sábado, 28 de junho de 2014

Frequências.



Franzino, oculozinho de aro torto querendo despencar do nariz, escondendo uns olhinhos remelentos de um azul morto, cabelo ralo cor de palha e exalando um cheiro de falta de higiene; roupas amarrotadas, amarelecidas pelo tempo e manchadas de café... Não!Definitivamente não gostava daquela figurinha a qual haviam contratado, e nem me esforçaria para qualquer contato além dos requeridos pela profissão. Mas meus colegas de lida não pensavam assim.
Os encontrava sorridentes pelos corredores; gargalhantes às vezes, mas, curiosamente não havia escutado o som de minha antipatia!
Conversei com um ou outro; tentava arrancar alguma opinião negativa a respeito do desafeto, discretamente, e às vezes fazia insinuações sobre fatos os quais deduzia, sobre suspeitas que tinha do rapaz, mas eles foram se afastando!
Eu estava enfurecido; e um pouco além disto, já que continuava sem escutar a voz do mancebo!
Comentei com a moça do café, fiz algumas perguntas, e esta me assegurou que era pessoa de bem!Perguntei por que falava tão pouco, e ela respondeu que o rapaz era convidado em toda roda de conversa; que sabia muito, e era todo educação!
Curioso, me acheguei à uma reuniãozinha destas de fim de expediente. Escolhi sentar-me no lugar mais próximo a ele, e escutei.
Todos falavam, opinavam, discutiam; e eu fixava a bocarra de lábios finos esperando a primeira palavra.
Ele, notando com certo desconforto a minha presença, resolveu se por se distrair tomando partido do cara da contabilidade.
Falou uns bons minutos, e se riu de alguma coisa que dissera, sendo acompanhado por todos os outros... Mas eu não havia percebido sua voz!
Esforcei-me em me concentrar; beliscava-me sob a mesa toda vez que dizia algo, mas, aparentemente, todas outras vozes se lhe sobrepunham. Tomei iniciativa e propus uma pergunta escandalosa, e ele moveu os lábios em resposta.Todos riram.
Eu nunca fui um bom leitor de lábios...
Dia seguinte trabalhava com dificuldade e estava angustiado tentando imaginar o que havia acontecido naquele embaraçoso episódio. Perguntei novamente à mulher do café sobre a voz do garoto, e ela disse que era normal, bonita.Perguntou por que não me aproximava dele, e eu só respondi que preferia não fazê-lo.
O encontrei próximo à minha sala, e, meio envergonhado tentei o cumprimentar. Ele só me balbuciou vento.Eu o agarrei pelo colarinho amarrotado, mas logo surgiram uns intrometidos a nos apartar!
-Ele está zombando de mim, desde que entrou aqui!
-Sai fora maluco!Acho que vou ter que falar com o patrão pra te advertir, ou te mandar embora!Respeita o cara, ele na te fez nada!
-Ele tirou uma com minha cara ontem!
-Ele nem tava falando contigo!Cê pirou de vez mesmo cara!
As pessoas o defendiam, e notei que ele murmurava alguma coisa à direita e à esquerda, e eles assentiam, diziam que era verdade, que era assim a maneira correta de se agir em situações como aquela!
Todos estavam zombando de mim!Querendo me fazer passar por maluco; pedir demissão... Sei lá!
Tomei o elevador com o pretexto de apanhar uma pasta com protocolos que devia apresentar na reunião de amanhã. As pessoas se perfumavam muito por ali, e aquela musiquinha irritante, as conversas, o ambiente de confinamento...Segurei o vômito.
A porta se abriu, eu empurrei um ou dois, e eles praguejaram alguma coisa. Vomitei no canto de uma pilastra, apanhei algo embaixo do banco do carro, e quando me dei por mim já estava em pé, empunhando o 32, gritando para que ele falasse!
Haviam muitas pessoas ao derredor, e elas também gritavam muito!Eu precisava insistir!Mandei que se calassem, e eles se limitaram a sussurrar recomendações e preces.
-Fala!- E o homenzinho àquela altura já estava ajoelhado, com os olhos embaciados, gesticulando muito e dizendo mais ainda... Mas eu continuava nada escutando!
-Fala!-E ele foi se arrastando em direção aos meus pés, movimentando freneticamente os lábios torcidos de agonia, mas eu o chutei para longe!
-Faaaaaaaaaaaaala!-E eu gritava no mesmo instante que ele também o fazia, e a arma disparou sem que eu percebesse!
Todos estavam ali, abraçados, mudos e perplexos.
Também não pude ouvir quando as viaturas vieram me buscar.



Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

O Nome do Gato.


Nunca fora de dar nome a gatos, a despeito de em algum tempo de sua juventude haver possuído quase uma dúzia destes!Os chamava de qualquer coisa, e eles, reconhecendo em toda  palavra um convite a um prato gordo, obedeciam, formavam procissão onde quer que eu fosse.
Mas desta vez foi diferente!Estava mais maduro, e, talvez, quisesse impressionar alguém com a tal referência a alguma personalidade!
Por que não?
O nome lhe viera óbvio: Asimov!
Soava bem, incomum, além de que ficção científica me agradava bastante!
Mas costumes são coisas traiçoeiras, com os quais às vezes nem o esforço pode!
Se bem que, confesso, não estava lá tão comprometido com a causa!
Eu quase nunca o chamei pelo nome "maneiro" ao qual lhe havia batizado. Inda mais os outros!
O gato ouviu a vida inteira:
Chimoli, Asinove, Asamove, Dudu... E cresceu meio apalermado, sem seu senso de individualidade; ao menos no que se referia ao nome que lhe havia dado!



Anderson Dias Cardoso.

domingo, 1 de junho de 2014

Se Adaptando...



Ao invés de Kafka, ele era o inseto que se tornava humano!Deixava família volumosa, a pequenês discreta, a estabilidade das tantas patas, a carapaça e sistema adaptados às condições climáticas, venenos, radiações, poluição...
O que temia era a assepsia!A falta de detritos espalhados, o escuro, a umidade, os aromas peculiares que se volatilizavam dos sacos de lixo, animaizinhos mortos, e marmitas desleixadamente esquecidas depois de uma chegada e partida apressada para algum passeio demorado!
Logo eram só quatro membros!Desajeitados, lentos, lívidos...
Mas isto foi só o começo!
Roupas, comprovação de existência física, tantas certidões, impostos. O cárcere de emprego e horários, conversas, uma forma de se vestir e se portar imposta,  sem qualquer finalidade senão a de impressionar, mas que nada tem à ver com o acasalamento ou escolha de melhores genes , já que na maioria não são mais inteligentes os que ostentam suas respostas, não são mais ricos os que se vestem com maior esmero, não são os mais fortes os que aparentam maiores músculos, nem mais éticos seus juízes!
Tudo é marcado de um ritualismo social estranho, uma tentativa de exposição de si, e uma depreciação do próximo; mas tudo com muita polidez.
Conversas suaves, desnecessárias, cheias de adjetivos, pronomes pessoais, sorrisos forçados... Ouvi dizer que chamam isso de hipocrisia, mas ainda não entendo muito dessas intrigas de gente humana!
Agora se me dão licença, aquele lixo logo ali está me chamando!Adoro sobras meio apodrecidas!



Anderson Dias Cardoso.

domingo, 18 de maio de 2014

Medo de Bonecas...



Estava ali, deitada sobre a mesinha de vidro; mas houveram outras a me incomodar antes daquela!
Corpinho de tecido, enchimento de algodão ou sintético; mãozinhas, pezinhos e cabecinha emborrachados. Confesso que era uma manufatura interessante; bem acabada, com olhos convincentes, dobrinhas bem desenhadas, cabelinho sedoso, rubor discreto nas bochechinhas; mas a figura das feições estava errada!Aliás, sempre estavam!
Aquela criatura, jogada sem qualquer cuidado em meio aos outros brinquedos parecia sofrer!Acho que a intenção de seu “Gepeto” era que fosse um rostinho alegre, mas aqueles olhinhos “franzidos”, aquela boquinha caricatamente aberta, parecia dissimular um incômodo, uma dor, um desespero... Era de se suspeitar que aquele arremedo de gente, em suas entranhas macias e antialérgicas, e naquele crâniozinho de borracha oca, tramasse alguma vingança, e isso era perturbador em situações de falta de energia, solidão, ou períodos onde se está psicologicamente abalado!
Já ouvi histórias a respeito de algumas bonecas que viram a cabeça, bibelôs do Buda que sorriem dentes afiados... Vamos mudar de assunto, pela boa saúde da minha próxima noite de sono!
Outra coisa que me deixa um pouco pensativo é a disposição dos pais em presentearem seus filhinhos com aquelas coisas!Eles são atestados de que o mundo não é um lugar maneiro!Acredito que a maioria das estampas daqueles serezinhos bizarros é uma projeção inconsciente dos autores, daquele momento em que, retirados do aconchego morno, úmido e viscoso do ventre da mãe, como inquilino, é expulso para a primeira surra de sua vida!A caretinha dos danadinhos é aquele instante do grito que carrega os pulmõezinhos com o primeiro oxigênio corrompido experimentado, com toda sorte de bactérias e a ilusão de assepsia daquele ambiente alvejado de cloro!É aquele mesmo primeiro choro, só que maquiado pela aparência de alguns meses à mais, uns quilinhos sobressalentes e a tentativa de fazer a o pranto parecer riso!
Quanto às crianças; elas são muito corajosas!Confiam em bonecas e querem ir ver o palhaço...
Ah!Palhaços... Eles também são criaturas assustadoras...



 Anderson Dias Cardoso.

sábado, 10 de maio de 2014

Auto Sabotagem.


Andava triste, muitos haviam notado. Visitava constantemente suas farmácias prediletas, evitava todo contado desnecessário, e até fora internado em algumas circunstâncias com marcas estranhas pelo corpo.
Diziam que havia sido ameaçado por telefone, várias vezes, por uma voz que dizia parecer conhecida, de madrugada, mas eu acredito que o término do casamento por conta daquela ocasional traição, e a mudança da esposa e filhos para outra cidade havia mexido com sua cabeça. Ele sempre negou abertamente, e procurou participar de toda festança disponível, mas reclamava de sintomas de sonambulismo e inapetência, além de adicionar outro maço de cigarros à sua rotina.Nunca fora de beber;  experimentou desta vez, mas o gosto continuava não lhe apetecendo.
Parece que o processo de ameaças havia se intensificado na última semana. Achei que o havia visto em uma casa de camping, e pensei que seria interessante para ele refrescar a cabeça no “mato”, mas parece que não era bem isso que ele pretendia...Se soubesse teria tentado conversar com o cara!Armas em casa costumam ser uma coisa perigosa!Mas ele andava tão estranho!
Vi outro dia ele conversando com alguém. Parecia nervoso, e repetia que tinha que se defender; a outra pessoa sugeriu que chamasse a polícia, mas ele virou as costas e o ignorou.
Eu até queria me aproximar, mas achei melhor não... Ele podia estar metido em alguma treta, e acabar sobrando pra mim também.
As luzes da sua casa agora costumavam se acender e apagar em horários bem esquisitos!Vizinhos curiosos sempre notam qualquer variação de comportamento, e sofrem daquele comichão de espalhar seu conhecimento a quem estiver disposto a ouvir, mas, curiosamente em casos de morte parece haver uma espécie de amnésia e cegueira coletiva!Sempre se encontra um cadáver depois de tantos dias, pelo incômodo do cheiro, geralmente anunciado por uma criança de pais desfavorecidos!Tudo tão conveniente!
Encontraram a casa desarrumada, suja, e com comida instantânea estragada distribuída nos mais diversos lugares!O corpo exangue, o sofá tinto de vermelho e o celular deitado ao lado.
Achei meio sinistra essa história, mas os caras viram o policia, que era conhecido da galera, dizer que a voz do perturbado no celular era a mesma do finado, distorcida por algum efeito de computador.Se entendi bem, ele deixava suas ameaças na secretária enquanto dormia, as ouvia de manhã...
Mundinho de malucos!Os kamikazes de antigamente eram muito mais bacanas!




Anderson Dias Cardoso.

domingo, 4 de maio de 2014

Sinestesia.


Não me lembro bem como se deu na primeira vez, mas tenho a impressão que a letra “b” em minha infância, tinha gosto açucarado, ainda que todas as outras letras fossem insossas!Então a leitura costumava a acompanhar uma mastigação, movimento lingual, e muitas escovações. Minha mãe achava estranho, cogitou me levar a um neurologista, mas logo que percebi que minha estranheza poderia resultar em médico me tornei mais discreto!
Certo dia o perfume almiscarado de minha irmã mais velha me causou comichões nas palmas, cabeça e costas, mas não ouve nenhuma manifestação cutânea, nem mesmo vermelhidão. Um dermatologista amigo, numa consulta não oficial duvidou que fosse alergia, e, quando a garota trocou de fragrância, o sentido agora era de que estava sendo envelopado em gigantescos chumaços de algodão!
Pouco depois os sons passaram a me proporcionar alucinações geométricas, mas isto foi só no princípio do efeito, já que umas semanas depois, após um leve colapso nervoso, tudo se intensificou, se mesclou e modificou, não havendo mais nenhuma barreira para todos recursos sinestésicos!
As pessoas às vezes me eram contornos de puro psicodelismo fluorescente, ora eram ondas de calor e frio se alternando em meu corpo em arrepios e sudorese, e às vezes exalavam uma mistura floral, de acordo com o número da multidão, que me reviravam as entranhas...
O tato me levava por um caminho de sabores aleatórios, muitos dos tais inimagináveis, não poucos, desagradáveis!Ficaria surpreso se te dissesse que já toquei uma estrela?Sim, e ela me queimou a ponta dos dedos, sem ferir a carne!Também, com o tempo, aprendi a executar a nona de Beethoven nas texturas da cortiça, alumínio e água!Era em tons pastel, mas bastante interessante!
O paladar era dos sentidos mais curiosos! Biscoitos tinham gosto de paisagens campestres, e chocolate quente era ao corpo como um delicado banho de orvalho pela manhã!Passei a evitar macarronadas, pois estas me faziam evocar sentimentos abstratos, como amor, vazio e solidão!
Engraçadamente os cheiros, de canela, lavanda e açafrão me causavam riso; o de bacon frito faziam surgir no horizonte dos meus olhos um exército de homens palitos marchando em uniformes de escoteiro, e o suor me causavam cegueira psicológica!
Não gostava de ajuntamentos!Eles me sobrecarregavam os sentidos!



Anderson Dias Cardoso.

domingo, 27 de abril de 2014

Direito!

Direito é uma coisa complicada!Estava lendo "Os exploradores de caverna" e fiquei imaginando se estivesse numa situação parecida com aquela, uma expedição de exploração que fora privada de sua liberdade pelo bloqueio da entrada por deslizamento, só que daí fosse inserido um centauro na história!Se naquele sorteio (sob as mesmas condições)de quem serviria carne pra preservação da vida dos outros o mesmo fosse o escolhido, como se desenrolaria o processo jurídico?O centauro, se comido sua parte eqüina primeiro o juiz o consideraria como um todo?As pessoas seriam julgadas de acordo com o direito dos animais, e humanos, já que, já que é caso de hibridez mas onde há uma delimitação bem precisa de uma e outra espécie naquele espaço corporal!?Será que existe um tribunal de centauros que venha a reivindicar justiça?A legislação deste seria mais ou menos rigorosa que a nossa?Qual dos dos dois universos corporais receberia mais peso e atenção, já que a parte animal deve corresponder fisicamente ao dobro, ou até mesmo o triplo da parte humana!Estou confuso!São muitas possibilidades!
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