quinta-feira, 21 de março de 2013

Aquele Que Imitava.



Diziam que era ótimo imitador; uns, que era o melhor.
Sua habilidade não se restringia às vozes, mas reproduzia todo ruído que lhe chegava aos ouvidos.
E era daquelas pessoas expansivas que, sem pudor, exibia seu talento orgulhosamente, brincando com a sonoridade dos fragmentos disponíveis em seu espaço e memória, divertindo amigos e passantes; mas recentemente andava meio contido...
Diziam que estava se religiogizando.
Carregava seu livro onde quer que ia, e muitas vezes a boca se furtava de se recrear; mimetizando em estéreo as propagações dessa vida, preferindo recitar uma quase silenciosa prece!
E ele orou, jejuou e se santificou até que pôde ouvir a voz de Deus!
Então se comoveu com a gravidade e potência do logos e seu som de muitas águas, mas logo que o deslumbramento lhe fugiu da consciência se riu, e se riu daquele poder e manifestação; foi quando os lábios se abriram para o copiar:
“-QUE HAJA A LUZ!”
E houve!Com todo o brilho violento de miríades de sóis, e foi consumindo com sua alvura seu corpo, planeta, e toda a antiga criação!



Anderson Dias Cardoso.

sábado, 16 de março de 2013

O Pai De Teu Pai...


Doutorou-se em engenharia genética, mas ocupava se de negócios escusos como meio de enriquecimento certo.
Havia também um casamento de fachada, e um trabalho de coleta de informações pertinentes à sua infância e convívio com seu genitor.
Essa era sua verdadeira obsessão!
Com os avanços tecnológicos já era possível uma boa reconstrução de sua história e reminiscências, mas ele aguardava o falecimento do pai.
Cuidou-o, zelosamente até o último suspiro, então se utilizou de seus conhecimentos e sua esposa de aluguel para gerar um novo pai!
Nascida, a criança recebeu todos os estímulos e impressões da vida de sua figura original, e foi pedagogicamente e, até subliminarmente, adestrado para se fazer cópia perfeita, e aí ia sendo abusado e insultado em todos seus ambientes psicoemocionais!
E o homem se comprazia em todo espancamento, desdém, e vilipêndio; e de tal prazer tomou a idéia de replicar cada desafeto para vindicar; assim como agora fazia com a diminuta figura paterna, à todas as ofensas de seus inimigos!
Furtou material biológico de algumas inimizades, e logo a casa ia se enchendo de crianças sem qualquer paridade com sua genealogia; mas ele não se aborrecia com os comentários da vizinhança quanto a diversidade da prole e as possíveis traições de sua esposa, antes, seguia feliz seu hobbie de algoz de incapazes!
Mas logo as crianças cresceriam, e, caso os traumas lhes trouxessem a covardia, ou o medo do deserde impedisse a vingança, clonariam eles o seu próprio pai, e um outro simulacro inocente haveria de pagar pelo que haviam sofrido!




Anderson Dias Cardoso.

domingo, 10 de março de 2013

A Dimensão Da Culpa.


É certo que errara comigo, mas, diante da insignificância da falha o perdão foi coisa fácil; e ainda assim o garoto sempre permanecia em minha órbita, com seus discursos suplicantes sem, contudo alguma apologia!
Logo já não me olhava sem se enrubescer, ou me falava sem presente, e eu me ri do seu embaraço por tão pouco, até que o remorso foi o corrosivo da amizade, e ele se afastou...
Afastou...
Afastou...
Levando consigo uma dor da qual já o havia libertado, e a potencializando com toda culpa disponível até que a hipertensão emocional furtou-lhe o fôlego!
Não era pra tanto, mas, quando morreu pela ofensa tão medíocre me peguei pensando se talvez ele tivesse ciência da gravidade do ato, e eu não...



Anderson Dias Cardoso.

domingo, 3 de março de 2013

A Fragilidade Do Silêncio.

Encontraram-se, ocasionalmente, quando foram atraídos pela paisagem crepuscular que só aquele lugar proporcionava.
Compartilharam o mesmo banco, mas nenhuma palavra.
 E assim transcorreram vários momentos de contemplação e êxtase, imersos no silêncio possível àquela distância do centro metropolitano.
Quando se levantaram o único contato de despedida foi o olhar, e, ainda assim resolveram-se secretamente, pelo prazer da quietude e respeito de um ao outro, que visitariam novamente aquele particular pôr do sol sendo passíveis de outro encontro!
Retornaram semana seguinte, e noutras tantas que isso se configurou costume e hábito por uns 35 anos ininterruptos!
Num dia, em que o céu havia mesclado as tonalidades rosáceas aos azuis violetas e brancos, e as composições densas de cúmulos, a suavidade esparsa dos cirros tornara em maravilha o que os olhos podiam se deleitar, o primeiro se admirou e comentou de seu deslumbre com o segundo quebrando o protocolo!
Houve tão grande discussão que o espetáculo e ambiente perderam seu significado!
Nunca mais se visitaram; nunca mais se viram depois que se falaram!


Anderson Dias Cardoso.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Desculpem, Não Sei Me Dar Com Minha Misantropia!


Gosto de conversas interiores, se bem que meus diálogos se tornam às vezes cíclicos e de expressões repetitivas!
Confesso que poucos deles são interessantes, ou relevantes ao ponto de transtornar meu parecer exterior, mas sigo essa dialética nada criativa enquanto acordado; quando no mundo onírico o debate se torna mais abstrato por conta das repressões e desvarios subconscientes e ali me reconheço uma pessoa potencialmente interessante, revestido de meus simbolismos e significados filtrados pela minha trindade psíquica e experiências existenciais.
De volta à lucidez; quando admito terceiros em meus embates, e quando aparo arestas e diferenças sócio-culturais, ou resolvo pendências das quais meu orgulho só se permite na minha virtualidade imaginativa, as personalidades alheias são diluídas e toda brutalidade de seu barbarismo ideológico desaparecem para que minha sensatez chame à razão todos os amalucados seguidores de suas próprias consciências!
Esses seres absurdos!Só encontram razão em mente alheia!



Anderson Dias Cardoso.
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