sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Cidadão Mendigo.

E no tumulto da rua ouvi uma voz estranha,ela me fez voltar o rosto e ver o estereótipo da pobreza,vestido de andrajos,imundo e atado em faixas que continham ferimentos mal curados,mas a miséria cotidiana nos acostuma fazendo desaparecer toda empatia ou solidariedade e daquelas aberrações sociais enxergamos só uma paisagem poluída que um adiantamento de passos resolve facilmente,eu meu sorriso mecânico tenta despedi-lo mas ele insistiu no pedido de uns trocados pra um pão com margarina e café preto,e meu sorriso foi novamente doado junto a um pedido de desculpas e uma piadinha dizendo ter emprestado o último centavo ao ministro da saúde,a qual foi respondido com uma polidez desconcertante que não seria possível pois este estaria naquele dia em Cuba em um seminário de biotecnologia e se eu não me dispunha a ajudá-lo agradecia e me desejou um ótimo dia.O impacto daquela conduta,tanto da educação quanto no conhecimento político sacado por aquele farrapo humano me vexou,e eu,de boca seca me voltei novamente para arranjar a situação e aproveitei para convidá-lo para comer alguma coisa e matar a curiosidade a respeito dos conhecimentos políticos daquele homem.O restaurante era simples,não quis chamar muito a atenção para nós,um pouco de vergonha mas também conservando a dignidade daquele homem,e a conversa fluiu fácil,e a refeição assumiu aspectos de comunhão quase orientais,e entre as garfadas educadas do mendigo eu perguntava uma ou outra coisa,e soube que seu finado pai,pobre como o próprio também gostava de política e assistia tudo que podia nos botecos que lhe ofereciam um prato de comida(assim como ele fazia),e atribuía as misérias do mundo aos próprios homens,que entregavam seu poder nas mãos de uma aristocracia,ao mesmo tempo que se furtavam da responsabilidade fiscal que lhes cabia,seu pai defendia uma educação política e campanhas que envolvessem a todos na construção da verdadeira democracia;nós falamos de tantas coisas!Escândalos,a construção de entrepostos da Zona Franca,distribuição de renda,programas assistenciais,saúde,educação,e aquele homem me maravilhou,e no meio de um sorriso,agora sincero,perguntei qual a relação do Estado com os moradores de rua,e ele respondeu meio triste que era mais ou menos a mesma que a maioria dos homens tem com sua sogra:"São muito polidos e interessados diante da sociedade,mas no seu interior não vêem a hora de deixarmos a cidade!";eu perguntei se algum político já tinha se dado conta que os moradores de rua eram potenciais eleitores,e ele respondeu que havia um encanto de dois em dois ano que curvava a coluna dos poderosos diante deles,mas não procuravam seus votos,nem cogitavam que tivessem algum documento ou que se importassem em votar,mas suas figuras deploráveis dava-lhes a oportunidade de demonstrar todo amor incondicional e assistência que o candidato estava disponibilizando para todo o povo,em troca de uma procuração para lhes conduzir a vida!A multidão comprada ia à loucura com o aperto de mão daquela sórdida figura,e eles sempre nos ouviam as petições,balançando enfaticamentente a cabeça enquanto contorcia o rosto procurando o melhor ângulo para uma foto,e no momento certo o clique nos iluminava e ele se levantava a procurar outro desgraçado,não deixando esperança,antes,levando mais um pouco da minha dignidade!Ele disse que era essa a mercadoria que tinha a oferecer à sociedade,isso e o material reciclável que lhe garantia alguns reais por dia;as vezes insuficientes para uma refeição.Minha hora chegou e fui me levantando e agradecendo a prosa e saquei uma ultima pergunta:Por que se preocupar,por que procurar saber a respeito de política já que o próprio conhecimento de que não constava como cidadão,e que as políticas apresentadas não viriam de encontro as necessidades dele fariam uma alma ainda mais angustiada;e ele sorriu com os olhos brilhantes e perguntou se ele devia morrer abraçado à uma garrafa de cachaça,e ele disse:Uma roupa suja e a falta de banho e a falta de um emprego não me tiram minha cidadania,não existem sindicatos ou associações de mendigos,nós não temos representantes nas câmaras,e se perdemos os privilégios sociais que nos igualam aos demais cidadãos então seremos realmente aquela paisagem móvel,triste,que polui as cidades.

Anderson Dias Cardoso. 

sábado, 23 de outubro de 2010

Ônibus...Um Universo Confinado.

Ônibus, plenitude da palavra coletivo, invasão de todos os sentidos, lugar de reencontros, novos amores, náuseas.
Onde cantam os mc’s, as frutas.Uma multidão se sufoca em uma verborragia alucinada
e pobreza paga caro pelo aperto; pela invasão.
É um nirvana torto, imposto, uma diluição do eu e da dignidade do ser.
É o espetáculo do lucro indigno, um sadismo exploratório de empregados, funcionários... semelhantes!!!
Onde o ter é igual a subjugar. A propaganda e a satisfação se excluem, o beneficio dado esconde a mão que furta...
Olhe e veja o luxo dos estofados, a novidade dos veículos, as superfícies emborrachadas.
Veja que cores vibrantes de um claustro moderno. Tormento do toque,dos tumultos,onde fervilham iras pelas pessoas erradas.
Purgatório, onde a salvação está no salto do próximo ponto...

Anderson Dias Cardoso.

domingo, 17 de outubro de 2010

Peito Vazio.

Cada qual teve seu problema resolvido,Dorothy conseguiu sua volta
garantida como pagamento por uma campanha publicitária de uma
companhia de viação,campanha muito bem sucedida pois foi baseada na
volta da heroína para casa,o que deu um caráter emocional,e ressaltou
o comprometimento da empresa com "filantropia" e causas sociais;quanto
ao espantalho procurou a solução da sua anacefalia em tratamentos com
células tronco,implantes de microprocessadores,transplante de cérebro
porém sem sucesso,então frustrado,tentou terapias cognitivas,e
ocupacionais para amenizar uma depressão,e tentar suprimir a tal falta
de cérebro,e em uma sessão de musicoterapia ele se encontrou!!!Logo se
interessou pelas músicas "alternativas" e passou a compor Funk,e nunca
mais sentiu falta de um cérebro!!!Quanto a mim,continuo buscando o que
me falta,sofrendo em imensas filas ,onde nas madrugadas o sereno me
fustiga,me corrói,e o vazio do peito não encontra consolo,eu tento um
transplante,mas se negam me operar,e se riem do meu caso dizendo não
ser um caso patológico,mas existencial;então tentei o mercado negro,e
compreendi que um coração roubado,quando pulsasse pulsaria pesado de
amargura,e então minhas invejas,meus ciúmes dos humanos se mostraram
ridículas,e eu me vi correndo atrás de um coração não orgânico,mas um
sentir,e tristemente descobri que coração de homem bate,mas não
sente!!!

Anderson Dias Cardoso. 

Balé do Espantalho.

Tocou as sapatilhas empoeiradas naquele armário já esquecido, os dedos fofos corriam no tecido negro, e o peito se comovia mais um tanto!!! O piano cantava leve um convite ao salão, enquanto se enrolava em fitas, atando-as, dando contorno ao seu corpo de palha! Uma angústia ia nascendo na alma, e o sorriso nervoso se fez; então ele correu pronto para as portas, e cruzando-as encontrou-se no seu éden!Contorcia se meio flutuante pelo som, e sentia a angústia tornando se um ardor, e a leveza sua o conduzia em voltas e passos de dança,o chão de vinil rogava por toque,mas seus pés aeravam zombando da gravidade,dançava sob a revoada dos corvos,porém não se lembrava de seu ofício,mas a música foi se tornando vento,e no teto,os caibros,estrelas e o frescor da noite aliviou o calor do corpo,e as sapatilhas se feriram nos seixos,mas a dança o movia com amor,e ele rodopiou,e rodopiou em meio à plantação,e se viu sozinho,e parado se dobrou à solidão,e correu pelos corredores do milharal,e escalando o madeiro abraçou se nervoso à sua rigidez,e negou seus movimentos,e temeu a escuridão e notou que era só um espantalho,e as contas negras caíram de suas órbitas,e os corvos que antes assustava gorjearam satisfeitos um adeus...

Anderson Dias Cardoso. 

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Canibais...


Tudo se deu quando começaram a ser noticiadas uma série de reportagens que pareciam ter sido gravadas à uns dez anos sobre uma tal tribo antropófaga que havia sido descoberta em algum lugar na Amazônia; eram estes índios robustos e de dentes perfeitos a qual se dizia chamar Ibuabiru; que em sua língua quer dizer tribo dos anciões, e tais anciões  pareciam deveras vigorosos, lúcidos e sorridentes.
 Um repórter se aproximou de um grupo que contava seis multicoloridos espécimes e entabulou uma animada prosa e alguns segundos depois suas feições se espantaram e
ele parecia tentar confirmar alguma coisa com aqueles silvícolas de cabelos negríssimos, rosto pintado por um corante azul e vermelho em finas faixas horizontais paralelas e um ponto amarelo na testa, e, atordoado o repórter se agarrou ao seu braço olhou meio abobalhado para câmera dizendo:
Esse homem tem 85 anos!É inacreditável!!!
E realmente era inacreditável mesmo, pois aquele homem no máximo aparentava ter 23
anos!
Perguntaram qual era o segredo da sua longevidade, então ele replicou com aquela voz gargarejante, em sua própria língua, que seus velhos tinham uma sobrevida de 237 anos em média, e que achava que isso se devia ao consumo que faziam da carne dos seus oponentes, os índios vencidos de outras tribos; sorriu com aqueles dentes enormes e brancos, e o repórter arrematou a reportagem com algumas considerações, logo seguiram a previsão do tempo e os comerciais.
Já por toda parte podia se ver as bancas abarrotadas de exemplares de revistas com aquele rosto simpaticamente colorido, o último quadro daquela entrevista fantástica! Essas iam desde revistas de fofocas até periódicos científicos, e as notícias variavam de, uma suposta árvore genealógica que os ligava aos primeiros povos da Mesopotâmia à descoberta da proteína; encontradas na carne das tribos que foram consumidas, da qual
conseguiram uma amostragem interessante para estudo, mas nas edições seguintes as atenções foram voltadas para as propriedades que alegavam retardar o envelhecimento, e a esta deram o nome da tribo.
Falou se muito a respeito daquele povo, e foi dito que haviam sido tomadas medidas de precaução para a preservação da mesma tendo a deslocado para um lugar seguro, onde cuidavam em  preservar sua identidade cultural, não sendo explicado de onde vinha a carne, tão importante para sua dieta milagrosa.
Alguns boatos apontavam o sumiço de alguns indigentes, mas isso não importava muito; o governo havia  proposto uma parceria com os maiores biólogos, físicos, e com várias indústrias farmoquímicas e que tinha sido mantida em segredo até então, procurando isolar a tal proteína, e os responsáveis por estas foram chamados para prestar esclarecimentos a respeito dessas pesquisas e seus discursos concordavam uniformemente com os avanços, sendo o único problema a não dissociação da proteína das demais substâncias encontradas na carne, e em seu ponto de vista o resultado da longevidade só seria alcançado se se utilizasse dela na sua totalidade surgindo então o termo "Carne Integral".
E assim como a primeira apresentação televisiva levou o assunto ao conhecimento da população, essa nova apresentação impulsionou uma discussão a respeito do assunto e foram repercutidos vários aspectos da utilização da carne humana no cardápio de seus semelhantes, como esta como  meio de prolongar a vida, outros  mais práticos como a utilização conjunta das proteínas animais e humanas como complementos, já que os rebanhos animais não já conseguiam acompanhar o crescimento populacional, e ainda aspectos morais e espirituais implicados no consumo do corpo de outro humano!!!
Houve um bombardeio dos meios de comunicações, filmes, novelas, desenhos, periódicos passaram a apresentar a idéia com uma leve simpatia, e agora quando sumia alguma pessoa na comunidade logo se dizia que tinha sido jantada, e procurava se a pessoa mais
velha da vizinhança pra lhe atribuir a culpa e com risinhos nervosos se espalhavam as fofocas, no fundo as pessoas não achavam tão absurdo sacrificar uma outra vida se com isso tivessem sua existência estendida, ainda mais quando se noticiou que em algum
lugar na China já se consumia algumas milhares de toneladas de "carne amarela" por ano, carne obtida de criminosos, indigentes, e que era processada da seguinte forma, antes de ser vendida aos melhores restaurantes do país:
Primeiro analisava se o perfil físico, histórico de doenças tanto físicas quanto psíquicas, que podiam tornar a carne imprópria para o consumo e também identificando substâncias que alterariam o paladar dos "candidatos".
Uma vez aprovado, o preso iria para uma espécie de SPA onde receberiam um tratamento que livraria sua carne de toda e qualquer impureza, eliminaria as toxinas absorvidas das substâncias que ingeriam como cigarro, bebidas alcoólicas drogas, diminuíam a concentração de gordura corpórea através de exercícios, enfim, davam um
tratamento digno ao futuro devorado.
O governo insinuava que essas medidas poderiam ser estendidas aos orfanatos onde não se conseguiam fazer com que todas as crianças fossem efetivamente adotadas.
Isso seria benéfico no ponto de vista da segurança assim como diminuiriam a possibilidade de uma super população, o que significaria mais empregos, menos violência, e  um ainda maior tempo de vida, além de aumentar a quantidade de "carne" no mercado resultando em preços melhores!!!
Ouviu se então que havia um círculo de atores em Hollywood que já se utilizava dessa prática há muito tempo! Houve uma certa revolta da sociedade ocidental, mas os atores suspeitos saíram em sua defesa desmentindo o burburinho, enquanto novos boatos a respeito de outras celebridades eram lançados todos os dias, e curiosamente, apesar dessas pessoas negarem consumir carne humana o tempo lhes parecia muito generoso, e logo eram alvo de invejas, e uma beleza como daquelas pessoas justificaria qualquer "sacrifício"!
Alguns anos depois a idéia do uso da carne humana foi se popularizando, a maioria não admitia abertamente ter experimentado, porém "não condenavam" quem por ventura tivesse o feito. Outro fato interessante foi o aumento da venda de espelhos, e tornou se também muito comum os convites para jantar, onde não muito raramente o convidado não voltava mais para a casa; porém ninguém dava muita bola para isso, pois se hoje lhe devoravam um filho isso lhe serviria de pretexto para devorar o filho do vizinho, além do mais uma vida mais longa podia lhe proporcionar uma prole vastíssima se assim desejassem!!!
Um efeito maléfico foi à diminuição da população, visto que já não se consumia somente os inconvenientes à sociedade, mas qualquer um que "desse bobeira"!
Os sindicatos produtores de carne, e dos açougueiros logo que começaram a notar o sumiço de varias pessoas na cidade e prejuízos em seu ramo  foram reclamar ao governo, que por sua vez decidiu regulamentar o consumo de carne, alegando que o abate não estava sendo feito com a devida higiene, podendo causar problemas de saúde, então passou a construir abatedouros locais para onde eram enviados aqueles que, mediante exames preliminares feitos por médicos do Estado, eram liberados para
consumo (os indigentes e infratores foram repassados sem tratos dispendiosos à indústria de ração), logo após o termino da construção desses abatedouros sua administração foi repassada à iniciativa privada como meio de apaziguar seus patrícios; e logo, podia se levar um filho à eles e voltar para casa com um bom pernil!!!
Alguns movimentos se ergueram contra a tendência antropofágica! A igreja lutava pelo ser humano; feito à imagem e semelhança de Deus, porém o setor interessado lançava campanhas caluniosas torcendo os textos sagrados e afirmando que na ceia os cristãos também consumiam carne humana, por outro lado os ativistas do Greenpeace foram utilizados como massa de manobra com slogans como: "A vingança dos nossos irmãos animais!".
Um planejamento mais racional então foi desenvolvido:
Passou se a implantar chips de controle e identificação do rebanho humano para evitar um comércio no mercado negro, (o que serviu também para vigiar as liberdades alheias e ,coincidência ou não, surgiu ai um movimento de repressão "justificada”; algumas vezes não tanto assim), instituiu se uma cota regional de pessoas a serem abatidas para que o mercado de serviços não ficasse deficitário; o ônus dos exames de aptidão para consumo, antes dividido entre Estado e fornecedores foram agora passados à competência exclusiva dos segundos, o modelo se mostrou tão eficiente que logo foi engolindo todo o mundo; controlando a economia, reprimindo os sindicatos, e monopolizando o mercado de trabalho...
Quanto à carne, algumas pessoas, não conseguiam notar nenhuma melhora na condição
física dos seus pares, e a grande maioria das pessoas daquela geração morreram muito jovens, com seus 72 anos, e à boca pequena se dizia que essa estória de comer carne humana era uma forma de controle populacional por parte dos grandes bancos, corporações e Governos, com evolução à um controle total da humanidade através de ideologias Darwinistas, Manipulação de Mercados e  dispositivos eletrônicos tendo a falta de afeto por seus semelhantes como um instrumento de delação eficiente, dizem também que nenhum dos representantes do Estado e das Multinacionais havia mesmo
provado a carne humana, e que se riam e citavam Thomas Hobbes:
"Realmente o homem é o lobo do homem!"...
Sorte que  ninguém acredita nessas besteiras!

Anderson Dias Cardoso. 


Anderson Dias Cardoso. 

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Palavras????

Palavras...Elas cantam jubilosas as malicias, e saltam de boca a boca causando delírios, criando realidades...As palavras são o nosso caos; desconstruindo as confianças, brincando, travessas com o pranto e desrespeitando as dores...Elas se escondem do confronto, dissimulam ocultas nas sombras das intenções, saindo cálidas dos lábios e tornando se morte ao coração...Fecho meus ouvidos às lisonjas, às verbosidades, e me atiro na segurança do silencio, onde tenho por amigo a solidão, e lá que me acalmo, e comigo me sento a olhar toda a vida...sem palavras.

Anderson Dias Cardoso. 

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Um Presente Para Elisa

A pequena Elisa sorriu ao me abraçar:
-O senhor me trouxe um presente bem bonito né papai??? Não negaria o mundo a uma garotinha tão bonita, e obediente... Era seu aniversario de cinco anos e meu dinheiro mal dera para as despesas domesticas, não tinha nada além de minha criatividade para oferecer como agrado. Sorri, com as mãos escondidas:
-Adivinha o que o papai trouxe pra você? Os seus olhos brilharam de excitação:
-Uma boneca?
-Não!
-Uma bicicleta?
-Tá frio!
-Fala papai!Ela não podia mais suportar sua ansiedade, então pus minhas mãos em forma de concha e a apresentei seu presente:
-Ta vendo? Isso é um vírus? Ele é bem pequenininho, talvez você não consiga nem enxergá-lo por isso você tem que tomar muito cuidado com ele, dar comidinha, colocá-lo para dormir... os olhinhos dela brilharam, e ela sorriu:
-É tão bonito papai! Obrigado; foi o melhor presente que ganhei!
            Minha filha passou muitos dias com seu presente, de um canto a outro da casa, e em seu rosto não se desfazia o mesmo sorriso do dia de seu aniversario! O presente criado a partir do desespero da pobreza, assim como um amigo invisível...senti vergonha, mas logo, vendo-a brincando tão feliz me esqueci completamente...Ainda outros tantos dias se passaram, e minha filha interrompeu sua brincadeira e perguntou-me com um tom grave; quase adulto:
-Esse vírus que o senhor me deu é vírus de que?
Pensei um pouco- Febre amarela- Era um nome fácil para uma criança, e até mimoso; até muito usado ultimamente, focado como alvo de possível epidemia... A minha garotinha me sorriu...como amava seu sorriso, tão inocente! Eu sorri junto à ela, e beijei seu rosto, ela correu para longe de mim; era só ela, e seu precioso presente!
            Um grito quebra o silêncio, enche a casa de aflição! Minha garotinha...ela engoliu seu presente! Ela chora, sentida por ele, não querendo consolo...chora até adormecer...
            O velório de Elisa foi triste; não quero acreditar na causa da morte... a hemorragia gástrica; a febre fortíssima; e a pele seca e amarelada...não pude fazer nada! Aproximo-me do corpo; abro suas mãos delicadas, e ali deposito uma boneca; que comprei com dinheiro emprestado...o presente que queria ter dado...

Anderson Dias Cardoso. 

terça-feira, 28 de setembro de 2010

O Triste Caso do Ladrão de Dentes.

Dilapidou várias covas, o brilho do ouro encrustrado nas mandíbulas
dos defuntos o seduziam tal qual as donzelas, mas uma vantagem era a
não resistência dos proprietários; a tarefa da extração era meio
penosa, com lanterna na boca, placas de cimento pesadíssimas, muita
terra, e algum perigo, mas a recompensa fazia valer a pena, e então 
levava seu pequeno furto e o entregava nas mão de João Gustavo, um
ourives muito habilidoso, e de pouca conversa, e voltava para casa com
uma pequena corrente, ou uma cruzinha, ou ambas dependendo da riqueza
da boca; costume que lhe aliviava a conciência, pois era artefato
religioso, e sua coleção ia aumentando e já contava com mais ou menos
duzentos conjuntos, variando de acordo com a generosidade do cadáver e
da rica criatividade do trabalhador do ouro;  guardava os em um nicho
memorial que havia construido respeitosamente em seu quarto. A pequena
cidade as vezes se movimentava com um ou outro enterro, e ele ficava
ao longe, observando, deliciado, uma figura discreta, desinteressante e
de pouquíssimos amigos, coisas que lhe facilitavam o hobby . Naquela
sexta feira correu rápido pela cidadezinha que João Benício, prefeito
da cidade, e homem mais rico da região havia falecido, e logo a
lembrança das próteses aureas que se dizia ter, reluziu em seus olhos,
e a alma foi se preparando para mais um delito, e o estômago se
regozijou pelos salgadinhos que degustaria naquele velório!!! Os
parentes convergiram de várias partes do país, e a demora de três dias
o deixou um pouco impaciênte, os salgadinhos pareciam encomendados
para servir inimigos; a mansão do "pobre defunto rico" cheirava urina
de gato, e o contato com os estofados das cadeiras lhe causaram
comichões que o deixaram  preocupado e irritado.
O cortejo deixou o corpo às cinco em ponto, se despedindo em um
comício choroso que já farto de sofrimento decidiu dar seguimento à
vida; e então a noite pôde cair, tranquila; e defronte ao túmulo começou a
desempacotar os apetrechos de trabalho, e com a praticidade admirável
logo estava forçando os fechos do caixão! Aquele era um momento de
muito respeito; ele se ajoelhou, tocou nas pétalas das margaridas e
cravos, fez uma breve oração, suspirou e abriu curioso a pesada tampa
de madeira nobre e lá estava aquele corpo magro, amarelo, de cabeça
grande e calva e de bigodes enormes!Se as histórias fossem reais
aquela boca lhe renderia dois conjuntos pesados, então pôs entusiasmado mãos à
obra; e vestido de luvas forçou o maxilar, que abriu com uma estranha
facilidade; investigou sua mina, e com o boticão (o usava pois
achava desrespeitoso usar os vulgares alicates naqueles infelizes)
cutucou o molar superior direito, e sorriu para si mesmo:"uma obra
prima!!!" pensou; tanto ouro assim em uma só boca! e forçando aquele
dente viu escorrer um pequeno filete de sangue, e se horrorizou com
aquele líquido rubro ao ponto de deixar o dente de ouro cair guela
abaixo, e o prefeito tossiu, engasgando e sua mão segurou o colarinho
da camisa do ladrão,  o morto vivo parecia querer arrastá lo para
cova junto a ele; logo estaria devorando seu cérebro, ou o
transformando em zumbi!!!Uma voz saiu cavernosa daquela garganta, e o
corpo do prefeito se jogou para frente indo ao chão, e o coração do
ladrão falhou, e quando se sentiu desmaiando, um lampejo de sanidade
lhe resgatou da inconciência: "Catalepsia!!!" foi a palavra que lhe
veio esclarecer aquela situação!!!O prefeito não estava morto, mas
tinha seus sinais vitais diminuidos quase a não poder se perceber!!! O
prefeito agora estava estendido sobre um monte de terra, e
convulsionava; talvez acordar em um cemitério tenha sido um pouco
desagradável para aquele homem, e agora parecia ter um ataque
cardíaco, e caso não o socorresse seria possível que pudesse lho
enterrar novamente, agora em definitivo; então jogou o em seus ombros
e correu desesperado, levando o ex-defunto ziguezagueando pelas quadras
do cemitério e deixando seu equipamento para tráz!Ele correu mais que
pôde, e após quinze minutos alcançou a Avenida Lobo Assis; exausto e
desesperado gritou por socorro, e tombou sob o peso do prefeito. Logo
se aglomeravam muitos curiosos, e a multidão se enfureceu com o
sacrilégio daquele ladrão de túmulos, e preguejavam, e gritavam, e
arrancaram o corpo das mãos do ladrão e começaram a espancá-lo, e
arrastá-lo pela rua de cascalho, e só o deixaram quando alguém gritou
que o prefeito estava vivo, então a multidão desviou seu foco para o
neo-defunto, e o acudiram, esquecendo se do outro cadáver que manchava a
poeira da avenida.
Foi feita uma averiguação pela polícia na casa do finado ladrão, após
a missa de sétimo dia, e encontraram a coleção de crucifixos, e um dos
policiais, muito devoto, repassou à um e outro aquilo que presenciara
naquela casa, e que nunca havia visto tamanha quantidade de
crucifixos, e que sentiu muito paz naquela casa, e logo começaram
aparecer relatos de pessoas que haviam sido curadas por "aquele homem
santo" em algumas cidades vizinhas à alguns anos atrás, e que até
haviam sido ressucitados uma dúzia de pessoas antes da "milagrosa
ressurreição" do prefeito,  esse último, agradecidíssimo construiu uma pequena capela
e batizou com o nome daquele "homem santo"...    
Anderson Dias Cardoso 28/09/2010.

Anderson Dias Cardoso. 

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Gênesis segundo Dorival Caymmi.

...Bom, na verdade no sétimo dia Deus criou o "baiano", como a coroa
de sua criação, e contemplando a formação de casais entre as animalias
notou que Dorival Caymmi estava sozinho, porém ele mesmo não percebeu
nada, abriu os olhos, deu uma espreguiçada fechou os novamente e
voltou à vegetar, então Deus extraiu lhe uma costela, que somente foi
notada sua falta muito tempo depois, mais ou menos quando já contavam
732 primaveras; e lhe formou uma mulher, que lhe correspondesse desde
aspectos fisiológicos quanto intelectuais, e o próprio Deus lhe deu um
nome, Adelaide, pois seu adjuntor ainda ressonava sobre a relva muito
verde, então Deus estava achando aquilo muito chato, e ao contrário
das sentenças anteriores:"Viu que tudo que criara era muito bom"
pensou: "é, dessa vez não deu!!!", e meio contrariado colocou o casal
de pé, espremeu uma pequena nuvem carregada sobre suas cabeças para
dar aquela despertada e lhes plantou um belo jardim, para lhes
inspirar, ainda oferecer comida, e outros recursos necessários, e os
incumbiu de o cultivarem e o expandir, porém Dorival reclamou da
altura das árvores frutíferas, achava muito cansativo ter que erguer
muito os braços para apanhar alguma coisa para comer, mas Deus fez de
conta que não escutou, e continuou a lhes explicar suas funções como
zeladores do Éden, Dorival como uma espécie de gerente executivo, e
sua esposa como auxiliadora, Dorival reclamou mais algumas vezes a
respeito do tamanho daquele jardim, na sua opinião uma só árvore
frutífera, que fagocitasse todos seus detritos, que tivesse uma boa
sombra, e um riozinho do lado já lhes bastavam, não carecia todo
aquele trabalho só por eles, ou melhor, não carecia todo aquele
trabalho só para eles, e se "Ele" tivesse prestado um pouquinho mais
de atenção, logisticamente falando, notaria que as zonas que requeriam
cuidado ficavam muito distantes umas das outras!!!Então Deus se
despediu dizendo que ia dar uma checada na distância entre o sol e a
terra pois aquela  preguiça toda só podia se culpa do clima, e afastou
se por algum tempo, e Dorival se sentou um pouquinho debaixo de uma
árvore frondosa, aquela conversa toda o deixou exausto, e passou a
ouvir o gorjear alegre dos passarinhos, os sons das águas, e os
barulhos do mundo, e nesse rítimo começou a vocalizar algumas
palavras, as palavras se completavam, e tudo soava muito bonito, era
uma canção que falava das belezas do paraíso, seu coração se inundou
de satisfação, ele descobriu uma coisa que lhe agradava muito e ainda
podia fazer deitado, ele então cantou a primeira canção dos homens!Ele
a repetiu algumas vezes, mas algumas palavras começaram a fugir lhe,
ele se entristeceu, e pensou "eu podia arranjar uma forma de
registrar, notou como sua mente processava as informações e as
guardava; era dito uma palavra, lhe vinha uma imagem à mente, então se
ele registrasse o correspondente da imagem na forma de um signo
reconhecível ficaria tudo fácil, ele sorriu, só precisava de uma pedra
afiada, e ali, bem ao lado havia uma, ele esticou o braço e tentou
apanha la,porém estava um pouco distânte, ele não a alcançou, e se
entristeceu, assim se perdeu a primeira composição do primeiro
homem...Aquilo não podia acontecer de novo, e Dorival pensou como
poderia resolver aquela situação dramática com o mínimo dispêndio de
energia, pensou, pensou, tirou um cochilo, pensou de novo e se deu
satisfeito pela solução que lhe caiu no entendimento, então gritou por
sua esposa, que demorou alguns minutos, ele bronqueou um pouco, e
depois de resolvida a situação ele gentilmente pediu que ela pegasse
aquela pedra, a tão desejada pedra, ela pensou um pouco, sua face
ruborizou um tanto e ela começou a gritar que não era empregada, que
ela cuidava do jardim sozinha e que ele ficava ali deitado o dia
inteiro sem fazer nada, disse que a responsabilidade tinha sido dada
aos dois, e aproveitou para colocar os "pingos nos is" e essa foi a
uma protodiscussão de relação, onde foram acertados os papeis de cada
um deles, numa divisão mais ou menos justa das funções, e Dorival saiu
meio nervoso para tomar conta da parte que lhe cabia, aparar alguns
galhos da árvore do conhecimento do bem e do mal. A árvore realmente
era muito bela, achou que não precisava de nenhum retoque, não
suportava aquela mania de perfeição da mulher, não havia nada há fazer
ali, então resolveu tirar uma pestana para não dar por perdido toda
aquela caminhada, se recostou e cochilou por alguns minutos, mas uma
voz o fez acordar de sobressalto, ele pensou "lascou, me
descobriram!!!", mas olhou direito notou aquela forma esguia e
longilínea que escorria graciosamente pelo tronco da árvore, então ele
reconheceu a serpente.-Bela árvore, não acha???Disse a serpente
admirada.
-Sim muito bonita...pra falar a verdade a mais bonita, nem precisei
aparar...disse Dorival meio envergonhado.
-Você já provou do seu fruto?É também o mais delicioso!!!Deus não lhe
disse que provasse de todas as árvores???
-Pra falar a verdade ele disse que se a gente comesse ia dar morte!!!
-Nada disso bobinho, ele diz isso por que sabe que no dia que vocês
comerem do fruto dessa árvore seus olhos se abriram e vocês serão como
Deus, conhecedores do bem e do mal!!!
-Olha, pra falar a verdade eu prefiro meus olhos fechados mesmo, o
maior prazer que tenho é dormir, e quanto a ser como Deus, esse ponto
é o menos atrativo, ele trabalha demais...
A serpente torceu a cara, deu mais algumas voltas no tronco daquela
árvore, suas feições se enterneceram novamente e ela disse:Se você
comer essa fruta não vai mais ter que trabalhar!!!É mais ou menos como
se você tivesse pedindo demissão, e na pior das hipóteses a morte é o
descanso eterno!!!Dorival se animou e comeu logo umas cinco, e levou
uma para sua esposa, mas o tiro saiu pela culatra, Deus ao voltar os
encontrou escondidos de vergonha, os inquiriu e descobriu a
desobediência, e o condenou à ganhar seu sustento com o suor de seu
rosto, sujeito à todas as vicissitudes de uma vida independente da
vontade soberana, e à mulher, Deus permitiu um paradoxo entre a
vontade de subjugar seu marido, e uma certa subserviência, uma
dependência afetiva, além de seu parto lhe causar dor a partir da
queda, é claro que Dorival se sentiu mais injustiçado, ter que
trabalhar tanto antes do descanso da morte era muito triste...Após
alguns anos tiveram três filhos, Dori, Danilo, e Nana, e desenvolveram
um sistema revolucionário de coleta de grãos para armazenarem para os
invernos rigorosos, era uma espécie de de rodízio que a cada ano um
recolhia os alimentos e os outros quatro descansavam, era meio
sacrificante mas dava a possibilidade de ficar à toa por quatro anos.
No ano de 799 a partir da criação do homem, no ano de coleta de
Dorival, esse alegou uma indisposição crônica,que passou subitamente
no fim do período de coleta, e todos notaram a artimanha do patriarca,
e se indispuseram contra ele, e orgulhosos que eram não coletaram mais
cereais...Um ano depois foi extinta a raça humana...
Deus havia criado toda uma estrutura para servir de suporte à vida do
homem, e o havia amado, e achou um desperdício ter que desmontar toda
aquela armação cósmica, e como É amor puro, e precisava extravasar
esse amor resolveu recriar o mundo, e o povoar novamente, então
decidiu criar um novo casal, mas dessa vez no sexto dia, e seus nomes
foram Adão, e sua mulher Eva...

Anderson Dias Cardoso. 
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