sábado, 10 de janeiro de 2015

Eu,Comigo.


Já havia ganhado muito dinheiro na vida, tanto quanto não conseguiria gastar, mesmo que fosse grande esbanjador, contudo, à despeito de possuir o que bastava para comprar boa parte do mundo, escolheu uma modesta ilha, numa rota fora de rota, e encomendou algumas centenas de clones idênticos, os quais lhe serviriam para fundar a tão sonhada “Colônia dos Iguais”.
Se, contudo comandava, e se relacionava com uma quantidade muito maior de pessoas, porém, continuava almejando um daqueles mundos solidários, onde a hierarquia, o trabalho remunerado, a competição, e as diferenças fossem postas de lado em favor do bem comum, e, se o mundo daqueles dias não era conforme seu desejo, e nem lhe restava tanto tempo para se apegar à esperança de algum dia o ver materializado, resolveu-se por criá-lo ele mesmo!
Antes de partir, passou a posse de suas empresas aos dois filhos, com uma cláusula que lhe asseguraria o financiamento de sua utopia e outra que impediria que se matassem por conta da herança. Os abraçou uma última vez e recomendou-lhes juízo e moderação. Quanto à mulher, esta aceitou o contrato que lhe cedia alguns milhões, além da mansão onde residiram (uma proposta até generosa, visto que as provas de seus casos extraconjugais haviam sido expostas por mais de uma dúzia de jornais  sensacionalistas ao longo do casamento), sob a promessa de que nunca se desfaria, ou destrataria as duas cadelas da raça shitsu, as quais certamente sentiria muita falta.
Quando aportou tudo já estava pronto. Os alojamentos gêmeos, as roupas idênticas, e bem ao seu gosto, a área de recreação, as estradas, a comida...Ele suspirou!
Já havia elaborado tudo de forma que não houvesse qualquer tipo de privilégio a quem quer que fosse, e ele mesmo, antes da partida, havia se vestido de acordo a se misturar, perder sua individualidade em meio a tantos de seus “eus”!
Lá não haveria maior, ou menor, as funções seriam desempenhadas por todos, segundo um calendário, além de, caso houvesse qualquer tipo de reclamação, esta seria resolvida por um conselho consigo mesmo, no qual todos os interessados, e avulsos à situação poderiam comparecer e opinar!Uma maravilha de sistema!
Então, todo dia lá estava ele, que às vezes nem mais se lembrava de seu passado, andando em meio àqueles tantos irmãos, desempenhando cada dia sua tarefa designada. Todos se sorriam, trocavam abraços, festejavam após seus afazeres, cantavam, dançavam, comiam; até que notou que num dia desses havia um grupo reunido um pouco além de onde costumavam se encontrar...
Estranho, seus olhares pareciam diferentes...



Anderson Dias Cardoso.
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