quinta-feira, 21 de junho de 2012

Traumas de Raptos.

Com o rapto de sua criança provou viver em ambientes fragmentados, com imagens de seu apego brincando com seus relances.
Os pensamentos se viciaram, e apesar do esforço teimavam em lembrar a falta.
As mãos só se estabilizavam segurando alguma coisa, e toda conversa garantia uma risadinha nervosa, de cantos espumantes e olhos apertados.
O segundo dia não amenizou os nervosismos. Foi atacado de refluxos, alterações de pressão, vertigem... Vomitou duas ou três vezes o que não havia comido.
O terceiro dia permitiu-lhe quase meia hora de esquecimento, quando a parentada ausente, porém querida, se solidarizou o suficiente para uma visita, e alguns abraços regados por lágrimas sinceras.
O quarto dia começou com o corpo se diluindo em dores de stresse, e a obrigação impiedosa de seu serviço requisitando seus frangalhos.
No quinto dia não houve ainda nenhum boato, e o coração já se encaminhava discretamente ao consolo da perda.
No sexto dia se permitiu sair mais cedo, visitou simbolicamente, em um cemitério a figura mais semelhante ao perdido, e perfumou lhe um vaso decadente com a vermelhidão sofrida de duas dúzias de rosas.
No oitavo dia houve a convicção da morte, e ele guardou um luto estóico, mais leve e palatável!
Era homem muito equilibrado, nada insensível!
O nono dia foi dia de fuga, e, dois dias depois a criança esfarrapada esmurrava as portas do pai...
Era tal qual uma ressurreição; e o coração dos homens não sabe bem receber os mortos...
O pimpolho foi fantasma desacorçoado até que o pai o entendeu vivo, uns tantos dias depois!


Anderson Dias Cardoso.

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