quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Estas Tuas Crianças...


Negou-se a abraçar o filho morto, e a residente se manteve ali, com o pescoçinho e bracinhos pendendo comoventemente sob um abraço desajeitado de alguém que força a entrega do que não quer ser recebido!
-Tirem essa criança daqui!Eu não quero ver o rosto!Tirem esse maldito morto daqui!- A voz acompanhava o modular do choro, engasgava, se repetia enquanto a garota era arrastada do catatonismo de sua surpresa por profissionais mais experientes, sendo levada ao corriqueiro círculo de curiosos ávidos por reconhecer o motivo da histeria de mais uma mãe.
-A criança morreu, e ela disse que não; pediu que jogasse o corpinho no container de lixo hospitalar e logo começou a gritar comigo daquela forma!- o copo de água açucarada pendia sobre a displicência dos dedos; sustos e pequenas surpresas não careciam de tanto cuidado, mas situações como aquelas sempre rendiam interessantes conversas de intervalo.
A mãe voltou à normalidade quotidiana, amparada pela pensão deixada por pai militar, e logo visitava, em uniformes hospitalares, um e outro hospital, levando sempre consigo uma criança furtada e mudando-se sempre que a calma da cidade residente lhe fizesse vítima de suspeita.
Felizmente as notícias caminhavam mais lentas nas capitais em 1977!
E então ela podia embalar sempre um novo filho, sussurrando nomes aleatórios; banhar a criança sem olhar o sexo, e vestir de azul ou rosa, de acordo com seus humores!
Os rituais da maternidade a entretinham por alguns dias, até notar a descaracterização de recém-nascido, então era hora de procurar outro filho para a permuta.
E aos 73 anos Elisabeth sugava seu seio esquerdo, murcho e dolorido... Ela chorava de fome!
Amanhã seria Pedro, ou Rebeca ...


Anderson Dias Cardoso.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Quando Eu Me Via Em Você!


Depois da discussão o rosto da irmã lhe era emocionalmente repulsivo; e este foi grande problema, pois era seu próprio rosto.
A casa então era lugar diminuto para tamanha discórdia, e ela abandonou o convívio familiar e errou até encontrar lar e emprego.
Progrediu por muito esforço e tentou apagar o passado de suas feições.
Comprou boca nova, endireitou e branqueou os amarelecidos dentes, retirou as bolsas que lhe pesavam os olhos, arretou a adunquice do nariz, optou pela maquiagem definitiva, corte de cabelo da moda e luzes; contudo os espelhos teimavam em lhe mostrar seu rosto antigo, e quando resolveu-se por abolir e ignorar todo reflexo era em sonhos que se notava a mesma pessoa de sempre!
Havia gasto todo dinheiro, desconstruído sua identidade visual e despersonalizado a própria alma!
O sono recusava lhe a visita e a amargosidade de espírito lhe furtou todo paladar, foi só ai que acertou sua fiança com a única moeda que lhe restara:
O Perdão!



Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

A Mão Do Sindicalista.


Era sindicalista, como tantos, e como um em particular; logo que ascendeu àquele ponto em que se costuma se envaidecer sua destra resolveu-se por pender insensível, para um horror meio controlado de quem a possuía.
Então o homem usou de suas influências em todas as consultas, perícias, laudos; e, ao ser declarado inválido uma aposentadoria exorbitante foi estabelecida arbitrariamente, não fazendo jus a holerite ou contribuição!
Daí, de sindicalista à político a vida seguiu com toda obviedade e trânsito por círculos de influência e interesse, agregando com demagogia todo elemento humano para sua quase certa reeleição.
Curiosamente a mão doente segurava em bailes e eventos a taça, apertava outras mãos, e pagava propina!
Quando interrogado, confrontado, ou acusado por ostentar uma mão saudável onde devia haver um membro mirrado pela doença, o deputado sorria e dizia que a peça havia sido voluntarioso caso de “síndrome da mão alheia”, da qual havia conseguindo em análise uma concordância.
Agora lia seus pensamentos, e lhe servia por solidariedade tudo que carecia!
A psicologia, tornada em desculpa, tornara obsoleta a amputação de dedos com motivos de picaretagem!



Anderson Dias Cardoso.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Doutorando Em Músicas De Acasalamento.


É bem sabido por todos, ou quase todos, que os governos e poderes se utilizam da transgressão de significados para confundir e dominar intelectualmente e ideologicamente seus povos, assim como já vimos no clássico 1984!
No meu doutoramento coagido em “Músicas de Acasalamento”, que anda ocorrendo por relações de cunho empregatício com pessoas bacanas porém, de gosto musical duvidoso eu pude notar o potencial bélico disponíveis em flashcards e Mp3 das massas!
É claro que esse tipo de “arte descartável” tem uma função menos recreativa do que parece, e sua real intenção é o embotamento intelectual por conta da repetição, da já citada transgressão de significados e êxtase sexual, dos quais posso comprovar empiricamente a verdade e potencialidade desse fato, desde que meu subconsciente tem sido condicionado a atraiçoeirar-me e me diminuir à processos meramente vegetativos de forma que as palavras não detém mais sua multiplicidade de significados!
Por exemplo, quando qualquer veículo, orgânico ou não, dispara aos meus ouvidos a palavra "pai" toda a gama representações de autoridade, proteção, suprimento, e outras interpretações abstratas, poéticas e pertinentes colapsam e meu cérebro convulsiona em uma cantilena agressivamente desafinada, dissonante e repetitiva:
“-...no fusquinha do papai!Pai!Pai!Pai!Pai!Pai!
Ontem minha esposa me pediu auxílio com a limpeza do soalho, e a mente recomeçou o looping reducionista da palavra chão em ritmo e batidas de funk, e assim é com todo parco vocabulário gritado pelo radinho do Paraguai em meu horário comercial, de segunda à sábado!
Como toda “letra” tem conotação sexual algumas palavras tornam toda alma feminina em “cachorra”, “tchutchuca”, “novinha”,alteadas para além da potência dos meus fones de ouvido e assim tem se assomado em tentativa de me assombrar com promiscuidade e lascívia desagradáveis, então eu forço o equalizador, ajusto o aparelho às cavidades auriculares e tento voltar ao mundo ao qual me delicio, volto a prestar a atenção à cadenciada leitura auditiva do livro do dia...
Recobro ai um pouquinho da minha humanidade furtada.


Anderson Dias Cardoso.

sábado, 26 de janeiro de 2013

O Sabor Dos Pratos.

Tendo nascido com uma leve anomalia na região do tálamo tudo que podia apreciar dos pratos que lhe garantiam a sobrevivência eram as formas, cores e texturas, já que não havia sabor ou mesmo qualquer memória gustativa que lhe referenciasse os atrativos que deviam haver em bom prato de comida.
Comia também por conveniências sociais, sempre disfarçando a insipidez do que provava com elogios coerentes retirados de percepções, impressões e expressões dos que o acompanhavam, procurando evitar incômodos questionamentos à respeito de sua inaptidão em perceber as sutilezas da culinária e tempero.
No entanto, era em sua casa que as recordações dos cuidados da mãe faziam operar a transformação!
Dela haviam memórias impregnadas de sinestesia, e quando fechava os olhos podia sentir a quentura do amor ocupar os espaços materiais e emocionais do micro universo a que se resumia aquele instante!
Daí retirava do banho-maria a já gasta mamadeira cheia de alimento processado, e, ao postá-la entre os lábios o coração emulava o que a mente achava ser sabor, e então o homem deglutia com o mais sincero sorriso todo aquele prazer!


Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O Direito Do Insulto.



Não fora firmado contrato algum, ou acertado em conversa qualquer procedimento dos que agora eram corriqueiros; mas tudo começou quando uma suposta mão generosa lhe entregou um maço de notas graúdas, e repetiu a caridade até se tornar rotina.
Então caminhavam juntos, e, estranhamente o agraciador passou à uma agressividade verbal incomoda, mesmo às vistas dos que recebiam lhes como visita, ou os que partilhassem uns corriqueiros momentos de insultos dos quais o pobre homem já se acostumara, e ao parecer da maioria; ao que fustigava com palavrões, não lhe eram menos que prazeroso.
E o agravado pranteava e implorava que cessasse a afronta, batendo freneticamente a cabeça nos sólidos mais próximos, e arrancava todos fios quanto sua força lho permitia.
Dos que compartilhavam amizades poucos restaram, e eram parcimoniosos em convites e encontros com os tais problemáticos, e num destes dias um inquiriu ao que sofria o dano por que se curvava diante dos insultos!
-Quando grita, quando me xinga, quando me ameaça com os punhos; o que é isso? Me basta uma cena, uma interpretação para lhe acalmar as sanhas já que sabe que acho o orgulho uma coisa fora de moda e funcionalidade!
Não me importo com palavras... Elas ressoam conforme a disposição da alma, e a minha não reconhece o bem ou o mal de palavras e atos, já que tudo é tão transitório!É tudo tão vazio de significado quanto o dinheiro que me põe à mão, e que me compra sem lastro a comida e conforto aos quem sirvo de arrimo, e que não entendem que na vida tudo é vaidade!


Anderson Dias Cardoso.

domingo, 6 de janeiro de 2013

A Sedução Visual.



Não era sinestésico, as cores não saltavam das superfícies se enlaçando às músicas, ou os números e faces se tornavam sabor, mas na particularidade de seus gostos havia o gozo endorfínico do contato com o com as belezas e feiúras que lhe apraziam!
E os olhos viciados antecipavam os caminhos, sempre perscrutando imagens para lançar da retina à alma e transformar em espasmo, perplexidade e sorriso a codificação segregária do aprazível mundo que lhe era pertinente!
E então havia magnetismo irresistível nas mais variáveis formas, ou uma patologia incurável  nestes tais desejos!


Anderson Dias Cardoso.
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