que discou umas oito vezes até respondermos. Descreveu sua referência, no epicentro da catástrofe, e, pelas informações do andar em que se encontrava durante a queda, e, por tudo que lhe veio sobre o corpo, era bem provável que se encontrasse muito além de qualquer tentativa de resgate!
A voz arranhada insistia que o ar que respirava se tornara subitamente quente, e opressivo. Sua atmosfera se saturava de um pó fino, e na boca experimentava um gosto de sangue vindo de não sabia onde. Ela gritava muito, no início, e eu tentei acalmá-la dizendo que o socorro já estava pronto, e a caminho. Era apenas uma criança!
Perguntei se aquele espaço lhe permitia movimentos, e ela respondeu positivamente; então pedi que experimentasse seu corpo para notar se houvera fratura, mas ela disse que senti-a se inteira.
-A bateria... ela está se acabando...onde estão vocês...eu estou com medo...
Consultava as listas para resgate, os leitos de hospitais, mas as equipes haviam sido desviadas para as regiões periféricas, onde as construções mais rasteiras e densamente povoadas certamente haveriam de ter poupado mais vidas. Tentei chamar uma viatura amiga, mas suas ordens não a permitiram me socorrer; e eu ainda respondia e acalmava aquela pequena alma.
Disse que suas narinas sangravam um pouco, e o peito doía. Tentou engatinhar para um lugar onde haviam portas e corredores, e encontrou pedras amontoadas. Arrancou uma, duas, três, mas o ar rarefeito lhe fazia pesar tanto os braços. Sentou-se, chorou comprimindo o telefone entre os dedinhos, e pediu novamente socorro.Este apitava a falta de carga, e ameaçava desligar.
Ela sabia que morreria, e eu também; mas consentimos em manter esse pequeno teatro, em favor da sanidade e dignidade. Conversamos ainda uns oito minutos, até que nos desligamos contra nossa vontade.
Fui ao banheiro, chorei bastante, mas voltei logo. Haviam outras pessoas necessitando serem iludidas.



Anderson Dias Cardoso.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Demagogia, Do Princípio ao Fim.


...- como te disse, foram três abortos, acho. Tá tudo escrito na ficha que me deram pra preencher!Uma consulta tão cara e você nem se deu ao trabalho de ler a maldita ficha?
-Senhora, eu trabalho com um sistema de atendimento humanizado, e estou conferindo as informações solicitadas no prontuário para verificar se houve algum equívoco, omissão, ou mesmo se a senhora gostaria de acrescentar algo, como informações de ascendentes, que nos auxiliariam a detectar algum possível defeito congênito. Queira se acalmar, ou terei que chamar seu marido para a retirar, e acho que isso o aborreceria bastante!
-Mas... Mas o senhor não pode fazer isso comigo!Meu marido é o prefeito, e estamos acertando com o partido a candidatura ao governo do Estado!
-Sim. E se eu tornar público essa maluquice toda a qual estamos tratando aqui, no máximo volta a ser um vereador na cidadezinha obscura onde nasceu!
-Você não pode fazer isso!É juramentado, e além do mais, eu te processaria!- gritou a mulherzinha enfurecida.
-A senhora conhece Alfonso Hernandes Castelo?
A mulher tremeu os lábios, cravou as unhas esmaltadas no couro da poltrona e sentiu uma lágrima de pavor umedecer-lhe a maquiagem. Apanhou um lencinho perfumado, baixou a cabeça para se limpar. Sentiu que o homem sorria, então se apressou em se recompor.
-Como eu dizia, eu me casei muito nova, e meu marido havia sido empossado como vereador. Um cargo bom, bem remunerado, e que exigia pouca frequência...Eu era jovem, e muito fértil, e um filho àquela altura só atrapalharia meus planos!Queria visitar a Europa!Todas as mulheres dos outros vereadores diziam que conheciam umas lojinhas de bolsas artesanais na Holanda... Já te contei que meu avô era holandês, não é mesmo...?Eles têm flores lindas por l. - O homem havia franzido o cenho, e consultou o relógio.
-A senhora dispõe de mais dois minutos.
-Depois dos três abortos, mesmo numa clínica especializada, eu sofri uma pequena hemorragia. Eles disseram que não era nada.Os exames não apontaram nada, mas, nunca mais consegui engravidar!Às vezes acho que foi um castig...
-E a senhora quer que eu manipule o DNA para liberar as características fenotípicas negroides na criança. Posso saber por quê?
-Fenoquê?
-Por que a senhora quer um negrinho, já que ambos são brancos? Digo, por que não simplesmente adotam?
-Já cogitamos isso, mas meu esposo prefere ter seus próprios filhos, além do mais, nem sabemos de onde vieram a maioria dessas criaturas; o passado dos pais; se são viciados, ou carregam alguma doença... Meu marido acha que uma criança negra repercutirá bem na campanha, mas queremos fazer tudo com a maior segurança e discrição...
-A adoção de um filho legítimo de cor!Uma jogada de marketing interessante!
-Obrigada, doutor!Estamos nos esforçando pra alcançar a presidência!
-Como lhes disse, o processo ainda é muito recente, e ambos assinaram um termo de compromisso que nos isenta de qualquer responsabilidade no produto final do procedimento.
-Sim.Nós temos consciência disso, mas sabemos que valerá à pena!E em caso de algum contratempo, minha gravidez será passada no Canadá.Existem boas clínicas de aborto por lá!
-A senhora é mesmo muito perspicaz!Então, sucesso para ambos!-disse o homem já estendendo a mão para o aperto- Se não se importa, tenho uma outra paciente me esperando. Minha secretária lhes passará uma lista de exames, e em quais clínicas devem ser feitos. Eu os encontro dentro de uma semana, para coleta dos materiais para a inseminação.
A mulher a apertou, meio ressentida a mão do ginecologista e o deixou apressadamente. Estava muito eufórica, e confiante.



Anderson Dias Cardoso.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Intangível.



Geralmente, dois corpos não podem ocupar o mesmo ponto; o que não aconteceu naquele dia, naquele instante de fuga de uma mãe irada e seu cinto certificado de couro legítimo (única peça de valor da casa de pedreiro e diarista, além de respeitado instrumento de ordem numa família de muitos filhos).
Correu o quanto pôde, com aquelas perninhas finas, e o tênis "Bamba" não laceado calejando os pés, mas a mãe era atleta na captura de frangos, certamente o pegaria antes de dobrar outra esquina
Ele devia se esforçar um pouco mais! Fingiu ir para a esquerda, mas, indo pela direita, milagrosamente escapou da mão ossuda da mulher, a qual foi atrasada pela surpresa da manobra e uma tira quebrada da sandália!
Ele sorriu, e ela fechou os olhos quando viu que o filho era alvo distraído de um Opala, no meio da rua!
O "quase acidente" foi estranho! O corpinho teve arrepiado seus poucos pêlos, como o que associou posteriormente à estática dos tubos de televisão, e sentiu um vapor de partículas invasivas se confundir com suas vísceras!
A mãe presumiu que houve um desvio, o motorista negligente escapou, e ele resolveu guardar silêncio a respeito da proeza!
Num outro dia, um pouco "maiorzinho", despencou do trançado da rede, e ao conferir, descobriu que o tecido não sofrera rotura!
Outra vez, e a colher lhe escapou do aperto forte da mão enquanto esvaziava a marmita!À essa altura já era "homenzinho" aos 9 anos,e "virava massa", empilhava tijolos e trazia o café quente para animar os esforços do pai.
Era muito estranho, mas ele preferia manter segredo!
Aos doze ergueu sua primeira parede! O pai lho havia ensinado a arte do nível, do esquadro e da trena; e fiscalizava meio emocionado a precisão do alinhamento e a solidez da empresa.
-Ficou bão! Tá firme e retinho! Pode rebocar agora que depois te ensino erguê pilastra!
O garoto, muitíssimo orgulhoso, deixou ir o pai para experimentar o que construíra. Tocou a superfície e, no início era tão rígida quanto a moral do instrutor, mas logo passou a uma consistência dos doces sovados da avó, e, respectivamente geleia, gelatina, água e nuvem!
A mão espantosamente atravessara da matéria, ao lote vizinho!Quis saber se não era sonho e experimentou transpor a cabeça!
Havia muito mato do outro lado, achou que deveria se oferecer para carpir, por um bom preço, a propriedade do companheiro.
Mas, assim como o vacilante Pedro sobre as águas, quando o pai chamou o susto lhe estreitou a garganta, então foi se solidificando e se fundindo à viscosidade momentânea da construção. Forçou seu escape com as palmas, mas vez o toque era firme, vez não passava de fumo!
O fôlego rarefeito já lhe desconjuntavam o movimento, sentia uma certa febre no pescoço, e uma dor de esforço nos lombos!Os olhos lacrimejavam muito, ameaçando saltar das órbitas, e das narinas escorria um ranho ensanguentado.
Era certo que morreria! Apagou!
O pai lhe acordou com um banho de moringa, conferiu os esfolados do corpo e consultou as batidas do coração.O garoto parecia confuso, e tentou responder às preocupações do pai com as melhores desculpas que dispunha!O pobre homem não era dos mais espertos, e logo ficou acertado que fora vertigem e tombo!
O garoto enxugou o rosto, apanhou a colher de pedreiro e voltou ao serviço!
Seus horizontes se expandiram com a percepção das novas habilidades, e sabia de si que já há algum tempo era meio homem, meio fantasma, mas preferiu continuar sendo apenas um bom pedreiro!




Anderson Dias Cardoso.
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