sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Cidadão Mendigo.

E no tumulto da rua ouvi uma voz estranha,ela me fez voltar o rosto e ver o estereótipo da pobreza,vestido de andrajos,imundo e atado em faixas que continham ferimentos mal curados,mas a miséria cotidiana nos acostuma fazendo desaparecer toda empatia ou solidariedade e daquelas aberrações sociais enxergamos só uma paisagem poluída que um adiantamento de passos resolve facilmente,eu meu sorriso mecânico tenta despedi-lo mas ele insistiu no pedido de uns trocados pra um pão com margarina e café preto,e meu sorriso foi novamente doado junto a um pedido de desculpas e uma piadinha dizendo ter emprestado o último centavo ao ministro da saúde,a qual foi respondido com uma polidez desconcertante que não seria possível pois este estaria naquele dia em Cuba em um seminário de biotecnologia e se eu não me dispunha a ajudá-lo agradecia e me desejou um ótimo dia.O impacto daquela conduta,tanto da educação quanto no conhecimento político sacado por aquele farrapo humano me vexou,e eu,de boca seca me voltei novamente para arranjar a situação e aproveitei para convidá-lo para comer alguma coisa e matar a curiosidade a respeito dos conhecimentos políticos daquele homem.O restaurante era simples,não quis chamar muito a atenção para nós,um pouco de vergonha mas também conservando a dignidade daquele homem,e a conversa fluiu fácil,e a refeição assumiu aspectos de comunhão quase orientais,e entre as garfadas educadas do mendigo eu perguntava uma ou outra coisa,e soube que seu finado pai,pobre como o próprio também gostava de política e assistia tudo que podia nos botecos que lhe ofereciam um prato de comida(assim como ele fazia),e atribuía as misérias do mundo aos próprios homens,que entregavam seu poder nas mãos de uma aristocracia,ao mesmo tempo que se furtavam da responsabilidade fiscal que lhes cabia,seu pai defendia uma educação política e campanhas que envolvessem a todos na construção da verdadeira democracia;nós falamos de tantas coisas!Escândalos,a construção de entrepostos da Zona Franca,distribuição de renda,programas assistenciais,saúde,educação,e aquele homem me maravilhou,e no meio de um sorriso,agora sincero,perguntei qual a relação do Estado com os moradores de rua,e ele respondeu meio triste que era mais ou menos a mesma que a maioria dos homens tem com sua sogra:"São muito polidos e interessados diante da sociedade,mas no seu interior não vêem a hora de deixarmos a cidade!";eu perguntei se algum político já tinha se dado conta que os moradores de rua eram potenciais eleitores,e ele respondeu que havia um encanto de dois em dois ano que curvava a coluna dos poderosos diante deles,mas não procuravam seus votos,nem cogitavam que tivessem algum documento ou que se importassem em votar,mas suas figuras deploráveis dava-lhes a oportunidade de demonstrar todo amor incondicional e assistência que o candidato estava disponibilizando para todo o povo,em troca de uma procuração para lhes conduzir a vida!A multidão comprada ia à loucura com o aperto de mão daquela sórdida figura,e eles sempre nos ouviam as petições,balançando enfaticamentente a cabeça enquanto contorcia o rosto procurando o melhor ângulo para uma foto,e no momento certo o clique nos iluminava e ele se levantava a procurar outro desgraçado,não deixando esperança,antes,levando mais um pouco da minha dignidade!Ele disse que era essa a mercadoria que tinha a oferecer à sociedade,isso e o material reciclável que lhe garantia alguns reais por dia;as vezes insuficientes para uma refeição.Minha hora chegou e fui me levantando e agradecendo a prosa e saquei uma ultima pergunta:Por que se preocupar,por que procurar saber a respeito de política já que o próprio conhecimento de que não constava como cidadão,e que as políticas apresentadas não viriam de encontro as necessidades dele fariam uma alma ainda mais angustiada;e ele sorriu com os olhos brilhantes e perguntou se ele devia morrer abraçado à uma garrafa de cachaça,e ele disse:Uma roupa suja e a falta de banho e a falta de um emprego não me tiram minha cidadania,não existem sindicatos ou associações de mendigos,nós não temos representantes nas câmaras,e se perdemos os privilégios sociais que nos igualam aos demais cidadãos então seremos realmente aquela paisagem móvel,triste,que polui as cidades.

Anderson Dias Cardoso. 
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