sábado, 10 de março de 2012

O Leiteiro.


Bem cedinho fazia soar sonora buzina, e todos se retiravam de seu conforto para fazer fila ao redor da caminhoneta; e receber, em panelas engorduradas, uma medida seca de leite, e outros derivados laticínios.
O litro sempre colhia vento de seus galões, e o emborcava à freguesia, sob olhos muito satisfeitos com sua farta gordura invisível, e um provável gosto encorpado; ao passo que cédulas e moedas, também fantasmas, eram entregues ao dono do auto, e este se ia, farto de seu muito nada.
Um outro olhava estas trocas, meio metido entre cortinas, estampa confusa no rosto, se repetindo dia à dia em tormento de pavor!
-Povo estranho!
Tentou negociar certa vez com um vizinho, mas este gritou “falsidade”! aos irmãos, quando ofereceu seu preço em mão nua, recolheu então a destra, e estes lo tiveram como suspeito...
E o leiteiro ia e vinha; e a loucura continuava, para seu inconfesso desespero.
Seria a figura algum sacerdote?
Seria um simbolismo de sociedade secreta?
Seria o leite da vaca Maltéia, ou o vinho de Dionísio?
Não suportaria mais um dia daquelas meditações doentias; se mudaria para um canto mais salubre; para vizinhos que ao menos, bebessem leite de verdade!

Anderson Dias Cardoso.
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