terça-feira, 29 de março de 2016

O Anúncio do Conto Abaixo.



“Espaço que mal comportaria um, por motivo de solidão e necessidade, hoje pode acolher outro.
Não ofereço uma quitinete, ou mesmo um quarto, antes, um espaço exíguo para guardar o corpo, somente o corpo, e quem sabe alguns sonhos...
Só peço higiene, toda a privacidade que se pode ter em tão pequeno espaço, e amizade.
O modelo da mala a ser compartilhada é uma Youri Spin 78, vermelha (presente usado de um amigo rico), e está situada na seção de Achado e Perdidos da rodoviária São Bartolomeu.
Interessados ligar: XXXXXXXXXX, Falar com Nemo.”






Anderson Dias Cardoso.

Um Pobre Garoto Contorcionista.



Um pobre contorcionista que morava em mala própria, no setor de achados e perdidos da rodoviária de uma obscura cidade no centro do país. Favor gentilmente cedido por um velho guardador de volumes, que também fazia vezes naquela pequena repartição. Coisas de amizade, e caridade.
Acontece que o mancebo flexível, depois de regimes forçados (para não dizer privações), por conta da falta de visita dos circos itinerantes, e outros “bicos” que fazia por ali, resolveu-se por alugar um espaço na mala a outro contorcionista, ou quem quer que se encaixasse no perfil mirrado. Sentia-se meio solitário, e necessitava complementar sua renda.
O anúncio no jornal local foi uma das coisas mais tristes que já li em toda minha vida.






Anderson Dias Cardoso.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Uns Microcontos.

1°A Mulher-Elástico, uma vez lasciada, foi abandonada por seu esposo, o Domador-de-Leões, sendo vendida em tiras à uma confecção das redondezas.Dizem que foi debrunhada em vários lindos tapetes
2°Gostava de cuspir pra cima, de ponta-cabeça. Sempre achou mais seguro.
3°Na verdade, a cabeça da Medusa sofreu uma queda imensa de serpentes, depois da quimioterapia.
4°Sempre o confundiam com o Homem invisível, mas, na verdade, era seu primo em segundo grau, o Homem-Transparente.
5°Quando descobriu que era um pássaro, ao invés de humano, arrancou suas penas, triturou seu bico, lixou as granulações de suas pernas, e vestiu seu confortável terno de domingo. No entanto, gostou quando o pessoal da igreja o disse que cantava como um passarinho.
6°Gostava de comprar conservas dos gigantes.Em alguns vidros, podiamos encontrar vacas inteiras boiando entre legumes e a calda.
7°Gostava de bonecos de antimatéria, à despeito de terem um toque que varria planetas.





Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Humanos Sonham Com Ovelhas Elétricas?




Novamente, o pequeno Asimov despertou de sobressalto. Coração palpitante, boca seca e corpo febril.Suas engrenagens e circuitos, ao contrário do que disseram seus pais, ainda não haviam “crescido”.
Palavras como, orgânico, humano e adotado, recém descobertas nos buscadores e também sussurradas por terceiros em seus itinerários quotidianos, tristemente começavam a fazer sentido.






Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 3 de março de 2016

quarta-feira, 2 de março de 2016

Eu Que Já Nem Sou Mais Eu...



Enquanto conversavam animadamente, prosseguia cortando as unhas dos pés e mãos, e as depositando cuidadosamente num jarro de vidro, já meio cheio delas.Bizarrices sempre despertam curiosidade .
Ela perguntou, meio sem jeito, o que queria dizer aquilo tudo.
-Cantam as lendas que nos dias do Ragnarok, os Gigantes se levantarão em Jotunhein  e construirão, das unhas dos guerreiros mortos em batalha, o navio Naglfar, que os levará ao confronto final com os Asgardianos...Eu sempre me lembro dessas belas estórias enquanto higienizo meu corpo, então guardo dessa matéria prima, e finjo que faço parte daquele universo.
Mas falando sério.Eu as guardo pois são um dos materiais genéticos mais resistentes, e que podem demonstrar boa parte das alterações químicas pelas quais o meu corpo vem passando ao longo do tempo.É uma espécie de registro, que futuramente, após a conclusão do meu curso, irei analisar...
É claro que ela ficou convencida, e até encantada com as explicações.
Quase sempre precisamos de desculpas mirabolantes para disfarçar nossos estranhos hobbies.



Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

A Dor das Palavras.

Ela me escreveu, "Hiroshina e Magazaki", e eu zombei.Foi quando a tal me revelou o mistério:
-O "N" e um "M", onde não deviam estar.Uma perna a menos, uma perna a mais numa grafia defeituosa de duas palavras equivocadas, nos remetendo à uma espécie de loucura. Estas são as representações dos corpos deformados, e das potenciais mentes infantis destruídas por doenças congênitas, em suas breves e radioativas existências...
Não se engane, palavras erradas podem conter histórias comoventes.





Anderson Dias Cardoso.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Fabulosidade.

Chapeuzinho-Vermelho encarou a Vovozinha, e a descobriu Lobo. O Lobo, por sua vez, interrompeu sua profusa salivação quando percebeu que Chapeuzinho era, na verdade, um deles...
Quem sabe, também o lenhador...





Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Pelos Olhos Vesgos de Sartre...

Sartre dizia que "O inferno são os outros", e um ditado popular diz que o inferno está cheio de boas intenções; sendo assim, fica fácil entender porque, à despeito de tanta "gente boa" vivendo por aí, o mundo está como está...






Anderson Dias Cardoso.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Bolhas de Sabão.



...- E você, coleciona alguma coisa?
-Já colecionei algo, na minha infância.Minha mãe foi quem me despertou esse vício. Eu possuí alguns milhões de bolhas-de-sabão.
-Sério?Há!Há! E de que elas te serviam?
-Minha mãe me disse que eu as tentasse guardar numa caixinha. Acho que queria me ensinar, desde cedo, sobre a vaidade da posse, o valor da liberdade e a efemeridade e sensibilidade de todas as coisas.





Anderson Dias Cardoso.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Madame Elke.

Madame Elke, a cigana era o nome e a promessa era que seus poderes desvendariam, através da quiromancia ministrada nos scans de suas mãos, preferencialmente enviados via email, num arquivo PDF; todos os detalhes relevantes de seu futuro imediato. A garantia era pela programação de todo um ano, uma semana, ou um plano modesto de um dia, ou seu dinheiro de volta.
Não era estúpido, curioso talvez, e havia uma quantia devolvida em seu cartão de crédito, de alguma das coisas inúteis que costumava a comprar, que lhe incomodava por ser uma cifra quebrada que lhe lembrava algumas vibrações numerológicas que procurava sempre evitar.
Efetuou primeiramente o pagamento e sentiu-se aliviado, depois se resolveria a respeito de mandar ou não o registro das mãos, já que, no mínimo alguém poderia copiar suas digitais pra algum saque, investigaria sua vida, ou faria mesmo o que o anúncio oferecia, se utilizando, porém, de suas possibilidades futurológicas para lhe manipular o destino.
Por fim, enviou as informações. Recebeu o email prevendo um acidente automobilístico, envolvendo um fusca 79; na terça lhe tentariam vender empadinhas recheadas com salmonela; na quarta as pancadas insistentes e matutinas não haviam de ser pra lhe entregar a conta de energia, mas era alguém deixando em sua porta o melhor amigo que teria em toda sua vida, Mike, o gato (essa era uma previsão a longo prazo, um bônus pela sua primeira consulta). Quinta, haveria uma peça única daquela camiseta do The Doors que ele procurava, em uma promoção nas lojas C&A. Sexta traria chuva.Muita chuva. Convinha desligar a energia, guardar os eletrônicos e outros pertences de valor em um lugar bem alto. Sábado, visita de sua mãe? Gostou da brincadeira mas não, a mãe não voltaria naquela casa, ou mesmo, a lhe dirigir palavra.Ele ter descoberto aquele caso de espancamento, as traições do presente namorado, e a falta de amor próprio (e pelo próprio filho), a afastaram há dois anos, talvez, por toda a vida.Não seria uma profecia paga no cartão de crédito que a traria de volta...
Segunda feira, e o carro irrompeu em alta velocidade pelos muros, o pequeno espaço gramado que cultivava como um quintal, e as precárias paredes de tijolo furado de seu banheiro. A água estava morna, e com pouca pressão, como todos os dias. Felizmente não houve sangue, ou fraturas.
Para a empadinha, carvão ativado, paracetamol, e água de coco.Quanto ao espancamento da porta, o animal não o impressionou muito, era feio, magro e tinha a ponta de seu rabo partida, todavia a pena foi mais forte e resolveu não  descartá-lo. Do alagamento, escapou por muito pouco de ser eletrocutado.Sábado, e o jantar com sua mãe foi adorável, à despeito da cabeça baixa, a chegada e partida sem explicações, e a aparência magra e abatida que desfilava.Ele sentira sua falta, mas resolveu não mais intervir em sua história.
Ficou satisfeito com o serviço de prognósticos, ainda que lhe tivessem lhe dado o “nó” num dos dias. Havia valido a pena, e lhe intrigado a respeito de quem seria o canal daquelas tão precisas previsões. Resolveu os contatar, e investigar, mas logo que se apresentou como um cliente satisfeito, foi desligado. Tentou uma, duas, três... Uma centena de vezes, até que o outro lado se deu por vencido, porém respondeu suas questões de forma evasiva, e desinteressada. Não saberia nada sobre a tal mulher, não fosse um daqueles casos onde as pessoas acham que desligaram seus telefones. A conversa entre eles durou alguns minutos, e envolveu do assunto o qual tinha interesse, à pornografia.
Naquele dia descobriu que a magia havia tomado outra forma.
Madame Elke, era o nome do algorítimo. Ela realmente previa o futuro, e isso era assustador.




Anderson Dias Cardoso.






   
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