domingo, 30 de setembro de 2012

Papo De Cobra.


Indagou à serpente que jazia à beira do caminho se queria ser couro para recobrir suas botas; mas ela respondeu que esperasse sua muda, ou, aguardasse sua morte.
Voltou-se com outra questão, e ela disse que não perdesse tempo com sintéticos, pois a qualidade do requisitado valeria a expectativa.
Ele  retrucou que lhe aguardava festas, era necessário pressa; e aquelas desejadas escamas brilhavam o provável sucesso da impressão desejada, da força de caráter e aura de autoridade deduzida dos que vestiam bem.
A potência do argumento pareceu até lisonjear a serpente e, em sua comoção, pediu prazo para rastejar em busca de uma melhor proposta!
Quando voltou, trouxe uma vistosa irmã, à qual percebeu que lha  entregava para abate.
Esmagou-lhe  a cabeça chata às pauladas, enquanto esta ainda o imaginava um lanche.
Esfolou  confessadamente desconfiado a parceira de espécie da criatura atenta; a, mesma que lhe demonstrara solidariedade, se apossou do tegumento vistoso, e largou a carcaça despida para o consumo de sua igual!
Não houve qualquer escrúpulo na boca que tragava a morta; o estomago deixaria de reclamar substância, e haveria menor concorrência nas próximas caçadas.
E ele se foi, levando a pesada vaidade nos braços;
Ela permaneceu; ventre inchado de satisfação...
Ambos sentiam-se felizes.

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

O Homem Invisível...


Não preparara a fórmula da invisibilidade por vaidade, ou por vontade de domínio; mas, por uma incapacidade social e tédio existencial.
Despediu-se da família antes do primeiro gole, e prometeu que do remoto mandaria lembranças, ainda que fossem de mão única!
Quando partiu deixou saturado de afeto aqueles corações que jamais entenderiam que partisse, enamorado da solidão.
E ele se afastou para despir do conforto da roupa enquanto a opacidade do corpo se esmaecia até se tornar grama, carvalho e lua.
Quando, depois de instantes, houve o retorno às ruas de asfalto e o reino das construções de concreto, não se deixou decair de sua dignidade e ética:
Comia das sobras descentes dos restaurantes, banhava-se na gratuidade das águas dos chafarizes, e dormia um sono leve sob qualquer abrigo arbóreo; sendo lhe bastante existir só para si...

Anderson Dias Cardoso.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Pareidolia.


As nuvens às vezes sorriem, enquanto alguns desvendam formas e faces nas ranhuras das árvores.
Cada contorno um significado, uma mística preditiva ou um manifestar, como se o próprio Deus realizasse suas epifanias em fatias de pão!
Das miríades de criaturas existentes acrescentem-se outros dobros para tantas coincidências semelhantes aos corpos, umas tantas substâncias e suas características de aparente vida ou qualquer criação humana.
E o que se dizer dessa teima estúpida de achar coisa aquilo que coisa não é!
E se a mente em sua inocência brinca de encontrar significado, alguns enlouquecem por mistificar o jogo...
E, ironicamente, o mundo tem matéria prima de sobra para a proliferação de malucos.


Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Sincero Consigo...


À despeito desta minha indiferença, que sem perceber feriu tantos, intencionalmente deixou morrer alguns, e me fez olhar distanciado tanta dor que me rodeia...
À despeito desta minha má vontade, minha amargura, minha ironia...
À despeito desta minha preguiça ocasional, meus desprezos por convenções e minha falta de humildade...
À despeito destas minhas criticas, das quais sempre classifico de sinceras, oportunas e construtivas, mas que me servem como palco demonstrativo de minhas inteligências...
À despeito destas minhas mentiras, minhas meias verdade e meu silêncio omissivo...
À despeito desta minha santidade farisaica, esse amor fingido, esse “quase se importar” sou alma que tenta ser gente; sou esperança da remissão de minhas maldades!
Sou verme entristecido pela inerência de minhas maldades; que enxerga outros iguais; que não se enxergam a si mesmos...


Anderson Dias Cardoso.

domingo, 16 de setembro de 2012

A Humildade Dos Seres Pequenos...


Acordou enxergando em negativos todos os espaços e medidas; e, do núcleo atômico à seus elétrons se perdeu na imensidão de vazios de uma pequena molécula!
Do mínimo passou à vastidão do vácuo de toda substância; os infinitos que se atraiam na coesão dos corpos; da porosidade da pele ao pequeno estorvo pontilhado de astros viajando na negrura da expansão, em uma estranha harmonia sem toque.
E notou novas dimensões de solidão; em corpos abandonados além de qualquer contato; de uma aglomeração de nada entre os tangos cosméticos.
Tudo era vastidão solidária, e é atração intuitiva, se não; divina!
É o habitat das insignificâncias... É a junção harmônica de todas as potências!
E ele se notou ponto perdido em tais grandezas; assim como o planeta em que habita, o Sol que o aquece e os caminhos das composições estelares desta tão modesta Via Láctea!         


Anderson Dias Cardoso.
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