terça-feira, 28 de setembro de 2010

O Triste Caso do Ladrão de Dentes.

Dilapidou várias covas, o brilho do ouro encrustrado nas mandíbulas
dos defuntos o seduziam tal qual as donzelas, mas uma vantagem era a
não resistência dos proprietários; a tarefa da extração era meio
penosa, com lanterna na boca, placas de cimento pesadíssimas, muita
terra, e algum perigo, mas a recompensa fazia valer a pena, e então 
levava seu pequeno furto e o entregava nas mão de João Gustavo, um
ourives muito habilidoso, e de pouca conversa, e voltava para casa com
uma pequena corrente, ou uma cruzinha, ou ambas dependendo da riqueza
da boca; costume que lhe aliviava a conciência, pois era artefato
religioso, e sua coleção ia aumentando e já contava com mais ou menos
duzentos conjuntos, variando de acordo com a generosidade do cadáver e
da rica criatividade do trabalhador do ouro;  guardava os em um nicho
memorial que havia construido respeitosamente em seu quarto. A pequena
cidade as vezes se movimentava com um ou outro enterro, e ele ficava
ao longe, observando, deliciado, uma figura discreta, desinteressante e
de pouquíssimos amigos, coisas que lhe facilitavam o hobby . Naquela
sexta feira correu rápido pela cidadezinha que João Benício, prefeito
da cidade, e homem mais rico da região havia falecido, e logo a
lembrança das próteses aureas que se dizia ter, reluziu em seus olhos,
e a alma foi se preparando para mais um delito, e o estômago se
regozijou pelos salgadinhos que degustaria naquele velório!!! Os
parentes convergiram de várias partes do país, e a demora de três dias
o deixou um pouco impaciênte, os salgadinhos pareciam encomendados
para servir inimigos; a mansão do "pobre defunto rico" cheirava urina
de gato, e o contato com os estofados das cadeiras lhe causaram
comichões que o deixaram  preocupado e irritado.
O cortejo deixou o corpo às cinco em ponto, se despedindo em um
comício choroso que já farto de sofrimento decidiu dar seguimento à
vida; e então a noite pôde cair, tranquila; e defronte ao túmulo começou a
desempacotar os apetrechos de trabalho, e com a praticidade admirável
logo estava forçando os fechos do caixão! Aquele era um momento de
muito respeito; ele se ajoelhou, tocou nas pétalas das margaridas e
cravos, fez uma breve oração, suspirou e abriu curioso a pesada tampa
de madeira nobre e lá estava aquele corpo magro, amarelo, de cabeça
grande e calva e de bigodes enormes!Se as histórias fossem reais
aquela boca lhe renderia dois conjuntos pesados, então pôs entusiasmado mãos à
obra; e vestido de luvas forçou o maxilar, que abriu com uma estranha
facilidade; investigou sua mina, e com o boticão (o usava pois
achava desrespeitoso usar os vulgares alicates naqueles infelizes)
cutucou o molar superior direito, e sorriu para si mesmo:"uma obra
prima!!!" pensou; tanto ouro assim em uma só boca! e forçando aquele
dente viu escorrer um pequeno filete de sangue, e se horrorizou com
aquele líquido rubro ao ponto de deixar o dente de ouro cair guela
abaixo, e o prefeito tossiu, engasgando e sua mão segurou o colarinho
da camisa do ladrão,  o morto vivo parecia querer arrastá lo para
cova junto a ele; logo estaria devorando seu cérebro, ou o
transformando em zumbi!!!Uma voz saiu cavernosa daquela garganta, e o
corpo do prefeito se jogou para frente indo ao chão, e o coração do
ladrão falhou, e quando se sentiu desmaiando, um lampejo de sanidade
lhe resgatou da inconciência: "Catalepsia!!!" foi a palavra que lhe
veio esclarecer aquela situação!!!O prefeito não estava morto, mas
tinha seus sinais vitais diminuidos quase a não poder se perceber!!! O
prefeito agora estava estendido sobre um monte de terra, e
convulsionava; talvez acordar em um cemitério tenha sido um pouco
desagradável para aquele homem, e agora parecia ter um ataque
cardíaco, e caso não o socorresse seria possível que pudesse lho
enterrar novamente, agora em definitivo; então jogou o em seus ombros
e correu desesperado, levando o ex-defunto ziguezagueando pelas quadras
do cemitério e deixando seu equipamento para tráz!Ele correu mais que
pôde, e após quinze minutos alcançou a Avenida Lobo Assis; exausto e
desesperado gritou por socorro, e tombou sob o peso do prefeito. Logo
se aglomeravam muitos curiosos, e a multidão se enfureceu com o
sacrilégio daquele ladrão de túmulos, e preguejavam, e gritavam, e
arrancaram o corpo das mãos do ladrão e começaram a espancá-lo, e
arrastá-lo pela rua de cascalho, e só o deixaram quando alguém gritou
que o prefeito estava vivo, então a multidão desviou seu foco para o
neo-defunto, e o acudiram, esquecendo se do outro cadáver que manchava a
poeira da avenida.
Foi feita uma averiguação pela polícia na casa do finado ladrão, após
a missa de sétimo dia, e encontraram a coleção de crucifixos, e um dos
policiais, muito devoto, repassou à um e outro aquilo que presenciara
naquela casa, e que nunca havia visto tamanha quantidade de
crucifixos, e que sentiu muito paz naquela casa, e logo começaram
aparecer relatos de pessoas que haviam sido curadas por "aquele homem
santo" em algumas cidades vizinhas à alguns anos atrás, e que até
haviam sido ressucitados uma dúzia de pessoas antes da "milagrosa
ressurreição" do prefeito,  esse último, agradecidíssimo construiu uma pequena capela
e batizou com o nome daquele "homem santo"...    
Anderson Dias Cardoso 28/09/2010.

Anderson Dias Cardoso. 
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