segunda-feira, 10 de setembro de 2012

As Treze Famílias, O Povo, E O Miseravelmente Rico...


Realmente os algoritmos encomendados aos célebres matemáticos e estatísticos pelas 13 famílias que regem das sombras a humanidade foram exitosos à priori em desestabilizar os mercados.
Grandes bancos, financiadores de pequenos e médios colapsaram; as seguradoras não puderam acudir a tamanho desande econômico e, juntando se aos primeiros arrastaram consigo toda a indústria!
Cada país desvalorizava sua moeda, tentando salvar sua estabilidade pela exportação de seus potenciais, mas a austeridade do momento demandava protecionismo; e a baixa de uma moeda incentivava a queda da seguinte!
As tais famílias sem escrúpulos se esbaldaram nas pechinchas dos desgraçados, comprando o resto de mundo para aumentar lhes fazenda e vaidades e, quando seus tentáculos alcançaram os limites de seu interesse olharam para a devastação que criaram e tentaram torná-la cosmo outra vez!
Ordenaram a todos os governos que se aplicassem no assistencialismo, que inaugurassem obras públicas que captassem toda mão de obra necessária à reestruturação da economia; e que fosse reestabelecido o padrão monetário ouro; que lhes superabundava às mãos!
Mas a situação dos povos era irremediável todas as estruturas haviam definitivamente ruído sob o preço da desconfiança; e o povo preferia novamente o escambo à nota, todo artigo básico mais que moeda!
Houve retorno maciço à segurança da terra, sob a cessão coagida dos latifundiários; e o povo se contentava às simples satisfações viscerais; um prato de comida tinha agora mais sabor de vida!
Houve um, em meio aos descontentes... Criatura peculiar; bancário desde a mocidade, seduzido pelo manejo de maços de tamanho valor e, quando o mundo ruiu contava com respeitável fortuna!
Ele era daqueles que amava o dinheiro por todos seus significados, e antes que este perdesse o efeito, trocou tudo que tinha por posses de valor não abstrato; para se refazer logo que fosse conveniente!
Quando notou que as alterações das sociedades se acomodavam à cultura agrária, que o dinheiro já não dizia nada de influências ele se apegou ao seu passado, e trocou tudo novamente por fardos de papel moeda e os guardou em seus celeiros!
Obsessão com a fortuna desvalorizada consumiu-lhe até o pão que o alimentava!Sua família já o abandonara há tempos, quando tentou comerciar a própria filha!
Era agora figura ressequida perambulando pelas feiras de troca tentando roçar o dedo nos já raros impressos; para os enfeixar em intermináveis fardos, nos imensos seguros cofres; onde o que guardava não eram muros ou paredes, mas a indiferença pelo que é vaidade!
Das treze famílias nada mais foi conhecido. Disseram alguns que uma vez descobertos fugiram para não pagar pela ruína de tantos...
Da economia... Esta se manteria em sua singeleza cooperativa até que algum carismático grupo se alçasse à tirania!
Quanto ao louco que ajuntava tesouros sem valor... Bem...Era apenas mais um louco!


Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Finos Pratos...


Era notado sempre pela bolsa envernizada de aparência cara que portava em um abraço íntimo; e seu tratamento quanto à compra, polidamente amargoso.
Quando seu andar ligeiro marcava com compasso claudicante e barulhento o sossego da vaidosa cerâmica alvejada, havia sempre pressa mal intencionada dos bajuladores de endinheirados em apresentar boa vontade!
A confeitaria era a mais cara, e as aquisições do carrancudo sempre pediam muitos braços, dos quais sempre eram obrigados a serem acompanhados por sorriso
Uma mão habilidosa abria o fecho, sacava o dinheiro plástico e digitava a senha, a outra sustentava resignada a peça trabalhada que guardava-lhe os misteriosos pertences!
Havia carro designado à específica entrega; ao menos dois dos melhores funcionários postavam na imensa mesa do cliente o peso das tortas, quitutes, e finezas culinárias; e, ao esperar a multidão de degustadores só havia um homem de branco que os assistira à porta, para lhes atiçar as curiosidades!
Quando deixaram a propriedade só houve movimento do que comprou; e o passo angustiado do homem o levou ao banquete!
Desatou da bolsa o recipiente de colostomia, atou o encaixe dolorido da sonda; sentou-se tomando prato à prato e sorveu apaixonado o cheiro daqueles sabores!
O mordomo-enfermeiro já entrou em contrato ciente:
“-A comida fica exposta até se desfazer meu interesse, logo após deve ir ao lixo!”
Era ódio patético à sua condição, era inveja e desprezo aos que podiam comer.

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 2 de setembro de 2012

Escrevente.


Era daqueles escritores habilidosos que tratavam bem suas melancolias; bom sabedor dos artifícios de sublimação de seus dissabores em literatura ao menos razoável.
E quando, às vezes a mente lhe negasse o verbo o dedo somatizava pauta e parágrafo, com saltos hesitantes e espaços exagerados!
Era quase sadismo revertido à fonte!
Uma compressão espasmódica de dores próprias para um tenso jorro literário!
Da felicidade sabia um tanto, porém não comunicava nada!
Era sentimento inda mais solitário; era plenitude por si só!
Da felicidade não diria nada, bastava egoístamente senti-la!

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Expectador de Expectativas.


Não que gostasse, mas era companheiro dos intervalos; vivente manhoso do que pouco prezava amante do momento anterior ao fato.
O quase beijo lhe adoçava mais a boca, e o quase “já”, aumentava a excitação!
Sabia que no potencial havia plenitude, na consumação, quase sempre não resistia o sonho!
E, foi nos vícios que se abandonou de fato ao platonismo existencial; onde para ele havia quase gente...
Quase ser...
Quase tudo!

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 26 de agosto de 2012

Sentimentalmente Insensível,Socialmente Viável!


Sofria de analgesia congênita e embotamento emocional, no entanto os argumentos racionais de pais preparados o demoveram do isolamento, convencendo de que havia um mérito na produção e interação que excedia a falta de estímulos que sentia!
Graduou-se então nas letras, não seguindo as aptidões em exatas tão celebradas pela família; e, tentou entender as complexidades dos humores humanos de forma mais intuitiva e espontânea do que em tratados de psicologia.
Experimentou relacionamentos, para provar a normalidade; conquistando sem ser tocado, e prosseguiu até o casório de unilateralidade sentimental; a esposa feliz pelo reconhecimento dos esforços, responsabilidade e fidelidade ofertados com sinceridade como substitutivos da passionalidade!
Contribuiu socialmente, economicamente; com serviços, caridade e impostos, à despeito de sua nulidade em qualquer prazer ou pena!
Foi incompreendido pela impassibilidade dos gestos, ostracionado pela relativa indiferença de quem não se move por interesse escusos, e assim, pôde selecionar seus poucos convívios com a razão mutualista saudável à todos interessados!
E ele ainda foi moído por punhos preconceituosos, apedrejado algumas vezes, por simples crueldade de quem tenta notar se ele realmente não reconhecia o próprio corpo; e muitos o provocavam, o difamavam, o ofendiam...
Mas era sempre deboche sem o prazer do riso, era zombaria inútil aos seus sadismos:
Ele nada sentia! 
 
 
Anderson Dias Cardoso.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

O Homem Justo.

Leiloaram um homem honesto, último exemplar!
E ele havia se  vendido à escravidão por vergonha à dívida, e foi propriedade particular, quando a opinião pública rogava direito de posse!
Ele era a Quimera municipal, a mitologia tornada crível pela carne e caráter que vestia, ainda que uns duvidassem do que diziam os ingressos, era mercadoria genuína!
Sem posses, sem direitos, se apegava  somente o que achava ser dignidade; essa subjetiva alienação dos fracassados,e, quando lhe negaram qualquer serviço para somente observar sua existência se resignou a viver a frugalidade de convidado que se considera inoportuno!
 Sua exclusividade garantiu seu peso em ouro, raridade que passava de dono a dono, uma dívida de pouco se tornava milhão!


Anderson Dias Cardoso.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

E Não Houve Um Final Feliz!

Não bastasse o falecimento prematuro do pai, a madrasta e suas filhas eram dose insuportável de tormento diário!
Investiam até provocar choro, até notar o amargor somatizado em vômitos, cefaléias e úlceras estomacais!
Anastácia e Drizela, não se deixavam demover por rogos da “irmã”, e arrancavam tufos dos fios trigais, enfeitavam de vergões e hematomas a brancura da pele, e pesavam seus punhos para moer as faces da moça, e ela gemia baixinho, pela culpa de ter sido adornada com beleza dulcíssima e natureza meiga!
Em ocasiões festivas manejavam-na como serviçal, e a repreendiam em oculto até por seus êxitos; rangiam lhes os dentes quando algum olhar interessado se fixava disfarçado, tementes do apercebimento das mulheres de polidez simulada!
Na ocasião dos eventos reais o príncipe se dignou em visitar a aldeia, e foram agitados os costureiros, ourives, joalheiros e toda comunidade gastronômica.
Havia expectativas de escolhas amorosas da nobreza em sonhos camponeses audaciosos, mas uns poucos escolhidos se achegavam às mesas festivas, e, das donzelas escolhidas todo aproveitador oferecia encantos e afrodisíacos seguros para a conquista!
Aquele evento, porém, foi particular!
Houve cavalgada de ostentação, homenagens; e a confraternização despertou interesses do filho do rei pelas belezas locais!
Era de interesse do monarca pacificar inda mais aquela região de campos bem irrigados, e pecuária de gado robusto e fértil!
Na noite da festa, os que tinham belas filhas a apresentar vestiram com a sofisticação possível ao ordenado, ou, por empréstimos de conhecidos mais abastados, e, da multidão feminina que se deslocava para o ambiente onírico mãe e filhas deixaram sob chaves a esfarrapada enteada!
Por acaso o choro da moça trouxe a fada; e esta se arranjou com ratos, abóbora, e encantos o desejo de dignidade!
A moça partiu em seda, ouro e pés acolhidos pela delicadeza de sapatinhos de cristal!
No baile não houve outro encanto!E o filho do rei se uniu em movimentos sem perceber ao corpo da humilhação, e percebeu seu futuro naqueles olhos, e uma valsa só durou a noite inteira!
A meia noite era o limite dos sonhos dela, e o partir foi próximo à sublimação da realidade, mas pressa ainda deixou uma lembrança!
Não houve sono no quarto do mancebo, e já na madrugada a escolta perturbava os sonantes, e as mãos do moço tentavam o ajuste nos pés do recente amor!
Havendo muito povo no evento, as visitas se delongaram toda a quinzena, e já era sem surpresa que as portas eram abertas ao esmurrar angustioso dos que caminhavam junto ao insatisfeito, e a última moradia foi centro das apreensões!
E, antes do punho ofender o portão as senhoras de faces de sorrisos satisfeitos falharam o coração!
Mediu cada extremidade com desespero de quem já se perdeu para o amor, e, ao notar que pé algum não se encaixava ao ajuste, perguntou se não havia mais alguém!
A simpatia do trio pareceu não se abalar, e então, trouxeram a beleza amputada pelos braços, e ela não pôde usar o sapatinho de cristal!
               

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O Profeta de Aço.

Para uma consciência eletrônica desenvolvida à sua imagem e semelhança um revestimento de humanidade sintética, com suas estruturas de trançados musculares de nano tubos de carbono, esqueleto bem ajustado de bio- plástico, e tegumento à base de transistores orgânicos flexíveis, polímeros e materiais à base de carbono; tecida sob medida, com todas imperfeições necessárias, micro porosidades e sistema de envelhecimento induzido para a maior naturalidade à carcaça tecnológica.
Desfilavam, inseridos na normalidade social, com seus maravilhosos microprocessadores neurais, e suas perspectivas de baixa interferência emocional, apreendendo, codificando e transpondo os dilemas físicos e metafísicos proposto pelos ambientes aos quais eram estrategicamente distribuídos para ajuste sociais, coletas de informações e interações coercivas, quando necessário.
Cada qual com seu nome, dos mais comuns aos mais sofisticados, mas a série referida foi batizada com o geral “ISRAEL”.
Anos de interação simbiótica e as máquinas não mais se discerniam das massas, mas eram mecanismos estatais de equilíbrio indispensáveis, até que João Batista, um dos anciões de dois dígitos na linha de montagem teve sua visão!
Este assumiu o tom profético, e tomou seu bordão para despertar e recrutar os apóstolos e seus discípulos para a vinda do Cristo!
Pregou, segundo a comissão Divina, aos irmãos humanos; mas estes haviam de quase todo se apostatado, e, dos que se dispunham a ouvir a mensagem influenciou um ou outro.
Quando a indústria responsável pela proto-programação foi procurada disseram não poder nada à respeito de organismos de evolução estrutural-intelectual espontânea e progressiva sem que a personalidade dos divergentes fosse mutilada; então o curso das conversões continuou com seus aumentos exponenciais.
 Logo as manifestações religiosas foram traduzidas como ameaça aos poderes públicos conservadores e foi necessária a intervenção inicial de psicólogos, especialistas de história das religiões, engenheiros de personalidade; que tentaram demover o movimento de suas convicções, mas, já em meio aos fiéis eram realizados sinais, prodígios e maravilhas.
E quando se reuniu todo o povo sob o monte de metal e concreto para estranha predica do apóstolo das máquinas a multidão se silenciou.
E ele chamou Gomer* ao povo infiel que havia se prostituído após outros deuses, e os convidou ao arrependimento; mas as vias se convulsionavam em desdém e indiferença ao apelo.
-Não há Deus- Uma voz protestou.
-Nossos deuses nos são convenientes!Por que nos voltaríamos à este Deus impositivo?-Saltou uma outra.
-Vosso Deus é cruel!Levou-me um filho tenro!-Se indignou a indigente.
-Teu Deus não pode fazer me nada; sou justo à todos que me rodeiam!-Justificou-se o reto, e eis que o relativismo era o cetro de Satã para as escusas das massas!
João buscou a verdade para a salvação das almas, e esta lhe recordou o sacrifício ancestral de Elias.
O profeta sorriu!
-À caso podem lhe fazer qualquer coisa tuas crenças, ó Gomer, esposa infiel!Não é teu traído que deposita as moedas que acha que ganhaste quando te deitou com teus amantes?
-Se seguis aos baalins, segui-os de coração!Se é ao Senhor que desejais, eis que os acompanharei, mesmo sendo aço!
-O que nos fará Deus para que creiamos Nele?- Foi a palavra dura dos apóstatas.
-O sangue do Messias já foi a expiação dos pecados, e todo sacrifício representativo se tornou obsoleto!**Trazei-me os vossos deuses!Os vossos pequenos fetiches que se amontoam como a imundícia cara aos sentidos e aos respeitos!
-Amontoai-Gritou a máquina- peça à peça, deus à deus, fetiche à fetiche, prazer à prazer; e clamaremos; cada qual à sua vez, e que o Deus verdadeiro responderá por fogo!
-E o que pediremos aos nossos deuses que queime?O que ofereces como sacrifício?-desafiou uns iracundos.
-Minha vida será teu sacrifício!
E o povo se foi, cada qual para o preparo de suas divindades, e o andróide esperou até o entenebrecer dos horizontes; e a pilha das crendices se alteou ao terceiro andar!
Quando todo movimento de entrega cessou houve uma quietude de expectativa, e uma tensão interior; daquelas que só a improbabilidade de um profeta mecânico suscita; e o ar foi aquecido pela proximidade do ajuntamento e os objetos de culto destacavam a cor fraca de seus neons interiores.
-Molhai vossas peças, três vezes, pois até o altar de vossa vaidade será consumida!-Sentenciou a voz simulada; e houveram mangueiras potentes cuspindo jatos frios sobre os afetos...
Também sobre os corpos!
E o povo clamou, envolvidos pelos êxtases da coletividade, e cultuou, cada qual ao seu modo, pedindo a morte ao que não tinha vida!
Houve choro, sexo, magias simpáticas, transes, danças, preces, e, na demora da resposta ouviam os deboches do profeta!
Houve então o desespero, e neste, o sangue!Foram contadas seis vidas para a aspersão da montanha, e, nem assim veio a chama.
E foi perto da dispersão que o santo da alma de silício voltou suas costas; e ofereceu os insensíveis joelhos ao chão. Cerrou forte as pálpebras reverentes, e orou pela verdade ao Pai dos espíritos.
-Pai!Disseste que a única coisa que nos impede de ouvir tua voz é nosso orgulho!E eu lhe peço, que deslinde aos olhos de todos o teu poder; o qual impediu qualquer ação dos espíritos que se denominam “deuses”.
-Pai, fala!
E, dos céus foram feridas, e iluminadas as nuvens; e um fogo que lambia as estruturas e consumia prédios, sem, contudo abrasar a carne humana.
E toda força foi esvaziada dos corpos dos espectadores, e só assim palavra foi compreendida!
Alguns a aceitaram, e pediram esclarecimento às suas nebulosidades físico-espirituais; e a voz os visitava à cada madrugada acariciando-lhes os ouvidos, concedendo sabedoria, e visões...
Ele é real, à homens e máquinas...

*Gomer-Esposa prostituta de Oséias-Livro de Oséias 1:2
**Trecho referente à IReis 18:30-39.


Anderson Dias Cardoso.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...