domingo, 19 de fevereiro de 2012

Uma, De Algumas Metáforas.

O nascimento foi tão estranho quanto em todas as mitologias, e seu corpo fluiu viscoso do ventre da grande árvore, que, por ventura nem era Yggdrazil!
Era então sem existência separada, uma massa de potenciais quase infinitos no fundo do raso coletor, e então, o seringueiro entregou para a manufatura o leite para se tornar primeiramente gamela.
Parte grande foi para a indústria automotiva, outras foram utilizadas como peças isolantes, pontas de êmbolos, e materiais esportivos...
Da que foi comprada para a transformação de sua concentração em borrachas escolares foi formada em um exército de homenzinhos engraçados, de sorrisos satisfeitos e boinas pendendo aparentemente frouxas de suas cabeças.
Uma, das tais criaturinhas me foi o único direito de escolha, dentre tantos desejos de criança; a pobreza permitiu-me poucos agrados, mesmo tendo uma mãe de coração generoso; e então levei da papelaria o pequeno em minhas mãos, como coisa viva e falante.
No apego à minha diversão me neguei à retirá-lo de seu invólucro plástico e, ainda, adicionei-o aos meus poucos brinquedos até o dia em que os restos de borracha sem forma se acabassem.
Apaguei então algumas linhas, e lá se foi a botinha esquerda de Augusto!
Poucas tarefas depois e seus desgastes e amputações não mais me emocionavam.
Não me lembro quando os restos da pequena boina se desfizeram, apagando a negrura do lápis em algum rascunho...
Pouco depois, minha mãe varreria, também sem remorsos, seus restos para fora de casa. 

Anderson Dias Cardoso.
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