quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Um Presente Para Elisa

A pequena Elisa sorriu ao me abraçar:
-O senhor me trouxe um presente bem bonito né papai??? Não negaria o mundo a uma garotinha tão bonita, e obediente... Era seu aniversario de cinco anos e meu dinheiro mal dera para as despesas domesticas, não tinha nada além de minha criatividade para oferecer como agrado. Sorri, com as mãos escondidas:
-Adivinha o que o papai trouxe pra você? Os seus olhos brilharam de excitação:
-Uma boneca?
-Não!
-Uma bicicleta?
-Tá frio!
-Fala papai!Ela não podia mais suportar sua ansiedade, então pus minhas mãos em forma de concha e a apresentei seu presente:
-Ta vendo? Isso é um vírus? Ele é bem pequenininho, talvez você não consiga nem enxergá-lo por isso você tem que tomar muito cuidado com ele, dar comidinha, colocá-lo para dormir... os olhinhos dela brilharam, e ela sorriu:
-É tão bonito papai! Obrigado; foi o melhor presente que ganhei!
            Minha filha passou muitos dias com seu presente, de um canto a outro da casa, e em seu rosto não se desfazia o mesmo sorriso do dia de seu aniversario! O presente criado a partir do desespero da pobreza, assim como um amigo invisível...senti vergonha, mas logo, vendo-a brincando tão feliz me esqueci completamente...Ainda outros tantos dias se passaram, e minha filha interrompeu sua brincadeira e perguntou-me com um tom grave; quase adulto:
-Esse vírus que o senhor me deu é vírus de que?
Pensei um pouco- Febre amarela- Era um nome fácil para uma criança, e até mimoso; até muito usado ultimamente, focado como alvo de possível epidemia... A minha garotinha me sorriu...como amava seu sorriso, tão inocente! Eu sorri junto à ela, e beijei seu rosto, ela correu para longe de mim; era só ela, e seu precioso presente!
            Um grito quebra o silêncio, enche a casa de aflição! Minha garotinha...ela engoliu seu presente! Ela chora, sentida por ele, não querendo consolo...chora até adormecer...
            O velório de Elisa foi triste; não quero acreditar na causa da morte... a hemorragia gástrica; a febre fortíssima; e a pele seca e amarelada...não pude fazer nada! Aproximo-me do corpo; abro suas mãos delicadas, e ali deposito uma boneca; que comprei com dinheiro emprestado...o presente que queria ter dado...

Anderson Dias Cardoso. 
Postar um comentário
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...