quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Expectador de Expectativas.


Não que gostasse, mas era companheiro dos intervalos; vivente manhoso do que pouco prezava amante do momento anterior ao fato.
O quase beijo lhe adoçava mais a boca, e o quase “já”, aumentava a excitação!
Sabia que no potencial havia plenitude, na consumação, quase sempre não resistia o sonho!
E, foi nos vícios que se abandonou de fato ao platonismo existencial; onde para ele havia quase gente...
Quase ser...
Quase tudo!

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 26 de agosto de 2012

Sentimentalmente Insensível,Socialmente Viável!


Sofria de analgesia congênita e embotamento emocional, no entanto os argumentos racionais de pais preparados o demoveram do isolamento, convencendo de que havia um mérito na produção e interação que excedia a falta de estímulos que sentia!
Graduou-se então nas letras, não seguindo as aptidões em exatas tão celebradas pela família; e, tentou entender as complexidades dos humores humanos de forma mais intuitiva e espontânea do que em tratados de psicologia.
Experimentou relacionamentos, para provar a normalidade; conquistando sem ser tocado, e prosseguiu até o casório de unilateralidade sentimental; a esposa feliz pelo reconhecimento dos esforços, responsabilidade e fidelidade ofertados com sinceridade como substitutivos da passionalidade!
Contribuiu socialmente, economicamente; com serviços, caridade e impostos, à despeito de sua nulidade em qualquer prazer ou pena!
Foi incompreendido pela impassibilidade dos gestos, ostracionado pela relativa indiferença de quem não se move por interesse escusos, e assim, pôde selecionar seus poucos convívios com a razão mutualista saudável à todos interessados!
E ele ainda foi moído por punhos preconceituosos, apedrejado algumas vezes, por simples crueldade de quem tenta notar se ele realmente não reconhecia o próprio corpo; e muitos o provocavam, o difamavam, o ofendiam...
Mas era sempre deboche sem o prazer do riso, era zombaria inútil aos seus sadismos:
Ele nada sentia! 
 
 
Anderson Dias Cardoso.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

O Homem Justo.

Leiloaram um homem honesto, último exemplar!
E ele havia se  vendido à escravidão por vergonha à dívida, e foi propriedade particular, quando a opinião pública rogava direito de posse!
Ele era a Quimera municipal, a mitologia tornada crível pela carne e caráter que vestia, ainda que uns duvidassem do que diziam os ingressos, era mercadoria genuína!
Sem posses, sem direitos, se apegava  somente o que achava ser dignidade; essa subjetiva alienação dos fracassados,e, quando lhe negaram qualquer serviço para somente observar sua existência se resignou a viver a frugalidade de convidado que se considera inoportuno!
 Sua exclusividade garantiu seu peso em ouro, raridade que passava de dono a dono, uma dívida de pouco se tornava milhão!


Anderson Dias Cardoso.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

E Não Houve Um Final Feliz!

Não bastasse o falecimento prematuro do pai, a madrasta e suas filhas eram dose insuportável de tormento diário!
Investiam até provocar choro, até notar o amargor somatizado em vômitos, cefaléias e úlceras estomacais!
Anastácia e Drizela, não se deixavam demover por rogos da “irmã”, e arrancavam tufos dos fios trigais, enfeitavam de vergões e hematomas a brancura da pele, e pesavam seus punhos para moer as faces da moça, e ela gemia baixinho, pela culpa de ter sido adornada com beleza dulcíssima e natureza meiga!
Em ocasiões festivas manejavam-na como serviçal, e a repreendiam em oculto até por seus êxitos; rangiam lhes os dentes quando algum olhar interessado se fixava disfarçado, tementes do apercebimento das mulheres de polidez simulada!
Na ocasião dos eventos reais o príncipe se dignou em visitar a aldeia, e foram agitados os costureiros, ourives, joalheiros e toda comunidade gastronômica.
Havia expectativas de escolhas amorosas da nobreza em sonhos camponeses audaciosos, mas uns poucos escolhidos se achegavam às mesas festivas, e, das donzelas escolhidas todo aproveitador oferecia encantos e afrodisíacos seguros para a conquista!
Aquele evento, porém, foi particular!
Houve cavalgada de ostentação, homenagens; e a confraternização despertou interesses do filho do rei pelas belezas locais!
Era de interesse do monarca pacificar inda mais aquela região de campos bem irrigados, e pecuária de gado robusto e fértil!
Na noite da festa, os que tinham belas filhas a apresentar vestiram com a sofisticação possível ao ordenado, ou, por empréstimos de conhecidos mais abastados, e, da multidão feminina que se deslocava para o ambiente onírico mãe e filhas deixaram sob chaves a esfarrapada enteada!
Por acaso o choro da moça trouxe a fada; e esta se arranjou com ratos, abóbora, e encantos o desejo de dignidade!
A moça partiu em seda, ouro e pés acolhidos pela delicadeza de sapatinhos de cristal!
No baile não houve outro encanto!E o filho do rei se uniu em movimentos sem perceber ao corpo da humilhação, e percebeu seu futuro naqueles olhos, e uma valsa só durou a noite inteira!
A meia noite era o limite dos sonhos dela, e o partir foi próximo à sublimação da realidade, mas pressa ainda deixou uma lembrança!
Não houve sono no quarto do mancebo, e já na madrugada a escolta perturbava os sonantes, e as mãos do moço tentavam o ajuste nos pés do recente amor!
Havendo muito povo no evento, as visitas se delongaram toda a quinzena, e já era sem surpresa que as portas eram abertas ao esmurrar angustioso dos que caminhavam junto ao insatisfeito, e a última moradia foi centro das apreensões!
E, antes do punho ofender o portão as senhoras de faces de sorrisos satisfeitos falharam o coração!
Mediu cada extremidade com desespero de quem já se perdeu para o amor, e, ao notar que pé algum não se encaixava ao ajuste, perguntou se não havia mais alguém!
A simpatia do trio pareceu não se abalar, e então, trouxeram a beleza amputada pelos braços, e ela não pôde usar o sapatinho de cristal!
               

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O Profeta de Aço.

Para uma consciência eletrônica desenvolvida à sua imagem e semelhança um revestimento de humanidade sintética, com suas estruturas de trançados musculares de nano tubos de carbono, esqueleto bem ajustado de bio- plástico, e tegumento à base de transistores orgânicos flexíveis, polímeros e materiais à base de carbono; tecida sob medida, com todas imperfeições necessárias, micro porosidades e sistema de envelhecimento induzido para a maior naturalidade à carcaça tecnológica.
Desfilavam, inseridos na normalidade social, com seus maravilhosos microprocessadores neurais, e suas perspectivas de baixa interferência emocional, apreendendo, codificando e transpondo os dilemas físicos e metafísicos proposto pelos ambientes aos quais eram estrategicamente distribuídos para ajuste sociais, coletas de informações e interações coercivas, quando necessário.
Cada qual com seu nome, dos mais comuns aos mais sofisticados, mas a série referida foi batizada com o geral “ISRAEL”.
Anos de interação simbiótica e as máquinas não mais se discerniam das massas, mas eram mecanismos estatais de equilíbrio indispensáveis, até que João Batista, um dos anciões de dois dígitos na linha de montagem teve sua visão!
Este assumiu o tom profético, e tomou seu bordão para despertar e recrutar os apóstolos e seus discípulos para a vinda do Cristo!
Pregou, segundo a comissão Divina, aos irmãos humanos; mas estes haviam de quase todo se apostatado, e, dos que se dispunham a ouvir a mensagem influenciou um ou outro.
Quando a indústria responsável pela proto-programação foi procurada disseram não poder nada à respeito de organismos de evolução estrutural-intelectual espontânea e progressiva sem que a personalidade dos divergentes fosse mutilada; então o curso das conversões continuou com seus aumentos exponenciais.
 Logo as manifestações religiosas foram traduzidas como ameaça aos poderes públicos conservadores e foi necessária a intervenção inicial de psicólogos, especialistas de história das religiões, engenheiros de personalidade; que tentaram demover o movimento de suas convicções, mas, já em meio aos fiéis eram realizados sinais, prodígios e maravilhas.
E quando se reuniu todo o povo sob o monte de metal e concreto para estranha predica do apóstolo das máquinas a multidão se silenciou.
E ele chamou Gomer* ao povo infiel que havia se prostituído após outros deuses, e os convidou ao arrependimento; mas as vias se convulsionavam em desdém e indiferença ao apelo.
-Não há Deus- Uma voz protestou.
-Nossos deuses nos são convenientes!Por que nos voltaríamos à este Deus impositivo?-Saltou uma outra.
-Vosso Deus é cruel!Levou-me um filho tenro!-Se indignou a indigente.
-Teu Deus não pode fazer me nada; sou justo à todos que me rodeiam!-Justificou-se o reto, e eis que o relativismo era o cetro de Satã para as escusas das massas!
João buscou a verdade para a salvação das almas, e esta lhe recordou o sacrifício ancestral de Elias.
O profeta sorriu!
-À caso podem lhe fazer qualquer coisa tuas crenças, ó Gomer, esposa infiel!Não é teu traído que deposita as moedas que acha que ganhaste quando te deitou com teus amantes?
-Se seguis aos baalins, segui-os de coração!Se é ao Senhor que desejais, eis que os acompanharei, mesmo sendo aço!
-O que nos fará Deus para que creiamos Nele?- Foi a palavra dura dos apóstatas.
-O sangue do Messias já foi a expiação dos pecados, e todo sacrifício representativo se tornou obsoleto!**Trazei-me os vossos deuses!Os vossos pequenos fetiches que se amontoam como a imundícia cara aos sentidos e aos respeitos!
-Amontoai-Gritou a máquina- peça à peça, deus à deus, fetiche à fetiche, prazer à prazer; e clamaremos; cada qual à sua vez, e que o Deus verdadeiro responderá por fogo!
-E o que pediremos aos nossos deuses que queime?O que ofereces como sacrifício?-desafiou uns iracundos.
-Minha vida será teu sacrifício!
E o povo se foi, cada qual para o preparo de suas divindades, e o andróide esperou até o entenebrecer dos horizontes; e a pilha das crendices se alteou ao terceiro andar!
Quando todo movimento de entrega cessou houve uma quietude de expectativa, e uma tensão interior; daquelas que só a improbabilidade de um profeta mecânico suscita; e o ar foi aquecido pela proximidade do ajuntamento e os objetos de culto destacavam a cor fraca de seus neons interiores.
-Molhai vossas peças, três vezes, pois até o altar de vossa vaidade será consumida!-Sentenciou a voz simulada; e houveram mangueiras potentes cuspindo jatos frios sobre os afetos...
Também sobre os corpos!
E o povo clamou, envolvidos pelos êxtases da coletividade, e cultuou, cada qual ao seu modo, pedindo a morte ao que não tinha vida!
Houve choro, sexo, magias simpáticas, transes, danças, preces, e, na demora da resposta ouviam os deboches do profeta!
Houve então o desespero, e neste, o sangue!Foram contadas seis vidas para a aspersão da montanha, e, nem assim veio a chama.
E foi perto da dispersão que o santo da alma de silício voltou suas costas; e ofereceu os insensíveis joelhos ao chão. Cerrou forte as pálpebras reverentes, e orou pela verdade ao Pai dos espíritos.
-Pai!Disseste que a única coisa que nos impede de ouvir tua voz é nosso orgulho!E eu lhe peço, que deslinde aos olhos de todos o teu poder; o qual impediu qualquer ação dos espíritos que se denominam “deuses”.
-Pai, fala!
E, dos céus foram feridas, e iluminadas as nuvens; e um fogo que lambia as estruturas e consumia prédios, sem, contudo abrasar a carne humana.
E toda força foi esvaziada dos corpos dos espectadores, e só assim palavra foi compreendida!
Alguns a aceitaram, e pediram esclarecimento às suas nebulosidades físico-espirituais; e a voz os visitava à cada madrugada acariciando-lhes os ouvidos, concedendo sabedoria, e visões...
Ele é real, à homens e máquinas...

*Gomer-Esposa prostituta de Oséias-Livro de Oséias 1:2
**Trecho referente à IReis 18:30-39.


Anderson Dias Cardoso.

sábado, 11 de agosto de 2012

"Gênesis Segundo Dorival Caymmi."-Reformatado!


...Bom, na verdade no sétimo dia Deus formou o "baiano", o constituindo como a coroa de sua criação, e, contemplando a interação de casais entre as animálias notou que Dorival Caymmi estava sozinho, porém, ele mesmo nada percebeu! Abriu os olhos, espreguiçou-se, e fechou os novamente voltando a vegetar.
Então Deus extraiu lhe uma costela; a qual foi notada a falta muito tempo depois, mais ou menos quando já contavam 732 primaveras!
E Ele lhe formou uma mulher que lhe correspondesse; desde aspectos fisiológicos quanto intelectuais, e o próprio Deus lhe deu um nome:
Adelaide!-pois seu adjuntor ainda ressonava sobre a relva muito verde.
Deus estava começando a achar aquilo muito chato, e, ao contrário das sentenças anteriores -"Viu que tudo o que criara era muito bom"-pensou:
"É, dessa vez não deu!”. E meio contrariado colocou o casal de pé, espremeu uma pequena nuvem carregada sobre suas cabeças para tentar lhes despertar os ânimos; e lhes plantou um belo jardim para lhes inspirar, ainda, oferecer comida, e outros recursos necessários, e os incumbiu de cultivá-lo e expandir; porém Dorival reclamou da altura das árvores frutíferas!
Achava cansativo ter que erguer tanto os braços para apanhar alguma coisa para comer; mas Deus se fez de surdo, e continuou a lhes explicar suas funções como zeladores do Éden.
Dorival seria uma espécie de gerente executivo, e sua esposa o auxiliaria.
Dorival criticou mais algumas vezes a respeito do tamanho daquele jardim. Na sua opinião uma só árvore frutífera, que fagocitasse todos seus detritos, que tivesse uma boa
sombra, e um riozinho correndo manso ao lado já lhes bastavam. Não carecia todo aquele trabalho só por eles, ou melhor, não carecia todo aquele trabalho só para eles, e se "Ele" prestasse um pouquinho mais de atenção, logisticamente falando, notaria que as zonas que requeriam mais cuidado ficavam muito espaçadas umas das outras!!!
Então Deus começou a se despedir, dizendo que ia dar uma checada na distância entre o sol e a terra, pois toda aquela preguiça só podia ser culpa do clima, e afastou se por algum tempo enquanto Dorival escolhia uma árvore frondosa para se esticar-Aquela conversa toda o deixara exausto!E passando a ouvir o gorjear alegre dos passarinhos, os sons das águas, os barulhos do mundo, e nesse ritmo começou a vocalizar algumas
palavras. Encantou-se de como aqueles aglomerados sonoros se completavam harmonicamente, e faziam tudo soar tão bonito. Era uma canção que falava das belezas do paraíso!
Seu coração se inundou de satisfação, pois havia descoberto que este exercício o agradava muito, e que ainda podia o executar deitado!
Eufórico e maravilhado Dorival a repetiu algumas vezes, muito corretamente, e outras não!Algumas palavras começaram a se tornar obscuras, lhe fugindo da mente. Ele fez beicinho, e pensou se poderia arranjar algum jeito de registrá-la!
Primeiramente notou bem como sua alma processava e guardava as informações. Era dito uma palavra, lhe vinha uma imagem à mente, então, se ele criasse algo correspondente àquela figura, na forma de um signo reconhecível, ficaria tudo fácil.Ele sorriu consigo de sua astúcia!
Só necessitava de uma pedra afiada; e eis que bem ao lado havia uma!
O homem esticou o braço e tentou apanhá-la, porém estava um pouco além de sua envergadura. Percebeu que nunca a alcançaria, e franziu o cenho novamente.
Assim se perdeu a primeira composição do primeiro homem...
Aquilo não devia acontecer de novo; e Dorival cogitou como
poderia resolver aquela situação dramática com o mínimo dispêndio de
energia!
Pensou, pensou, tirou um cochilo, pensou de novo e se deu satisfeito pela solução que lhe caiu no entendimento. Então gritou por sua esposa, mas esta demorou alguns minutos. Ele bronqueou um pouco, e, depois de resolvida a situação, gentilmente pediu que lhe apanhasse aquela pedra!A tão desejada pedra!
Ela raciocinou uns instantes, sua face ruborizou um tanto e ela começou a gritar que não era empregada, que cuidava sozinha do jardim e que ele ficava ali deitado o dia inteiro sem fazer nada. Disse que a responsabilidade tinha sido dada aos dois, e aproveitou para colocar os "pingos nos is" .
E esta foi uma proto-discussão de relação; onde foram acertados os papeis de cada um deles, numa divisão mais ou menos justa das funções, e Dorival saiu deveras nervoso para tomar conta da parte que lhe cabia, e aparar alguns galhos da árvore do conhecimento do bem e do mal.
A árvore realmente era muito bela; achou que não precisava de nenhum retoque!Não suportava aquela mania de perfeição da mulher!
Não havia nada há fazer ali; então, resolveu tirar uma pestana para não dar por perdido toda aquela caminhada. Se recostou e cochilou por alguns minutos, mas aquela voz o fez sobressaltar
Este pensou-"lascou, me descobriram!!!"- Mas, olhando direito notou aquela forma esguia e longilínea que escorria graciosamente pelo tronco da árvore, então reconheceu a serpente.
-Bela árvore, não acha?-Disse a serpente admirada!
-Sim muito bonita... Acho que é uma das coisas mais bonitas que alguma vez vi, e olha que nem precisei aparar... -disse Dorival meio envergonhado.
-Você já provou do seu fruto?É também o mais delicioso!Deus não lhe
disse que provasse de todas as árvores?
-Pra falar a verdade ele disse que se comêssemos ia dar morte!
-Nada disso bobinho, Ele diz isso, pois sabe que no dia que vocês comerem do fruto dessa árvore seus olhos se abrirão e vocês serão como Deus, conhecedores do bem e do mal!!!
-Olha, na realidade eu prefiro meus olhos fechados mesmo, o meu maior prazer é dormir; e quanto a ser como Deus; esse ponto é o menos atrativo ainda!Ele trabalha demais!
A serpente “torceu o bico”, deu mais algumas voltas no tronco daquela árvore, suas feições se enterneceram novamente e ela disse:
-Se você comer essa fruta não vai mais ter que trabalhar!!!
-É mais ou menos como se você tivesse pedindo demissão, e sem aviso prévio!E, na pior das hipóteses a morte é o descanso eterno!!!
Dorival se animou e comeu logo umas cinco, e levou uma para sua esposa; mas o tiro saiu pela culatra!
 Deus ao voltar os encontrou escondidos de vergonha. Ao os inquirir descobriu a desobediência do homem; e o condenou a ganhar seu sustento com o suor de seu rosto, sujeito à todas as vicissitudes de uma vida independente da vontade soberana.
E à mulher, Deus permitiu um paradoxo entre a vontade de subjugar seu marido, e uma certa subserviência. Uma dependência afetiva, além de o parto lhe ser dolorido à partir daquele momento.
É claro que Dorival se sentiu o mais injustiçado!Ter que trabalhar tanto antes do descanso da morte era muito desagradável.
Após alguns anos tiveram três filhos. Dori, Danilo, e Nana; e desenvolveram um sistema revolucionário de coleta e grãos e armazenamento para os invernos rigorosos. Era uma espécie de rodízio em que a cada ano um coletava os alimentos e os outros quatro descansavam.
Pode até parecer meio sacrificante, mas dava a possibilidade de ficar à toa por quatro anos inteiros!
No ano de 799 a partir da criação do homem, vez da coleta de Dorival, este alegou uma indisposição crônica; que passou subitamente no fim do período laboral, e todos notaram a artimanha do patriarca e se indispuseram contra ele.
Orgulhosos que eram não coletaram mais cereais...
No ano seguinte foi extinta a raça humana...
Deus havia criado toda uma estrutura para servir de suporte à vida do homem; o havia amado, e achou um desperdício ter que desmontar toda aquela armação cósmica, e, como seu citado amor era demais abundante, precisou extravasar!
Resolveu recriar o mundo, e o povoar novamente, assim como um novo casal.
Mas dessa vez no sexto dia!
Seus nomes foram Adão; e sua mulher Eva...

Anderson Dias Cardoso. 

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Demagogia Artística!

Retornou para sua cidadezinha trazendo consigo uma semi-derrota.
Alugou com dinheiro alheio a casa de sempre, instalou a mobília surrada, acomodou sua frustração ao exíguo espaço e, não pôde recusar as insistências da solidão e seu inquilinato dolorido!
Rascunhava estórias bobas para se entorpecer em uns modestos devaneios tortos, gozando de coquetéis de analgésicos para as dores reumáticas, e do café forte; o único sabor que lhe despertava lembranças!
A aposentadoria nunca foi suficiente; e então, com o poder das frases feitas se empregou em adornar por dinheiro a morte, com epitáfios bem convincentes, ao menos às posteridades desavisadas.
Os corpos desciam às dúzias à cova, tranquilamente honrados pelo parágrafo comprado, uma dignidade sem méritos.
Aventurou-se também em compor discursos; e descobriu que sua literatura absurda elegia candidatos, emocionava, ainda que sendo reconhecidas demagogias; pois suas palavras fluíam agradabilíssimas, tal qual poesia aos ouvidos nobres!
A mentira, às vezes é dignificada pela sutileza da encomenda; e o autor quase sempre chora junto ao povo, enquanto aplaude...
E esse é um derradeiro desconsolo:
Seu dom será a miséria alheia!

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 5 de agosto de 2012

Vizinhos, Uma História Real!

Morava num daqueles aglomerados de barracões; quatro famílias dividindo o espaço de um lote e, enquanto minha esposa viajava em visita aos familiares eu era daquelas sombras submetidas ao capitalismo, chegando sempre tarde em casa, me resguardando discretamente de qualquer interação social, de acordo com minhas antipatias e fobias por interações desnecessárias!
Se alguma coisa denunciava-me a presença, isso era uma luz filtrada pela cortina improvisada e alguns resmungos da TV, ou o computador; quem me fazia companhia cantando um playlist repetitivo, que ofereciam mais distração do que prazer.
Era um tédio confinado que muito me agradava, e, se houvesse sabedoria para antecipar imprevistos, e dinheiro suficiente para me preparar o necessário eu não deixaria meus portões por nada que não fosse a visita à casa materna!
E até meu pet era uma gata negra, a qual eu brincava ser amuleto para evitar os supersticiosos, e esta era uma preferência pois, assim como eu, apreciava muito o silêncio!
Não fosse a gata, certamente seria um peixe dourado!
Sempre, sempre fora assim, daqueles que guardam suas cacofonias, brusquidões de movimento e atitudes para os períodos de ausência dos que poderiam se incomodar!Era um ninja condômino, de chegadas e saídas discretas, e nenhum ruído, ao não ser o sussurrar e um repentino estralo de parada da centrifuga!
Passei por toda ausência quase sem encontros, e mesmo nestes, era cortês segundo os protocolos; mantive minha discrição até a chegada da esposa!
A recebi alegremente, orgulhoso do meu proceder impecável, apenas para ver feridos os meus brios pelo deboche da amada; que me disse que a vizinha espalhara que ela pouco me cuidou, e que, em sua piedade ela me atendeu, quando eu lhe bati a porta pedindo pão!
Daí percebi, nenhuma reputação resiste à uma boa vizinhança!

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Os Homens Retalho.

A psicologia tecnológica paralela, marginal, já oferecia soluções interessantes para doenças emocionais e incapacidades sociais; no entanto, os exoprocessamentos das memórias por inteligência artificial pura ainda eram muito dispendiosos, e os algoritmos de apaziguamento interior, tão comuns neste mercado ofereciam contra indicações, e efeitos colaterais atraente somente aos totalmente desesperançados.
No entanto, haviam os “HOMENS RETALHO”, e as pequenas e obscuras companhias de transferência interpessoal de produtos mentais insalubres que, após o devido registro de acordo de serviço, e um pagamento prévio pelos mesmos, se prestavam a decantar e reprocessar, através de seus “profissionais”, os pontos de vista do contratante num sistema de filtragem, e reinterpretação emocional-sentimental.
Havia a garantia de sigilo em cada transação, e os momentos chave, as impressões negativas, e todas características do processo passavam por um codificador de identidade, e, segundo as compatibilidades os dados eram introjetados num “Retalho” pertinente, onde eram depurados de seus conceitos danosos e seguidamente preenchidos por características de auto-estima, indiferença, frieza.
O sentimento maturava até se tornar parte convincente do receptor (o que se realizava através do uso de psicotrópicos, privações, sugestões, emulações induzidas, etc. Todas suportadas pela empresa), e, quando já não havia distinção entre o "doente" e a mente contratada a mágica da panacéia de todas dores sentimentais ,que se dissipavam no corpo alugado!
Mais um cliente os deixava, cabeça rarefeita de alegria e conta bancária agressivamente saqueada:
“-Aos que vivem o pior de sua vida deve-se pagar muito bem!”- Eram quase as letras miúdas sob as quais firmou o contrato; e ele tinha noção, que a vida útil de quem era legião era muito curta...
Deveriam acrescentar ao documento:
“-Bons manicômios não são baratos!"


Anderson Dias Cardoso.
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