domingo, 29 de janeiro de 2012

Amor Batráquio.

Encantara-se sem dúvida com a estampa do anfíbio.
-Tens um amarelo tão vivo que sinto vontade de o ter em minhas mãos!
-Visse minha beleza verdadeira, meus tons trigueiros de madeixa, e o azul profundo de meus anteriores olhos se assombraria ainda mais!-Respondeu o animalzinho, contra a natureza de sua espécie.
-Tão singular, e ainda falas!-A mulher cobriu a boca rosada com as delicadas mãos leitosas e se afastou uns dois passos.
-Falo, pois era príncipe!
-Diga-me o nome, conheço os todos!
-Sou príncipe de longe, provavelmente não me conheces... Vim com as cheias do rio, e estou aqui à uns bons dias!
-Deves então ser Alberto, o potente, do Reino dos Sete Caminhos! O único filho dos reis que sei ter desaparecido!
-Acertaste!Que boa cabeça a tua! Não tivesse me enfeitiçado certa bruxa eu a ofereceria um assento ao meu lado no trono, e um lugar aquecido em minha cama!
-Não poderia ser meu senhor! O meu dote não alcança tua nobreza!
-Mas certamente que sua beleza a ultrapassa!
-O elogio de um rei à uma camponesa devia ser crime, quando desperta com suas delicadezas tantos sonhos!
-Mas sou apenas um sapo agora!
-Ainda assim, és um sapo deveras galante!
-Ah!Tivesse braços compridos para enredá-la em infinitos carinhos!
-Ah!Tivesse eu o antídoto para teus pesares!Gozaria de teus carinhos e seria- lhe por esposa!
-Mas tu podes!
-Não sendo nada escandaloso... -Os olhos inocentes se perturbaram um pouco.
-É coisa discreta, ainda que necessite muita coragem!
-Diga logo, que me angustio!-As mãos se contorciam, tentando segurar a razão.
-Um beijo!
-É coisa demasiada nojenta!
-Mas o galardão, e minha beleza logo lhes serão sabores melhores à tocar-lhe os lábios!
-Minha boca sangra um pouco, minhas gengivas são delicadas!
-Minha condição é delicada!Ande mulher, este couro frio está à me congelar!
A camponesa pesou em mente todos os benefícios prometido, tomou a criaturinha entre seus dedos, e a apertou bem em seus lábios, fazendo valer em muito seus serviços.
Sentiu a viscosidade umedecer-lhe a boca.
-Pronto, agora transforme se em homem...
Ambos esperaram, e esperaram; até que a mulher se desfizesse em convulsões e espasmos.
A dispnéia diminuiu lhe os pulmões, e ela escumou até a morte!
O tal príncipe, ainda vestido no corpo batráquio, assistiu à boa distância tal espetáculo, e disse consigo mesmo que não haviam mais bruxas estúpidas!


Anderson Dias Cardoso.
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