domingo, 2 de outubro de 2011

Frágeis Existências.

-Não deviam ter queimado os livros e as profecias na Festa da Fartura; essa confiança temerária já secou as terras em volta e já amarelou nossas pastagens! Não tivessem os outros aceitado as palavras da velha louca e partido para o norte já se haveria deflagrado uma guerra entre vizinhos pela posse de nossos mananciais e campos!
-Cale-se companheiro, as águas ainda correm vigorosas e as novas valas de irrigação devem alcançar e sanar os locais áridos e ainda teremos espaço para expandir nossas culturas!
-Mas as profecias...?
-Um freqüentador de taverna não deveria se preocupar tanto com sua alma desde que haja caneca cheia bem segura entre seus dedos; entorne o liquido à boca e deixe que os religiosos realizem seu ofício por nós pecadores!- A voz de Matul se alteou para compartilhar o chiste com todos os bebedores, e a intensidade da gargalhada e a alegria da bebida desencadearam um riso que se reavivava com comentários não deixando morrer a graça. Foi uma noite agradável, e Puneb resolveu-se por trocar seu temor por mais bebida e logo descansou em sua cama com um sono vazio de sonhos e de poucos movimentos.
Samug ajeitou um pouco de lenha ao fundo do trenó, já era velho e não apreciava esforços e não projetava sua vida para além de mais alguns dias; era assim desde uns vinte e cinco anos, pessimista e preguiçoso.
-Noram, pegue ainda aquele graveto fino logo ali e venha, pois ainda tens que me prepara meu guisado!- Os dedos amarelados de tabaco apontavam uma peça de oito centímetros e de casca solta, ótima para seu propósito de iniciar uma chama.
Ele era um ótimo acendedor de fogões, talvez sua única habilidade e prazer.
A garotinha contava nove anos e era bem o oposto do pai, era o fruto de sua velhice e presente deixado por uma mãe também muito nova a qual se resolveu por procurar um mantenedor mais ativo e provido na terra de IPas. Ele a amava pela presteza em lhe fazer o que mandava.
A garotinha correu com fôlego preso na direção indicada pela ordem, estava contente como em todos os dias de sua vida e então se abaixou para cumprir a última tarefa no campo.
-Ahhhh!Pai, uma aranha!- O terror a levou ao colo do pai, que contrafeito a ergueu do solo com um esforço indesejado.
-Desça que eu já a esmago, Noram!-A garotinha se agarrou inda mais ao colo, e o pai andou dificultosamente até o ponto da fuga e ao revirar as folhagens com seu cajado viu se deslocar um enorme ser de quase um palmo com suas pernas vermelhas com dobras amarelas.
-Nunca vi uma destas!
-Mata ela papai!- Os olhinhos se cerraram dolorosamente e o corpo vibrava seu medo.
A criatura se comprimiu contra o chão, ameaçando o bote, mas o homem a esmagou primeiro.
Enrolou-a em seu lenço, sem se preocupar muito com o muco residual de seu último resfriado, resolveu-se dai por alongar seu percurso até o centro, à praça onde se encontravam ricos sabidos para lhes interrogar a respeito de sua descoberta.
As estradas andavam mais poeirentas nestes últimos anos então a garotinha sempre corria à frente do trenó evitando as partículas sufocantes, apanhava algumas flores e improvisava um ramalhete perfumado para se distrair. Ela nunca se cansava de caminhadas longas e aquela durou ao menos uma hora e meia.
A praça fresca foi o alívio para pai e filha, assim como o era para todos os ociosos da cidade que vinham se esconder do calor sob as imensas árvores moldadas de Obter, das quais eram sobrepostas e encaixadas para absorver o calor e luminosidade excessivas num raio de um quilômetro e meio, e sob tais sombras eram discutidas políticas locais, se liam pergaminhos e deixavam soltas as crianças para que se divertissem.
-Não, meu caro Samug, esta com certeza não pertence à região! Não tivesse a esmagado tanto eu a compraria para guardar nos meus óleos conservantes!
-Dalu, realmente és doente!-Emendou um barbudo de boca assustadoramente grande, recebendo um coro de aprovação de toda a multidão. -Ela deve ter vindo das Matas Densas; e não conheço caçador corajoso algum que me busque uma destas para minha coleção... E quanto aos meus gostos, conheço o segredo de muitos de vocês e afirmo que este meu é brincadeira das mais inocentes!- Alguns riram, outros se engasgaram e uma porção grande fugiu do comentário de Dalu.
-Vejo que acreditam que digo a verdade!Ha!Ha!Ha!
-Boleg e eu encontramos um antílope de três chifres das regiões baixas nos limites da cidade, acredito que a seca tem os trazido para cá. Sevis, o peregrino disse que a terra está morrendo desde suas bordas e esta morte ameaça nos encontrar aqui, neste planalto fértil!
-Mais uma loucura desse maltrapilho!Os rios são fartos e as chuvas já estão chegando nos próximos meses; não há motivo para se amedrontar por uma seca de um ou alguns anos quando a natureza nunca nos falhou desde nossos antepassados.
-... Mas as profecias?-Tentou novamente Utud.
-Junte seus profetas ao louco andante!
As observações de Dalu ofendiam a crença de muitos, e agressividade e deboches com que as expunha irritava à todos, mas suas dimensões intimidavam quase todos; não à  Utud.
Ele saltou agarrando as barbas volumosas e lançando o punho esquerdo no olho direito de Dalu. Dos que os cercavam nem uma mão se levantou em favor do agredido até que reagiu e agarrou o pescoço do homem franzino.
Todos se esforçaram em livrá-lo daquelas mãos poderosas, e logo eram duas multidões, uma contendo a outra defendendo, e  as palavras apaziguadoras levaram cada qual à sua casa.
-Parabéns Utud, eu mesmo queria ter feito isso!-Foi o cumprimento mais ouvido naquele dia.
-Eu acredito nas profecias- Foi a resposta à todos eles.

Continua...
Anderson Dias Cardoso.
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