domingo, 27 de abril de 2014
Direito!
Direito é uma coisa complicada!Estava lendo "Os exploradores de caverna" e fiquei imaginando se estivesse numa situação parecida com aquela, uma expedição de exploração que fora privada de sua liberdade pelo bloqueio da entrada por deslizamento, só que daí fosse inserido um centauro na história!Se naquele sorteio (sob as mesmas condições)de quem serviria carne pra preservação da vida dos outros o mesmo fosse o escolhido, como se desenrolaria o processo jurídico?O centauro, se comido sua parte eqüina primeiro o juiz o consideraria como um todo?As pessoas seriam julgadas de acordo com o direito dos animais, e humanos, já que, já que é caso de hibridez mas onde há uma delimitação bem precisa de uma e outra espécie naquele espaço corporal!?Será que existe um tribunal de centauros que venha a reivindicar justiça?A legislação deste seria mais ou menos rigorosa que a nossa?Qual dos dos dois universos corporais receberia mais peso e atenção, já que a parte animal deve corresponder fisicamente ao dobro, ou até mesmo o triplo da parte humana!Estou confuso!São muitas possibilidades!
domingo, 6 de abril de 2014
Êxodo Digital-Parte Final.
A semana seguinte foi especialmente difícil; e acabei sendo
demitido por conta das faltas, já que gastava cada hora do dia diante do
monitor, esperando notícias e imaginando se não havia sido enganado, e o corpo
de minha mãe desovado em algum dos milhares de lixões regionais, ou se aqueles
profissionais eram mesmo gabaritados e conseguiriam lha transpor integralmente,
e sem seqüelas.
Finalmente a tela piscou um aviso, eu o abri, anotei o
código e fui esperar que houvesse algum transporte público que me levasse
àquele lugar.
Novamente haviam filas, a costumeira sujeira, restos de
embalagens e crianças chorando por todo o pavilhão. Uma organizadora tentava
gritar mais do que aquele tumulto, mas logo que se afastava do ponto em que solucionava
alguma querela, a baderna se restabelecia, e os oportunistas empurravam,
intimidavam e ludibriavam quem pudessem.
A espera durou oito horas, e me encaminharam para uma
salinha com uma tela nada modesta, do tipo que não se costumava a ver desde que
limitaram o consumo ao necessário tentando diminuir os resíduos, e eis que este
também me apresentava uma sala semelhante, com as mesmas medidas, objetos e uma
portinha branca trancada sempre pelo lado de fora.
Ela entrou, e parecia meio desconfiada. Trazia consigo um
bloco de papel.Puxou a cadeira acolchoada e se sentou.Seu aspecto era um pouco
melhor; a cor lhe havia retornado às bochechas e os olhos quase brilhavam.Me
estendeu a mão, e eu toquei a tela.
-Me... Me perdoa...
Ela baixou os olhos, parecia ter se entristecido
profundamente com minhas palavras. Abriu a papelada e escrevia alguma coisa.
-“Houveram alguns probleminhas, minha voz sumiu de vez, mas
eles dizem que foi apenas um trauma... Ela deve retornar em breve.”
-Eu não devia ter feito isto com a senhora...
-“Eu quero te mostrar uma coisa”. -E ela foi erguendo a
blusa, e mostrando o lugar onde deveria haver um ferimento.-“Você me curou!”
Eu não pude dizer nada; sentia-me confuso e culpado.
-“Aqui é um bom lugar, bem parecido com o que era antes do colapso.
Eles me deram uma casinha, mantiveram minhas pensões. Eu revi alguns amigos e
estou fazendo alguns outros...”
-“Eles disseram que este mundo está quase completo, e você
devia ver o céu daqui! Como é lindo, límpido e tão estrelado!”
Eu soluçava um choro contido, e me custava ler o que ela me
escrevia.
“Não chore! Eles nos disseram que logo quase todos vocês
estarão aqui conosco, e tudo será como antes...”-a mão começou a tremer a
escrita, e a mulher contorceu a boca e cacarejou algum som, antes que
explodisse em uma convulsão e espumasse a boca.
-Mãe?-O coração trotou no peito, e eu arranhava a tela,
enquanto via um grupo de homens invadirem a sala, arrastá-la aos berros
enquanto alguém tentar desligar o vídeo. Nunca mais a veria!
Saí possesso da sala, agarrei a moça da informação tentando
lhe obrigar a me responder o que havia acontecido com minha mãe. Ela se
desculpou aos berros e lágrimas, disse que nada sabia para dentro daquelas
portas.Eu a forcei com socos, nos olhos, na boca, no nariz, mas ela apenas
gritava e se debatia.Uma dúzia de outros funcionários vieram em socorro, e me
espancaram com a mesma severidade.Perdi a consciência várias vezes, e senti
muitos dentes nadando na boca; foi quando nos apareceu um engravatado e todo o
pessoal lhe indagava se deviam sumir
comigo, ou me entregar à polícia.
-Ele é só um maluco!Deixem-no ir cuidar das suas feridas. Nós
registraremos um boletim contra ele, alertaremos ao serviço social para lhe
diminuir as rações da família .Avise seu novo empregador para ficar de olho
nele!No mais ele não pode fazer nada!O cronograma de conversão conta com a
mídia, a política e o dinheiro para calar os discordantes.
-Vá embora vagabundo!Rosnou o maior deles, e bateu forte com
seu pé no chão. Eu me levantei de sobressalto,escorregando como um cão enxotado
um pique, para me distanciar de outra
surra, enquanto todos se riam de mim!
Contei à minha esposa, e ela também se indignou; então nos
propusermos a buscar discretamente por outras pessoas que houvessem sofrido
agravo semelhante, mas as poucas encontradas se sentiam receosas à princípio, e
passavam a nos evitar ao longo do tempo. Mudamos a estratégia e imprimimos
alguns panfletos, baseados em pesquisas e relatos, que encorajavam a desistir
daquela tecnologia, e os espalhávamos nas caixas de correio das vizinhanças,
tentando ao menos fomentar alguma discussão, mas a única pessoa à nos
manifestar solidariedade foi um vizinho amalucado que jurava ter tido seu cão
engolido por uma torradeira!
Uma noite nos foi deixado um bilhete dizendo que a paciência
havia de se acabar, e na semana seguinte os caminhões de entrega nos deixavam
uma ração de categoria muito inferior, à qual, em datas não muito remotas, haviam
suspeitas de terem sido cultivadas em solo contaminado por radiação. Trocamos
todos os objetos que possuíamos em casa por alimento,mas logo nos víamos
forçados a completar as calorias e vitaminas requeridas com aquilo que nos
forneciam!
À despeito de tudo isto, persistimos por mais ou menos uns
dois anos ainda; até o dia em que minha esposa defecou sangue, e os exames nos
confirmaram a metástase!
Nós fomos vencidos, zombados por toda vizinhança pela nossa
contradição!Cinco dias após requisitávamos nossos passaportes para a
virtualidade, e invocávamos a cláusula da “Letalidade Iminente” para nos
adiantarem na fila de espera!
De fato aquela era mesmo uma versão perfeita e saudável do
primeiro mundo; mas as pessoas pareciam mudadas!Ostentavam olhares ferozes,
falava com despeito umas às outras e até as formalidades e status
econômico-social, planejados desde o começo pareciam ser mantidos com extrema
dificuldade!Os novos peregrinos eram bem acolhidos somente, e quando, por suas famílias.
Quanto aos órfãos e deslocados, estes eram expulsos para as periferias e guetos
das cidades!
Eu e minha esposa fizemos uso do auxilio que o governo
oferecia aos recém chegados para sua adaptação psícossocial, até que tivessem
condições de serem readmitidos na cadeia produtiva e comunidade.
Isolamos-nos totalmente, e nos recordávamos e cogitávamos se
minha mãe estava certa quanto à alma, já que nós mesmos nos sentíamos meio
distantes e impessoais.
Acabado o período de ajuda não conseguimos nos integrar, e
minha esposa estava grávida de sete meses. Fomos sumariamente expulsos de
nossas casas, e vagueamos como esmolantes sob uma lona e outra, acompanhados
por uns outros tantos vagabundos descontentes.
Numa noite chuvosa ela sentiu as contrações, e corremos para
o esqueleto de hospital que se avizinhava. Pedimos permissão ao grupo que o
invadia, e fomos tropeçando em caídos até bem próximo do fogo!
A parteira improvisada cortou com faca de cozinha o cordão,
e a criaturinha contorcia seu inchaço em mãos lavadas com água de chuva. Era
linda!Perfeita...
Mas não se tratava de nada além de um pacote de dados!
Fim.
Anderson Dias Cardoso.
sábado, 29 de março de 2014
Êxodo Digital-Parte 3.
Havia especulações de como seria a migração das massas para
a virtualidade, e se esta mesma ocorreria como algo positivo, ou seria um
evento impulsionado pelo pânico proporcionado pela agressividade e variedade de
doenças surgidas por todo tipo de contaminação. É claro que a curiosidade, e o
espírito aventureiro encaminhou uns bons milhares às filas de inscrição, mas
toda a excitação teve de ser contida até que se calibrassem todos os ambientes
e os adaptassem como recortes bem arranjados afim de esperar que a maioria da
população se decidisse em se transferir para aquele lugar!
Coisa estranha, impensada e oculta à população; pela
obviedade do impacto emocional negativo que certamente ocorreria, era o projeto
de descarte dos corpos dos migrantes digitais!
Enquanto o Ministério da Saúde veiculava vídeos românticos
de imensos cemitérios, espalhados em pontos muito remotos e proibidos, mas com
delicadas lápides de uma sincera imitação de mármore negro, e aquele relvado
sintético bem convincente se estendendo até encontrar no horizonte um por do
sol maquiado; a verdade era que já se construíam fornos industriais não muito
longe dos laboratórios de digitalização e logo haveriam caminhões de descarte
carregando amontoados de cadáveres para serem incinerados logo que fossem expirados
os prazos de contrato de conservação e reivindicação concedido às famílias!
No caso da minoria mais abastada, aconselhavam a criogenia
com uma promessa meio verdadeira de que em breve seria provável reverter os
dados ao corpo, e numa possível descontaminação da biosfera, retornar e
recolonizar o espaço o qual lhes cabia por direito!
Haviam também muitas dúvidas e especulações à respeito de o
quanto a realidade do programa seria fiel à nossa, e em que condições e quais
privilégios estariam disponíveis aos convertidos, e isso pouco me interessou
até que comecei a notar aquele mesmo artifício do uso de perfumes fortes quando
minha mãe nos visitava em casa. Minha esposa disse que não, mas eu insisti que
alguns conhecidos se perfumavam e se maquiavam em excesso para disfarçar os
cheiros e crostas das ulcerações de algum daqueles tantos tipos de câncer. Questionei
minha mãe, e ela negou algumas vezes; chorou e me abraçou.Eu estreitei o afago
e ela me escapou um baixo gemido!
Eu disse, ao pé do ouvido que ela havia mentido, e ela se afastou.
Eu ergui um pouco sua blusa e me assustei com a costela à mostra e uma parte
apodrecida do lado.Ela se cobriu, e disse que já era de idade e que não se
intrometeria na minha rotina de casamento.Eu disse que haviam possibilidades,
mas ela retrucou que um médico domiciliar lha informou que este era dos
novos;muito agressivo!Resmungou que, além de tudo, as unidades de oncologia se
encontravam abarrotadas e seu cartão de consultas já havia sido consumido por problemas
respiratórios que a vinham acometendo. Eu pensei em a digitalizar, mas não lhe
disse nada!
Conversei com o amigo de um amigo, e ele afirmou que já
admitiam algumas pessoas para aquela primeira simulação de universo, procurei
algumas informações na rede e encontrei um quiosque bem próximo, e com uma
média de solicitações baixa!
Eles não me garantiram nada, e ainda disseram que no beta
algumas pessoas poderiam ser inseridas com algum bug físico-neural, e em alguns
casos, no salto a pessoa se perdia em algum limbo ou simplesmente deixava de existir.
Achei um tanto dramático, mas decidi arriscar.
A mulherzinha era arisca, das que nem situação ou retórica
comoviam, e eu me irritava muito que parecesse não compreender que suas fobias
por máquinas seriam menos nocivas que o destino que a esperava, e que naquele
processo todo haveria ao menos a garantia de que seu código seria limpo da
doença, seus poucos bens e ordenado mantidos, e logo que fosse possível eu e
minha esposa a acompanharíamos naquela nova vida!
Ela negou, mas como já havia subornado com grande quantia
tomada emprestada tive que me esforçar um pouco mais!Esbravejei, ameacei,
pranteei, mas mesmo tão debilitada se arrepiava e ameaçava urinar nas fraldas
pela possibilidade de se ver implantada de cabos e sifões de transporte digitais.
Se de fato nada era tudo o que se sabia à respeito dos processos, algumas
camaradas também idosas lhe fizeram figura, e asseguraram que conheciam quem
dissera que experimentara e declinara da viagem diante de tanta dor!Um jovem da
vizinhança ou coisa assim, mas, sinceramente não me lembro dele.
Como ultimo e desesperado recurso aumentei-lhe a dose dos
analgésicos, e enquanto experimentava um sono absurdo eu desembolsava mais
alguns tíquetes para comprar ajuda para transportar a recalcitrante!
Um amigo possuía um carro; eu o pedi emprestado e ele disse
que me alugaria por um ou dois dias de ração, mas isso me ofendeu, pois o
veículo antiquíssimo e falto de manutenção; provavelmente se desfaria na
viagem, me deixando à mercê da sorte. Ofereci três latas pequenas de conserva
de legumes e um pão de cevada, todos produtos de muito boa procedência, mas ele
me disse que não se importava com essa coisa de marca, eu adicionei um vidro de
compota de pêssego, e ele me entregou satisfeito a chave.
-Não sabia que ainda existiam pêssegos!-Desatarraxou rápido
a tampa e arrancou com os dedos uma peça lambuzada do doce, metendo-a logo em
seguida naquela boca cariada, enquanto eu protestava sua ajuda com aquele
corpo, que flácido pela inconsciência, parecia pesar o dobro!Ele tateou com as
mãos sujas o tornozelo, mas o transporte nos ficou meio desajeitado, abraçou as
coxas, e próximo às manchas purulentas do ferimento no vestido, não tratadas
naquele dia, foi tropeçando e contendo suas ânsias até o deitar no banco
traseiro do veículo.
No caminho clima abafado, as janelas abertas por conta do
ar-condicionado falido, e a fuligem desprendida das fábricas de reciclagem
precipitava naquela paisagem árida e deformada por montes de entulho, e umas
poucas árvores vestidas de sacolas plásticas e escurecidas pelo fumo de carvão.
Era feriado municipal e haviam muitos coletores, separadores, e fiscais correndo
atrás dos gigantescos caminhões de limpeza. Vez em quando algum deles escondia
alguma coisa na mochila de lona, possivelmente dentro da marmita vazia do dia e
ao fim daquela jornada era certo que procurariam o mercado de usados tentando
encontrar um interessado pelo achado.
Consultei o velho GPS, mas este me mentiu novamente e,
tentando acertar o rumo acabei consumindo o resto de cupons de combustível de
meu amigo, mas este me assegurou que meu guarda-roupas, o qual havia trocado
por uma torradeira, um par de sapatos de couro sintético e uma navalha com cabo
de mogno, compensaria as despesas adicionais, afinal, pra que serviam mesmo os
amigos!
Haviam diversas filas diante pequeno complexo decadente, mas
nenhum indicativo de para que se destinavam. As portas sanfonadas imensas bem
oxidadas estavam cerradas e havia um cheiro muito incômodo de urina fezes
denunciando uma espera longa, alguns ainda arrastavam cobertores estrapeados e
bocejavam seu mau-hálito a mais um dia ingrato!
Perguntei à um e à outro, mas disseram que haviam vindo pela
sopa, ou por passes para o albergue; então notei um golias armado e corri sob a
expectativa de minha mãe despertar à qualquer instante. Eu disse-lhe o nome , o
por que e de como minha mãe havia sofrido alguns contratempos até chegar naquele
lugar, ele arregalou os olhos.Era pra eu esperar uns instantes até que falasse
com umas pessoas, mas me disse que eu dobrasse discretamente umas esquinas
específicas e aguardasse um homem com um crachá laranja me trazer uma maca.
Quinze minutos depois, num corredor de prédios bem longo, em
sua derradeira unidade, se escancarou uma porta dupla donde fluíram dois homens
vestidos de branco com as respectivas identificações estampadas no peito. Não
disseram nada, mas abriram as portas e levantaram habilidosamente toda aquela
carne ,espetáculo bem mais agradável e profissional do que desempenhei com meu
parceiro!Tomaram-lhe o pulso, perguntaram-me que medicamento e dosagens haviam
sido administrados, então um lhe postou ao rosto uma máscara de oxigênio enquanto
o outro anotava aqueles detalhes.
Eles empurravam aquele aparelho muito rápido, e eu me
incomodava em ver os volumes de minha mãe dançando com as violentas e bruscas
curvas. Tentei antecipar qual seria sua reação quando transformada em um ser
binário!
Lembrava-me de uma certa discussão familiar quanto aos
efeitos daquela conversão em nossa condição protestante!A matrona havia se batizado
há algum tempo, e fervorosa, se perguntava se na perspectiva tricotomista em
que fora instruída o espírito ficaria confinado ao corpo, enquanto somente a
mente migraria para aquele outro mundo!Isso, se isso realmente fosse uma
realidade!E se a mente sobrevivesse à matéria?E se aquelas especulações feitas,
de que descartavam o corpo logo após a transição forem verdadeiras?E se a
criatura virtual não fosse, mas se convencesse de que esta era realmente eu?E
se tudo ocorresse desta forma, e eu, escolhendo ser transportada, teria
cometido um suicídio por engano?E se minha alma tivesse sido dividida entre
duas personagens, e enquanto uma descia à cova a outra, por sua vez continuaria
sua existência, como nos seriam creditadas as falhas e acertos...?
Existiram alguns bilhões de outras perguntas feitas só por
aquela mulher, mas pensar nelas, e no resultado do que estava a fazer já
começava a lhe incomodar o estômago; pedi um copo d’água, mas parece que
ninguém me prestava atenção!
Cada passo e ficava mais ansioso!Perguntei quanto demoraria
tudo aquilo, pois temia que meu parceiro se impacientasse e partisse, estando
eu com bolsos quase vazios. Eles responderam que logo tudo estaria acabado;
então dobramos mais quatro corredores e
estacamos diante de uma portinha blindada.
-É aqui!O senhor deve partir agora. Siga as setas amarelas e
não se perderá.- A voz do homem era ríspida, e desagradável!
-Não vou até ver toda a operação!-Respondi tão firme e
convincente quanto me permitiu o medo.
-Daqui pra frente é com o Doutor, além do mais, está área é
restrita, e civis não podem permanecer aqui!
-Eu pagu... -Antes que terminasse a frase já me agarravam
pelo colarinho enquanto um deles procurava alguma coisa nos bolsos.
-Vá embora moleque!Nós estamos avisando, se causar algum
problema vai se arrepender!
-Mas eu pague... -O primeiro soco me pegou de surpresa, rasgou
meu lábio inferior e amoleceu-me uns três dentes.Os seguintes, assim como os
chutes, me fizeram contorcer de dor naquele encerado.
- Você pagou pra fazer com que sua velha tivesse preferência
na fila de espera, e isso é fraude!Suma daqui, e não diga nada à ninguém, ou a
dona aqui pode ter um fim bem desagradável!
-Mas... Mas como eu vou saber que deu certo?-Eu tremia e
suava muito. Estava apavorado!
-Nós temos seu email!Nós te mandamos a chave de acesso, daí
você procura um ponto de conferência “Oficial”, e lá eles te levam pra uma
salinha onde vai poder conversar com tua velha!Agora suma; nós temos muito
trabalho para terminar hoje!
Eu sussurrei um triste obrigado e parti cambaleante procurando
a saída.
Continua...
Anderson Dias Cardoso.
sábado, 22 de março de 2014
Êxodo Digital-Parte 2.
A sirene da escola nos coagia a voltar à sala de aula. Saímos
da carcaça queimada do velho Chevrolet 78, atravessamos a imundice do pátio
enquanto íamos discutindo a respeito de algumas questões engraçadas as quais
vinham sendo apresentadas nos testes e exigidas nos relatórios semanais, que
por sinal deviam ser respondidos também por toda a família, e que envolviam
perguntas bem pessoais!
Mamãe mentia em boa parte deles por achar que isso feria
nosso direito de privacidade, mas se dizia satisfeita com as melhorias
acrescentadas na grade curricular, nessa tentativa de abrangência do aluno em
todos ambientes aos quais faz parte, e a aquela celebrada novidade do
acompanhamento psicossocial de toda criança, ao invés de apenas casos
especiais.
Naquele dia as lições foram bem turbulentas, mesmo para um
curioso garoto de onze anos; sendo que o som das brocas dos instaladores de
câmeras e sensores emocionais forçava à gritaria a orientadora; o pó fino forrando
o soalho, e pedaços de teto desabando sobre minha cabeça me fizeram saltar umas
duas cadeiras e entabular uma conversa com o grupo de simpáticos dispersos da
classe, desistindo assim das explicações sobre a obrigatoriedade dos novos
aparelhos tomográficos em toda a população, e a pandemia de câncer que
acompanhava aquela nova Revolução Industrial!
Abri uma caixinha de leite, ofereci à todos, e, ligando
inconscientemente aqueles fragmentos didáticos da aula com uma observação de
mais de uma vintena de cabeças nuas, (e alguns milhões extras de recentes
tosados no mundo exterior) pela primeira vez notei que estávamos todos morrendo
muito rápido.
Questionei-me se havia adoecido, fazia parte de uma
tentativa de colaboração e solidariedade em esconder a desgraça alheia, ou era
verdade todas aquelas baboseiras à respeito de piolhos. Perguntei a minha mãe,
e ela ficou muito zangada!
Disse que era exatamente por isso que não me poderia me
enviar para uma boa faculdade; pois gastavam grande parte do ordenado de ambos
em alimentos, eletrônicos e qualquer coisa que constasse de um selo de
indicação de que era livre de contaminações bacteriológicas, resíduos
industriais e qualquer tipo de radiação nociva!Não, eu não estava doente, e ela
assegurava isso me lembrando de quantos exames todos nós havíamos feito nesses
últimos anos.
E eu acreditei nela... Ou acho.
Tempos depois e aquela velha novidade de digitalização de
pessoas já começava a se popularizar, e alguns artistas encomendavam sua versão
de mundo, se preparando para alguma eventualidade; além de surgirem, anunciados
nas mídias, propostas de condomínios exclusivos inteiros para pessoas
selecionadas, os quais estariam à disposição por alguns milhares de créditos,
enquanto o governo, com seus problemas de saúde pública aumentando
exponencialmente, procurava estatizar e organizar essa transição caótica e
evitar a falência das transnacionais por conta de tantos processos. Ainda
assim, o Estado Mundial carecia de lisura em se tratando de sua nova
abrangência, já que parecia, aos olhos de todos, que os bens e produção estavam
sendo desviados para algum fim escuso e não declarado!
Disseram que seria necessária a mudança do meio circulante,
e que organizariam cooperativas de trabalho estatais para assimilar essa nova
leva de desempregados, e deslocar para perto dos moradores seus postos de
serviço a fim de diminuir gastos desnecessários com locomoção; o que protegeria
ainda mais nossas reservas de combustíveis fósseis, que parecia minguar a cada
ano!
A vida continuava sua mudança gradual para mim. Acho que
pela plasticidade da juventude tudo se tornava meio normal logo que deixava de
ser interessante nas conversas com os amigos, mas notava que minhas caminhadas
para qualquer parte me cansavam um bocado, e os ossos latejavam por dentro da
pele. Fora, o ambiente ameaçava com um céu se que mantinha fortemente
acinzentados de poluição dias à fio.
Gostava de notar as pessoas vestindo engraçadas máscaras
descartáveis por conta do chumbo das emissões dos automóveis, e que outros
preferiam parodiar a situação com aquelas com filtros enormes, de desenho
apocalíptico!
Outra coisa interessante era que os velórios deixaram de me
incomodar pela perda, mas ainda me angustiavam pelo tédio de não sentir mais
pena, e freqüência com as quais minha família era convidada.
Eram sempre figuras muito parecidas, todas calvas,
esqueléticas, ulceradas, de veias expostas e olhos saltando das órbitas!O
cheiro de flores me enjoava terrivelmente, então eu procurava fora as figuras
mais animadas da vigília para escutar alguma anedota, ou corria atrás de algum
petisco confiável, já que minha mãe não me deixava comer as mesmas porcarias
próprias dos adolescentes, antes, continuava a burlar as entregas de ração e
nos comprava comida saudável, por preços ainda mais exorbitantes!
Aos quinze a morte me deixou de ser coisa banal novamente; e
eu me vi ali, comovido com as mesmas características impressas no corpo e face
de meu pai, as quais costumava a debochar, e abraçava sentido a namoradinha
também chorosa, só a abandonando-a quando insisti em segurar uma das alças do
leve caixão, que agora era um padrão cedido pelas prefeituras para evitar
aquelas conversas sentimentais de donos de funerárias, e assim transformar a
morte num processo mais impessoal, ao tempo que fingiam compartilhar da dor e
tomavam uma pequena parcela da responsabilidade sobre si, mantendo numa boa
perspectiva quanto à opinião pública!Funcionava bem com os outros!Mas eu
continuava amargurado e descia a ruazinha do cemitério tropeçando nas pedras
soltas do pavimento e me lembrando que escavavam em algum lugar da América do
Sul um berço para um Éden virtual baseado naqueles modelos prévios de doentes,
prisioneiros, artistas e milionários!
A contaminação do solo, da águas, e ar vitimava agora mais
pessoas do que o Governo gostaria, e ainda haviam menos faixas cultiváveis do
que as necessárias, sendo assim sensato solucionar de alguma forma aquele
morticínio!
Disseram que haveria uma resposta, e lugar para todos!
A TV dizia que aquela construção subterrânea fora executada
em uma zona de baixo impacto sísmico, encapsulada por um leito rochoso, que foi
convertido em uma abóbada reforçada por paredes impermeabilizantes,
bloqueadores elétricos e geradores de vácuo. Sua localização era desconhecida,
sendo alcançada por alguns túneis de manutenção com acessos restritos a membros
das Organizações Mundiais, e seus técnicos, e tudo isso levava àquele bloco de
oito quilômetros quadrados de tecnologia neuromórfica, com componentes de
altíssima duração e seus ambientes inteligentes e adaptáveis, alimentados por
bilhares de tentáculos de captação e conversão de hidrogênio.
Continua...
Anderson Dias Cardoso.
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