domingo, 22 de janeiro de 2012

Rapunzel...

...E da caminhada de dias, o frio das chuvas e das surpresas de qualquer perigo o levaram ainda sim ao altear da torre sem portas.
A hera vestia justa suas pedras, e toda árvore se envergonhava de sua estatura diante do corpo mais robusto da construção, onde a leveza dos pássaros ousava perscrutar janelas e espaços.
Ela permanecia na espera, de olhos atentos às clareiras e fogueiras que se aproximassem de sua solidão e de forma alguma ignorou o som do casquear que cantava suas esperanças não longe de suas impressões.
Fingiu surpresa, após um tempo razoável voltou os olhos para fitar o amor que chegara, e eis que luzia suas cores à força do sol.
Ela, angustiada, lançou lhe a cabeleira para que a alcançasse o abraço, e ele fitou o amontoado dourado que era convite ao compromisso.
O príncipe tateou-lhe os fios, e o exalar de seus aromas lhe brincou deliciosamente às narinas; perscrutou na densidade do trançado por vestígios de vidas, ou caspa, mas ela se mantinha limpa, com esforços que não se podia imaginar.
Ela acenou sua pressa, e ele, seguro em sua firme maciez, se firmou em algumas pedras ascendentes.
Ela sorriu para sua liberdade e matrimônio; ele se enamorou pela gravidade.
O pequeno corpo foi puxado da janela com violência e riso, e quando se quebrou na densidade do soalho ainda tremeu por tempo de três suspiros.
A mão do amante deitou fora a carapaça reluzente, e sacou da algibeira a navalha.
Não por acaso suas perucas eram tão caras!
   
Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Frágeis Existências 13°Capítulo.

Quando as sandálias dos muitos armados fizeram subir o pó do chão na Feira dos Gansos pouco se pôde fazer; e então os porcos levados aos carroções, e todo grão e leguminosa, ainda que murcha, foi destinado à encher os celeiros recém construídos.
-A fome é muita, porém eu construí meus campos para me manter honestamente!-Gritou a velha de longas tranças cor de fumaça, mas recebeu um empurrão para separá-la de sua cabra malhada que trazia para lha oferecer o gordo leite como alimento de suporte em dias de comércio.
-Não!!!O animal é de meu uso!-O choramingo foi seguido do impulso de seu braço esquelético, e as unhas feriram um dos homens no olho esquerdo. Um chute do companheiro curvou o corpo franzino:
-Está louca mulher!Devia ter tomado a bolsa cheia de peças conseguidas e voltado aos seus campos, onde há mais o que comer que em nossas cercanias! A apreensão foi ordenada pelos sábios para que todos possamos sobreviver à seca- Disse o homem da lança de bronze antes de erguer o corpo pequeno por seus fios.
O despreparo e brusquidão do exército, ainda verde, tiveram a reação de uns descontentes e a velha foi ajudada pelo vendedor de sapatos, que ergueu o martelo usado para tachear botas em ameaça ao grupo de homens.
-Esta é minha vizinha, e é honesta... E agora irmãos, foram escalados pelas autoridades para nos furtar o pão e ainda ferem trabalhadores idosos!?Solte já o cabelo dela milico ou lhe parto a cabeça num instante!
-A velha tenta impedir a coleta, não a largo, pois, de que vale seu martelo contra minha espada de bronze?
O martelo voou para o sorriso do homem e libertou vários dentes de suas bases, mas outra mão tomara a presa e feriu à navalha o pescoço murcho.
O sangue sufocou o gemido, pele embranqueceu diante da surpresa dos oitenta que presenciaram, então tornou cada feirante aos que conseguiam identificar como soldados (e estes eram os que portavam armas manufaturadas às pressas e a faixa de três cores atadas à testa) e os agrediram com as pedras do chão, suas facas de ofício ou o que lhes viesse ao alcance, cercando-os com suas quantidades.
Feriram-se vários feirantes, uns outros poucos morreram no local, e em meio ao círculo de reagentes caíram um à um os soldados.
O homem do avental amarelado arrastou o primeiro corpo moído ao centro, e logo que a mulher, de uma gordura rosada e vestido rendado, estendeu seus braços roliços para amontoar outra carcaça o restante fez o mesmo, e quando terminada a pilha ajuntaram-se muitas pedras e cobriram a morte como um sinal de aviso.
A culpa do revide pesou ao coração, cada qual levou seu morto e o sepultou com as merecidas lágrimas e nada foi dito à respeito daquele dia e mortos para que não se despertassem iras pelos seus ou estes, ou retaliação das autoridades.
Houve pouco ruído após o incidente, e a distância entre os campos periféricos dos quais haviam sido contratados os soldados de estação; e a miséria de seus pais e parentes permitiram negociar suas perdas com o conselho do Estado, que por sua vez quis apaziguar as partes para que não se generalizassem as demandas; e o assunto se tornou tabu.
A fome tornava corpos em pão, e o poder e posse de tantas áreas pelos três homens e seu aparelho administrativo os fazia temer que lhes negassem provisões e sementes para mitigar suas misérias, e, mesmo em face da morte de tantos, anteriormente; aceitaram as desculpas à respeito dos males e a própria seca sendo trazida pela ressurreição dos cultos antigos; e a sutileza da inclusão dos mortos adicionais como mortos atuais aos primeiros, mesmo que em condições de conservação incomparáveis.
Mas ainda haviam muitos corvos, por toda a parte; e à eles não haviam qualquer explicação...

Continua...
Anderson Dias Cardoso.

domingo, 15 de janeiro de 2012

A Diferença de Alguns.

Quando rompeu a casca; ainda, quando se emplumaram as asas não havia se alçado do chão alguma vez.
Esticava-se ao sol, comia e dormia no ninho baixo à que se apegava com carinho mediano.
Era filhote graúdo, de asas fortes e exercitadas, mas insistia que sua vocação era rente à terra.
-Tens medo dos ventos, ou da altura!- Tripudiavam tanto emplumados quanto os de mais idade.
-Absolutamente!-A resposta nunca merecia mais que poucas palavras, não tencionava convencer tanta “gente”.
-É por protesto!- Arriscavam outros, notando o desprezo por discussões- É típico dos que se querem fazer importantes por esquisitices, ou guarda de razões absurdas!
-Vida tal qual a minha não requer demandas, ou mesmo atenção forçada...
-És profeta!- O mistério sempre convenceu muitos, por seu próprio silêncio.
-Tanto quanto papagaios e corvos!
-Não tens medo dos predadores terrestres?
-E tu, não temes os que voam contigo?
E este continuava em solo, ciscando o pó, devorando a fartura viva das cascas e formigueiros.
Foi ave jovem, e depois velha; engordou-se ou secou suas carnes de acordo com as estações, teve filhos de aves volantes, e amizades aos que o permitiam...
Uns dizem que depois de anos se tornou em cachorro do mato, outros gritam que fora desde sempre um cágado dissimulado, mas destas histórias nunca foram aferidas suas verdades...

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Orgulho!

E se houveram outros ambulantes; de histórias tristes e apelos persuasivos a partilharmos de suas misérias todos nós os ignorávamos, como peças conhecidas de dramas hiperbólicos e olhos secos.
O espaço exíguo se assomava às irritações do dia trabalhado e qualquer mentira era pouco tolerada.
Muitas moedas saltavam dos bolsos, mas estas compravam sossego ao invés de piedade; e eu, versado  em comércios simbólicos me atirava(através de meus olhos) para fora do ônibus acompanhando uma ou outra vida até que se desfizesse nos mistérios de seus próprios caminhos.
Ele entrou, assim como todos outros, dizendo de suas dificuldades e filhos, e do seu monólogo eu nem notei sua pena, ou dei crédito ao seu discurso...
O coração já doía pouco quando era requisitado,mas quando me deixou o envelope com adesivos e caneta perfumada para que lhe ajudasse no orçamento me constrangi com a coação e saquei a carteira para ver do que dispunha.
O dinheiro não chegou ao preço então depositei a moeda graúda junto ao que me havia ofertado, e devolvi o pacotinho, com o rosto virado, esperando recuperar meu relativo silêncio.
A voz que respondeu veio agressiva, e o que foi recebido o foi com pouca educação:
-Eu não quero nada de graça!-O homem rasgou o lacre do conjunto e me entregou a caneta, partindo para novas vendas.
Não me lembro de me orgulhar tanto de alguém à quem não conheci!


Anderson Dias Cardoso.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Frágeis Existências 12°Capítulo.

 Ao terceiro dia, quando o sol havia se alteado de todo em seus limites uma das brisas,das raras que acometiam aquele lugar trouxeram consigo dos campos mais afastados o cheiro forte, e incômodo de putrefação.
Se dos humanos, os primeiros à conferirem as estranhas alterações de rotina foram os rapinantes; (assim sempre, e em todos os povos!) logo se escandalizaram com a composição de um cenário onde, ao centro de uma imensa clareira jazia uma fogueira da altura de ao menos cinco homens graúdos em pé; mas, que ainda assim não havia conseguido consumir a enorme quantidade de corpos que lha haviam sido atirados, então, outros tantos se espalhavam, perfurados, esmagados, mutilados, em posições em que só os corpos mortos conseguem se manter.
O costume de reunião de cultuadores dos deuses esquecidos naquela região miserável havia permanecido, discreta aos olhos, mas no conhecimento de todos.
Seus preceitos nunca acrescentaram, ou abstraíram qualquer dos daquela comunidade de um convívio ao menos normal, então eram toleradas, ainda que com certo desprezo, pelos que não sentiam necessidade de apegos espirituais.
O cheiro forte, e o aspecto assustador do local tiveram logo suas impressões apagadas pela cobiça, e todos os oito que haviam chegado naquele conheciam seus costume e, um passo rápido à frente e logo estavam sobre algum cadáver.
Moku, homem de 30 ciclos, envelhecido pelo sol, cavou bolsos e encontrou algumas peças antes de ser o primeiro à dizer algo.
-A maldade de alguns acaba por favorecer estes pobres, não acha Hoil!?
-Não sei... Só encontro corpos mais miseráveis do que eu!Não tenho sorte em empreitadas como esta... E então  Gujivi, algum vizinho que se aproveite?
-A senhora Duzian teve sua cabeça moída e se não encontro tesouros ou peças ao menos tive a satisfação de saber que ninguém tão curioso me será por vizinhança!
- As camisas do jovem Fijh merecem meu corpo!O que são manchinhas de sangue se a tessitura é tão vistosa!
-Somente peças pequenas Tuned, seu imbecil!Quer que nos tomem por assassinos de todos estes miseráveis!
-Quem o tomou por autoridade sobre nós Ertbaum?Ainda tenho uma faca afiada, e vigor para forçar lhe as tripas para fora do tronco!
Todos se riram da afronta do homem pequeno e velho.
-Se riem!???Que desaforo!Saibam que já matei alguns homens!
-Diga-me um nome- Caçoou Ertbaum.
-Zasdoip... -retrucou Tuned, com voz engasgada.
-Ah, sim! Desculpe-me!-Ertbaum segurou o riso, pelo pouco respeito que tinha pelo homem; todos os outros, não.
-Acho que também mataria alguém que se deitasse com minha mulher... Mesmo que ela quisesse!- Disse Augot, examinando uma lâmina fina de prata trabalhada em um pingente delicado- Mas este não foi seu caso, não?
O velho lhe atirou uma pedra à boca, rachando o lábio superior, mas não houve qualquer retribuição agressiva ao agravo; antes pensou que cada vez que o homenzinho traído tivesse seus olhos na futura cicatriz se lembraria da humilhação e risos.
Enquanto a faca serrava os últimos tendões dos dedos enfeitados da morta Adrid, arrancando uma das pequenas jóias douradas, Hoil estremeceu.
-Andemos mais depressa, o Estado já enforca menininhas por famílias que tentam se ir, imaginem se nos encontram espoliando seus cadáveres?
O restante da busca esteve um silêncio incômodo, e pouco mais foi acrescido ao pouco que havia sido encontrado; as mãos estavam carregadas, antes, de resíduos densos e excreções das carnes e as vestes se impregnavam com sua imundícia fétida.
-Moku...?
-O que é Qinv- O leve susto da pergunta o irritou ao extremo- Fale logo o que quer, pois já encontrei o que vim buscar; estou cansado e imundo, hoje não escapo à um banho então diga logo, antes que me aborreça ainda mais contigo!
-Muitos corpos...
-Hum...
-Os campos periféricos estão se tornando em deserto, e nenhuma fera faminta descobriu estes mortos!
-Croc!
Croc!Croc!
Então, um à um, tantos corvos aterrisaram em toda galhada ressequida.

Continua...
Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Sobre Ovelhas e Lobos.

Quando as ondas potentes isolaram a ilha e os caçadores já haviam quase extinto os lobos, o último se mirou na historia de seus pares para se compadecer do casal de ovinos.
-Não comerei de suas carnes, visto que a nobreza da vida deve ser respeitada! Pastarei convosco, e seremos todos irmãos!
Os agradecidos, baliram cumprimentos e agrados  ao predador piedoso e houve pasto farto à quem quisesse, e harmonia entre os diversos.
Houveram tantas épocas de cio, e multiplicaram se os rebentos do par diante dos olhos serenos do já velho lobo, até que veio a grande seca queimou os verdes e mirrou seus corpos.
E foi quando nada mais havia à se comer, que a multidão de magros pelegos circundaram aquele que era solitário; e decidindo pelo tabu da consangüinidade, devoraram, antes de si mesmos, o lobo...
Afinal; em meio à necessidade todas as ovelhas são negras...

Anderson Dias Cardoso.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A Rinha.


A agitação já havia se adiantado à chegada, e os gritos e cheiros  violentavam as percepções.
O corredor estreito levava ao terreiro amplo, e tantas pessoas quanto possíveis rodeavam o gradeado de tela, levantando a poeira fina em movimentos nervosos enquanto foram atirados dois novos galos ainda sobre o sangue fresco  dos anteriores.
Afastei dois corpos descamisados, o suor alheio me tocou as palmas e, me esquecendo asco em favor da excitação apalpei o ordenado do mês no fundo raso do bolso.
Não haviam biqueiras ou ponteiras, para que a morte se atrasasse e houvesse mais tempo para o ajuntamento de notas e eu observava  a dança das aves em asas revoltas e penas volantes enquanto entregava a esperança de ao menos um mês farto nas mãos do coletor.
-Tu...Tudo no vermelho!-A voz vacilou pela vergonha da violência do ganho pretendido, e enquanto o responsável contava as cédulas a espora favorável  vazava um olho.
As unhas arranhavam o vazio, outras vezes feriam a carne, e eu torcia, não como os outros, pelo sangue, mas pelo alívio de roupas novas e comida descente.
Os perdedores das disputas anteriores distraiam as atenções dos apostadores do momento, e zombavam oferecendo pedaços fritos de suas derrotas para disfarce do descontentamento.
Os golpes rápidos deformaram as cristas, um pescoço perfurados cedeu à estocada e a pressão da retirada brusca e eu vencia alguns dias de minha miséria, vergonhosamente, por sangue alheio!

Anderson Dias Cardoso.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Morto Vivo.


Da terra úmida muito se alojou embaixo das unhas, e sua aparência, inchaços, pústulas e vermes em nada lhe favoreciam os humores, e então deixou a cidade dos mortos, em suas mangas de flanela e calças pregueadas de brim, que eram de sua predileção.
Na caminhada consultou a boca e deslocando uma barata notou a falta do único dente de ouro.
Mortos realmente não têm dignidade!-Sussurrou de si para si, indignado com a violação dos coveiros.
Voltando para casa abraçou mulher e filhos, e digo-lhes, a inocência dos pimpolhos guardou-lhes a vida; mas da mulher só se ouviu que mortos não retornam da sepultura.
-Infelizmente, meu amor,  terás a oportunidade de saber se isto é ou não verdade...-O susto ceifara sua vida.
Cambaleou pela parentela e amigos, aumentando a contagem de corpos até que se ajustou à sua solidão e se foi, buscando um destino ao menos digno.
Quando os instintos antropofágicos foram despertos se recusou em trair a proposta vegetariana, se alimentou desde então de carne de soja, e se encontrou casa,foi sob as lonas de um circo.
-Sua maquiagem realmente convence!Era elogio de todo tempo.
-Quanto foi necessário para terminá-la?
-Vinte e dois anos, e uma vida inteira- Era a resposta triste decorada para estes casos.

Anderson Dias Cardoso.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O Mercado.

A pobreza não o permitiu deixar imóvel, ou algo de valor e ele sentiu o alívio quando assinou a papelada e conferiu a conta, agora, respeitável.
A negociata era mais segura que apólices e prescindia de qualquer formalidade e investigação e fora indicado por quem se utilizara com parcimônia destas trocas.
Sentiu-se desconfortável, eles, um tanto felizes e ele terminou seu caminho abraçado à um desconhecido coberto de branco limpo.
-Me orgulho de sua coragem e altruísmo... não menos que seus filhos e esposa, aposto!-Foi a única frase guardada, de todo encorajamento proferido.
Na sala estéril o deitaram na mesa.
Era homem saudável, de pouca bebida e nenhum outro excesso e lhes serviriam bem ao menos o coração, rins, córneas, e fígado...
Salvara de uma vez sua família, e uns outros tantos desconhecidos.

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Traduziram Um Texto Meu!!!

Hoje a Rafa Lombardino, da Contemporary Brazilian Short Stories (uma empresa de tradução situada nos Eua) postou a tradução de um texto meu no site homônimo!Estou muito contente!

O Link é http://sites.google.com/site/brazilianstories/brazilian-stories/fetish
Dêem uma passadinha lá!
Abração à todos!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Frágeis Existências 11°Capítulo.

...E vieram do Grande Vazio e do Silêncio as crianças andarilhas do vácuo; eram Pedil e sua irmã An-Haman.
Eram imagens idênticas de si até que o tempo modelou seios e alongou as mechas de An-Haman, e teceu pelos no queixo de seu irmão, dos quais ele trançou como um feixe de trigo.
Dos excessos do corpo lhes incomodavam o peso das madeixas; que estendiam se período solar e meio em seu comprimento, enquanto a barba de Pedil descia e serpenteava seu arranjo como criatura delicada e resplandecente de igual comprimento; e quando as unhas se encurvavam em seus dedos decidiam pelo corte e em juntá-las aos fios aparados e os amontoavam e ligavam por saliva, construindo mundos.
Tão imenso conjunto de formas que o Vazio se fartou de presenças, e o Silêncio havia sido recortado pelos gritos de júbilo dos irmãos que cirandavam enquanto criavam planetas e seus sistemas.
-Devem se expandir para além deste lugar, preencher e substituir esta realidade para que sejam possíveis outros deuses, e quando o Vácuo der lugar à Plenitude e o Silêncio se tornar em Cacofonia, estes se unirão a engendrar um outro casal que vos equivalha, então, se unirão à eles para gerar o restante dos seres - Disseram os pais- Devem esperar por seus pares!
E então deixaram a presença destes e se foram com suas cantigas, rodas, o produto de seus corpos se distanciando em constelações e astros que lhes ficavam às costas.
Na empreita, aqueciam alguma formação construída, com o calor de seus corpos até que se incendiasse e a abandonando tinham-na como  luzeiro e punham-se então a formar à sua volta um mundo –abrigo ao qual voltavam após construir galáxias.
Num dos lares fizeram nascer uma árvore de todos os frutos, e sua folhagem era tão densa que era noite sob sua sombra; e naquele lugar se estabeleceram por tantos ciclos quantos já haviam vivido.
Os pais haviam se perdido na distância, e em sua solidão se notaram como corpos atraentes e espíritos gêmeos; voltando de uma nebulosa não condensada se encontraram como amantes sob a proteção do véu de folhas.
Amaram-se ali outras vezes, e a árvore invulgar começou a estender raízes e galhos e derramar seus frutos, que agora se transformavam em cópias de estrelas e planetas até que não pudessem enxergar onde agora alcançavam.
Os pais sofreram saudades, e vendo que mesmo os gritos de Silêncio não alcançavam os filhos tomaram de sua escuridão para formar corvos, dos quais foram libertos para que buscassem os objetos de afeto.
Houveram milhões de asas, e o crocitar de tantas aves rompeu de vez a monotonia da criação intermitente.
De todos os curiosos foi Drognew a avistar a mulher loura em trabalho de parto, e constatar os cuidados de seu igual serem assomados por beijos de consolo às penas, nos lábios fugidos de cor.
Voltou, o corvo, em asa ligeira aos ombros de seus donos, e ao contar que a mulher gerara de seu irmão se enfureceram e consumiram os adornos construídos em volta, e os corvos revoavam todos em redor dos gigantes primordiais.
-Isto não devia ter sido...
-Desrespeitaram o conselho...
-Devem nos entregar sua semente, ou, que nunca voltem à nossa presença!
O caminho foi desenvolvido em meio tempo, e todos os corvos logo cobriam a extensão da imensa árvore onde o casal já abraçava seus filhos.
-As crianças foram amaldiçoadas, devem ser entregues à destruição!Crock!
Um cor ensurdecedor respondeu à ultima palavra do corvo.
-Eles são fruto de amor- Se lamentou Pedil.
-Desobediência!!!Crock!
E todos os outros responderam crock!
-Digam que voltarão assim que as crianças se desapeguem do seio e minha dor será menor - Implorou a mãe.
E então foram deixados pelos mensageiros.
Fugiram para sempre da presença dos pais, e as crianças cresceram até à razão e foram escondidos  em uma terra quando os corvos foram enviados à espiar e devorar a família.
O sangue de Pedil e Na-Haman salpicou o horizonte, até que seus pais teouxeram chuva para lavar o espaço, e foi assim desde então, como prévias das tempestades.
Estes irmãos também se amaram e, pela maldição de seus antepassados lhes nasceram gêmeos opostos, aprisionados em um mesmo corpo, e houve maldade e bondade em cada qual que nascia desde então... E esta é nossa descendência.
A voz da velha soava forte, acompanhada do crepitar da grande fogueira.
Todos guardavam um silêncio respeitoso e faziam suas preces em repúdio à Festa da Fartura.
-Voltemo-nos aos nossos pais, dos quais se sacrificarão em nosso favor- E outra voz a interrompeu com força dobrada.
-E eu achava que tinha ido a profetizar ao norte... Queimem à todos!
O Apóstata dava suas costas enquanto seus soldados lançavam uma multidão ao fogo.

 Continua...
Anderson Dias Cardoso.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Tema Recorrente,Outro Ponto de Vista...

Só sabiam se chamar Meiyng, e de suas vendas de tênis contrabandeado.
Falava pouco o português, e quando lhe confiscaram o que havia de a manter viveu em miséria, estendendo a mão à quem passasse para recolher um pouco de bondade e comer rasos pratos de sobras.
Às vezes preparava lamen em latas de aveia, e assim foi até encontrar no lixo a panela de alumínio batido.
Dinheiro era sagrado, escondido sob a palmilha do mocassim, incomodando os passos, mas logo que recebia moedas as trocava por notas e o andar parecia mais leve.
Ela estava ali, sempre sozinha em seu canto sujo, esmolando sob olhares de deboche e piedade.
O que mais incomodava aos passantes era este seu abandono; mas quando o sapato se encheu de riquezas foi ao centro e voltou às ruas trazendo um cão!
A dobradura canina, raça Sharpei, veio ornada de laços de fita e desfilava como peça estranha ao lado da esfarrapada chinesa.
-Chuang Mu!-Ela chamava, e a bola enrugada saltitava para receber suas carícias, e se a dona se levantava ela a seguia em sua direção e ofício.
Não houve que não oferecesse mimos à cadela, e ela cresceu recebendo biscoitos e quitandas, e quando num inverno Meiyng se lembrou de casa, a carne da companheira cozia na panela amassada.
A chinesa calejada quase esquecera os sabores da sua saudosa nação...

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Dédalo e Ícaro.

Testou os arranjos mecânicos das paredes gêmeas, que se ajeitavam ao som de qualquer movimento tomando a configuração de caminhos diversos.Se deu por satisfeito e seguro pela dificuldade que ele próprio encontrara em deixar o labirinto.
Dissera a Dédalo que repousasse o martelo e talhadeira e aguardasse o prato farto que traria, junto ao perdão, quem sabe, o agradecimento de Minos; e então estava naquele instante diante da figura temida.
Depois de se dobrar nada ousou além de elogiar sua própria obra.
E ele disse das paredes rijas de obsidiana, dos movimentos inteligentes e de arranjos complexos.
Haviam canaletas de captação de gordura de vítimas para que as engrenagens dos transportes mantivessem a eficiência; o tamanho reduzido do compartimento era seu orgulho!
Conseguira o efeito de um mundo num espaço exíguo, e poliu todas as superfícies até se tornarem em espelho, multiplicando-se assim o lugar num pequeno infinito.
-Eles se encontrarão com sua derrota todas as vezes que se mirarem em qualquer parede!
Dédalo detalhou cada artifício, enfatizou toda inovação e o que encontrava em seu interlocutor era o desprezo de marido traído.
-A caravana logo chega trazendo o filho de minha mulher, como saberei se todo este seu arranjo impedirá que tanto o “Touro de Minos” quanto os escolhidos me escapem, me causando vergonha e terror?
-Astérion estará guardado, e quando lhes apresentarem seus jovens eu asseguro que haverá a consumação de seu festim!
-E eu estarei posto ao fim da armadilha, antes de deixar nela a criatura, e constatarei se, assim como me prometeu teu próprio filho, nunca encontrará o caminho. Só então deixará Creta para teu exílio.
-Na insolência da certeza de um trabalho muito bem acabado lhe peço, quando perguntarem de minha memória os aedos, diga que deixamos as ilhas, eu e o jovem Dédalo em asas de cera, e que o pobre se encantou pelo sol...
-Uma morte enfeitada de asas sempre é coisa bonita!Vejo que é engenheiro também de histórias-E então os dois se riram, e cada qual tornou ao seu lugar.

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Frágeis Existências 10°Capítulo.

Esperava o prato vespertino e a demora o incomodou muito; levantou-se meio desajeitado sobre a única perna se foi a investigar algum movimento nas sombras que já se manifestavam à boca da noite.
Viu uma luz se acender aqui, ali, até que todas as poucas que agora eram postas a queimar formassem manchas claras nos mares de escuridão.
Preocupou-se quando a dor de fome subiu a bile à boca, recordando-se que em momentos de tensão municipal a ausência de qualquer próximo podia bem dizer más notícias.
Arriscou a descida íngreme da fina estrada de sua casa e, amparado pela forquilha cortada sob medida para uma pouca autonomia reivindicada cambaleou quase firme por umas oitenta braças.
A sandália, rebelde por não ter sido atada bem ao tornozelo dançava sob os pés e conspirava com os seixos para o levarem ao chão.
A empresa deu mais que certo, o pé vacilou na redondeza das pedrinhas e foi se desprendendo do galho e seu equilíbrio até que as nádegas se sujavam na poeira do caminho e as costas se arranhassem na agudeza de pedras menos delicadas.
As costas se molharam um pouco de sangue, os tendões que atavam o ferimento esticaram na queda, forçando a pele até o rompimento.
A dor o engasgou.
Tossiu, tossiu, tossiu, e quando procurou ar o pulmão se encontrava ocupado em contrações e distensões involuntárias e violentas, e ele sufocou.
Tentou altear o corpo, mas não houve força que bastasse, os olhos lacrimejaram muito e o peito rouquejava o som de sua insuficiência.
O corpo parou suas contorções, se acalmou em uma pose desconfortável enquanto os ferimentos de sua ânsia e queda escorriam um pouco mais de sangue.
Quando a consciência resolveu-se por voltar ao corpo uma ponta de sol escalava o horizonte, ele notou sua escora lançada a cinco braças de seu lugar e quando baixou os olhos à si encontrou contornos escurecidos de sangue e muco.
-Acho que terei que buscar meu desjejum!-Disse à si mesmo enquanto verificava que o ferimento não se agravara tanto quanto imaginava.
  Desta vez atou bem a correia, e andou seguro, em passos mais curtos até encontrar uma porta a se bater.
-Sabur?-A porta se abriu desconfiada, e um rosto duro, antigo, mas de poucas rugas o atendeu com voz abafada.
-Foi recrutado para cavar poços e saltou antes do sol... -A mulherzinha não o convidou a entrar, antes, deu um passo fora e tratou com ele ali mesmo.
-Sibal, assim como vê, estou ferido... Estava sendo cuidado por Quion e sua família, mas ontem e ainda esta manhã não tenho notícias deles e já me preocupo!
A mulher pareceu pouco sensibilizada com o aspecto sujo e manchado de Dreh, pensou um pouco e abriu a porta atrás de si.
-Sabe que não gosto de meu marido em companhia de bebedores de taverna, e desde que somos vizinhos o conheço bem por experiência e conversas de Sabur e tantos outros... -Respirou como se lhe fosse exigido grande esforço para manter os bons modos e o tom de voz- Entre que lhe preparo pão e leite e mando que Latar veja mais adiante se alguém sabe de Quion ou qualquer outro diabo que queira.
Dreh sabia bem como ser desprezado sem demonstrar qualquer emoção, acompanhou a entrada da pequena mulher e se sentou na primeira cadeira que achou.
-O sangue de suas roupas me está enojando agora que não me concentro na raiva que senti de você quando me bateu à porta, vou lhe preparar uma muda limpa e alguns trapos para emendar o ferimento, e se quiser lhe fervo alguma água para se lavar.
-A virtude é maior quando aplicada ao inimigo!Agradeço e aceito a caridade!
Dreh deixou a sala pouco mobiliada e quando cruzou a cozinha viu reluzir uma coleção de tachos e panelas de cobre batido, algumas vasilhas de barro ornado guardavam água fresca e o fogão ardia um fogo ainda tímido que aqueciam o forno e um pouco de água para o banho.
Ela gritou o nome de seu filho enquanto ordenava que se levantasse a trouxesse noticias de Quion, não houve qualquer resposta.
-Aposto que algum cobrador lhe arrancou a perna como pagamento, ao invés do que se diz por ai que teria sido comida por cães!- O homem sentado sorriu com a certeza de um outro sorriso se formando nos lábios dela após o comentário ferino.
-Como sempre as mexeriqueiras foram pouco eficientes em seu ofício de relatar a vida alheia!Não, minha perna foi mordida, não comida!E, novamente não, cobradores não tem nada à ver com a história visto que pago o que devo sempre que posso e gozo da confiança de todos que me conhecem bem!
-Meu primo Bifug não endossaria seu comentário e além dele posso citar ao menos uma dezena de outros de mesma opinião caso não se sinta constrangido!
-O cheiro de seus pães continua maravilhoso!-O sorriso cínico era resposta pronta àquele tipo de situação.
-Vá ao banheiro que eu lhe levo a água em instantes.
-Latar, garoto preguiçoso, levante agora antes que me irrite e faça o que lhe mandei!-A voz agora era rude.
O banho foi deveras dolorido, o sangue havia se agregado ao tecido e quando este foi arrancado teve vontade de chorar; quando saiu desfilava uma policromia absurda em duas peças de mangas muito compridas e barras que se arrastavam no chão batido.
-Belas roupas!Acho que me devolveram até um pouco de cor ao rosto por reflexo!
-Eram de um primo anormal.
-Aposto que me caíram melhor que nele!
-Pode se sentar à mesa, ai tem um bom bocado de pão, leite, duas espigas de milho e manteiga de cabra, e é tudo que posso oferecer!
Dreh tomou o lugar indicado e logo a mão da mulher se estendia à cana em que ele se apoiara.
-Me empreste sua perna que tenho que despertar um preguiçoso espertinho!
A mulher desapareceu rapidamente atrás das cortinas improvisadas e logo se ouviram cochichos, depois, outros gritos e então um garoto de pouco mais de dezoito primaveras entrava à cozinha com sua testa marcada. Quando os passos da mulher se aproximaram de onde estavam o garoto olhou choroso ao hospede situacional e tomou o rumo da rua.
-Com conversa tudo se resolve!
Comeu deliciosamente tudo que havia posto à mesa e esperou sozinho no ambiente até que o garoto chegou anunciando o que acontecera desde uns oito quarteirões.
-O Sábio Apóstata convocou um ajuntamento na praça do palácio!Quion e a família foram presos sob a acusação de intentarem deixar a cidade!
Enquanto a multidão se deslocava rumo ao lugar ordenado Dreh se apoiava aos ombros do garoto e sua mãe para que fosse possível chegar em prazo.
Andaram um tempo e meio, até avistar a praça e sobre a escadaria haviam encaixado imenso e fino cone acústico de bronze posto para fazer alcançar a voz do falante aos que estivessem mais afastados.
A espera fez formigar a extremidade ferida, e foi exatamente enquanto se abaixava para se coçar que a voz trovejada captou sua atenção.
Os três homenzinhos estavam postos junto ao aparelho, o que agora se vestia de negro era o centro da formação e então as vozes se emendaram no pronunciamento:
-Nós avisamos, e ainda tentam fugir!- O sincronismo das vozes, e o efeito que produziam como coro era dos mais impressionantes.
-A segurança da cidade depende da permanência de cada indivíduo e família neste lugar até que as chuvas nos aliviem; então, cada qual deve desempenhar seu ofício com presteza, paciência e esmero...
A multidão silenciara de todo, e até os movimentos desta pareciam suspensos pelo respeito e curiosidade.
-Cavadores de poços, construtores de barragens, reparadores de valas de irrigação; todos são responsáveis pela sobrevivência de todos e a partir de agora serão fiscalizados por uma comissão de inspetores de engenharia, e serão guardados pelo recentemente criado exército municipal!
A frase terminou com a entrada de uma outra multidão armada de lanças, escudos e espadas que se pôs diante do palanque.
-Estes, que se põe corajosamente diante de nossos olhos são os melhores de vossos filhos, e eles foram reservados para guardar a segurança de nosso povo de agora em diante.
-Vigiarão a noite, o dia, o trabalho, o ócio, e serão os guardadores dos limites da cidade!
-Ninguém passará por eles- As vozes moveram à um tom sorridente, tenso-, e como prova disto temos um exemplo de como nossa fiscalização é eficiente, e de como agiremos energicamente em caso de desrespeito à nossa sociedade!
Um outro pequeno grupo foi apontado pelos três homens, ao lado esquerdo, aos pés do madeiro.
-Niad... Quion... Chantira...-A boca se secou de todo, e Dreh tentou gritar seu protesto, mas logo um cabo de espada lhe quebrava o nariz.
-A família de Quion planejava abandonar nossa presença, então, graças ao nosso amado irmão Dalu; que nos denunciou que haviam oferecido e ofereciam suas terras à todos a quem encontrava fomos ter com ele e, interrogando ele e sua família descobrimos ser verdade o que nos foi dito!
-Desgraçado!-Gritava Dreh, enquanto mais um par de homens afastava com violência Sibal e o filho e se juntavam ao esforço de silenciá-lo-É este maldito que anda fazendo propostas de compra aos que querem partir... -Uma mão enorme lhe segurou os cabelos, outra tapou lhe a boca.
-Mostraremos nossa severidade e benignidade escolhendo um que pague a traição da família e exemplifique à eles e a todos para que nada disso ocorra novamente!
-Enforquem a pequena!
Outros fortes se movimentavam ostensivamente em meio à multidão, o aleijado continuava a gritaria e a família culpada era segura enquanto imploravam pela vida da filha.
A garotinha, como quem nada entendesse seguiu, mãos dadas ao carrasco até o alto da forca; a confusão e o medo a haviam lhe apagado os instintos.
O homem ajeitou o laço ao pescoço, ela ajeitava o vestido. Ela sorriu, sem saber por que... Foi um sorriso muito bonito, ao qual o homem retribuiu puxando a alavanca...

Continua...
Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Uma Questão Filosófica.

Crescia ao lado, dolorosa e assustadoramente junto ao pescoço e é claro que houve desespero e desconforto.
Não era tumor, aliás, não havia nome ou registro clínico de um apêndice tão complexo e de rápido crescimento e  logo que surgiram olhos e expressões na massa estranha se viu socialmente abandonado, como peça grotesca de antigos circos de horrores.
Nos dias de desemprego e solidão verificava no espelho a evolução de pelos e tecidos e se contorcia em pequenos sustos até surgir boca e um outro pescoço altear o segundo crânio.
Não era outra alma, e o observava com a mesma tristeza com que ele próprio o observava e foi esta mesma boca recente quem se abriu primeiro e disse sentir muito.
Foi a única frase; e ele carregava envergonhado o apêndice silencioso aonde ia, em todos os lugares de mau-querer, seguido em olhar por olhos que de alguma forma também eram seus.
Além do corpo, compartilhavam tristeza.
Completaram outro ano de convívio mudo e uma das cabeças cogitava suicídio, ou decapitação, a outra respondia com a mesma estampa aos humores turbulentos do corpo compartilhado.
Então o corpo  foi direcionado pela cabeça ancestral, e a outra não resistiu; e tendo na mão esquerda a faca ameaçou um corte.
-Suicídio ou homicídio, qual será o ponto de vista!?
O primeiro par de olhos se fechou, logo, o segundo...

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 27 de novembro de 2011

Frágeis Existências 9°Capítulo.


O prato era pobre em carne, e de abóbora nem gostava muito, mas a fome deu boas vindas a cada bocado engolido.
A garotinha esperava; segurava um sorriso bonito e curioso enquanto o via mover vez em quando o coto.
-Dói?- Arriscou a pergunta e avançou para um toque, que ele repeliu com pouca gentileza.
-É muito recente, e seu pai me cuida com pahije, não a toque, pois ainda me causa desconforto e asco.
-Nós iremos embora na próxima lua- O sorriso se manteve a despeito da mudança de assunto- Papai disse que não poderemos levar o Lasef, e que logo que chegarmos a Raish me comprará um outro cachorrinho!
-Não gosto muito de cães, acho que devia pedir um coelho ao seu pai, eles são menos perigosos!- Achou engraçado seu próprio comentário e se juntou ao sorriso da garotinha.
-Eu odeio abóboras- o tom dramático e confessional foi associado à uma olhadela ao prato de Dreh; era uma demonstração de amizade em forma de segredo e ele mudou seu aspecto para conferir importância ao que concordava.
-Papai disse que as abóboras são para poupar dinheiro para as caravanas de alimentos nas estradas que vão para além das cinco cidades, ele disse que a comida fica muito cara na viagem...
-Me disseram que os preços das caravanas de travessia são dez vezes mais altos, e dos que fugiram das cidades, muitos se tornaram em assaltantes- A voz se acrescentou ao ambiente, pouco tensa e nervosa.
-Eu conversava com Banira, ela cresceu bastante e o sorriso brilha tão fresco que quase me esqueci da dor, e a propósito, ela detesta abóboras!
Um olhar de desaprovação da infanta não o fez corar, e ele continuou:
-Ela é mocinha inteligente e responsável, me cuidou direitinho quando esteve fora e acho que merece comer o que bem lhe apetecer!
Com a gargalhada de ambos a carranca da pequena se desfez; ela balançou afirmativamente a cabecinha cacheada, satisfeita com a defesa do novo amigo.
-Também acho que é moça feita e obediente; e merece repolho e batatas ao invés de abóbora!- Estendeu os braços queimados de sol para receber o corpo inquieto e o comprimiu ao ponto de fazer escapar um gemido divertido, ao pai de amor violento.
Quion arrancou do bolso uma boneca de palha e entregou para que a garotinha se afastasse e continuaram a conversa.
-A perna parece bem melhor e as crostas quase desapareceram. Eu tenho diminuído a concentração de pahije e pelo seu humor logo voltará a freqüentar lugares de má reputação!- Quion havia se debruçado sobre o resto de perna e levantou-se muito satisfeito.
- A botija d’água...
-Eu trouxe uma maior, cheia- Levantou-se para averiguar as traquinagens da filha e voltou com o recipiente e copo em mãos, despejou liquido até a metade e entregando ao enfermo foi sorvido em um gole só.
-Mais um pouco que o clima me secou até o tutano!- Bebeu o segundo mais calmamente e entregou o copo vazio para ser depositado ao chão.
-Gostaria de andar, a perna inteira já não me responde bem quando a ordeno e acabo de ter a impressão que logo terá que me contratar novamente o cirurgião para me amputar  a segunda por falta de uso!
Eles riram muito, mas a perna não susteve o peso e Dreh teve que ser carregado ao exterior do casebre.
-Nada de nuvens!
-Os poços de auxílio estão sendo escavados, mas não encontram nada acima de trinta braças, falei com Ohik; ele trabalha chefiando uma dessas equipes e me garantiu o empregar como assentador de pedras de calçamento ao redor dos mesmos...
-Não sei bem se quero trabalhar... Uma perna faltando me justifica bem como pedinte!
-Seu carisma o faria morrer de fome!
-Você fala com certeza de minha sinceridade!
-Como queira!
-Sendo assim- Dreh ergueu o queixo orgulhoso e fitou com desafio os olhos divertidos do amigo- Também te digo que, assim como Banira, estremeço a cada bocado da sua abóbora!
-Tudo bem, mas nada direi à Chantira; ela já o odeia o suficiente e você ainda não conseguiria lhe escapar quando lhe desforrasse com a mó do moinho!
-É um segredo que espero que guarde até que parta; sempre julguei que mesmo inteiro nunca seria páreo para aqueles braços fortes!
-O barulho de Banira silenciou- a voz soou como uma desculpa ao fim do dia, e ao entrar naquele espaço encontrou a cria recolhida ao canto mais quente, boneca pendendo dos dedos.
-As luzes se apagam mais cedo, azeite e gordura foram racionados e já ouvi histórias de violências e assaltos - Ergueu o pequeno corpo e com uns poucos passos já estava de volta ao exterior do casebre- Amanhã lhe prometo um desjejum que lhe compense a péssima refeição!
-Não... Não foi uma péssima refeição meu amigo, e...Cuidado com os cães...
-Boa noite, Dreh!
-Boa noite, Quion!

Continua...

Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Pinóquio.

Cresceu, e se desenvolveu para ser construtor de impossíveis!
Escavou sucatas tecnológicas e ao longo dos anos montou corpo de fios, metais e transistores e cobriu com sintéticos e o deu aparência de homem.
Deu-lhe sensibilidade ao toque, percepção dos espaços e razão; tal qual a que possuíam os nascidos de carne; e um nome, mas agrilhoou-o à submissão amorosa e ele o acompanhava, devoto, à onde quer que fosse!
Apesar de incrível, a criança artificial foi mantida guardada como relação e nem um olho conheceu sua forma, ou ouvido ouviu suas súplicas.
Era açoitada pelos humores ruins do pai, e se o corpo era resistente, a alma se quebrava todos os dias.
Os muros altos da propriedade tentavam esconder os maus tratos, mas a voz gritada carregava longe as pragas, a ouvidos incomodados, e às vezes, solidários, mas o homem se provia de enlatados e cereais, para períodos tão longos que já quase não o viam, e se faltava contato, ou relação não havia quem ameaçasse denunciar, e a própria apatia e comodismo calavam por si muitas bocas!
-Desgraçado!!!Era o impropério dileto, e o som de metálicos se entrechocando seu acompanhamento! Um murmúrio respondia, e era silenciado por outras obcenidades antes que concluísse a queixa.
Era assim o dia inteiro...
Da loucura do homem agora diziam que as luzes foram apagadas de todo, e que uma vela caminhava, alumiando uns poucos passos a diante, e que se reduziram os gritos em favor de conversas nervosas e indecifráveis, aparentemente binárias.
Vez em quando alguém ousava saltar os portões tentando ver ou ouvir mais do que os boatos diziam, mas ao roçar de pés na grama se cerravam as cortinas e silenciavam-se todos os ruídos.
Após muitos dias tranqüilos gritavam novamente, e houve espancamento e humilhações até o cair da noite, hora em palavras, outra, em números.
Dia seguinte, e as vozes se alteavam novamente e todos os quebráveis eram consumidos pela ira que alguma vez parecera diminuída, e a briga persistiu até que ainda houvesse disposição, e o que se sucedeu naquele tempo ocorreu de novo, e de novo, até que a situação se tornasse absurda aos que acompanhavam as surras e ameaças.
Decidiram-se que a tutelar seria resolução menos cruel que deixar que o velho matasse a criança!
Quando a polícia arrombou a porta a casa os saudou com poeira e mau cheiro.
As poltronas haviam sido cobertas pelos tecidos orgânicos das aranhas; peças miúdas de mobília estavam nos cantos onde foram atiradas, e o mofo se aproveitava das infiltrações para colonizar e se expandir pelas superfícies abandonadas pelo cuidado.
A escada não mais subia, ou descia; e a luz sentia dificuldade em adentrar mais que uns poucos metros naquele ambiente de sombras fortes e pó revolto.
O lixo foi depositado rente às paredes em sacos gotejantes de sobras e detritos; algum pé esbarrou em um prato meio cheio de comida industrializada, e uma massa pulsante de larvas gordas.
O primeiro dos oficiais da tutelar se espantou, segurou o vômito, e brilhou sua lanterna para localizar algum movimento e se distrair do asco que sentia, notou o reluzir do seu facho em um corpo pouco humano e meio metálico, agarrado à uns poucos ossos grandes. 
Disseram que assumira o nome de seu pai, e ainda que fora criado como instrumento de afirmação conheceu o amor, e por fim, tornou-se uma imitação de vida tão fiel que não fosse a morte do criador, seria seu orgulho...

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 20 de novembro de 2011

Visita Íntima.

Quando os cheiros de pequi e frango lha acariciaram as narinas ela sorriu; um sorriso melancólico, espaçado demais de qualquer outro.
Provou o tempero, sentiu o açafrão tocar suave a língua e se lembrou de elogios e carícias e a saudade moveu algo no peito. Ela mandou que o sentimento aguardasse.
Lavou-se do suor e da gordura em água fria, esfregou com o resto de condicionador os cabelos escuros e quando se secou o corpo pediu uma gota de perfume para tornar sua simplicidade um pouco atraente.
O pano de prato atou a marmita com um nó arrochado, a garrafa de suco se assentou junto ao amarrado na rota bolsa e logo ela corria ao ponto, temerosa de perder a hora da condução.
Era magra, seus olhos pesavam de tristeza e sua pressa nunca a deixava ser percebida por quem a pudesse oferecer alguma compaixão, então seguia seus ciclos de trabalhos e visitas tão naturalmente como se seu fardo se tivesse incorporado à vida.
A viagem, apertada e quente, durou além de suas duas horas e meia.
O pátio-estacionamento do lugar se movimentava com uma torrente de outros sofridos em quanto o sol ofuscava e atiçava suas ansiedades com seu incômodo. A maioria ali era de mães e esposas de detentos.
E assim como em toda fila são compartilhadas vidas em conversas de oportunidade, naquela a afinidade de sofrimento trazia um pouco alento e empatia aos visitantes que se distraiam em reclamações e queixas.
Débora permaneceu silenciosa em todo percurso, e quando virou à direita no sólido e estreito corredor do complexo lhe apontaram um outro segmento.Quando sua mão empurrou a porta indicada se encontrou em um claustro.
Ela esperou.
-Dispa-se!- A voz não tinha tom identificável de sentimento algum, mas ela se assustou com a forma rude e agigantada do agente.
-A televisão disse que eu podia reivindicar uma agente...
-Isso aqui é a realidade dona- A voz intimidou, e a amedrontou por tamanha brutalidade e o corpo do homem se arqueou em sua direção ameaçadoramente- e nela só há uma agente para nem sei quantas mulheres!Tire logo essa maldita roupa se quer ver o desgraçado do seu marido!
Ela tentou outra reclamação, mas logo ele já estava junto ao corpo.
Tateou os ombros, correu as mãos pelos braços descarnados e ela fechou os olhos e murmurava uma oração de livramento.
As mãos lhe apalparam os seios dolorosamente- Estes filhos da puta desses repórteres gostam de moralizar a instituição, mas não sabem o inferno que é trabalhar por aqui- as mãos desceram às poucas curvas que possuía até o ventre; a mulher tremeu de asco e horror.
-Toda humilhação que passamos aqui, as condições ruins de trabalho e o perigo constante de lidar com essa raça de desgraçados...
A boca secou-se, e ela conteve ainda nas órbitas as lágrimas de vergonha.
-Pronto, senhora!Agora pode ir lá ver seu esposo- A voz voltara à monotonia anterior e ele deu um passo ao lado esperando que ela recolhesse suas vestes e saísse.
Antes que cerrasse a porta atrás de si ouviu-o elogiar o cheiro da comida- Você é uma boa mulher, não irei violar suas coisas...
Ao indicarem a cela de visitas íntimas ela terminou cabisbaixa o trajeto até chegar ao cômodo gradeado, de privacidade montada de lençóis e cobertores. Os carcereiros estipularam seu tempo, e ela entrou.
O leito era um armado de cimento e espumas amarelas saltando de seus forros, o cheiro de suor e mofo enjoavam-na o estômago.
Notou um pequeno dobrado sob a cama, apanhou-o, arranjou melhor o lençol e se sentou para ler.
Quando os olhos pontuaram a última linha, um, que não era seu marido adentrou a semi-tenda e ela entendeu o que devia fazer.
Seu marido não a encontraria daquela vez.
Ela abafou seus gemidos de asco, enquanto o homem alteava os seus, de prazer; como símbolo de posse e potência.
A droga consumida sempre era paga... Nem sempre em espécie...
O coito durou tanto quanto o valor da dívida, e quando o estranho a deixou ela ainda continha suas lágrimas.
-Pode entregar isto ao meu marido?- A palavra se desprendera da boca, mais dorida que nunca, e ela moveu o embrulhado ao homem.
Quando o aroma da comida se escapou dos intervalos da marmita e encheu todo o ambiente a carranca do homem se tornou em sorriso, e a língua saiu de sua toca, e varreu prazerosamente seus lábios, e enquanto deixava o lugar seus dedos já desatavam os nós...

Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Frágeis Existências 8°Capítulo.

O arrastar de madeira foi o que o despertou; seu quarto pareceu vazio de mobília e em seu incômodo tentou movimentar o quadril. A perna esquerda subiu leve ao comando, mas a dor fechou seus  olhos e rangeu-lhe involuntariamente os dentes.
-Desculpe!Tiveram que a cortar para que não contaminasse o resto do corpo!-A voz soou tranqüila ao lado esquerdo do colchão de palha.
Dreh chorou tantos minutos quanto achou necessário para lamentar sua pena e apaziguar o mínimo de suas exaltações.
-Minha mobília... Alguém quer me despejar?
-Eu a tive que vender para pagar os custos da amputação.
Dreh sentiu fortes náuseas e, voltando se para sua direita o estômago tentou expulsar alguma substância, mas só lhe escapou dos lábios o hálito ruim e um gemido.
-Você só se alimentou de água durante o tempo em que passou inconsciente. Tive medo de que se engasgasse com a comida e acontecesse coisa ainda pior...O dinheiro só bastou para acertar a cirurgia.
-Tome, mastigue um pouco desta massa de cereais e seiva de Pahije, o fará se sentir alimentado e diminuirá as dores.
Esfregando as mãos na parte limpa do lençol Dreh se higienizou, e tomando entre os dedos um bocado da mistura notou que a seiva havia retirado todo o prazer do sabor e o substituiu por um gosto acre. Deglutiu o que havia entre os dentes e não quis provar outro tanto.
O anestésico era potente e logo as pálpebras pesaram e a dor o abandonou de quase todo.
-Ouvi dizer que se iria daqui...
-Ainda pretendo. Só espero que se recupere de todo.
-E suas terras?
-Ohik não as quis comprar; as venderei pelo que me ofereceu Dalu.
-Mas... foi declarado ilegal vender terras...-As palavras agora eram difíceis.
-Partir também foi proibido, e os anciões formam uma milícia, além dos construtores e reparadores de poços e valas de irrigação.
Devo partir logo, para que não haja quem o faça primeiro, e se endureçam as penas aos que o façam. Tenho mulher e filha, não as quero feridas.
-Em uma semana a perna estará melhor e poderei gozar de alguma independência, após isto você fica livre para partir e, como gratidão lhe comprarei os campos.
-Durma meu amigo, o remédio é forte e já o faz delirar!
-Mete a mão no forno de baixo, e encontrará minhas economias de taverna.
Quion riu-se gostoso, Dreh fez o mesmo, mas com boca torcida e dormente.
-Vá até o forno, seu estúpido!És um dos únicos à quem minha gratidão não me permite mentir!
O homem resolveu-se por não contrariar o doente e levantando-se foi até onde fora ordenado e meteu a mão às cinzas e sacou um amarrado médio de peles. Sacudiu-o e ouviu tilintar muitas moedas, então se riu da perspicácia do amigo.
-Então, por isso mendigava bebida nas tavernas!Guardava seu ordenado enquanto lhe pagavam as despesas!
-Não era à toa que me detestavam!
Ambos riram, e Quion deu passos rumo à porta. - Niad virá trazer algo para comer logo que acordar do efeito da seiva.
Dreh já dormia então.

Continua...
Anderson Dias Cardoso.

domingo, 13 de novembro de 2011

No Paredão.


Havia desmontado, engraxado e montado a peça como outras tantas vezes. A farda verde incomodava, como um sinal de ofício, mas ainda a mantinha limpa e as botas reluzentes para que não me denunciassem mais imundícias do que carregava em minha função.
Reuníamo-nos alguns minutos antes, num refeitório manchado de gordura e nos sufocávamos com este ingrediente volatizado em um ar denso, acrescido de fumaça de cigarros.
Falávamos muito de pornografia, e nos desrespeitávamos uns aos outros enquanto as cozinheiras nos azeitavam alguns pães e nos preparavam refrescos instantâneos.
Eles sempre vinham pouco adoçados; acho que era a vingança pela desordem que causávamos, e pelos palavrões que cuspíamos!
-Já é hora!- Ruan era a figura silenciosa que sempre  surgia de surpresa à porta e convidava-nos a nos lembrar à que estávamos naquele lugar.
Um apagou o “toco” de cigarro, outro engoliu o resto do líquido insosso e uma piada sobre prostitutas panamenhas foi terminada sem riso algum.
Andamos em fila para o pátio, e eu me enxergava como figura única e descontente e meus pensamentos falavam tão alto que vez ou outra notava uma olhadela do anterior, ou posterior, em minha direção.
Procurava às vezes sincronizar meus passos aos demais, isto me relaxava um pouco, mas a brevidade do corredor me levou depressa ao exterior,e me foi jorrada uma luz forte, de um dia limpo que me feriu os olhos de forma que me esqueci por um momento.
Nossa praxe era nos alinhar lado a lado, de costas para o “Paredão”.
Éramos supersticiosos quanto aos olhares dos condenados.
As armas foram verificadas novamente, os cartuchos postos e houve um disparo teste para que se evitasse o constrangimento de uma falha diante dos assistidores, e só então nos foi trazido o “morto”.
A pobre criatura se arrastou chorosa para a região central; nada me dizia de inocência ou culpa; e era apenas uma bala à ser disparada e outros afazeres menos desagradáveis seriam o alívio para toda aquela tensão.
Foi dado o comando e todos se posicionaram corretamente, outra palavra e as armas foram apontadas à um corpo que erguia pateticamente as mãos espalmadas como aparadoras do tiro.
Era um “dançarino” de segundos que seria morto por qualquer banalidade aumentada à importância de ameaça de Estado; uma discordância com obrigação de ser silenciada, no lugar onde a inerência da opinião era coisa relativa!
-Fogo!!!- Os estampidos dos tiros abafaram os gemidos, o ar se encheu de fumo e o corpo se deitou sob o peso da gravidade, sem muitos movimentos.
A piedade antecipou se ao tiro e minha arma voltava carregada ao quartel.
Ao menos daquela vez não quis ser responsável por uma morte.

Anderson Dias Cardoso.
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