sábado, 21 de dezembro de 2013

Bang!



Meio maluco, mas ainda assim, um ótimo mecânico!Diziam que reconhecia defeitos automotivos pela ressonância do motor, toque à boca do escapamento, cheiro e gosto dos fluídos. Todo o processo parecia místico, ou instintivo, mas era assegurado por uma garantia assinada de seis meses!
O homem era barateiro, honesto, simpático; o que lhe confirmava a oficina lotada, além de ofertas de emprego nas autorizadas de renome. Era meio triste que logo após seu expediente este cerrasse as portas e se confinasse para desenvolver suas máquinas do tempo, moto perpétuo, desintegradores, bombas de antimatéria , vórtices de teletransporte...
As pessoas o questionavam, e ele confirmava que alguns aparatos já se encontravam em processo de requisição de patente, outros, ainda necessitavam alguns acertos, e alguns... Bem, ele havia dado como empresa impossível!
As pessoas zombavam nas entrelinhas, puxando-lhe a língua para lhe arrancar discretamente mais algum desvario, pois não havia profissional tão competente ou justo, que lhes coubesse no bolso.
Um dia, porém, algum desafeto o desafiou, e ele, meio sem jeito, apontou o carro que se movia na velocidade da luz!
Eles pediram para dar uma volta, e ele disse que, desde que não tocassem no botão vermelho tudo iria bem.
“Ainda não desenvolvi um sistema de freios, e orientação seguro!”
“Então o passeio será num comum Mustang 79?”
“Vocês ficarão deliciados com a maciez do motor!” E eles partiram sorridentes para a treta!
Andaram alguns quarteirões, e discutiam entre si uma reta decente para experimentar o motor, concordaram que havia uma rodovia federal próxima.
“A velocidade da luz... Qual é a velocidade mesmo?”- A pergunta parecia sincera, mas todos riram.
“299 792 458 metros por segundo...”-Sorriu a inteligente resposta.
“E, tudo isso só apertando aquele botão?”-E o homem avançou contra o painel, enquanto outros dois seguravam o mecânico, e controlavam o percurso.
Havia um caminhão no horizonte, em sua direção; e em segundos depois toda uma cidade foi varrida do mapa.
As autoridades cogitaram um ataque terrorista, mas não havia qualquer testemunha!




Anderson Dias Cardoso.

domingo, 15 de dezembro de 2013

O Pobre Frankenstein Suburbano!


Já havia lido o livro, meditado um pouco e decidido que devia palmilhar aqueles mesmos passos; no entanto, ninguém conhecia na área de medicina, ou mesmo traficantes de corpos ou vendedores de peças humanas à granel!
Consultou a sapientíssima internet, e ela o alertou de que havia chegado à cidade um decadente circo boliviano. Arrumou-se, tomou a caixa com suas economias, um táxi e logo estava às portas da lona!
Bom negociador que era perguntou as renda das últimas apresentações, calculou as despesas das viagens, consumo e imprevistos da trupe e estimou que a falência batia às portas.
O dono relutou, chamou seu conselho, mas juntos perceberam que “o fim era inexorável”.
O homem, então, partiu dali realizado; táxi cheio de anões em preço promocional!
De início, a idéia era dividir os pequenos, e os rearranjar com partes diversas em novos corpinhos mais ou menos harmônicos, mas o caso era que não possuía conhecimentos de corte, além de se lembrar um péssimo resolvedor de quebra-cabeças!
Perderam-se muitos nervos, cartilagens foram danificadas, tecidos esfolados, e, no fim, só conseguiu um encaixe mais ou menos decente para um conjunto!
Apressou-se em cozer, com os mais delicados pontos possíveis a um curioso, as partezinhas daquele novo serzinho.
O carregou com cuidado, deitou-o sobre o tampo da mesa que imitava granito; mediu as extremidades e, contrafeito, teve certeza que aquele homenzinho desbalanceado no mínimo, manquejaria!
“Tudo bem”, pensou consigo, “existem muitas boas marcas ortopédicas no mercado hoje em dia”.
Quanto ao tamanho, estava bem satisfeito! Era modesto, e agora, desconjuntado, certamente não repetiria o terror e violência do monstro original... Se bem que tomara emprestado um 22, para se garantir de qualquer possível eventualidade!
Desencapou então, com a faca de esquartejar, o fio da extensão. Tomou o rolo de esparadrapo para fixar o cobre sobre as têmporazinhas raspadas.
Tudo finalizado, ele se moveu para trás da pesada TV de tubo, e, desemaranhando uma porção de fios encontrou uma única vaga no “benjamim”.
Plugou-o, e logo corria para ver se o corpinho tremelicaria e o surpreenderia com o salto da vida. Já havia, inclusive, ensaiado a frase clássica para comemorar sua engenhosidade; mas antes disso o que o espantou foi a explosão, acompanhada por um característico cheiro de queimado! A casa era ponta de rede, e sempre havia desses problemas de variação de corrente:
”Devia ter ligado um no-break… Ao menos um estabilizador! Um fuzível provavelmente daria conta do recado”, analisou tardiamente.
Sentiu-se frustrado, e um pouco faminto. Despiu o avental plástico que trajava e calçou as havaianas para visitar a mais próxima panificadora. Necessitava urgentemente de um pão na chapa, e uma xícara de achocolatado.
Pensava, no caminho se havia alguma linha de crédito do governo para lhe financiar  outra meia dúzia de anões, e uma aparelhagem mais moderna.
Daí, finalmente construiria seu tão sonhado golen!


Anderson Dias Cardoso.
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