quinta-feira, 12 de abril de 2012

O Desapego.


Cruzaram-me o DNA de ephemeroptera e gatos para me ensinar o desapego; e eu visitava aqueles remansos para recolher a evolução da ninfa em animal bem composto, mimoso, ainda que sem aparelho digestivo.
Eu esperava paciente o acasalamento para oferecer meu afago, e logo que a criatura se apartava de seus deveres biológicos (que me garantiam outros amigos), se enroscava ronronante em minhas pernas ainda curtas.
Eu amava aquela criatura hibrida até que sua fragilidade lhe curvasse a cabeça.
A preocupação de meus pais sempre me dizia:
-Cada dia um animal; cada animal, um nome!
E eu prossegui toda minha infância enterrando amigos; levando no peito um imenso cemitério!

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 8 de abril de 2012

O Agiota.


O ápice de sua cobiça e ganância veio ao descobrir a usura, em valores de mercado inflados pelo desespero dos carentes.
Mesmo começando com modéstia soma, sua avareza e perspicácia o levaram à organizar-se em grande quadrilha, que realizava desde cotações até cobranças violentas de qualquer quantia.
A garantia de muitos era a possibilidade de alguma fratura, ou subtração de objetos equivalentes às dívidas; e em raros casos, a vida respondia pelo preço.
Um pobre homem foi avisado que mesmo o pouco que tomara (o equivalente à não mais que um dia de serviço, para suprir o vácuo de três ventres) seria recebido de volta, acrescido de suas taxas de contratação, e juros sobre juros.
Ele prometeu honrar sua dívida; infelizmente a pobreza não o permitiu; e a tolerância do credor o poupou até que o valor pudesse o escravizar por toda a vida, então lhe enviou alguns dos seus para requerer o ajuste.
A folha da conta mal acomodava a cifra, e o homem desfaleceu ao notar que não havia dinheiro para pagar, e que, a legislação moderna proibia a escravidão por dívida!
-Nada tenho para lhes compensar minhas despesas! Implorou o homem.
-Não se preocupe velho, pois, mesmo ao que não tem como pagar, paga!
E feriram gravemente o pobre em seus lombos, e, do requerido auxílio doença receberam “eternamente” seu quinhão!

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 1 de abril de 2012

A Solução De Um Estranho Apetite.


Não sabia ao certo se fora por ansiedade, distúrbio qualquer, ou se havia se desenvolvido como uma daquelas esquisitices não explicáveis tão inerentes de sua humanidade.
As mãos eram pequenas e mimosas, mas as unhas eram um convite irrecusável aos incisivos; e, na lentidão de seu crescimento eram sempre deixadas como restos vermelhos e inflamados nas pontas delgadas do membro!
Considerava-se pessoa tranqüila, ao contrário dos leigos diagnósticos; na verdade o que encantava era o sabor de si mesma, e fórmula popular alguma teve efeito maior do que transformar o que lhe era saboroso em irresistível!
Não se incomodou com seus hábitos até avançar na puberdade, e ser alertada que aos garotos importava muito a aparência das mãos; e logo então desfilava as mãos feitas em esmalte discreto.
Eram verdadeiramente lindas suas mãos, mas a compulsão muitas vezes leva ao crime, e logo desapareciam das redondezas uma ou outra afinidade, que era convidada à lugares ermos e, à ameaça de uma faca eram feitas as extremidades em refeição, e, faltando o cuidado de um estanque logo o corpo esvaia-se em sangue.
Foi se Clara, duas Anas, Júlia, Paula, Alice, e as suspeitas do populacho se perdiam em absurdos!
No dia da companhia de Renata o mesmo percurso foi feito, e a conversa simpática da menina a distraiu de qualquer preocupação até que esteve sob a ameaça da arma.
A extração foi como costumeira e os processos convenientes da morte já atuavam no corpo da amiga, e a garota sorriu triste o seu “sinto muito, sou uma pessoa doente!”, então, a palavra e o deboche da moribunda foram a liberdade de seu vício:
-Às vezes o dedo é mais rígido do que o papel higiênico!
Foi uma morte válida!Jamais desejou roer unhas novamente!

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Um Mundo Negro.


Vieram de súbito as mais terríveis tempestades solares, potenciadas pela já quase ausência da camada de ozônio, e então os filtros de fatores elevados não mais asseguravam a saúde cutânea, e os casos mais agressivos de melanoma saturavam todo sistema público de saúde.
A solução para os incômodos da parcela clara da população veio com a reengenharia genética que, pigmentando a pele de seus pacientes diminuía tanto os efeitos danosos quanto estéticos.
Gradativamente quase todas resistências psico-sociais foram vencidas, e já não havia um branco sequer que desfilasse o orgulho de sua pele envelhecida precocemente pelas ruas!
É claro que houveram movimentações inversamente racistas, e onde estas brotavam haviam de se comprovar a autenticidade de sua “raça” para que não fossem molestados!
Diante de uma negritude quase absoluta a discrição era a segurança dos opressores de outrora, e estes logo pegaram o jeito!
Alargaram-se cirurgicamente muitas narinas naquele tempo, e tantos cabelos foram encrespados, e a capoeira e o samba alcançaram a predileção quase absoluta!
Naqueles dias, eu perguntei à um conhecido racista pelo seu nome, e ele me disse:
-Pode me chamar de “Seu Nego”!

Anderson Dias Cardoso.


domingo, 25 de março de 2012

A Fada Do Dente.

Disseram-lhe que o dente vacilante valeria para a Fada uma nota graúda, depois de tanto insistirem em uma extração de boa vontade; e o garotinho pesou o sacrifício em um silêncio calmo por dias.
Com tal relutância o valor passou a ser chacoalhado à vista sempre que se encontrava diante da parentela como um exemplo tangível do que a figura folclórica ofertaria, e ele sempre apresentava seu dente dançante em um sorriso desconfiado.
Certa feita a tal fada mandou dizer que aumentava em muito o valor, mas a verdade era que era pela angústia do ranger da peça solta em boca alheia; e o garoto compenetrou-se inda mais, até o dia em que ouviu-se um grito no belo quartinho montado:
Os olhos do pequeno estavam mais do que marejados, e o travesseiro, ao ser levantado, abrigava uma fileira ensangüentada de dentinhos de um inocente!

Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Um Veganista!


- Convicções são vendidas por bem pouco e a consciência se acomodou à carroceria, embarcada entre porcos que encaminho ao abate.
-O salário ao menos devia oferecer dignidade, ou compensar o valor de meu diploma de biólogo, e uma vida inteira de militância...
-O sol aquece o estrume, e o vento sopra às narinas seu incômodo, mas o que entristece é a pouca, e tristonha movimentação destes animais obesos- Resmungava consigo mesmo.
-Devia deixar este maldito emprego!- Argumentei com o mais próximo, e me consolei com o olhar de “quem” entende, de uma raça de organismos de inteligência privilegiada, mas me lembrei que logo seu couro seria estendido sobre algum solado, e seu corpo forraria algum prato calórico.
O monólogo não se transforma em diálogo quando um interlocutor grunhe.
- Maldito veganista, levando sua própria ideologia ao matadouro!- Imaginou a desaprovação que viria, caso houvesse um fio de consciência no condenado.
Retirou uma cenoura do bolso, e agradeceu à Deus por ter o que por à mesa, e também, por não já não existirem  dinossauros.

Anderson Dias Cardoso.

sábado, 10 de março de 2012

O Leiteiro.


Bem cedinho fazia soar sonora buzina, e todos se retiravam de seu conforto para fazer fila ao redor da caminhoneta; e receber, em panelas engorduradas, uma medida seca de leite, e outros derivados laticínios.
O litro sempre colhia vento de seus galões, e o emborcava à freguesia, sob olhos muito satisfeitos com sua farta gordura invisível, e um provável gosto encorpado; ao passo que cédulas e moedas, também fantasmas, eram entregues ao dono do auto, e este se ia, farto de seu muito nada.
Um outro olhava estas trocas, meio metido entre cortinas, estampa confusa no rosto, se repetindo dia à dia em tormento de pavor!
-Povo estranho!
Tentou negociar certa vez com um vizinho, mas este gritou “falsidade”! aos irmãos, quando ofereceu seu preço em mão nua, recolheu então a destra, e estes lo tiveram como suspeito...
E o leiteiro ia e vinha; e a loucura continuava, para seu inconfesso desespero.
Seria a figura algum sacerdote?
Seria um simbolismo de sociedade secreta?
Seria o leite da vaca Maltéia, ou o vinho de Dionísio?
Não suportaria mais um dia daquelas meditações doentias; se mudaria para um canto mais salubre; para vizinhos que ao menos, bebessem leite de verdade!

Anderson Dias Cardoso.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Amores Como Latas de Ervilhas.


Havia trocado seu amor por uma lata de ervilhas, mas a desfeita não foi tal qual a de Esaú, onde ao menos havia fome; antes, foi despeito de desapego!
Postou o troféu da indiferença numa prateleira de condimentos, o que dizia muito por não cozinhar, e lá ela esteve, como um ajuntamento de poeira e tecidos aracnídeos; contas verdes de sabor vulgar e valor deveras acessível.
Era o amor de Maria, ou Ana... Talvez Patrícia, ou Carmem; mas sentimentos não se escrevem em rótulos, e, quando compramos, toda marca tem o mesmo nome.
Num dia de festa lhe falhou a despensa, e se  pesou o peito um pouco, logo imergiu seu sentir num caldo; e o serviu, com coração leve à uns poucos ventres amigos!
Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Uma Barganha.

E eis que o Demônio lhe anotava os pedidos na rota caderneta.
-Confere: um quarto com banheira, um sabonete, um pente resistente para desemaranhar as madeixas, dois barbeadores e uma garrafa de aguardente... Quase se desculpava por pedir tanto.
-Um papel e caneta, para algum recado?
-Para que?Devo causar mais ainda mais dor e vergonha?
As palmas o levaram para o canto desejado, e seu ritual de limpeza seguiu-se à uma última embriagues, e o corte fino da navalha fez deixar do corpo todo sangue.
-As barganhas são mais excitantes que acidentes! A trapaça nos cai melhor do que a violência- segredou alguma voz nas sombras.
-E são as sepulturas que me acolhem os maiores tesouros; debochou um outro escuro, ao pé da cova recém cavada.

Anderson Dias Cardoso.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Meias Verdades.


E dizia-se do velho ter suas carnes vestindo um esqueleto de ouro, além de seu dom de profecias, mas sua aparência e sabedoria em nada causavam espanto, e agora, depois de tanto tempo de seus êxitos poucos transpunham tantos espaços para alguma consulta.
O homem, encolhido em sua fragilidade dizia dos dias, dos segredos, e dos mistérios à quem se dispusesse ouvir.
-Terás um novo amor!
-Um filho, não uma filha!
-Um grande amigo te trai!
-Serás próspero em tua empreitada!
E então, toda profecia caía por terra, e toda visão terminava em engano...
Alguns ainda criam, e, dos que houve desprezo uma multidão rumou para desfazer o “tropeço”.
Foram armados de paus e pedras, e pediram prova da veracidade de suas previsões, mas o homenzinho falhou em todas tentativas, e a multidão se lançou à violência e quebrou, e rasgou sua miudeza em pedaços.
Ouve um instante de silêncio e espanto!
Se as profecias eram falhas, ao menos os ossos eram realmente áureos!

Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Mutações.


E lá estava nu, averiguando todas as mudanças corporais através de um espelho de tamanho respeitável.
Haviam lhe desaparecido todos orifícios excretores, todo pêlo do tronco, e até seus negros mamilos; tudo em curto espaço de tempo.
Sentia-se muito bem, no que dizia respeito à sua saúde, e pelo que entendera de sua nova fisiologia seu intestino tivera seu formato alterado para um processamento cíclico, seus rins haviam aumentado de tamanho, assim como fígado; e agora se especializaram em reciclar-lhe os detritos, antes, expelidos.
Todos estes processos se resolveram operar em sua andropausa, num momento solitário onde deixara de sentir necessidade de qualquer companhia além das estritamente necessárias.
Não lhe agradando muito as hipóteses darwinistas, culpou toda a comida processada que lhe havia facilitado a vida.
-Sou uma maravilhosa mutação que aproveita toda energia ingerida totalmente! Apesar de emasculado aposto que meu corpo encontrará outro caminho para a reprodução...
-Seria este o caminho para um futuro de escassez...?-
Triiiiiimmmmmmmm!Triiiiiimmmmmmm!-Soou o celular no bolso da calça pendurada, certamente intimava ferozmente para que voltasse ao batente de sua escravidão.
Vestiu a roupa, e deixou o banheiro com a convicção de que “essa raça” não era merecedora de seu dom.


Anderson Dias Cardoso.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Aos Amigos Que Frequentam e Visitam Meu Blog!

Me mudei esta semana, de Goiás para o Mato-Grosso e estou esperando instalarem net aqui onde estou, mas acho que semana que vem tudo se normaliza por aqui!
Queria agradecer cada comentário, cada visista,e até o selinho que recebi, e que por problemas de conexão não vou conseguir postar aqui!Agradecerei nominalmente cada um quando tiver minha conexão de volta, assim como sempre faço aos que me prestigiam!
Abrigado por tudo!

Abração bem apertado, e, sinceramente, estou com saudades!

Anderson Dias Cardoso.

Uma, De Algumas Metáforas.

O nascimento foi tão estranho quanto em todas as mitologias, e seu corpo fluiu viscoso do ventre da grande árvore, que, por ventura nem era Yggdrazil!
Era então sem existência separada, uma massa de potenciais quase infinitos no fundo do raso coletor, e então, o seringueiro entregou para a manufatura o leite para se tornar primeiramente gamela.
Parte grande foi para a indústria automotiva, outras foram utilizadas como peças isolantes, pontas de êmbolos, e materiais esportivos...
Da que foi comprada para a transformação de sua concentração em borrachas escolares foi formada em um exército de homenzinhos engraçados, de sorrisos satisfeitos e boinas pendendo aparentemente frouxas de suas cabeças.
Uma, das tais criaturinhas me foi o único direito de escolha, dentre tantos desejos de criança; a pobreza permitiu-me poucos agrados, mesmo tendo uma mãe de coração generoso; e então levei da papelaria o pequeno em minhas mãos, como coisa viva e falante.
No apego à minha diversão me neguei à retirá-lo de seu invólucro plástico e, ainda, adicionei-o aos meus poucos brinquedos até o dia em que os restos de borracha sem forma se acabassem.
Apaguei então algumas linhas, e lá se foi a botinha esquerda de Augusto!
Poucas tarefas depois e seus desgastes e amputações não mais me emocionavam.
Não me lembro quando os restos da pequena boina se desfizeram, apagando a negrura do lápis em algum rascunho...
Pouco depois, minha mãe varreria, também sem remorsos, seus restos para fora de casa. 

Anderson Dias Cardoso.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Sobre Viagens No Tempo.

Depois de construída a máquina de viagem temporal resolveu-se por visitar sua vida futura, e ao avançar quarenta anos descobriu que já não era.
Angustiou-se um pouco, mas, pela importância da descoberta viveria em documentos honrosos até bem além de qualquer possibilidade e, retornou conformado à modestos 18 anos, para então descobrir se em outro corpo!
Em toda sua estranheza o corpo era decrépito, falto de dentes e doente, e quando perguntou à sua família à respeito do acontecido responderam que foi a solução para uma doença repentina e devastadora, e a forma velha era a única disponível naquele momento de morte.
-Trocaram-me o corpo?
-Sim, pelo direito de sua Máquina do Tempo.
-Mas ainda tenho os projetos!
-Verifique que suas gavetas estão vazias, de sua própria mente, naquela existência ali foi obliterada à esta altura a idéia de que algum dia tivesse construído tal máquina!
-Fale carcaça velha!Diga-me o que sabe sobre viagens no tempo!
-Dr. Who!?O meio humano gemeu a embaraçosa resposta.
-Maldição!Imbecilizaram-me e se aproveitaram da abreviação de minha vida!
-Senhor L.?- Uma infinidade de vozes se alçou às costas do aborrecido, e os violentos uniformizados da Corporação Z de tecnologia o forçaram à entrar em seu invento, e após o deixarem no ponto onde havia iniciado foi abandonado.
Seus papéis haviam sido confiscados legalmente, e então continuou à ser ninguém... E ainda o seria no futuro...

Anderson Dias Cardoso.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O Homem No Telhado.

Tomava sob os braços diariamente a pesada escada e se ia para um telhado qualquer.
As vizinhanças esperavam sua visita maltrapilha, os portões, apesar dos cuidados, rejeitavam trancas e ele perseguia caminhos diversos à cada dia.
Invadiu uma casa com animais mas, amigo como era, transformou os rosnados em ganidos amistosos e, depois de muita festa passou ao ponto de acesso ao céu do dia,riquíssimo de luzes.
Sempre haviam olhos, e estes, no respeito de sua crença se mantinham disfarçados por cortinas ou arranjos, e ainda que com a fé trocada se benziam em uma rudeza de entendimento.
Dizia-se que Elias fora assunto aos céus em uma carruagem de fogo, deste se esperava a visita de espaçonaves e sondas estrangeiras, e no movimentar do pequeno santo muitos olhos o acompanhavam.
O dia estava característico, a abóbada muito riscada de asteróides e uma lua que afrontava a majestade terrestre, e o homem desceu as ruas de sua predileção para buscar contato.
A casa, arruinada pelo tempo se cobria de telhado frágil, e as passagens até a subida eram interrompidas por plantas daninhas e sons de rastejantes.
Ele se atreveu.
Os caibros cantavam ao seu peso, as ripas envergavam-se um pouco mais e quando encontrava o conforto de um lugar mais plano se entregava à um sono tranqüilo.
Naquele dia se podia tocar estrelas, e muitos assopravam divertidos o hálito de suas bocas e se riam das densidades das figuras que fluíam dos peitos na frieza da madrugada. Era a noite ideal para o rapto nos céus, e eles o esperaram.
A cor e quentura da manhã chegaram tão ligeiras, e com ela os pés antigos desceram do cimo e rumaram para o descanso pleno do outro dia, e pra espera de uma outra vigília negligente.
Subiria outra vez, e outra, e ainda outras tantas em noites igualmente perfeitas, e logo perderia seu misticismo pela rotina de suas esperanças.


Anderson Dias Cardoso.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Lunáticos.

...E o homem continuava seus disparates, segurando a sacolinha encharcada como suor dos pastéis:
-O mundo acabou à três dias, e somos poeira de estrelas vagando pelo vácuo, procurando por zonas gravitacionais intensas para nos reagruparmos e formarmos novas ordens cósmicas.
-Uhum- O “sócio “de poltrona notou que contrariar alterava a harmonia da conversa, e então, pagava pelas considerações com as menores porções de conversa possíveis.
-A entropia disse que chegaria, ninguém acreditou e olha ela operando com seus desarranjos até que tudo se volte à grande massa que ira ser o recomeço de outras realidades muito semelhantes à estas!
-Eu sei! Foi a resposta apática de seu triste adjacente- Sou uma super-nova, não lhe disse!
-Você!!? No máximo, uma nebulosa, ou pulsar!Mas com tamanho desarranjo universal, aposto no segundo!
-Posso ser então um buraco negro, se preferir!
-Olha só! Não lhe disse que me tomava por maluco!?- A entidade cosmopsicodélica se ajeitou em seu lugar, e espremeu nos dedos o embrulho, fazendo brilhar os dedos finos.
-De forma alguma! Apesar de vivos, poucos astros têm consciência perfeita de si mesmo, ou de suas órbitas!
-Discordo, pois conhecia muito bem minhas rotas!
- Eras o sol!
-Não se expresse com tanta voz, não atraiamos a inveja de outras forças... - Segredou o maluco arrancando do pacote um viscoso salgado, e oferecendo o restante ao companheiro de diálogo, que recusou polidamente.
-Nada mais importa; eis que somos um buraco negro à tragar um restinho de matéria de péssimo sabor, e uma suposta nebulosa debatendo em encontro casual à respeito da irrelevância do já consumado destino de todas as existências.
-Aquele não é seu ponto?
-Ah!Muitíssimo obrigado!Quase perco o endereço!
O estranho sol humano desceu do ônibus, e à distancia pareceu muito mais uma banal criatura humana.

Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O Absurdo de Uma Maternidade.

Sempre gozou de boa saúde, e agora, na primeira metade de sua trigésima data resolveu-se por engravidar.
Levaram em consideração a falta de metade de suas porções; de seu olho, seio, braço, perna, e outros aparatos normalmente duplos e que naquele corpo insistiram em se desenvolverem únicos.
O útero se estendia em uma trompa solitária, porém frutífera como uma árvore de muitos pomos, e quanto ao músculo cardíaco e o pulmão; foram aprovados clinicamente para suportar uma outra ou mesmo, duas vidas.
Consultou alguns perfis de cadastros de doação para escolher possíveis características à criança e, quando lhes introduziram-lhe as sementes ao ventre já tinha a imagem perfeita do corpo pequeno que já era desde então a completude e satisfação de sua feminilidade torta.
A cria saiu-lhe esperta, e adiantou o grito à palmada e; no contar de membros de nada deram falta, mas foi quando o choro veio em dois timbres que se denunciou:
Eram dois meio corpos perfeitos, duas crianças em uma!

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Amor Batráquio.

Encantara-se sem dúvida com a estampa do anfíbio.
-Tens um amarelo tão vivo que sinto vontade de o ter em minhas mãos!
-Visse minha beleza verdadeira, meus tons trigueiros de madeixa, e o azul profundo de meus anteriores olhos se assombraria ainda mais!-Respondeu o animalzinho, contra a natureza de sua espécie.
-Tão singular, e ainda falas!-A mulher cobriu a boca rosada com as delicadas mãos leitosas e se afastou uns dois passos.
-Falo, pois era príncipe!
-Diga-me o nome, conheço os todos!
-Sou príncipe de longe, provavelmente não me conheces... Vim com as cheias do rio, e estou aqui à uns bons dias!
-Deves então ser Alberto, o potente, do Reino dos Sete Caminhos! O único filho dos reis que sei ter desaparecido!
-Acertaste!Que boa cabeça a tua! Não tivesse me enfeitiçado certa bruxa eu a ofereceria um assento ao meu lado no trono, e um lugar aquecido em minha cama!
-Não poderia ser meu senhor! O meu dote não alcança tua nobreza!
-Mas certamente que sua beleza a ultrapassa!
-O elogio de um rei à uma camponesa devia ser crime, quando desperta com suas delicadezas tantos sonhos!
-Mas sou apenas um sapo agora!
-Ainda assim, és um sapo deveras galante!
-Ah!Tivesse braços compridos para enredá-la em infinitos carinhos!
-Ah!Tivesse eu o antídoto para teus pesares!Gozaria de teus carinhos e seria- lhe por esposa!
-Mas tu podes!
-Não sendo nada escandaloso... -Os olhos inocentes se perturbaram um pouco.
-É coisa discreta, ainda que necessite muita coragem!
-Diga logo, que me angustio!-As mãos se contorciam, tentando segurar a razão.
-Um beijo!
-É coisa demasiada nojenta!
-Mas o galardão, e minha beleza logo lhes serão sabores melhores à tocar-lhe os lábios!
-Minha boca sangra um pouco, minhas gengivas são delicadas!
-Minha condição é delicada!Ande mulher, este couro frio está à me congelar!
A camponesa pesou em mente todos os benefícios prometido, tomou a criaturinha entre seus dedos, e a apertou bem em seus lábios, fazendo valer em muito seus serviços.
Sentiu a viscosidade umedecer-lhe a boca.
-Pronto, agora transforme se em homem...
Ambos esperaram, e esperaram; até que a mulher se desfizesse em convulsões e espasmos.
A dispnéia diminuiu lhe os pulmões, e ela escumou até a morte!
O tal príncipe, ainda vestido no corpo batráquio, assistiu à boa distância tal espetáculo, e disse consigo mesmo que não haviam mais bruxas estúpidas!


Anderson Dias Cardoso.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A Vingança Dos Pequenos.

E eis que novamente o imenso passaria a destruir campos e vidas; este, e outros dos quais surgiam no repente reivindicando o que não lhes pertencia, e então, haviam gritos e às vezes diálogos dos grandes e tudo se acalmava outra vez.
Outro dia quente, e ele nos surpreendia ao cobrir com o corpanzil todo o horizonte e pisar montanhas.
Seus passos se faziam sentir, junto ao tremor do medo em corpos tremelicantes.
Moveu um carvalho com as grossas solas de seus pés; negou as às estradas espaçosas, pois a zombaria dos passos largos em diminuto mundo dizia muito à respeito das barreiras, ou tentativas de lhe impedir o avanço.
Baixou-se num lago, e sorveu suas reservas num gole e, para completar a desfeita, fez chover urina sobre telhados e campos.
As mulheres correram primeiro, não muito antes depois de seus homens, e quando cada qual se guardou na frágil seguridade de suas  casas as pernas do colosso passaram ao largo.
-Ele vai aos currais!
-Melhor que nos furte alguma rês, do que desfilhe nossas crianças.
Estas, e todas outras palavras foram sussurradas em ambientes de pavor enquanto o gigante se dobrava e uma enormidade de mão colhia um pobre bovino, que se debateu até descer pela boca faminta.
O gigante girou a face para expor a satisfação de sua vitória aos pequenos, sorriu, e no instante de seu brado sentiu o animal travar-se em sua garganta.
Tossiu,tossiu,tossiu...
Os dedos que tentaram voltar o corpo agora rasgavam o pescoço.
Uma giganta chegou à acudir; mas a vaca de plástico foi a derrota do poderoso...
E este tinha oito anos.

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Rapunzel...

...E da caminhada de dias, o frio das chuvas e das surpresas de qualquer perigo o levaram ainda sim ao altear da torre sem portas.
A hera vestia justa suas pedras, e toda árvore se envergonhava de sua estatura diante do corpo mais robusto da construção, onde a leveza dos pássaros ousava perscrutar janelas e espaços.
Ela permanecia na espera, de olhos atentos às clareiras e fogueiras que se aproximassem de sua solidão e de forma alguma ignorou o som do casquear que cantava suas esperanças não longe de suas impressões.
Fingiu surpresa, após um tempo razoável voltou os olhos para fitar o amor que chegara, e eis que luzia suas cores à força do sol.
Ela, angustiada, lançou lhe a cabeleira para que a alcançasse o abraço, e ele fitou o amontoado dourado que era convite ao compromisso.
O príncipe tateou-lhe os fios, e o exalar de seus aromas lhe brincou deliciosamente às narinas; perscrutou na densidade do trançado por vestígios de vidas, ou caspa, mas ela se mantinha limpa, com esforços que não se podia imaginar.
Ela acenou sua pressa, e ele, seguro em sua firme maciez, se firmou em algumas pedras ascendentes.
Ela sorriu para sua liberdade e matrimônio; ele se enamorou pela gravidade.
O pequeno corpo foi puxado da janela com violência e riso, e quando se quebrou na densidade do soalho ainda tremeu por tempo de três suspiros.
A mão do amante deitou fora a carapaça reluzente, e sacou da algibeira a navalha.
Não por acaso suas perucas eram tão caras!
   
Anderson Dias Cardoso.
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