segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Meia Vida.


Esbarrou com a morte em sua meninice, e o defunto, aparentado que era, marcou-o com a impressão do desespero tão comum aos que já se aproximavam de sua hora; daí a criança assombrada decidiu que cresceria temporão para escapar do inevitável!
Pediu à avó caixa e graxas, escovas e flanelas e saiu à se inclinar sobre todo envernizado e sintético, aos quais esperava que seus donos porventura lhe lançassem alguns dobrões!
Não sabia bem como compraria mais alguns dias então se resumiu à acumular!
De tão eficiente em poupança, sua conta era diametralmente oposta ao ossudo corpo que vestia a avarenta alma!
Sim!À despeito da feiura e descuido com a vida era essa exata luta pelo existir que o consumia; mas inda assim passeava levemente por seus dias depois de descobrir a tal criogenia!
Trabalhou mais uns anos, até que sentiu o corpo gastar-se, e a pilha de cédulas serem contabilizadas como excedentes.
Partiu para negociar sua suspensão!
-Quanto tempo... Quanto ainda falta para descobrirem a imortalidade?
-Tanto quanto um terço do seu investimento!
-Então eu seguirei seguro em meu sono, até despertar para nunca mais dormir?
-Claro!Claro!E ainda lhe sobrará de seus rendimentos para gozar de uma farta vida futura!Basta assinar sobre o pontilhado e fazer o depósito, pois já lhe preparamos uma “Câmara Dos Sonhos”!
Assim foi feito; e os olhos se cerraram satisfeitos pelo aguardo esperançoso do dia do ressurgimento; mas seu inquilinato só foi célebre enquanto as notas pagavam a estadia.
E ainda nem havia sido resolvida a tal questão da vida permanente, e já se especulava se a economia comportaria tantos eternos consumindo uma já escassa terra!
Diante das negativas dos grandes, no secreto de seus poderes, foi proposta para o futuro a reinvenção de castas, e sobrevida somente aos bem nascidos; sendo que a mídia privada já resolvia por insinuar pseudo-divindades, ou uma qualquer superioridade inerente aos interessados!
Quanto ao destino do iludido; este foi despejado de sua hibernação assim que lhe escoou legalmente o último níquel, e este agora repousa incógnito em alguma vala sanitária à qual os sepultantes tendiam sobrescrever um deboche, chamando-o sorridentes de “Meia-Vida”.



Anderson Dias Cardoso.

domingo, 1 de setembro de 2013

A Morte Dos Estranhos.



Aconteceu que se encontrava ali, debruçado sobre um imundo e esfarrapado desconhecido, aplicando pressão ao coração que falia; mas estava a lhe fazer tão pouco caso!
A boca do semimorto havia provado algum molho rosado, e agora espumava e, esta mesma escondia atrás de si um débil sorriso!
O primeiro homem insistia na massagem, e seus braços já tinham articulações cansadas do esforço, em contraponto que o peito enfermo estalava sob cada violenta arremetida!
-Luta!Luta que esta é tua vida!
Mas era inútil, assim como confessavam os olhos da vítima!
Ele sabia da morte, porém ainda vestia aquele sorriso estranho, confortado, complacente; e que se foi desvanecendo assim que o ataque finalizava seu ciclo.
Tremelicou um pouquinho, rangeu de dor os amarelecidos dentes e partiu.
Então ajudador levantou se de sua derrota, cobriu dignamente com seu agasalho o defunto e procurou alguma viatura para notificar a morte...
Abandonou o corpo esvaziado aos cuidados do Estado, e o sorriso enigmático à indiferença, mas este queria lhe dizer tanto!
Quis lhe dizer dos seus infinitos abandonos, e do aconchego da morte sob os cuidados de um estranho!



Anderson Dias Cardoso.

domingo, 25 de agosto de 2013

A Indústria Da Psicodelia!



Certo dia cismou que seus dentes se contorciam.Eram movimentos delicados, esporádicos mas certamente estavam ali, valseando  timidamente entre uma arcada e outra!
Disse à um passante, e este resmungou, explicou à outro e ele se fez de desentendido, e quanto mais se agravavam as cócegas e contidas dores; por descrição, já o diziam amalucado!
Procurou o auxilio do espelho, e esse confidenciou que lhe retribuíam o olhar uma centena de diminutos olhos.
Esfregou os seus próprios e deduziu que no máximo era alucinação!
Ácidos costumavam a ser lipossolúveis!
Correu para mastigar algo, talvez como um teste, mas a textura e a densidade dos incisivos o fizeram recuar!
Era inútil!Até o verniz da maçã oferecia resistência, e, na boca viva (agora ainda mais viva!) algo lhe agredia as gengivas!
Consultou o novamente o espelho, e este agora lhe mostravam umas tantas perninhas flanqueando cada peça.
Acometeu-lhe náusea, mas o vômito, ressentido da boca imunda só visitou a glote; foi então que tentou findar as larvas com uma mastigação severa, e jurou que chegou a sentir sabor dos monstrinhos; sentindo-os ainda vivos!
Apanhou arma e procurou quem lhos arrancassem!
Acordou já desdentado, ainda zonzo e dolorido; e um tal dentista lhe assegurava que não necessitava tanta violência, já que dente à dente, todos os pestinhas já haviam fugido de seu domicilio ali; bem diante dos especialistas!



Anderson Dias Cardoso.

sábado, 24 de agosto de 2013

O Segundo Selo!

Um selinho Marcela Melo!Um selinho!
Fiquei lisonjeado que essa garota, que escreve pra caramba, me tenha agraciado com meu segundo selo!
Muito obrigado mesmo pelo agrado, mas, muito mais por passar por aqui para ler o que escrevo!
Sucesso com seus blogs!
mmelofazminhacabeca.blogspot.com.
http://mmelomaisdomesmo.blogspot.com/
http://lapsosdeumamentebipolar.blogspot.com/

De acordo com o protocolo, vamos às respostas quanto à minha desinteressante pessoa!
  1. Escuto livros no serviço, o dia inteiro.
  2. Solidão não é problema pra mim.
  3. Sou lacônico.
  4. Sou ansioso ao extremo.
  5. Nem sei o que é concentração.
  6. À despeito do acima citado, não sou hipocondríaco.
  7. Não gosto de sair, pra lugar nenhum!
  8. Amo desenhos.
  9. As pessoas não sabem, mas sou engraçado!
  10. A maioria do que escrevo são críticas, e são mal interpretadas.
  11. Sou cristão...De verdade mesmo!  
Acredita em vida após a morte?
R-Sim!
Gosta de Estudar?
R-Bastante...Mas nem sempre foi assim!
Suas Cores Favoritas?
R-Azul, branco, preto.
O que mais gosta de fazer:
R-Dormir!
Uma realização?
R-Ainda nenhuma digna de vanglória!=)
Comida favorita?
R-MilkShake!
Um hobby?
R-Ouvir podcast!
O que você escreveria se se só houvesse uma folha no mundo, e ela estivesse em suas mãos?
R-Todos os trechos importantes da Bíblia que eu me lembrasse.
Um instrumento?
R-Baixo.
Com quem você quer passar agarradinho no cobertor nesse inverno?
R-Minha esposa.

Indique Onze blogs:


 http://wwwreginagois.blogspot.com/
http://deaeomundo.blogspot.com/
 http://mataleonebr.blogspot.com/
http://oceanoaazulsonhos.blogspot.com/
http://pparolee.blogspot.com/
http://universoparticulardecadadia.blogspot.com/
http://garagemlanche.blogspot.com/
http://acorda-amor.blogspot.com/
http://burugudinhablog.blogspot.com/



terça-feira, 20 de agosto de 2013

Meu Conto Em Uma Coletânea!

Pois é!Há algum tempo o pessoal da "Contemporary Brazilian Short Stories" publicou um dos meus contos (Fetiche, e que por sinal não tem nada à ver com sacanagem!Hehehe!) em um ebook, podendo ser adquirido on demand caso alguém se interesse (acho que ficaria meio salgado enviarem de Califórnia até aqui, mas tem maluco pra tudo né?).
O livro é bem interessante, e tem uma maioria de contos melhores do que o meu, além de ser bilíngue (Português Inglês); existindo ainda uma outra versão em espanhol, a qual me anunciaram, mas ainda não conferi!
Esse post nem é uma propaganda; é mais um leve exibicionismo de um pai um pouquinho orgulhoso!
O link vai estar ai em baixo, qualquer coisa...
https://sites.google.com/site/brazilianstories/news/cbssvol1thebookisout


domingo, 18 de agosto de 2013

Omelete De Ovos De Ornitorrinco.



Eram omeletes de ovos de ornitorrinco; com característico preço de iguaria.
-Mas são muito caros!
-São de ornitorrinco!
-Com esse preço vou até a Austrália e prepararei os meus próprios!
-O senhor terá problemas com a cooperativa de extração e beneficiamento!
-Me dê um copo de leite de texugo, até que me decida pela omelete... É, essas tais cooperativas são uma máfia só!Só perdem pra iniciativa privada!
-Cru?
-Hã?
-O leite.
-Bota uma ou duas colherinhas de café solúvel!Ah!Oito gotas de adoçante sem aspartame!
-Não temos!
-Troca por açúcar mascavo mesmo... Uma colher!
-Quanto à omelete?
-Cinqüenta mangos são um abuso!
-São oito ovos por preparado, e a postura de cada fêmea conta o máximo de três ovos, e isso anualmente!A extinção de uma espécie não deve ser facilitada por preços baixos!
-Mas você inflacionou bastante a mão de obra dos aborígenes pra chegar a esse preço!Pela extinção eu pagaria um máximo de 45 mangos!
-São mão de obra especializada; artesanal... Já te contei que há todo um ritual animistico na parada?
-Tipo, eles se vestem de ornitorrinco, cantam, imitam suas características e tals?
-Sim!
-Deve ser desconfortável!
-Mais ou menos!O governo providenciou um galpão climatizado, ofertou algumas peles sintéticas, DVDs com cantigas e técnicas de rastreio e caça em troca de uma coleta responsável.
-Eu já assisti oito anúncios diferentes de receitas contendo os tais ovos!
-E eu estou contratando um serviço de delivery!
-As pessoas estão mesmo sempre procurando por novidade, e diferenciação de status social!
-É!E isso custa caro!Etiquetas custam muito caro!Essa movimentação ideológica, criativa, metafórica, cinética em busca da superação gastronômica, beirando à escatologia!
- Estamos falando de uma mera omelete superfaturado!
-Estou só agregando um pouco de publicidade sensacionalista ao produto!
-Não me convenceu!
-Não o havia convencido com o leite de texugo!
-Eu sei... Fazer a sociedade me notar saindo do seu requintado estabelecimento; mesmo me cobrando pelo produto mais barato está me levando à falência!
-Não se preocupe, a maioria dos meus clientes são ainda mais “carentes” que você!




Anderson Dias Cardoso.


domingo, 11 de agosto de 2013

Cuidando De Si.



Voltara, à despeito de sua ojeriza por viagens temporais; e dobrou cinco, dos oito apertados corredores da instituição, procurando encontrar a pequena despensa, que à esta altura já havia de ter sido improvisada em outro claustro.
No caminho havia terra vermelha salpicada pelo chão, não retida pelos carpetes da entrada, e que se formava em lama quando encontrava alguma das tantas infiltrações.
O ambiente alternava em luz e sombra... Muito mais sombras; pois que não se costumava substituir lâmpadas à não ser quando qualquer alma caridosa se incomodava por seus tropeços, e trazia um bulbo de casa!
Caminhava de cabeça baixa, captando os odores enjoativos de óleo reutilizado até a insalubridade, temperos fortes para disfarçar a putridão das sobras reaproveitadas, o mofo das roupas que pendiam sobre varais improvisados por todas as partes, ou as nuances de transpiração nas peças repetidamente usadas, a urina dos colchões ainda não volatilizada, o hálito de quem às vezes o parava tentando questionar...
Houve alguns, aos quais teve que afastar com empurrões... Reconhecia a maioria deles, sem contudo apreciar quem quer que fosse.
E foi quando se encontrou ali amuado, naquele metro onde receberia sua primeira repreensão, percebeu a satisfação dos que salvam alguma vida!
Sabia que se se deixasse ali sofreria inúmeros abusos, espancamentos e humilhação.
Sorriu à si mesmo, mesmo se encontrando em meio às lágrimas; e se tomou em seus braços, levando se pra si como filho adotivo!
Transgrediu com documentos falsificados, e subverteu a própria história...
Não sabia o que seria de si à partir daquele instante; mas nunca mais passaria por aquilo que haveria de passar...



Anderson Dias Cardoso.

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