domingo, 28 de julho de 2013

Teu Pouco Peso Pesa Um Mundo!



Já fora muito ativa, mas, quando lhe veio à razão, o espírito inquieto foi se apaziguando, até quase uma completa imobilidade!
Agora, em sua pré-adolescência, era revirada em suas fraldas imundas; sem qualquer protesto, e diante do mesmo episódio de um seriado antigo:
-É o seu preferido!-Dizia a calejada mãe, apercebendo-se das discretas respostas das pupilas da infanta, e o esboço do sorriso; explicando à visita da vez essa sua micro satisfação!
Levava então a papa à boca amolecida, e a criatura se babava em uma desajeitada mastigação, e logo a mulher a banhava com esponja úmida em água morna, secando delicadamente com toalha felpuda, e untava-lhe as juntas com pomadas.
Cobria daí, a finura das pernas, e a deixava ali, debilmente iluminada pelo espetáculo cíclico da já dita série; voltando de quando em quando para mudar o macilento corpo de lugar, para evitar escaras.
A porta permanecia, no entanto entreaberta; e enquanto a figura materna bamboleava seu cansaço para fora do quarto, a pequena parasita se remexia um pouco sobre seus colchões!
A preguiça era um tão delicioso expediente; não conseguia imaginar como não conhecesse outras farsas como a sua!                               



Anderson Dias Cardoso.

domingo, 21 de julho de 2013

A Arte Da Intriga.



Trinta e dois dias, e a empresa estrangeira entregava uma fachada respeitável, que convidava os dispostos à um negócio interessante!
-Seu segredo mais íntimo por um cheque gordo!
- Isso com o sigilo garantido por contrato, e certeza de amparo legal!
E a oferta se propagava através de promotores atraentes, de retórica profissional, e autenticados pelo sucesso de grifes famosas.
A curiosidade porém, era mais afrodisíaca do que vestidos curtos, e perfume masculino; e seduziu discretamente os mais ousados, sem contudo poupar os mais quietos!
E houveram filas, e discussões; mas a sala só acomodava uma alma por vez!
Diziam, os quais negociaram primeiro, que o tal segredo era consultado por um polígrafo, e valia tanto quanto a possibilidade de comprometimento futuro, e uma vez assentido, se assinava a papelada, e era recebido o montante.
Uns poucos desistiram e mantiveram um soturno silêncio; mas a maioria, carente de rendas, deixou o estabelecimento estampando sorriso largo e convincente!
À boca pequena se dizia que todos os tantos pagamentos eram de valor médio, nada formidável, mas o riso era mero disfarce competitivo com relação aos anteriores; e que ao entrar no lugar de consulta, uma máquina já os havia scaneado todos absurdos pessoais, sendo a chantagem entregue junto aos cheques, mas em simpáticas entrelinhas!
A empresa captou o que lhe aprouve, e deixou a cidade logo que a desconfiança começou à ebulir!
Uns diziam saber, outros já evitavam contato, e o clima geral era de acusação!
Fora tão fácil e barato consumir toda uma cidade!
-Um experimento bem sucedido!Mais alguns ajustes e podemos partir para as metrópoles!



Anderson Dias Cardoso.

domingo, 14 de julho de 2013

De Quando Resolvemos Nos Corromper...


Selecionou um bom pedaço, limpou o das larvas e liquens, deitou-o sobre os lombos e rumou satisfeito para os ermos onde costumava a esconder sua serena existência!
Refeito do cansaço, cheio de idéias pôs-se a se esmerar sobre o modesto toco de madeira, até que libertou a criança em seus pedaços.
Uniu-os engenhosamente, e curou a imobilidade do corpo com discretos pontos de articulações; mas o delicado ser jazia ali, sem hálito ou espasmo, circundado de ferramentas, polidores e vernizes, na pouca extensão do tabuleiro!
Era cena tocante, o velho velando seu “Magno Opus”, em um típico caso de pigmalionismo, esperando que um sopro errante animasse, e fizesse saltar para seus braços aquela criança construída...
O pranto sentido o encaminhou até o leve e atribulado sono, o qual o impulso travesso da criança o despertou com sobressalto.
E eis que a figurinha experimentava suas extensões, a voz, e todo conjunto de sua relativa nova “humanidade”!
Deu-se por satisfeito, e logo se acomodara aos pés do pai para prestar-lhe esclarecimentos:
-De onde veio tua alma, criança?
-Não importa, basta saber que assim como tu, era habitante de ermos!
-O que sabes desta vida?
-Tanto o quanto meus poucos minutos... Mas aprenderei contigo, meu pai!
-Podes sentir o frio do ambiente?
-Pouco; mas sinto toda a amargura de tua alma!
-Te chamarei Pinóquio!
-E assim serei chamado!
E o abraço macio do velho encontrou a resistência da madeira, e ainda assim houve ternura!
-Não te posso mostrar como uma criança aos meus concidadãos!
-Mostre-me então como um pequeno ídolo!
-E disseste que nada sabia dessa vida!
-Estava sendo modesto!As lendas dizem que narizes crescem quando a boca diz pequenas mentiras... Espero que não seja o caso!-Sorriu o garotinho de madeira, e fez gargalhar ao que o acompanhava!
Mostrou-o então à um vizinho, e este fez algumas discretas estripulias, sem, contudo dar à entender que era vivo.
Logo havia uma multidão, e a peça agora dançante se dizia um pequeno deus; seus crédulos já adquiriam todas as terras ao derredor, para lhe erguer uma cidade santa, e traçar um lucrativo itinerário religioso!
Pai e filho estavam satisfeitíssimos com sua recente sacralização, e com os gordos rendimentos advindos de seu culto!
De início comercializavam simpatia, pequenos milagres, profecias, bênçãos, livros, camisetas; e seus consumidores se diziam satisfeitos, mas a relação de produto e consumo foi se expandindo, e aos poucos a criança se autoproclamava “Vox Dei”, sendo seu pai o profeta de sua pequena, nova e disfarçada ditadura!
Das transformações que se seguiram houve muitas mortes, acusações de enriquecimento ilícito, imoralidade, dolo; às quais seus fiéis consumidores insistiam em desmentir; e foi numa destas sombras que encontrei a criatura, que agora fora feita criadora de seu criador, a lho oferecer os braços polidos cordialmente:
-Me deste a vida, e eu hoje te ofereço uma outra vida, meu pai!
-E de onde meu veio este teu espírito, meu querido Pinóquio?
-Agora já me podes chamar Mamon!-O olhar do menino irradiava no privado toda a maldade contida.
-Eu sempre soube meu filho!
E ambos gargalharam seu contentamento!


Anderson Dias Cardoso.

domingo, 7 de julho de 2013

O Negócio Dos Miseráveis.

A miséria do local havia endoidecido alguns, e, quando da precária feira que ainda restava aos barões locais, seu expediente era breve, seus lucros, interessantes, e seu desperdício beiravam a extravagância!
Diante da perecibilidade dos alimentos, e as distâncias das cidades, era inviável e tolo recarregar os veículos para reaproveitar as sobras não vendidas; então o que se via era o despejo de produtos sobre a poeira acumulada dos paralelepípedos!
Era logo que a tímida multidão dos necessitados serpenteava entre a classe média, ainda consumindo, para tomar para si as melhores sobras!
Mas isso fora no princípio, antes que o pudor subisse à consciência do povo, pelos insultos e deboches duns rapazinhos nobres que ocasionalmente visitaram o evento à escolher frutas que lhes melhorassem a textura da cútis, e cereais para regular os intestinos!
Hoje em dia a organização sofisticada, as roupas melhor conservadas, e o desfile das simuladas dignidades (Aliás, este era o nome do dinheiro circulante no meio) eram presentes na feira paralela um pouco distante das vistas da primeira, um tempo após a mesma, feita de descartes e interpretações!
E eis que vinham coletores, com suas barracas improvisadas de caixotes, lona, forrados por qualquer trapo pouco remendado.
Daí, formado os corredores desalinhados de esfarrapados feirantes os pulmões pouco treinados convenciam aos gritos, e as mão sujas realizavam o escambo.
-Um quilo de tomates por três Dignidades!
-Olha a batatinha freguesa!Só cinco Dignidades e meia Esperança!
-Olha a cabeça da piranha!Tá bonita pro molho freguesa!Vamos levar que tá barato, só uma dignidade e setenta e cinco Esperanças!
E aquele amontoado de esfarrapados se movimentava entre os comércios brigando por preços, imitando os maneirismos esnobes dos que compraram primeiro, trocando notas desenhadas à mão...
Era um espetáculo estranho...
Era um espetáculo triste!  



Anderson Dias Cardoso.

domingo, 23 de junho de 2013

Compulsões.

Era sempre preciso acertar algo; não que fosse necessário à maioria desapercebida, mas lhe aliviava as tensões compulsivas.
Os círculos de compasso com grafite apontado à gosto, as meias dobradas sobre os sapatos de verniz, o posicionamento dos talheres, os rótulos dos produtos alinhados e à mostra, o tempero correto dos pratos, os apertos de mão com sacudidelas, timing e pressão adequados, o arranjar cuidado das madeixas...
No trabalho, sua excentricidade se extrapolava, e se este refazia o refeito eram vezes e milhares!
Se o resultado demorava um pouco, era certo que a perfeição cobrava tempo!
Além das manias, se enriquecia de amizades, às quais tratava com seu esmero patológico, das quais uma, ainda assim o surpreendeu em delito de mentira!
Disse sentir-se deprimido na ocasião da festa; mas mandou presente e congratulações.
Ela lhe disse que ele mesmo lha contara com sorriso que não iria, mas isso em nada afetava amizades de longa data!
Ele se constrangeu, e o corpo dançou de vertigem...
Fugiu cambaleante para casa!
Na manhã seguinte, para reconquistar a confiança, resolveu transformar em verdade a mentira, e preparou o corpo e mente com toda sintomática pertinente; comprou todos os clássicos da psicanálise, marcou hora em analista, se medicou por conta própria...
Em poucos dias já não conhecia higiene, convívio e até responsabilidade!
Trancara-se em um desespero forjado , agora esquecido até de suas manias, menos uma...
Havia tornado perfeita a mentira, e agora ela o estava matando!



 Anderson Dias Cardoso.

domingo, 16 de junho de 2013

Pequenas Misérias, Grandes Negócios.

 Logo após o tilintar de algumas moedas na gasta caneca esmaltada o pedinte erguia seu fundo à vista, e espalmava a mão para reter um momento o doador:
-Por favor, poderia me ajudar à tornar minha profissão mais eficiente?
-Claro!Mas a pressa me constrange!
-Meu formulário é simples, o redigi junto à um esmolante o qual fora estatístico... Ele conhece as “manhas”!
-Então estão em uma parceria?
-Pensamos em formar uma cooperativa de miseráveis!- As unhas negras já haviam agarrado papel, e um toco de lápis.
-É óbvio que o fim de tudo é uma planilha em meu Mac, mas em expediente é bom manter o profissionalismo!
-Muito justo!-Respondeu o encabulado.
-Respeitarei sua privacidade, e pularemos nome, endereço, CPF e outros dados pessoais!
-Por favor!
-Comecemos:
-Visita sempre estas cercanias?
-Trabalho logo adiante, num escritório de contabilidade.
-Faz o percurso à pé, se utiliza do transporte público ou dispõe de veículo?
-Possuo carro, mas meu cardiologista me recomendou caminhadas leves!
-Filhos?
-Dois... Moram com a mãe, mas há possibilidades de não serem realmente meus!
-Complicado!
-Sim!Cada vez que pago pensão penso se estou sendo enganado!
-Seu tempo... Lembra-se?- O estrapeado apelou para a urgência para escapar dos lamentos!
-Claro!Claro!...Acho que preciso de um analista!-Desculpou-se com seu entrevistador.
-Posso te indicar um com doutorado!Encaminho-lhe ao seu container logo que encerrarmos a lista!
-Obrigado!
-Voltando às questões então:
-Quais destes sentimentos lhe vieram à mente quando me viu estender a caneca?
1-Asco, 2-Pena, 3-Indignação? Justifique sua resposta.
-Acho que as três! Seu cheiro me nauseou um pouco, mas me experimentei em sua situação, ao tempo que “nos” censurei por fazermos tão pouco e tratarmos - lhes com indiferença!
-Vocês até que fazem o suficiente, o problema hoje em dia é que o mercado foi saturado!Já não está fácil viver dignamente!
-Obrigado por me aliviar de minhas culpas!
-Disponha!
-Mas, Roberto...
-Este não é meu nome!
-É só um nome padrão, pra tornar a experiência mais pessoal!
-Paulo!
-Como queira!Paulo também soa bem!Então, Paulo... Quanto estaria disposto à ofertar pela pena alheia?Com Que freqüência, e qual o maior valor já desembolsou para ajudar à um desprevenido?
-Geralmente me desfaço das moedas, pois elas pesam no bolso, e tilintam irritantemente enquanto caminho; mas quando há só notas, meu padrão é dois, cinco e sete; geralmente pulverizados em três ou quatro doações entre meus vencimentos!
-Parabéns!Você é um cidadão que contribui acima da média!
-Obrigado!Já tive vontades de seguir uma carreira filantrópica!
-Algo independente, ou tem em vista alguma ONG?
-Gosto da força do corporativismo!
-E isso dá uma boa grana!Conheço um morador de rua muito bem sucedido, e que o pode prestar consultoria!
-Me anota então esse outro endereço!
-Claro!...Retomando a entrevista: Quanto acharia digno para um salário de um mendicante?E, por favor, leve em considerações os fatores de insalubridade!
-Hum... Creio que uns 900 reais seriam justos!
-Hum... -Anotou com um sorriso disfarçado.
-Finalizando eu repetiria a frase que me utilizei como abordagem, agora em forma de pergunta!
-O que eu faria para lhe tornar a profissão mais eficiente?
-Exato!
-Acho que olheiras de preocupação lhe cairiam bem, uma melhor localização, a aquisição de um ou dois cães, e talvez o cultivo de uma gangrena ou qualquer ferimento purulento lhe confeririam melhores rendimentos!
-Está tudo anotado!Muito obrigado por sua atenção, Roberto!
-Paulo.
-Sim... Paulo!E tome lá os cartões de meus indicados!Espero que sejam bem úteis!
-Não foi nada!Tome aqui meu cartão!Certamente logo você necessitará de um contador!



 Anderson Dias Cardoso.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...